Quincas Borba - <i>A Estação</i>

Quincas Borba - A Estação


Machado de Assis


NOTA DESTA EDIÇÃO ELETRÔNICA




A primeira versão de Quincas Borba foi publicada na forma de folhetim na revista feminina quinzenal A Estação, entre 1886 e 1891, e difere bastante da versão romance (publicada em 1891 pela editora de B.L. Garnier), também disponível neste portal. Se o livro pode ser considerado plena expressão da maturidade do autor, o folhetim mostra-se obra em progresso, que sugere muito sobre o processo produtivo de Machado de Assis e a sociedade brasileira do século XIX.

Embora o cerne da narrativa permaneça o mesmo em ambas as versões, há entre elas significativas diferenças estruturais, com inversões, capítulos inteiros existentes em folhetim e suprimidos no livro e mudanças de nomes de personagens. O romance, por exemplo, inicia-se com Rubião - aí Pedro Rubião de Alvarenga e no folhetim Rubião José de Castro - vislumbrando a enseada de Botafogo de seu palacete na Corte, "coteja[ndo] o passado com o presente", preparando o leitor para a analepse que revelaria seu trajeto até ali e, mais tarde, encontraria novo sentido em sua loucura. O folhetim, ao contrário, se desenrola cronologicamente, abusando dos "ganchos" característicos do gênero, estendendo situações e cenas que parecem ter pouca função na trama principal. Durante os cinco anos em que foi escrito, é possível que Machado tenha repensado algumas vezes o enredo, o que talvez possa ter-se refletido na numeração dos capítulos, que várias vezes aparece errada, ora saltando números, ora repetindo-os.

Por outro lado, nesse longo desenrolar-se da narrativa podem-se observar e acompanhar flutuações de estilo e inconsistências que permitem uma série de reflexões. É interessante notar, através da obra, a modernização dos costumes cotidianos, como é o caso das noções de "almoço" e "jantar", que no folhetim não parecem estáveis, sugerindo o atravessamento de valores socioculturais que ultrapassam os termos objetivos da simples hora do dia em que são realizadas essas refeições. Tal modernização, é claro, é acompanhada pelos sentidos e sensibilidades, visíveis nas pulsões de loucura e sensualidade das personagens, bastante evidentes em Quincas Borba.

Curiosamente, a personagem de Rubião torna-se cada vez mais altiva (à medida que enlouquece) quanto menos dinheiro tem. Paralelamente, nota-se que a linguagem também marca diferenças segundo a condição social das personagens. O linguajar do cocheiro do tílburi que leva Rubião à rua da Harmonia, por exemplo, é muito mais próximo do português brasileiro contemporâneo que o das personagens mais abastadas. Mesmo nos casos de Palha e Sofia, parece que, ao longo do folhetim, conforme vão enriquecendo e ganhando status, suas falas vão ficando mais formais e carregadas, mais corretas do ponto de vista linguístico. Além de tornar mais complexa a construção social e psicológica das personagens, essas transformações sugerem também dados sobre o processo de criação do romance, cuja publicação passou por diversos intervalos no decorrer do tempo.

O primeiro esforço de divulgar a versão folhetim de Quincas Borba, respeitando sua configuração original, foi da Comissão Machado de Assis, que decidiu publicá-la como apêndice ao livro. Após muitas dificuldades em encontrar e reunir todos os números da revista, a edição em livro do romance foi publicada em 1959, sem os números de 15 de janeiro e 15 de abril de 1887. Em 2004, Ana Cláudia Suriani da Silva encontrou em um sebo um desses números desaparecidos, incluído nesta nova edição.

O texto desta edição foi estabelecido e anotado em conjunto por John Gledson e Ana Cláudia Suriani da Silva, na Grã-Bretanha. Acompanha a edição um "Guia para melhor entender o texto da versão-folhetim de Quincas Borba", da autoria dos dois pesquisadores do Reino Unido, cujo propósito é explicar os métodos adotados no trabalho de preparação e facilitar a leitura do folhetim, considerado por vezes de difícil compreensão. O trabalho de revisão e preparação de algumas notas foi realizado no Brasil, por Marta de Senna e Manuela Fantinato.

Na análise dos critérios editoriais e preparação das notas, optou-se por não repetir aquelas já dispostas na versão romance disponível neste portal, por se compreender que esta obra é dirigida a um leitor já ambientado na ficção de Machado, possivelmente um estudante de pós-graduação ou mesmo um especialista, que está menos interessado em informações básicas do que em questões históricas, da confecção da prosa machadiana e relativas às diferenças entre os dois romances. Além das citações e alusões histórico-literárias, foram inseridas notas esclarecendo expressões idiomáticas em desuso no português brasileiro contemporâneo, detalhes da história dos costumes cotidianos do século XIX e, sobretudo, diferenças deveras significativas entre ambas as versões de Quincas Borba (como nomes de personagens da irmã de Rubião e do próprio protagonista). Não foram anotadas diferenças estruturais em relação à ordem dos capítulos ou ao uso de palavras diferentes, deixando o trabalho e o prazer de desvendá-las ao próprio leitor.

Embora se tenha modernizado a ortografia segundo o Novo Acordo Ortográfico vigente desde 1º de janeiro de 2009, esta edição foi mantida o mais próxima possível daquela de A Estação, preservando as estruturas narrativas e usos de pontuação típicos de Machado e sua época, assim como as inconsistências originais. Nos casos de palavras cuja versão antiga ainda é aceita pelo dicionário, como "cousa", "dous", "calefrio" ou "céptico", foi mantida a grafia exata que aparece na revista. Enquanto as duas últimas permaneceram com suas grafias originais em todo o texto, não há padronização no uso das duas primeiras. Inconsistência similar aparece no caso de palavras estrangeiras, como "tílburi", que foi aportuguesado em todo o texto-fonte, diferentemente de "pouff", mantido em francês. Mais uma vez, o critério adotado foi usar as palavras exatamente como apareciam em A Estação.

Para melhor situar o leitor e envolvê-lo no clima original da revista, foram marcadas todas as datas e números das edições, assinalando-se aqueles em que Quincas Borba não foi publicado.

Esta não pretende ser uma edição crítica. O objetivo foi produzir uma edição fidedigna do texto machadiano que, através dos hiperlinks, oferece ao leitor do século XXI uma ferramenta de fácil utilização e encurta a distância entre ele, leitor, e o universo de referências de Machado de Assis e seu tempo. O fato de ter-se previsto como público-alvo deste trabalho um leitor mais qualificado não significa que a obra seja restritiva. Ao contrário, espera-se que esta edição facilite o acesso de todos os interessados.

Registre-se aqui a colaboração, na construção do texto digital e do software que possibilita a visualização dos links, de Eduardo Pinheiro da Costa, Técnico em Ciência e Tecnologia da Fundação Casa de Rui Barbosa.

Marta de Senna, pesquisadora
Manuela Fantinato, bolsista do Programa de Incentivo à Produção do Conhecimento
Fundação Casa de Rui Barbosa
julho de 2014








 

Guia para melhor entender o texto da versão-folhetim de Quincas Borba




Esta edição da primeira versão de Quincas Borba, publicada em forma de folhetim na revista feminina quinzenal A Estação, entre 1886 e 1891, destina-se a facilitar o acesso a esse documento fascinante, que fornece muita informação sobre a composição do romance, as intenções e decisões de Machado de Assis, assim como as hesitações e dúvidas que o assaltaram ao longo desses cinco anos. Esta introdução expõe os fatos principais acerca dessa publicação e explica os métodos que adotamos no processo de edição, para facilitar a leitura desse documento às vezes difícil de entender.

Machado começou a publicação do romance no dia 15 de junho de 1886 a e terminou no dia 15 de setembro de 1891. O romance completo, em forma de livro, saiu pouco mais tarde; estava à venda em novembro de 1891. NT 1 Publicaram-se mais duas edições em vida do autor, em 1896 e 1899. Adotamos o sistema da Comissão Machado de Assis na sua edição crítica do romance ao chamarmos a versão publicada n`A Estação de versão A; a de 1891, de B; a de 1896, de C; e a de 1899, de D. NT 2 Interessam-nos apenas A, B e C, pois D é quase idêntica a C, ou, como diz o autor: "sem outra alteração além da emenda de alguns erros tipográficos, tais e tão poucos que, ainda conservados, não encobririam o sentido". Entre B e C, porém, há bastantes diferenças, que afetam mais de 400 parágrafos do romance; mas são infinitamente menos numerosas, e menos importantes, que as diferenças entre A e B - pode-se dizer que seus efeitos estão limitados à frase em que aparecem. Como dizem com razão os editores da edição da Comissão "nenhuma delas [...] vai ao cerne do livro". NT 3 As diferenças entre a versão em folhetim (A) e as em livro (B e C), pelo contrário, são enormes. Afetam, em maior ou menor grau, a grande maioria dos capítulos do romance. Há de tudo, desde palavras substituídas a frases, capítulos inteiros presentes na versão A, mas omitidos em B e C. Por outro lado, alguns capítulos (e palavras, frases e parágrafos) são ausentes em A, mas presentes em B e C. São menos numerosas, mas nem por isso menos importantes. Um exemplo só: na versão em folhetim, faltam os capítulos 6, 7 e 18, em que Quincas Borba expõe o Humanitismo para o "ignaro" Rubião, e este, já de posse da herança, aceita a teoria e sintetiza tudo na famosa frase "Ao vencedor, as batatas" - frase que, nessa altura do romance, nem existe no folhetim. NT 4



A versão d`A Estação foi mais ou menos esquecida até os anos 1950, quando foi instaurada a Comissão Machado de Assis, sob a autoridade do Ministério de Educação e Cultura, para produzir edições críticas das obras. A edição de Quincas Borba talvez seja a sua realização mais importante: procuraram em muitas bibliotecas, dentro e fora do Brasil, localizar os números da revista e no fim recuperaram quase todos. Faltavam só quatro números, e, quanto a dois desses quatro (de 31 de maio de 1887 e 31 de julho de 1891), concluíram, a partir de evidências internas, que não se publicou o romance. Como veremos, houve várias lacunas na publicação, em boa parte causadas pelas incertezas do autor. Faltavam dois, os números de 15 de janeiro e de 15 de abril de 1887, que continham dois episódios importantes: o enforcamento do escravo no capítulo XLV e o salvamento de Deolindo no capítulo LX (ao final do fascículo sobrevivia apenas um fragmento). Felizmente, porém, um exemplar desse número e dos números de 31 de maio de 1887 e de 31 de julho de 1891 foram localizados por Ana Cláudia Suriani da Silva. NT 5 Podemos portanto confirmar, como a Comissão Machado de Assis já havia indicado, que naqueles dois números não se publicou o romance. Incluímos, é claro, os capítulos localizados, sobre o salvamento de Deolindo, nesta nossa edição. Significa que falta só um, e devemos esperar que um dia se encontre. Não há a menor dúvida que continha o episódio do escravo; NT 6 é verdade que está em uma parte do romance na qual as variantes são relativamente poucas, mas mesmo assim sua ausência é de se lamentar.


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A edição da Comissão foi publicada pela primeira vez em 1959 e, numa segunda edição em 1977, pela editora Civilização Brasileira, em convênio com o Instituto Nacional do Livro, do Ministério de Educação e Cultura. Apesar de ser uma edição indispensável, voltamos para o texto-fonte, o da própria revista. Tentamos ser fiéis às intenções do autor, como foram expressas, de duas em duas semanas, à medida que o folhetim se publicava.

Nosso texto distingue-se do da Comissão em dois aspectos importantes:

1) Modernizamos a ortografia. Na edição da Comissão, modernizaram (com certas restrições) o texto da versão final em livro. A versão A, a do folhetim, foi publicada num volume separado, intitulado "Apêndice", e, nesse segundo volume, é reproduzida a ortografia original, do século XIX.

2) Na edição da Comissão, as palavras da versão da revista retidas no romance final apareceram em itálico; as que foram excluídas, em redondo. Esse procedimento tem um interesse óbvio, mas decidimos que seria mais iluminador deixar ao leitor ou à leitora buscar as semelhanças e diferenças. Melhor que confrontá-lo com uma massa de detalhes, difíceis de digerir, oferecemos aqui, nesta introdução, um guia do processo de composição e suas peripécias, que visa dar um contexto mais abrangente, em que a relação entre os dois textos pode ser estudada. Os únicos itálicos usados nesta edição, portanto, são do original, do texto da revista.

Como veremos, o texto pode ser dividido, com relativa facilidade, em quatro estágios cronológicos, nos quais as relações entre os dois textos - grosso modo, A e C - são determinadas em boa medida pelo estágio da composição. Num apêndice, damos uma tabela mostrando as equivalências entre os capítulos de ambas as edições. Deve ser lembrado, porém, que essas equivalências variam muito, desde capítulos inteiros que são idênticos, a outros em que apenas duas ou três palavras são repetidas. E, claro, há capítulos inteiros, em cada versão, completamente ausentes na outra. Este, portanto, é um guia bastante rudimentar às mudanças entre as duas versões.

Antes de entrar em detalhes, devemos mencionar duas inovações desta nossa edição, cuja intenção é simplificar o processo de comparação.

1) Referimo-nos aos capítulos do folhetim por algarismos romanos (I, II, III etc.) e aos do romance em forma de livro por algarismos arábicos (1, 2, 3 etc.). Devemos sublinhar que este sistema não é o do livro, em quase todas as suas edições, nas quais se usam algarismos romanos. É uma questão exclusivamente de conveniência, para que se saiba imediatamente a qual versão nos referimos. Também por razões de simplicidade, excluímos as mudanças (mais de 600) entre B (1891) e C (1896). Como já foi dito, nenhuma delas afeta a substância do romance. A maioria são ajustes menores; em muitos casos, Machado manteve as palavras do folhetim, só eliminando-as para a versão definitiva. São consignados fielmente na edição crítica da Comissão Machado de Assis, no primeiro volume (ou seja, o do texto final, versão C).

2) Precisamos mencionar mais uma dificuldade na edição deste trabalho. Há vários casos em que a numeração dos capítulos está "errada". Ou omite-se um número de capítulo, ou, o que é muito mais frequente, a numeração vai para trás (vamos, por exemplo, de LVII para LVI). Alguns desses erros, é provável que sejam realmente deslizes do escritor ou do tipógrafo, ou melhor, paginador da revista, que durante pelo menos boa parte da publicação do romance era o poeta Alfredo Leite. NT 7 Outros, pensamos, são intencionais - isto é, Machado publicou capítulos na versão A que sabia que não manteria na versão definitiva e ajustou a numeração para quadrar com o que, sabia, seria o romance final. Isso acontece sobretudo na segunda metade do romance, quando - veremos - algumas incertezas já deixaram de existir. Nesses casos, para facilitar a diferenciação entre os capítulos que levam o mesmo número, acrescentamos um (i), um (ii), ou até, em alguns casos, um (iii). É óbvio que estes (i), (ii) e (iii) não são da edição original, mas, na sua ausência, os riscos de confusão aumentam bastante. Na tabela das equivalências entre os capítulos das duas versões, comenta-se cada caso de "erro", dando uma possível razão e explicação dele.

Há uma exceção a esta regra, que nos traz a um tópico crucial e nos faz pensar que o leitor do folhetim tenha tido dificuldade em acompanhar a publicação quinzenal do romance em A Estação. Em quase 40 números da revista, publicados entre junho de 1885 e setembro de 1891, o romance não apareceu. O primeiro desses vácuos aconteceu em 31 de maio de 1887, onze meses após o começo da publicação; o último durou três números, em julho e agosto de 1891, um mês antes do fim. Não podemos duvidar que a maioria desses vácuos foi causada por dificuldades e hesitações na composição, sobretudo porque se congregam num período entre, grosso modo, maio de 1888 (poderíamos dizer até de julho de 1887), em que as diferenças das duas versões se acentuam, e novembro de 1889. Nesse período, uma pletora de evidências (muitos capítulos publicados mas omitidos no livro, muitas renumerações, números em que o romance não foi publicado) contribui para uma sensação de caos, de dúvida, de confusão. Em particular, ao longo de dois períodos estendidos, os cinco meses entre maio e outubro de 1888, e os quatro meses entre julho e novembro de 1889, o romance não foi publicado. Quando Machado recomeçou a publicação em 30 de novembro, tendo parado em julho no capítulo CXXII, começou no capítulo CVI, que reteve este número (106, portanto, no nosso "sistema"), na versão final do romance.

Já dissemos que há vários casos de renumeração, errados ou deliberados, no folhetim. Operam, porém, geralmente num âmbito pequeno (dois ou três capítulos, salvo num caso entre os capitulos CLII e CLVI, que mencionaremos adiante). Esta mudança é de outra ordem: de CXXII para CVI não é erro tipográfico. O que é mais: em novembro de 1889 inicia-se um período relativamente longo (até 31 de agosto de 1890), como entre os capítulos 21 e 70 mais ou menos (15 de setembro de 1886 a 31 de julho de 1887), em que as duas versões são quase idênticas. Ademais, certos elementos centrais são presentes depois de novembro de 1889, dos quais não há sinal antes dessa data, o mais importante sendo a identificação de Rubião com Napoleão III (já presente no último capítulo do primeiro episódio "pós-crise", o de 30 de novembro de 1889, onde, no sonho de Rubião, Sofia se identifica com a Imperatriz Eugênia). Dona Fernanda aparece pela primeira vez, também, no 1o de janeiro de 1890. Ela não é só central ao romance do ponto de vista temático: Machado depende dela para arranjar o casamento entre Carlos Maria e Maria Benedita, que, entre outras coisas, prova a Rubião que são infundadas as suas suspeitas de uma ligação clandestina entre Carlos Maria e Sofia.

Não há dúvida que, nesse período, Machado repensou e reeescreveu o romance. Este fato, despercebido por críticos da envergadura de Augusto Meyer e Alexandre Eulálio, é, porém, um fato. Chegamos, portanto, a uma conclusão que pode parecer paradoxal: não é possível pensar a primeira versão como um romance completo, uma obra de arte coerente, como se fosse um texto fixo, a que o autor tivesse simplesmente voltado, e polido. Ao contrário, é, até certo ponto, uma obra incoerente, que leva as marcas indeléveis das hesitações e mudanças do autor, os impasses que teve que superar - o que, claro, é grande parte do seu fascínio. Para dar um exemplo simples: no fim do romance, em Barbacena (Capítulo CXCVI, publicado em 31 de agosto de 1891, que se tornou 195 no livro), Rubião grita o famoso mote "Ao vencedor, as batatas". Se a infeliz leitora tentasse se lembrar dessas palavras, de que Rubião "se esquecera", mesmo se ela estivesse dotada de boníssima memória, não se poderia lembrar da "fórmula e da alegoria", porque não estavam na versão do romance que ela estava lendo. Como já foi mencionado, entre as duas versões, Machado acrescentou os capítulos 6 e 7, em que Quincas Borba expõe a alegoria das tribos e as batatas; acrescentou vários trechos em que se traça a forma peculiar da loucura de Rubião - o episódio da baronesa que encontra ao sair do escritório de Camacho (Cap. 62), as leituras de Dumas e Feuillet, e os sonhos do matrimônio de estrondo (Caps. 80 e 81), e até mesmo o momento, no Cap. 91, em que Rubião quer dar a mão a beijar aos seus comensais, mas retém-se a tempo, "espantado de si próprio". Tudo isso só aparece no livro.

O primeiro crítico a estabelecer a importância dessa quebra no folhetim foi John Kinnear, num importante artigo publicado em 1976, em Modern Language Review, "Machado de Assis: to Believe or not to Believe", que infelizmente nunca foi traduzido para o português. Ele acredita que a quebra marca o momento em que Machado conscientemente deixa de ser um narrador confiável (em que podemos acreditar - "believe") para adotar uma posição mais distante e não confiável (adotada novamente, com acréscimos, em Dom Casmurro). É por isso que, no primeiro parágrafo do Cap. CVI, ele ataca o leitor ludibriado, dizendo que não devia acreditar no "chocalho de rimas sonoras e delinquentes" que fez com que Rubião imaginasse um caso entre Sofia e Carlos Maria, que de fato não chegou a existir. E é verdade que, na versão pré-julho de 1889, o leitor sabe que Rubião está enganado, enquanto na versão pós-novembro do mesmo ano, é possível concluir que está certo. Digo "é possível" - a leitora também muito bem pode concluir, ou no mínimo suspeitar - que Rubião está enganado. Essa mudança é importante, sem dúvida, mas está longe de ser a causa única da quebra, que tem suas raízes numa constelação de dificuldades interligadas que impediram o progresso do romance - a começar pela natureza da loucura de Rubião, como mostram os acréscimos mencionados acima.

Dada a importância e a natureza dessa quebra na composição do romance, optamos por não estender suas consequências no sistema que adotamos para assinalar os números repetidos, o que faria com que distinguíssemos dois capítulos CVI, (i) e (ii) e assim por diante. Como no caso dos números romanos e arábicos, esta decisão é uma questão de simplicidade: é a consequência das causas contrastantes das respectivas repetições. Neste caso, onde há risco de confusão, é melhor referir-se simplesmente ao folhetim pré-julho de 1889 e pós-novembro de 1889.


***


Uma vez aceito este fato central, estamos prontos para entender a versão A como sujeita às mudanças na evolução do conceito do romance pela qual Machado passou. Com esta condição, esse texto, a primeira vista confuso, recupera a sua própria "coerência". Sem muita dificuldade, a versão em folhetim pode ser dividida em quatro partes, nas quais a relação entre as versões A e (B e) C é diferente.

1) A: Capítulos I-XXIII (15.06.1886 a 15.09.1886) C: Capítulos 1-20

Esta seção contém o começo do romance, situado em Barbacena; a amizade entre Quincas Borba e Rubião; a viagem do primeiro ao Rio de Janeiro; sua morte; o testamento; e o estabelecimento final de Rubião na Corte. Ainda que com certeza escrita antes do começo da publicação, e sem as pressões da publicação imediata, há diferenças consideráveis entre esta versão e a do livro.

Dessas diferenças, a mais importante é a remoção dos capítulos XX-XXIII para o começo do romance (capítulos 1 a 3). Assim, o romance em livro começa com Rubião já instalado, a contemplar a enseada de Botafogo. No folhetim, começamos em Barbacena, ao lado da cama do doente; o romance começa em ordem cronológica. De fato, mesmo no folhetim, os capítulos XX-XXIII, equivalentes aos 1-3, quebram a ordem cronológica, pois aparecem antes do encontro com Palha e Sofia no trem de Vassouras ao Rio, mas a decisão de colocá-los no começo do romance tem consequências importantes, mencionadas frequentemente na crítica. No nível mais simples, elimina uma complicação: o fato de já sabermos que Rubião enriqueceu fabulosamente tira o elemento de suspense um pouco postiço do começo do romance (será que vai herdar?), característica (é claro) do folhetim, mas que Machado evidentemente julgou desnecessário no contexto do livro. Vale a pena repetir que os capítulos 6, 7, 18 e 19 da versão-livro não estão no folhetim. Contêm a explicação do Humanitismo para o "ignaro" Rubião e a sua adoção do mote "Ao vencedor, as batatas".

2) A: Capítulos XXIV-LXXII (15.09.1886 a 15.08.1887) C: Capítulos 21-71

Esta seção nos leva ao encontro de Rubião com Palha e Sofia; seu estabelecimento no Rio de Janeiro; o "dia tão comprido" da reunião em casa dos Palhas, que culmina na cantada de Rubião no jardim; a memória da execução do escravo que lhe ocorre de volta para casa; e o longo capítulo (L), em que o casal discute o caso. Quinze dias depois, somos apresentados ao Camacho; vamos para o episódio de Deolindo; a introdução de Maria Benedita; e outra reunião, um baile em casa de Camacho, onde Carlos Maria continua a sua campanha de sedução de Sofia.

Durante boa parte desta seção, as duas versões são praticamente idênticas, e a publicação foi regular. Podemos concluir que boa parte foi escrita antes do começo da publicação, ou que, no mínimo, Machado sabia exatamente o que ia dizer: controlava o romance com confiança. Há, porém, bastantes ajustes importantes: um dos capítulos em que há mais mudanças é, justamente, o primeiro, Cap. XXIV (21) em que o encontro no trem é reescrito, a conversa fica mais natural, e o contexto histórico, mais detalhado. O Cap. XXVIII foi excluído praticamente inteiro; parece que Machado se deu conta de que a "volubilidade", a leviandade pseudofilosófica de Brás Cubas, não convinha tanto ao narrador em terceira pessoa. Já mencionamos os acréscimos que visam traçar mais abertamente a loucura de Rubião. No próprio episódio de Deolindo, no número redescoberto por Ana Cláudia Suriani da Silva, há mudanças importantes - até a idade do menino muda de "dois anos, se tanto" para "três ou quatro anos". O primeiro número em que o romance não foi publicado é o de 31 de maio de 1887 e pode ser que isto reflita o começo das dúvidas sobre o andamento do romance. Os elementos básicos do enredo central, que acompanham a crescente loucura de Rubião - o caso (gorado) de Carlos Maria com Sofia, o aparecimento de Maria Benedita em casa dos Palhas -, estão nos seus lugares. Mas parece que Machado não sabia como continuar.

3) A: Capítulos LXXXIII-CXXII (15.08.1887 a 31.07.1889) C: Capítulos 72-105

Nesta parte do romance, há mudanças enormes entre as duas versões, e é fácil ver que Machado tinha perdido o rumo. No Cap. XCVII, a publicação parou durante cinco meses, entre 31 de maio e 31 de outubro de 1888. Quando recomeçou, porém, foi com hesitação considerável. Aparecem de novo os intervalos na publicação, e surgem capítulos inteiros que é difícil imaginar que Machado tencionava publicar na versão definitiva; parecem escritos unicamente para cumprir com o dever quinzenal. Tamanhos foram os problemas, aparentemente, que a publicação parou de novo em julho de 1889, para recomeçar, dessa vez definitivamente, quatro meses mais tarde, em novembro do mesmo ano. Como já foi dito, parece que Machado já tinha reescrito e reorganizado o romance numa forma muito mais semelhante, embora não idêntica, ao Quincas Borba final, ou quase final, da versão B, a de 1891.

Esta seção é melhor compreendida como um todo, apesar da importante cisão, a mais longa de todas, entre maio e outubro de 1888. Machado deve ter acreditado que podia continuar onde abandonara o romance, sem remodelar fundamentalmente o que já escrevera. Há uma discrepância na numeração nesse intervalo também, mas é pequena (XCVII é seguido por XCVI), e bem possívelmente um simples erro.

Quais foram os problemas que Machado encontrou? É impossível ter certeza de compreender essa crise na sua totalidade, porque é complexa e envolve todas as áreas do romance - o enredo, o tom, o estilo, os personagens, a narração. Como já vimos, John Kinnear achava que tinha as suas raízes na narração - é uma parte da verdade, mas só uma parte. Diríamos que, se olharmos primeiro para o enredo, e em particular para os ciúmes crescentes e a incipiente loucura de Rubião, temos mais chances de entender o que aconteceu.

Vamos propor uma versão possível do que aconteceu. Podemos presumir que Machado sempre tencionou que Rubião suspeitaria de um caso entre Carlos Maria e Sofia - enganar-se-ia, e a prova do engano seria o casamento entre Carlos Maria e Maria Benedita (não podemos duvidar que este casamento estava nos planos originais do romance). Mas essas suspeitas infundadas levariam Rubião a sair da realidade e enlouquecer. Essa era a forma básica do que ia acontecer; mas revelou-se mais difícil de pôr em prática do que o autor tinha imaginado. Uma parte da dificuldade sem dúvida era a própria loucura, e como caracterizá-la. Como já se disse, a identificação com Napoleão III só apareceu em novembro de 1889. Lá, de fato, já aparece no fim do primeiro fascículo publicado depois do intervalo, no capítulo CIX, em que Rubião sonha com Sofia e Maria Benedita, e acrescenta: "Agora, por que razão Sofia era a imperatriz Eugênia, e Maria Benedita uma aia sua, é o que não sei dizer com exatidão." Machado se dera conta, parece, que a loucura tinha que ter um conteúdo concreto. Ao mesmo tempo, construiu a alegoria complexa que fez com que Rubião José de Castro se tornasse Pedro Rubião de Alvarenga, e portanto se identificasse com D. Pedro II (Pedro de Alcântara), e com o regime que, nesse mesmo mês, acabava de ser deposto no golpe de 15 de novembro. NT 8

Se olharmos para os textos das duas versões, devemos notar primeiro que, nessa seção do romance, a versão do folhetim é enormemente mais extensa que a do livro - mais que o dobro. Na versão A há mais de 26.500 palavras, na C, mais ou menos 11.500. Em boa parte isto é porque, no folhetim, há trechos extensos em que Machado estica situações que simplesmente não sabe resolver. Ele quer manter Rubião num estado de incerteza, de hesitação e, assim, de divisão mental. Isto significa que deve haver uma base para tais dúvidas, que aparecem na invenção do cocheiro, e umas poucas, mas essenciais, coincidências (o "moço" ficcional que vive na mesma rua dos Inválidos que o Carlos Maria real; a costureira real que vive na mesma Rua da Harmonia da história inventada; a circular endereçada a Carlos Maria que o moleque deixa cair...), que fornecem uma base para a sua hesitação. Mas a hesitação do Rubião acaba se transferindo, por extraordinário que pareça, ao próprio Machado. Entra no texto e faz com que (entre outras coisas) ele perca toda tensão, e a leitura se torne penosa.

Durante o primeiro intervalo longo, o de 1888, Machado empurrou o problema para frente, sem contudo solucioná-lo. Parece que foi nesse momento que inventou a Comissão de Senhoras, que permite a ascensão social de Sofia e Palha, mas que também permite à primeira mandar a Carlos Maria uma mensagem perfeitamente inocente, que, no entanto, atiça o fogo dos ciúmes de Rubião. Note-se que a importância da Comissão é dupla: contribui, por um acaso, para fazer subir de um grau os ciúmes do Rubião e também ilustra a mudança de cenário social que acontece na segunda metade do romance, em que saímos definitivamente da classe média baixa e ombreamos com a aristocracia, os políticos de alto escalão, e o mundo das finanças. A Comissão aparece logo no primeiro episódio depois do intervalo - XCVI (ii), portanto. Também, mais tarde, permitiu a entrada de D. Fernanda em cena. Mas, ou Machado ainda não a inventara, ou ainda não estava preparado para ela.

Aqui arrolamos alguns dos episódios que ou foram excluídos totalmente do romance final, ou de que só sobreviveram umas poucas palavras:

a) Antes do primeiro intervalo grande, em 1888, temos, primeiro, os Cap. LXXIII-LXXVIII, que tratam de Maria Benedita e Sofia, e as suspeitas que a primeira tem da segunda, dissipadas finalmente quando Maria Benedita acha - injustificadamente, claro - que Sofia vai avançar a sua causa com Carlos Maria. A origem do engano, o fato de Sofia "não querer perder o que não quer possuir" - e portanto não pronunciar o nome de Rubião e assim desfazer as ilusões da moça - talvez seja o momento mais genial da construção do enredo, porque permite à moça viver bem até que a felicidade chegue por outros caminhos; Rubião não é o único iludido. Segundo, os Cap. LXXX-LXXXI, trecho muito comprido que conta uma visita de Rubião à casa de Carlos Maria, querendo satisfazer as suas suspeitas sobre o caso (no romance final, vai à rua dos Inválidos três vezes, mas "não o encontrando, mudou de parecer" [Cap. 78]). Terceiro, os Cap. LXXXVII e LXXXIX, em que as visitas ao armazém do Palha, e ao Freitas moribundo, são muito mais extensas.

b) Na segunda seção, publicada entre outubro de 1888 e julho de 1889, os Cap. CI a CV se alongam mais na corrida de Rubião no encalço da costureira, e no encontro com o marido. O Cap. CVIII conta a ajuda dada por Rubião a um velho que foi atacado na rua - acontecimento irrelevante para o resto do enredo e que verossimilmente Machado queria que funcionasse como contraste com o episódio de Deolindo. Os Cap. CXII (ii) a CXII (iii) esticam (muito) a indecisão de Rubião sobre abrir ou não a carta-circular - o Cap. CXII (iii) focaliza, ao longo de mais de mil palavras, um dos comensais, Sarmento, que fica à espera de o Rubião descer para que possa comer (este personagem desaparece inteiramente no romance final). Nos Cap. CXVII (ii) a CXIX, Rubião primeiro diz a Sofia que tem uma carta dela - mas neste ponto, interrompe-os Maria Benedita; volta no dia seguinte, com um revólver, nada menos! Sofia abre a carta, que revela ser a circular. Rubião sai, completamente confuso e envergonhado. Os pensamentos de Sofia ocupam o Cap. CXX - do qual uma boa parte é retomada no capítulo 105 do livro, o último antes da quebra do capítulo 106 ("[...] ou, mais propriamente, capítulo em que o leitor, desorientado [...]"). Os Cap. CXXI e CXXII tratam de outros assuntos marginais ao enredo central (uma reunião da Comissão de Senhoras e um encontro de Rubião com o Major Siqueira), e as poucas palavras que reaparecem no livro ocorrem depois da mesma quebra, após novembro de 1889.

É importante assinalar que nesta seção, embora haja muita coisa excluída, e alguma coisa que, podemos ter quase certeza, Machado nunca pensou seriamente em incluir no romance, há também acréscimos no livro, notadamente os já mencionados Cap. 80 (o último parágrafo), 81 e 82, centrais para mapear o progresso da loucura ("que misterioso Próspero transformava assim uma ilha banal em mascarada sublime?").

4) A: Capítulos CVI-CCII (30.11.1889-15.09.1891) C: Capítulos 106-201

Nesta seção final, já solucionados os problemas precedentes, do enredo e do progresso da loucura de Rubião, esperaríamos que tudo corresse facilmente, "sem temporal, mar de leite". Até certo ponto, assim é. Contudo, há diferenças importantes entre as duas versões, que mostram que Machado ainda tinha suas dificuldades, embora menos fundamentais. Entre os Cap. 106 e 141, a identidade é quase completa, mas entre este ponto (31 de maio de 1890) e o fim, há, o que surpreende, oito números em que o romance não foi publicado, e alguns episódios muito curiosos que sumiram na versão definitiva. Parece que (um pouco como na segunda seção), Machado tinha preparado o texto até certo ponto, mas só até certo ponto, tanto que reaparecem as incertezas e as longueurs. Contudo, também nos parece que, às vezes deliberadamente, inventou passagens que sabia (ou suspeitava) que não sobreviveriam na versão final. A evidência disto em parte reside no fato de renumerar os capítulos, voltando sempre atrás na numeração, talvez tentando manter alguma semelhança com o romance final, tal como saberia que seria. Notamos que a diferença entre os capítulos finais é só de um algarismo (CCII contra 201), enquanto no folhetim há 114 capítulos nesta seção, no livro só 95.

O primeiro intervalo na publicação nesse período aparece no dia 30 de abril de 1890, e o primeiro trecho excluído vem pouco depois: os Cap. CXLII a CXLVIII (i) (31 de maio de 1890), sete capítulos que cobrem dois fascículos e que contam com algum detalhe a excursão à Tijuca dos três personagens centrais, Rubião, Sofia e Palha, durante a qual Sofia cai do cavalo e fica alarmada que Rubião possa ter vislumbrado mais do que a decência permite. Deste momento em diante há várias mudanças. Uma das mais interessantes acontece depois do passeio de carro que Rubião e Sofia fazem juntos, muito contra a vontade dela. No folhetim, Palha até pensa que ela pode ter inventado a história porque alguém os tivesse visto, e para explicar o que de fato fosse um encontro amoroso. O Palha, mordido de ciúmes, vai ao Alcazar Lírico, teatro popular de vaudeville. Lá encontra dois dos comensais do Rubião, que contam os sinais de loucura que já viam nele, e assim curam-se os ciúmes. Como se vê, é um episódio que pouco ou nada acrescenta ao enredo - mostra os ciúmes do Palha, para logo dissipá-los. Outros episódios excluídos, em parte ou inteiramente, encenam Teófilo e D. Fernanda (CLXXX-CLXXXI [i]); Carlos Maria, Maria Benedita, e Sofia (CLXXXI [ii] e CLXXXII; D. Fernanda e Dr. Falcão (CLXXXIX); e as reações de Sofia e D. Fernanda ao nascimento do filho de Maria Benedita (CXIV).





 

CAPÍTULO PRIMEIRO



- Então, Doutor, como vou?

- Vai bem. Estas moléstias são demoradas, mas o senhor vai bem. Tomou o remédio?

- Tomei.

- Às horas marcadas?

- Creio que sim. Não foi, Rubião?

Rubião, que estava familiarmente sentado na cama, confirmou a resposta. Havia ali ainda outra criatura, deitada no chão, com a cabeça levantada, olhando para o médico, interrogativo: era um cão, o cão do doente, que mal saía do quarto, desde longas semanas.

O doutor levantou-se, para sair; deu algumas indicações ao doente e ao amigo, e despediu-se de ambos; voltaria no dia seguinte. Rubião foi acompanhá-lo até o patamar da escada. No patamar:

- Então? perguntou Rubião.

- Perdido, completamente perdido. Viverá pouco tempo. Não posso repor-lhe as vísceras estragadas; mas vá confirmando o que digo. Para que tornar-lhe a morte mais aflitiva pela certeza...

- Lá isso, não; para ele é a cousa mais indiferente deste mundo. Nunca leu um livro que ele escreveu, há anos, não sei que negócio de filosofias...

- Não; mas filosofia é uma cousa, e morrer de verdade é outra; adeus.

Rubião, voltou ao quarto; entrou prazenteiro, para obedecer ao médico, mas era certo que vinha constrangido. O doente estava de lado, junto à beira da cama, afagando o cachorro, que lhe lambia a mão.

- Que te disse ele? Vocês falaram em particular.

- Disse o mesmo que tinha dito, demora necessária, muita cautela, nada de imprudências...

As palavras de Rubião não lhe saíam naturalmente nem persuasivas; mas podiam iludir a um doente, e foi o que lhe pareceu. Acabou e falou de outro assunto. O doente, porém, abandonara o cão, que voltou a deitar-se ao pé da cama, desta vez com a cabeça entre as patas, e os olhos meio cerrados; e voltando-se em cheio para o amigo que lhe servia de enfermeiro, disse rindo:

- Tu e o médico são dous empulhadores de marca maior...

Rubião ficou sério e confuso. Empulhador, ele? Não; lá se o médico mentia... Nem podia mentir, porque dissera-lhe a mesma cousa em particular. Doente era sempre desconfiado. Não, senhor, daí a poucas semanas podiam ir à rua, e logo depois a cavalo... E então é que era ver outra vez o que era o Quincas Borba... Ouvindo este nome, o cão deu um salto, e foi ter com o Rubião, que o acolheu com gestos de amigo, afagando-lhe as orelhas, batendo-lhe na anca, e dizendo-lhe, a rir, mas a rir mal:

- Não é contigo, é com teu senhor, pelintra.

Aqui, toda a gente que me fez o favor de ler as Memórias póstumas de Brás Cubas, lembra-se, - pode ser que se lembre - de que aparece ali, em três ou quatro capítulos, um tal Quincas Borba, e pergunta e cuida naturalmente que é o mesmo.

Cuida bem. Mas não é preciso ler as Memórias; basta saber que é o mesmo, e que vai morrer, como disse o médico. Pode ir, que não precisamos dele. Que fosse criança graciosa, mendigo algum tempo, herdeiro inopinado e inventor de uma filosofia, não temos nada com isso. Quando muito, é bom saber (e aqui lho digo) que alguns anos antes, um médico supôs que este Quincas Borba tinha um grãozinho de sandice, cousa de nada (está no cap. CLIII das Memórias), é bom sabê-lo para explicar algumas disposições testamentárias do homem, que vai morrer daqui a pouco.

Repito que não precisamos dele, e a terra que lhe seja leve; só precisamos do nome do homem, e não pelo homem, senão pelo cão, por este mesmo cão que o amigo enfermeiro acarinha, explicando-lhe que quando falou em Quincas Borba não se referia a ele, mas ao senhor. O que quer dizer, em duas palavras, que o nome era comum ao cachorro e ao dono.


 

II




Rubião fazia festas ao cachorro; esfregou-lhe as orelhas com as mãos espalmadas, beijou-o acima dos olhos, e quis excitá-lo a dar pulos: mas o cão, como se tivesse melhor compreensão da inconveniência do rumor, ao pé do doente, olhou triste para a cama, e foi deitar-se ao pé da cabeceira.

Quincas Borba, comovido, olhou para Quincas Borba:

- Meu pobre amigo! meu bom amigo! meu único amigo!

- Único! disse-lhe Rubião, da janela, onde fora consertar a posição das cortinas por causa do sol que ia entrando.

- Desculpa-me, tu também o és, bem o sei, e agradeço-te muito; mas a um doente perdoa-se tudo. Talvez esteja começando o meu delírio. Deixa ver o espelho.

- Para quê? Você aflige-se à toa; doente tem cara de doente; não quer dizer nada.

- Que afligir-me o quê, Rubião? Quero ver só até que ponto o médico e tu são dous mariolas. Dá cá o espelho.

Rubião deu-lhe o espelho. O doente contemplou por alguns segundos a cara magra, o olhar febril, com que descobria os subúrbios da morte, para onde caminhava a passo lento, mas seguro. Depois, deixando cair o espelho, falou ao Rubião com um sorriso pálido e irônico:

- Mentirosos! Tudo o que está cá fora corresponde ao que sinto cá dentro; vou morrer, meu caro Rubião... Não gesticules, vou morrer.

Rubião desmentia com o gesto; mas, ou porque não tivesse a força necessária para mentir bem, ou por qualquer outra razão particular, o gesto era frouxo, era quase meia confissão. Tirou-lhe o espelho, sorrindo amarelo, vexado de não poder confessar tudo. Fez alguns arranjos na quarto; depois pegou em jornais, para lê-los ao doente, como era costume: mas o doente disse-lhe que antes da leitura, mandasse chamar o tabelião; queria fazer testamento.

- Testamento? repetiu o outro estremecendo.

E disse-lhe que não, que se deixasse disso, mas não alcançou nada; creio que lhe faltava o talento da persuasão, creio também que as palavras já lhe saíam da alma desejosas de ser inúteis. O doente teimou, ele não teve remédio, e obedeceu; foi dentro e deu as indicações precisas ao pagem, que era o mais inteligente dos fâmulos. Voltou depois ao quarto do doente; passando por uma sala, foi a um espelho, consertar a expressão do rosto. Os músculos recusavam-se: mas uma bela perspectiva dá vontade ao ânimo, e este pôde então reagir sobre a face e compô-la. Foi assim que dali a pouco entrou no quarto uma espécie de monge compassado e tristonho, pegou dos jornais, e começou a ler melancolicamente as primeiras notícias políticas.

(Continua.)



30 de junho de 1886, no 12


 

CAPÍTULO III



Mas que Rubião é este? E, antes de tudo onde estamos nós? Estamos, por ora, em Barbacena, Minas Gerais. Logo que aqui chegou, Quincas Borba namorou-se de uma viúva, dama de condição mediana, e parcos meios de vida; mas tão recatada e medrosa, que os suspiros do namorado ficaram sem troco. Chamava-se Maria da Conceição. Um irmão dela, que é o presente Rubião, fez tudo o que pôde para ver se os casava; mas nem um nem outro estavam por isso. Quando ele começou a inclinar-se ao casamento, era tarde; Maria da Conceição apanhara uma febre tifóide, e faleceu em menos de uma semana.

Se a dor de ambos foi igual, não se pode saber com certeza; mas o fato é que Rubião perdia uma irmã querida e uma esperança pecuniária. Rubião era um desenganado da política. Vivia de ser professor, ofício em que ia já cansado; mas de todas as ambições antigas ficara-lhe uma: a do dinheiro. Antes de ser professor, meteu-se em três empresas, que naufragaram todas; não podendo ser nada, nem ter nada, destinou-se ao ensino, para comer alguma cousa, e morrer em alguma parte.

Foi por esse tempo que ali apareceu o nosso Quincas Borba, não já moço, mas levando consigo a bela água de Juventa chamada apólice. Seguiu-se a tentativa de namoro e logo depois a morte da viúva. Rubião acreditou que o ser ele caipora é que fez morrer a irmã; mas, como as relações entre os dous estavam já travadas, a morte da viúva ligou-os ainda mais que a vida.

Quincas Borba tivera ali alguns parentes, mortos já agora, em 1867; o último foi o tio que o deixou por herdeiro de um bom par de contos de réis. Dos conhecidos antigos restavam poucos; e Rubião teve a arte de os arredar a todos.


 

IV



Não é só a riqueza, a miséria também deixa as suas heranças, menos fáceis de dissipar, antes propícias à acumulação de juros. Quincas Borba patinhara na miséria, algum tempo; não saiu de lá com as mãos abanando, e as moléstias, que aliás também se contraem na opulência, mais depressa as apanhou ele quando não tinha onde dormir. Não esqueçamos também o grãozinho de sandice, que cooperou em pô-lo nas mãos do Rubião, porque a atenção deste, obsequiosa e paciente, não se cansava de ouvir-lhe a exposição das doutrinas novas, que ele trazia de cor, fazendo-lhe crer que as entendia, quando era certo que não entendia nada.

Rubião teve um rival, - o cão que vimos há pouco, ao pé da cama, cão ainda novo, bonito, e que adorava o senhor, como a um deus. Era mediano, algo peludo e cor de café. Quincas Borba levava-o para toda a parte, dormiam na mesma alcova. De manhã, era o cão que acordava o senhor, indo latir de manso, ao pé do leito, trocavam ali as primeiras saudações. Uma das extravagâncias do dono foi dar-lhe o seu próprio nome, e explicava isto por dous motivos, um doutrinário, outro particular.

- Desde que Humanitas, segundo a minha doutrina, é o princípio da vida e reside em toda a parte, conforme a graduação dos seres e das cousas, existe também no cão, e este pode assim receber um nome de gente, seja cristão ou muçulmano...

- Bem, mas por que não lhe deu antes o nome de Bernardo, disse Rubião que tinha o pensamento no seu rival político da localidade.

- Esse agora é o motivo particular. Se eu morrer antes, como presumo, sobreviverei no nome do meu bom cachorro.

Rubião concordou também com este motivo, embora in petto achasse que nem um nem outro valiam nada; e chegou a descobrir um terceiro motivo, a saber, que as qualidades daquele cão eram tão finas e superiores que não ficava mal honrá-las com um nome tão distinto. Em seguida cuidou de amar o cão, tanto ou mais que o dono, caminho certo para entrar no coração do Quincas Borba. O cão, pela sua parte, afeiçoou-se ao novo amigo e companheiro do senhor.


 

V



Rubião leu as notícias dos jornais, alguns retardados: mas a cabeça do doente já ligava mal as cousas, e ouvia com o mesmo interesse o extrato de um discurso e o anúncio de um emplasto. Os minutos voavam, Rubião estava impaciente com a demora do tabelião. Começava a parecer-lhe desde alguns dias que o Quincas Borba não regulava bem, e temia que a loucura formal se declarasse, antes do testamento. Afinal chegou o tabelião. Veio o pagem à porta do quarto anunciá-lo.

- Quem é?

- O tabelião, explicou Rubião; você não o mandou chamar?

- Parece que sim... Ah! sim, é verdade, o testamento: que entre, que entre.

Quando o tabelião se retirou de casa com as testemunhas, Rubião bem quisera adivinhar quais tinham sido as disposições do enfermo a seu respeito. Pareceu-lhe que vira no rosto do tabelião alguma coisa singular e animadora, uma expressão de assombro e curiosidade, quando olhou para ele à despedida; mas quanto seria? - ficava sempre esta dúvida relativa à importância do legado. Fosse o que fosse, Rubião desvelou-se como até ali.

Um dia, no princípio da outra semana, o doente levantou-se com ideia de ir à corte, voltaria no fim de um mês, tinha certos negócios. Rubião ficou espantado; como ir à corte? e a moléstia? e o médico? O doente respondeu que o médico era um charlatão, e que a moléstia precisava de espairecer, tal qual a saúde. Moléstia e saúde eram irmãs gêmeas: a diferença é que uma era magra e pálida, a outra corada e robusta. E, posto que ele dissesse isto com voz ainda fraca, parecia realmente melhor; não obstante, Rubião teimou que ficasse. Quincas Borba concordou somente em não ir logo; ficaria alguns dias a tomar alento. Depois exigiu de Rubião que não confiasse aquele seu propósito ao médico.

- Vou a alguns negócios pessoais, concluiu ele, e levo, além disso, um plano tão sublime, que nem mesmo você poderá entendê-lo. Desculpe-me esta franqueza; mas eu prefiro ser franco com você a sê-lo com qualquer outra pessoa.

Rubião fiou do tempo que esta ideia lhe passasse como tantas outras; mas enganou-se; a ideia era fixa, única e fascinante. Acrescia que, em verdade, o doente parecia estar melhorando; passeava na varanda, depois saiu à rua; no fim de três dias, declarou que ia à corte; era só um mês de ausência, nada mais.

- Está claro que eu não o deixo ir só, disse Rubião; vamos juntos.

- Não, não, acudiu o doente.

- Mas você sozinho?

- Três a quatro semanas; levo dous pagens. Demais, Quincas Borba não vai, e quero que você fique tomando conta dele. Cuide dele, sim? Jura?

- Que ideia! Pois então?... Fica como se fosse você próprio.

- Deixo a casa como está. Daqui a um mês estou de volta. Não quero que ele pressinta a minha saída. Cuide dele, Rubião.

- Já lhe disse que sim.

- Jura?

- Por esta luz que me alumia. Então sou alguma criança?

- Dê-lhe leite às horas apropriadas, as comidas todas de que ele gosta, e os banhos; e quando sair a passeio com ele, olhe que ele não vá fugir. Não, o melhor é que ele não saia... não saia...

- Vá sossegado.

Quincas Borba chorava pelo outro Quincas Borba. Não quis vê-lo à saída. Chorava deveras, lágrimas de loucura ou de afeição, quaisquer que fossem, ele as ia deixando pela boa terra mineira, como o derradeiro suor de sua alma obscura, prestes a cair no abismo.

(Continua.)




15 de julho de 1886, nº 13


 

VI



Tão alegre! tão filósofo! e sai-se com lágrimas, chora miseravelmente por um cão! Lágrimas verdadeiras, não há negá-lo; o Rubião viu-as cair, e o sol as alumiou no momento em que elas desciam pela face abaixo. Verdadeiras são; mas por quê? Já está dito: é o tal grãozinho de sandice que lhe entrou no cérebro, semente que dá tudo, desde a lágrima até à cutilada. Rubião creu nelas, porque as viu, e porque sabia bem a estima que ele tinha ao cão; mas vós todos...

Vós que passais pelo caminho da vida, alegres como eternos rapazes, duvidais certamente do que estou contando. Cá trarei uma dessas lágrimas, daqui a pouco, fechada numa bocetinha antiga, e mostrá-la-ei tão verdadeira e tão amarga como no dia em que brotou dos olhos do nosso Quincas Borba.

Repito: o Rubião, que as viu, não precisou de outra prova. Viu-as, despediu-se, e foi calado para casa.


 

VII



Em casa, passadas muitas horas, é que lhe acudiu uma ideia terrífica. Podiam crer que ele próprio incitara o outro à viagem, para o fim de o matar mais depressa, e entrar na posse do legado, se é que realmente estava incluso no testamento. Rubião ficou aturdido um dia inteiro; tinha vergonha e remorsos. Via na imaginação o cadáver do Quincas Borba, pálido, horrendo, fitando nele um olhar de ameaça, ou, mais exatamente, abrindo-lhe dous óculos para a eternidade, pelos quais via o julgamento e o castigo. Rubião era temente a Deus, e a ação pareceu-lhe tão imoral que ele resolveu, se acaso o fatal desfecho se desse em viagem, abrir mão do que o outro lhe tivesse deixado em testamento. Só assim pôde passar tranquilo a segunda noite.

Quincas Borba (falo agora do cão) é que não a passou mais tranquilo que a primeira; não podia dormir sossegado, levantava-se de quando em quando para ir ganir ao pé da cama do Rubião. Este tinha o sono pesado, e não ouvia nada. O cachorro gania, levantava as patas, gania mais, e voltava a dormir; mas dormia pouco e tornava à mesma lamúria. De manhã, Rubião chamava-o à cama, e o cão acudia alegre; imaginava talvez que era o próprio dono; via depois que não era, mas aceitava as carícias, e fazia-lhe outras, como se Rubião tivesse de levar as suas ao amigo, ou trazê-lo para ali. Demais, havia-se-lhe afeiçoado também, e para ele era a única ponte que o ligava à existência anterior.

Não comeu durante os primeiros dias. Suportando menos a sede, Rubião pôde alcançar que bebesse leite; foi a única alimentação por algum tempo. Passava as horas, calado, triste, a um canto, enrolado em si mesmo, ou então com o corpo estendido e a cabeça entre as mãos. Se ouvia algum rumor, levantava logo a cabeça; mas não era o amigo, era algum escravo ou o próprio Rubião que entrava. Se era este, o cão ia ter com ele, fazia-lhe algumas festas, e acabava ganindo. Às vezes dava-se no cão um fenômeno, que Rubião dizia serem saudades. Perto havia uma casa em construção; os trabalhadores levantavam os lagedos ao som de cantigas, que embora destinadas a animá-los no trabalho, tinham uma toada melancólica. Eram já do tempo do enfermo; o cão, que as ouvira outrora, não podia ouvi-las agora sem inquietação, e logo depois abatimento. Rubião dizia que eram saudades.

Certo é que o nosso homem cuidava dele como de um filho; não olvidou nenhum dos cuidados recomendados pelo dono. Nisto levava três fins: cumprir a palavra dada, impedir a fuga do cão, que seria dolorosa para o dono ausente, e podia trazer algumas reformas testamentárias, e finalmente conseguir da parte do cão tamanho afeto que o dono, quando voltasse, achasse nisso mesmo a melhor prova de que obedecera em tudo. Mas voltaria ele? Eis aí o ponto escuro.


 

VIII



Quem voltou daí a quatro dias, foi o médico; tinha ido a algumas léguas da cidade, e apenas chegou correu à casa do Quincas Borba. Soube pelo Rubião tudo o que sucedera; espantou-se da temeridade do doente, disse que deviam tê-lo impedido de sair, e acabou declarando que o doente podia acabar mais cedo, ou mais tarde, mas a morte era certa; estava perdido. Podia ser até que o abalo da viagem...

Rubião enfiou.

- Que o abalo da viagem, concluiu o médico, lhe dê alguns pingos de vida; mas pingos só, e poucos.

Rubião readquiriu a cor natural, e ficou alegre.

- Se quer que lhe diga, respondeu ele, até me parecia melhor quando saiu daqui. Pergunte ao coletor, que ficou admirado... Estava outro.

- Levou o tal cachorro? perguntou o médico abrindo o relógio.

- Não, senhor; ficou comigo; pediu que cuidasse dele, e chorou, olhe que chorou que foi um nunca acabar. Verdade é, disse ainda Rubião para defender o enfermo, verdade é que o cão merece a afeição do dono: parece gente.

O médico tirou o largo chapéu de palha para consertar a fita; depois sorriu. Gente? Com que então parecia gente? Rubião insistia, depois explicava: não era gente como a outra gente, mas tinha cousas de sentimento, e até de juízo. Olhe, ia contar-lhe uma...

- Não, homem, não, logo, logo; vou a um doente de erisipela... Se vierem cartas dele, e não forem reservadas, desejo vê-las, ouviu? E lembranças ao cachorro, concluiu ele saindo.

Não foi só o medico, os conhecidos da cidade começaram a mofar dele e da singular incumbência de guardar um cão, em vez de ser o cão que o guardasse a ele. Vinha a risota, choviam as alcunhas. Em que havia de dar o professor! sentinela de cachorro! Rubião tinha medo da opinião, e chegou a achar que, em verdade, era ridículo; fugia aos olhos estranhos, o mais que lhe era possível; em casa, chegava a olhar com fastio para o cachorro; dava-se ao diabo, arrenegava da vida...


 

IX



No fim de sete semanas, recebeu ele uma carta do Quincas Borba, datada da corte... Não lhes tinha eu prometido uma lágrima de Quincas Borba? dou-lhes uma pérola. Ao cabo, é a mesma cousa; aqui vai ela, pérola ou lágrima:

"Meu caro senhor e amigo,

"Você há de ter estranhado o meu silêncio. Não lhe tenho escrito por certas cousas, e depois como em breve estarei de volta, etc... Mas agora escrevo para contar um achado que fiz, uma suspeita que tenho, cousa muito séria, reservada, reservadíssima.

"Rubião, sabe você a ideia que me anda cá no cérebro? Rubião, creio que sou Santo Agostinho. Sei que há de sorrir, porque você é um ignaro, Rubião; a nossa intimidade permitia-me dizer cousa pior, mas faço-lhe esta concessão, que é a última. Ignaro!

"Ouça, ignaro. Sou Santo Agostinho; descobri isto anteontem, aqui em casa do meu amigo Brás Cubas, cujo hóspede sou, e que é um grande homem; mas não lhe disse nada. Estávamos conversando, quando, de repente, sem nenhum propósito, pensei em Santo Agostinho. O vir fora de propósito é que me fez impressão; evidentemente era uma sugestão de Humanitas. Corri à biblioteca do meu amigo, e verifiquei que éramos a mesma pessoa.

"Ouça, e cale-se. O santo e eu passamos uma parte da vida nos deleites e na heresia; ambos furtamos, ele em pequeno umas peras de Cartago, eu, já rapaz, um relógio do meu amigo Brás Cubas. Nossas mães eram religiosas e castas. Enfim, ele pensava, como eu, que tudo o que existe é bom, e assim o demonstra no cap. XVI, livro VII das Confissões, com a diferença que para ele, o mal é um desvio da vontade, ilusão própria de um século atrasado, concessão ao erro, pois que o mal nem mesmo existe, e só a primeira afirmação é verdadeira; todas as cousas são boas, omnia bona, e adeus.

"Adeus, ignaro, etc. Mande dizer o que houver de novo... Ah! e o meu pobre Quincas Borba? Tem chorado muito? tem comido? faça por ele tudo, tudo, tudo; diga-lhe que eu volto daqui a algumas semanas. Não, você não é ignaro; é o meu amigo, o amigo dos dous Quincas Borba. Ouviu? Adeus, até breve, vou daqui a dias, amanhã, etc. - Joaquim Borba dos Santos."

Rubião leu e releu a carta; não havia dúvida, Quincas Borba estava completamente doudo. Nisto muitas ideias entraram-lhe no cérebro; ele atordoado, ficou a olhar para o chão.

(Continua.)




31 de julho de 1886, no 14


 

X



quando já o tinha diante de si. Ergueu-se fazendo um gesto para esconder a carta, mas o médico foi direito ao assunto.

- Já sei que recebeu notícias do nosso homem.

- Recebi, respondeu Rubião.

- É essa carta?

- É esta, mas...

- Tem alguma cousa reservada?

- Justamente, traz uma confissão reservadíssima. Imagine que é cousa que ele nem disse ao próprio amigo em cuja casa está... Permite-me?

E pegando da carta guardou-a na algibeira do rodaque. Começou a querer falar alegre, mas as palavras saíam-lhe da boca trôpegas, como desvairadas, alguma cousa que indicava que o conteúdo da carta era azedo. Já sabemos que era o naufrágio mental do Quincas Borba, agora claro e decisivo; e se ele se apresentasse ali no dia seguinte, e se a loucura fosse manifesta, e se o testamento, o legado...

Nada disso o médico adivinhou; viu só que a carta afligiu-o, e tratou de falar da política local e das últimas febres; depois vieram notícias de Ouro Preto, onde parece que o Presidente não andava bem... Rubião arregalava os olhos, batia nas mãos, abria a boca, afirmava de cabeça ou de palavra, mas todo ele estava na carta e no autor da carta.

Quando o médico saiu, a alma de Rubião torceu-se em remorsos; devia ter-lhe entregue a carta. É certo que trazia uma confissão particular e reservada, mas sabendo ele que o homem estava louco, por que negar esse documento que podia aproveitar à ciência, à justiça? Rubião tinha remorsos fáceis, mas de pouca dura. Considerou que o Quincas Borba voltava no dia seguinte, e então era arriscar-se a ser arguido por ele, se soubesse que mostrara a carta ao médico; o doente podia dizer-lhe as cousas mais humilhantes, e ele as merecia, e muito, podia tirar-lhe o triste legado...

A ideia do legado foi bálsamo sobre bálsamo; a alma do homem começou a calcular o que seria. Não podia ser menos de dez contos; compraria um pedaço de terra, levantaria uma casinha em que se metesse, e tinha onde morrer tranquilo. O pior é se fossem cinco... Cinco? Era pouco; mas enfim, talvez não passasse disso, ninguém pode ir à mão de um ingrato ou de um avaro. Cinco era pouco, mas cinco que fossem, era um arranjo menor, mas antes menor que nenhum.


 

XI



Assim foi ele pensando, naquele dia e nos quatro dias seguintes. No quinto recebeu os jornais do costume (assinaturas ainda do Quincas Borba), abriu um deles, e deu com esta notícia:

"Faleceu ontem o Sr. Joaquim Borba dos Santos, tendo suportado a moléstia com singular filosofia. Morreu em casa do nosso amigo Brás Cubas, que o era dele desde o tempo da escola. Borba era homem de muito saber, e cansava-se em batalhar contra esse pessimismo amarelo e enfezado que ainda nos há de chegar aqui um dia, por desgraça nossa; é a moléstia do século. A última palavra dele foi que a dor era uma ilusão, e que Pangloss não era tão tolo como o inculcou Voltaire... Já então delirava. Deixa muitos bens. O testamento está em Barbacena onde foi feito e registrado."


 

XII



Rubião leu isto por alto, só as ultimas palavras é que entendeu bem. Estremeceu, uma claridade rápida, como a de uma vela, que passasse defronte dele, ou de seu sorriso reprimido, deu-lhe à cara uma expressão esquisita que ele reprimiu logo. Depois veio a tristeza, pelo menos a seriedade, uma melancolia sui generis, por que ele relia a notícia, como para pôr carvão na máquina, mas a máquina não deitava lágrimas. Entretanto, recordou os carinhos de Quincas Borba, os obséquios que lhe merecera, abanou a cabeça e suspirou... Não me digam que se pode suspirar, querendo. Suspirou: Rubião era grato aos obséquios. Não chorou, mas suspirou.

E heis de notar que ele estava entre quatro paredes frias e indiferentes, tão indiferentes que, se ele, em vez de suspirar, desse quatro pulos, era para elas a mesma cousa. Não tinha testemunhas: entrou a passear, pensando e suspirando, e dizendo às vezes:

- Pobre Quincas Borba!

Uma das vezes falou mais alto, e o cão veio ter com ele. Rubião abaixou-se e coçou-lhe a cabeça; depois disse consigo:

- Agora, que já acabou a obrigação, vou dá-lo à comadre Angélica.

E olhando para ele:

- Pobre Quincas Borba, se ele pudesse saber que o senhor morreu.


 

XIII



A notícia correu a cidade; o agente do Correio, que também a lera, veio trazer ao Rubião uma carta para ele; podia ser do Quincas Borba, conquanto a letra do subscrito fosse outra.

- Então afinal o homem espichou a canela? disse ele, enquanto Rubião abria a carta, corria à assinatura e lia: Brás Cubas. Era um simples bilhete.

"O meu pobre amigo Quincas Borba faleceu ontem em minha casa, onde apareceu há tempos esfrangalhado e sórdido: frutos da doença. Antes de morrer pediu-me que lhe escrevesse; que lhe desse particularmente esta notícia, e muitos agradecimentos; que o resto se faria, segundo as praxes do foro."

Os agradecimentos fizeram empalidecer o professor; mas as praxes do foro restituíram-lhe o sangue às faces. Rubião fechou a carta sem dizer nada; o agente falou de uma cousa e outra, depois saiu.

Rubião ordenou a um escravo que levasse o cachorro à comadre Angélica, dizendo-lhe que, como gostava muito de bichos, lá ia mais um; que o tratasse bem, porque o dono o acostumara a isso; disse também ao escravo que lhe desse notícia da morte do Quincas Borba.


 

XIV



Nunca uma noiva assistiu aos preliminares do casamento tão trêmula e medrosa como o nosso Rubião assistiu dali a dias, depois de feitas todas as diligências judiciais, à abertura do testamento. Não era testamento, era o mármore de La Fontaine: sera-t-il dieu, table ou cuvette? Tal era a pergunta silenciosa que fazia a alma do professor. Cuvette que fosse, era um pedaço de artista. E ele olhava e ouvia as primeiras palavras sacramentais do papel, impaciente de ouvir o seu nome... Cá está o nome...

Rubião quase caiu para trás. Ele, o Rubião, era nomeado herdeiro universal dos bens do Quincas Borba. O escrivão leu muito espevitadamente esse pedaço: herdeiro universal dos bens, com uma só clausula, com a cláusula de ter consigo o cão, e cuidar dele até à morte.

(Continua.)

15 de agosto de 1886 1, nº 15




XIV

(Continuação)

Não era bem assim, era mais explicada a cláusula. Depois de dizer que ficava por seu universal herdeiro o seu particular amigo Rubião José de Castro, e de especificar os bens que deixava, casas de morada na corte, uma em Barbacena, apólices, ações do Banco do Brasil e de várias companhias, escravos, etc. estabelecia o testador que, para a herança havia uma condição fundamental, a de guardar o herdeiro consigo o seu pobre cachorro Quincas Borba, nome que lhe dera por motivo da grande afeição que lhe tinha. Exigia do dito Rubião que o tratasse como se fosse a ele próprio testador, nada poupando em seu benefício, resguardando-o de moléstias, de fugas, de roubo ou de morte que lhe fosse dada por maldade; cuidar finalmente como se cão não fosse, mas pessoa humana. Item, impunha-lhe a condição, quando morresse o cachorro, de lhe dar sepultura decente em terreno próprio, que cobriria de flores e plantas cheirosas; e mais desenterraria os ossos do dito cachorro, quando fosse tempo idôneo, e os recolheria a uma urna de madeira preciosa para depositá-los no lugar mais honrado da casa.


 

XV



Aí tem a cláusula inteira. Não a queria dar por medo de aborrecer o leitor nem a leitora, pessoas principais em tudo isto, e às quais não desejo mais que saúde e tempo. Aí tem a cláusula. Que é esquisita, não há dúvida; mas eu não hei de inventar um testamento nem mentir à minha historia só pelo gosto de pôr aqui uma cláusula vulgar. Toda a questão é que o herdeiro não a achasse humilhante.

Não a achou; achou-a natural, embora nos primeiros minutos, só pensasse claramente na herança. Espreitara, pedira aos céus um legado, e sai-lhe do testamento a massa toda dos bens. Rubião não quis crer; foi preciso que algumas pessoas o cumprimentassem e lhe apertassem muito as mãos, com força, - com a força dos parabéns - para que acabasse crendo que era herdeiro universal.

- Sim, senhor, lavre um tento, dizia-lhe o dono da farmácia que ministrara os remédios ao Quincas Borba.

Herdeiro já era muito; mas universal... Esta palavra como que inchava as bochechas à herança. Herdeiro de tudo, nem uma colherinha de menos... E quanto seria tudo? ia ele pensando. Casas, apólices, ações, escravos, roupas, louça, alguns quadros, que ele teria na Corte, porque era homem de muito gosto... Falava de cousas de arte com grande saber. E livros? devia ter muitos livros, citava muitos deles... Mas em quanto andaria tudo? Cem contos? Talvez duzentos. Era possível; trezentos mesmo não havia que admirar. Trezentos contos! trezentos! E o Rubião tinha ímpetos de dançar na rua. Depois aquietava-se; duzentos que fossem, ou cem, era um sonho que Deus Nosso Senhor lhe dava, mas um sonho comprido, para não acabar mais...

Aqui a ideia do cachorro pôde tomar pé no torvelinho de ideias que iam pela cabeça do nosso homem. Rubião achava que a cláusula era natural, mas desnecessária, porque ele e o cão eram dous amigos e nada mais curial que ficarem juntos, para lembrar o terceiro amigo, o extinto, o autor da felicidade de ambos... Havia, é certo, umas particularidades na cláusula, uma história de urna, e não sabia que mais; mas tudo se havia de cumprir, ainda que o céu viesse abaixo... Não, com a ajuda de Deus, emendava ele. Bom cachorro! excelente cachorro!

Tudo se baralhava na cabeça do Rubião, - e, no meio de tudo, este grave problema, se iria viver na Corte, ou se ficaria em Barbacena. A ideia de ficar não era má; dava-lhe umas cócegas de brilhar onde escurecia, de quebrar a castanha na boca aos que se riam dele; mas a Corte, que ele conhecia, com os seus atrativos, movimento, teatros em toda a parte, mulheres na rua, muitas, com vestidos de francesa... Nada; iria para a Corte; estava cansado de viver escondido.


 

XVI



- Quincas Borba! Quincas Borba! eh! Quincas Borba! bradou ele entrando em casa.

Nada de Quincas Borba. Só então é que ele se lembrou de havê-lo mandado dar à comadre Angélica. Correu à casa da comadre, que era longe da cidade. De caminho acudiram-lhe todas as ideias feias à cabeça, algumas extraordinárias. Uma ideia feia, é que o cão tivesse fugido. Outra extraordinária é que algum inimigo, sabedor da cláusula e do presente, fosse ter com a comadre, e roubasse o cachorro, e o escondesse ou matasse. Neste caso a herança... Passou-lhe uma nuvem pelos olhos; depois começou a ver mais claro.

- Não conheço negócios de justiça, pensava ele, mas parece que não tenho nada com isso. A cláusula supõe o cão vivo ou em casa; mas se ele fugiu ou morreu... Não se há de inventar um cão; logo a intenção principal... Mas são capazes de fazer chicana... os meus inimigos... Não cumprida a cláusula...

Aqui a testa e as costas das mãos do nosso homem ficaram em água. Outra nuvem... E o coração batendo-lhe rápido, rápido... A cláusula começava a parecer-lhe extravagante... Pois agora um cachorro? Desse o defunto todo seu dinheiro a quem quisesse, mais obrigar a gente a cousas esquisitas... Era isso; era o caiporismo; quando o mal parecia extinto, lá vinha a ponta do rabo do diabo. Rubião pedia a Deus, prometia missas, dez missas... Mas lá estava a casa da comadre.... Rubião picou o passo, viu a própria comadre... Era ela? era, era ela, encostada à porta e rindo.

- Que figura que o senhor vem fazendo, meu compadre, disse ela ainda de longe. Meio tonto, jogando com os braços.


 

XVII



A comadre era muito feia. Peço desculpa de ser tão feia a primeira mulher que aqui aparece; mas as bonitas hão de vir. Creio até que já estão nos bastidores, impacientes de entrar em cena. Sossegai, muchachas! Não me façais cair a peça. Aqui vireis todas, em tempo idôneo... Deixai a comadre que é feia, muito feia.


 

XVIII



- Sinhá comadre, o cachorro? perguntou Rubião com indiferença, mas pálido.

- Entre, e sente-se, respondeu ela oferecendo-lhe um banco. Que cachorro?

- Que cachorro? tornou Rubião cada vez mais pálido. O que lhe mandei. Pois não se lembra que lhe mandei um cachorro para ficar aqui alguns dias, descansando a ver se... em suma, um animal de muita estimação... Não é meu... Veio para ... Mas não se lembra?

- Ah! não me fale nesse bicho! respondeu ela precipitando as palavras.

Era pequena, tremia por qualquer cousa, e quando se apaixonava, engrossavam-lhe as veias do pescoço. Repetiu que lhe não falasse do bicho.

- Mas que lhe fez ele, sinhá comadre?

- Que me fez? Que é que me faria o pobre animal? Não come nada, não bebe, chora que parece gente, e anda só com o olho para fora, a ver se foge...

Rubião respirou. Ela continuou a dizer as melancolias do bicho; falava com tais ternuras que (Deus me perdoe!) que até parecia bonita. Rubião, ansioso, queria ir vê-lo. Onde estava?

- Está lá no fundo, no cercado grande; está só para que os outros não bulam com ele. Mas o meu compadre vem buscá-lo? Não foi isso o que me disseram. Pareceu-me ouvir que era para mim, que era dado...

- Daria cinco ou seis, se pudesse, respondeu Rubião com ar contrito. Este não posso; sou apenas depositário. Mas deixe estar, prometo-lhe um filho. Há uma cadelinha que veio de Inglaterra... Creia que o recado veio torto.

Rubião ia mentindo e andando; e a comadre, em vez de o guiar, acompanhava-o. Lá estava o cão, dentro do cercado, deitado à distância de um alguidar de comida. Cães, gatos, saltavam de todos os lados, cá fora; a um lado havia um galinheiro, mais longe porcos, e ali perto um bonito pavão, que era o feitiço da comadre.

- Olhe o meu pavão! dizia ela ao compadre.

- Rubião tinha os olhos no cercado. O cão ouvindo passos, deu um salto, e veio à cerca farejar; logo que o nosso homem lhe pôs a mão e falou, houve uma explosão de prazer, de delírio. Rubião entrou no cercado, e então é que foi uma cena de comover a feia Angélica. Ela, do lado de fora, olhava enternecida, tão enternecida que não podia falar. Quando eles saíram do cercado, ela ainda fez ao cachorro alguns carinhos; ele correspondeu-lhe, mas pouco, rápido, toda a sua felicidade estava agora no Rubião. Perdera um Deus, aqui estava outro Deus.

(Continua.)




31 de agosto de 1886, nº 16


 

XIX



Passemos o inventário, passemos a estrada de ferro, passemos alguns meses.


 

XX



Aqui está o nosso Rubião no Rio de Janeiro. Vês aquela figura de pé, com os polegares metidos no cordão atado do chambre, à janela de uma linda casa da praia de Botafogo? É o nosso homem. Olha para a enseada; faz consigo a reflexão de que se todo o mar fosse assim era um espelho. Depois lança os olhos pela praia, de uma ponta a outra; a casa dele fica mais ou menos no centro. Não conhece nada tão bonito: uma ordem circular de casas e jardins, diante de uma bacia de água quieta, montanha ao fundo, como um pano de teatro.

- Teatro... teatro... murmura ele, aqui se podia representar muito bem um idílio piscatório. Saltam-lhe da cabeça dous ou três versos de um idílio de Bocage, e ele recita-os, mas quase que sem atender ao que diz, porque o momento em que o nosso Rubião se acha é daqueles em que a alma, não se podendo conter em si mesma, derrama-se nas cousas externas, vagamente, como os olhos, em certas ocasiões, olham sem ver. De quando em quando rufa com os quatro dedos na barriga, costume que aprendeu com um dos hóspedes da Hospedaria União, onde esteve logo que chegou de Barbacena.

Afinal elevam-se-lhe as reflexões; a alma pode meditar sobre si mesma. Há um ano que era ele? Professor. Que é ele agora? Proprietário. Não há duvida que tem saudades de Minas, da boa terra natal, dos seus costumes, dos seus dias de criança, rapaz e homem, e jura que lá irá em breve, uma e mais vezes. Mas não se trata de comparar terra com terra; trata-se de saltar do professor ao proprietário... Rubião olha para si, para a casa, para as chinelas (umas chinelas de Túnis, que lhe deu um recente amigo, Cristiano Palha), para o jardim da frente, para a enseada, para a montanha e para o céu, e tudo, desde as chinelas até o céu, tudo entra na mesma sensação de propriedade.

- Vejam como Deus escreve direito por linhas tortas, pensa ele. Se tenho casado a mana Marica como o Quincas Borba, apenas alcançaria uma esperança colateral. Não os casei; ambos morreram, e aqui está tudo comigo; de modo que o que parecia uma desgraça...


 

XXI



Aqui o pensamento parou, vexado de tanto egoísmo; parou, recuou, e foi de uma cousa a outra cousa muito diferente; mas o coração, educado nos mesmos princípios, não o acompanhou na diversão, e deixou-se estar a bater de alegria. Que lhe importa o cavalo que ali passa na praia nem o cavaleiro que o monta, e que os olhos do Rubião acompanham com interesse, arregalados? Ele, coração, vai dizendo que foi muito bom que, uma vez que a mana Marica tinha de morrer, não se realizasse o consórcio; podia vir um filho ou uma filha... - Bonito cavalo! Antes assim! - Cabeça levantada, dando às crinas... - O certo é que ela está no céu.

E o pensamento e o coração do homem, não podendo entender-se, cuidaram de ver assunto que os reunisse, e foram direitinhos ao colo da bela Sofia...


 

XXII



Não era fácil; tinham de galgar o espaço que ia dali ao morro de Sta. Teresa, mas subiram depressa, chegaram à porta do jardim; lá estava o belo colo, coberto por um xale, com uma cabeça engraçada por cima, e repousando sobre um corpo airoso e delicado. Pode ser que nem tudo fosse exatamente assim, mas a realidade acomodava-se do estilo, e demais (que é o que importa) essa era, e não outra a impressão do homem. Os olhos entraram desvairados, foram à dama, e rasgaram-lhe o xale, enquanto o coração ia batendo a marselhesa do amor:

Liberté, liberté chérie!

Toda essa batalha mental e cordial foi interrompida pelo café, Rubião voltou-se e pegou na xícara que o criado lhe trazia. Enquanto punha açúcar e mexia o café, ia disfarçadamente mirando a bandeja, que era de prata lavrada, cousa muito galante. Prata, ouro, eram os metais que amava de coração; não gostava do bronze, mas o amigo Palha disse-lhe que era matéria de preço, e assim se explica este par de figuras que aqui está na sala, um D. Quixote, e um Fausto. Tivesse, porém, de escolher, escolhia a bandeja, - primor de argentaria, execução fina e acabada.

as asas da bandeja estão enfiadas nos dedos do criado, teso, sério, suíças pretas, toda a mais cara rapada. É espanhol; e não foi sem resistência que o Rubião o aceitou das mãos de Cristiano; por mais que lhe dissesse que estava acostumado aos seus crioulos de Minas, e que não queria línguas estrangeiras em casa, o amigo Palha insistiu, e demonstrou-lhe a necessidade de ter criados brancos. Rubião cedeu com pena. O seu bom pagem, que ele queria pôr na sala, como um pedaço da província, nem o pôde deixar na cozinha, onde reinava um francês, Jean; foi degradado a outros serviços.

- Quincas Borba está muito impaciente? perguntou Rubião bebendo o último gole de café, e lançando um último olhar à bandeja.

- Me parece que si.

- Lá vou.

(Continua.)

15 de setembro de 1886, nº 17




XXII

(Continuação)

Não foi; deixou-se ficar, algum tempo, a olhar para os móveis, e as cortinas. Vendo as pequenas gravuras inglesas, que pendiam da parede por cima dos dous bronzes, Rubião pensou outra vez na bela Sofia, deu alguns passos, e foi sentar-se no pouf, ao centro da sala, olhando para longe... muito longe...

- Foi ela que me recomendou aqueles dous quadrinhos, quando andávamos os três, a ver cousas para comprar. Estava tão bonita! Mas o que eu mais gosto dela são os ombros, que vi no baile do coronel. Que ombros! Parecem de cera: tão lisos, tão brancos! Os braços também: oh! os braços! Não, nunca vi cousa assim.

Rubião suspirou, cruzou as pernas, e bateu com as borlas do chambre sobre os joelhos. Via que não era inteiramente feliz; mas via também que não estava longe a felicidade completa. Recompunha de cabeça uns modos, uns olhos, uns requebros sem explicação, a não ser esta, que ela o amava, e que o amava muito... Não era velho: ia fazer quarenta e quatro anos; e, rigorosamente, parecia menos. Esta ideia foi acompanhada de um gesto: passou a mão pela cara, barbeada todos os dias, cousa que não fazia dantes, por economia e desnecessidade. Um simples professor! Mas agora, aqui, no coração do império, era indispensável trazer a cara limpa. Usava suíças; e notou que elas eram macias, e que dava gosto passar os dedos por elas... Todos esses movimentos, ideias e memórias, esses e ainda outros, que omito por brevidade, eram todos como riachos que iam ter a um só rio, azul, sereno, profundo e misterioso.


 

XXIII



Não procureis esse rio em cartas geográficas. Nenhuma delas o dá; os mesmos livros calam-se a respeito de um curso d'água tão importante.

"Todos vós que tendes sede, vinde às águas" clama o profeta Isaías; e o nosso Rubião sentiu dentro de si esta exortação bíblica, logo que, pela primeira vez, deu com os olhos na água convidativa e pura. Não trazia ideias adequadas ao encontro; vinha de Minas com a herança na cabeça, o testamento, o inventário, uma comenda, cavalos, bonitos cavalos; mas ainda assim, não se pôde ter que não admirasse uma obra tão engraçada, águas claras, margens verdes, curso sinuoso, sem cachoeiras, nem nada.


 

XXIV



Foi na estação de Vassouras; foi aí que Sofia entrou no trem de ferro, vindo daquela cidade, aonde fora passar uma semana. Vinha com o marido, Cristiano de Almeida e Palha, - um rapagão de trinta e dous anos; ela não passaria de vinte e sete. Pouca gente no carro; e toda ela carrancuda ou aborrecida. Rubião era o único rosto alegre e plácido. Tal foi o primeiro encontro. No fim de poucos minutos, Rubião e Cristiano conversavam de várias cousas, lavoura, gado, estrada de ferro, que o Palha execrava, um pouco de política. Cristiano foi o primeiro que rompeu o silêncio; Rubião, que não desejava outra cousa, acompanhou-o francamente, largamente, opinando isto, aquilo. Sofia, à esquerda do marido (Rubião ficava à direita), inclinava-se às vezes para ouvir alguma cousa.

- Vem ficar na Corte ou volta para Barbacena? perguntou o Palha no fim de três quartos de hora de conversação.

- Creio que fico, acudiu Rubião; estou cansado da província; quero agora gozar a vida. Pode ser até que vá à Europa, não sei ainda.

Os olhos de Cristiano brilharam instantaneamente.

- Faz muito bem, disse ele; eu faria o mesmo se pudesse; por agora, ao menos, não posso. Provavelmente, já lá fou?

- Eu? Qual!

- Dizem que há muita cousa esplêndida; não admira, são mais velhos que nós. Mas lá chegaremos no que nos falta, porque em outras estamos a par deles e até acima. A nossa Corte, por exemplo, não digo que possa competir com Paris ou Londres, ou outras assim, mas tem muita cousa boa...

Rubião ouvia atento e risonho, agradecido das atenções de um homem que ele nunca vira antes. Estava morto por lhe dizer o motivo que o trazia à Corte; mas se o outro tinha algum desejo de o saber, não revelava nada; ia sempre falando de cousas gerais, que a mulher sublinhava com os bonitos olhos que Deus lhe dera. Afinal, Rubião confessou que não iria à Europa ainda naqueles primeiros meses.

- Não?

- Não posso; tenho de cuidar primeiro de um inventário. Que quer? Tive um amigo que se lembrou de fazer-me seu herdeiro universal.

- Sim?

- Universal.

- Verdadeiro amigo!

- Não imagina. E que cabeça profunda! que saber! Viveu doente nos últimos tempos, donde lhe veio alguma impertinência, alguns caprichos... Sabe, não? Homem rico e doente, de mais a mais solteirão, tem exigências, tem cousas... Mas, o coração era de ouro. Herdeiro universal; é por isso que venho à Corte, e provavelmente ficarei por cá.

Aqui os olhos do Palha não faiscaram, refletiam profundamente. Rubião metera-se por um mato cerrado, onde lhe cantavam todos os passarinhos da fortuna; regalava-se em falar da herança; não sabia ainda a soma total, mas podia calcular por longe...

- O melhor é não calcular nada, atalhou Cristiano. E, outra cousa, se me permite que lhe dê um conselho, atrevo-me; creio que é o melhor que pode ouvir, e nasce da natural simpatia que me inspirou.

- Diga...

- Não exponha o seu caso a pessoas estranhas; fê-lo a mim, mas não o faça a outros; pode dar com algum espertalhão, que o prejudique em alguma cousa... Lisonjeia-me ter-lhe inspirado a mesma simpatia; a confiança é recíproca; mas confiança e simpatia nem sempre andam juntas.

Vieram assim falando até à estação da Corte, satisfeitos um do outro, quase familiares. O casal Palha ofereceu ao ex-professor a sua casa de Sta. Teresa; este disse-lhe que ia para a Hospedaria União, e prometeram visitar-se.


 

XXV



Vinte e quatro horas depois, estava Rubião ansioso por ter ao pé de si o recente amigo do trem de ferro, e determinou ir a Sta. Teresa no dia seguinte à tarde; mas foi o próprio Palha que o procurou, de manhã, na Hospedaria. Ia cumprimentá-lo, ver se estava bem ali, ou se preferia a casa dele, que ficava no alto. Rubião agradeceu cordialmente, mas não aceitou a casa, iria lá para vê-los, isso sim: aceitou, entretanto, o advogado, um parente do Palha, que este lhe indicou, como um dos primeiros da Corte, apesar de muito moço.

- É aproveitá-lo, acrescentou rindo, é aproveitá-lo, enquanto ele não se faz pagar a nomeada.

Rubião apertou-lhe as mãos agradecido, e acompanhou-o ao escritório do advogado, apesar dos protestos do cão, que queria ir também, ou retê-los no quarto. O advogado era realmente moço, chamava-se Monteiro, e recebeu-os com afabilidade; ali ajustaram tudo. De tarde foi Rubião jantar a Sta. Teresa, quase à força, e ainda bem que houve força; não podia passar melhor as horas, não se recordava sequer de as haver tido tão excelsas, tão novas. Sofia era, em casa, ainda muito melhor que no trem de ferro. Lá usava a capa, embora tivesse os olhos descobertos; cá trazia à vista os olhos e o corpo, elegantemente apertado em um vestido de cambraia, mostrando as mãos que eram bonitas, e um princípio de braço. Demais, aqui era a dona da casa, falava mais, desfazia-se em obséquios; Rubião desceu de lá meio tonto.

(Continua.)




30 de setembro de 1886, nº 18


 

XXVI



Jantou lá muitas vezes. Era tímido e honesto; demais, a frequência atenuou o alvoroço dos primeiros dias. Mas lá ficou sempre, guardado e mal guardado, certo fogo particular, que ele não podia extinguir. Enquanto durou o inventário, e principalmente a denúncia dada por alguém contra o testamento, alegando que o Quincas Borba, por manifesta demência, não podia testar, o nosso Rubião distraiu-se. A denúncia fê-lo chegar ao terror. Uma das razões do denunciante era a cláusula do cão, que não se podia admitir, disse ele, sem reconhecer que o homem era doudo, a não estarem doudos os que tinham semelhante papel por válido. Cristiano animava o amigo; dizia-lhe que o advogado dispunha de saber e capacidade para destruir aquele obstáculo e outros ainda maiores. Era moço de muito talento, dedicado, arguto, e um dos primeiros... um dos primeiros...

Certo é que a denúncia foi destruída e o inventário caminhou rapidamente para a conclusão. Uma vez concluso, a alma de Rubião readquiriu o seu império. Já estava tão afeiçoado à ideia de propriedade, que a posse real dos bens não lhe sacudiu muito os nervos. Palha festejou o acontecimento com um jantar em que tomaram parte, além dos três, o advogado, o procurador e o escrivão. Sofia tinha nesse dia os mais belos olhos do mundo.

- Parece que ela os compra em alguma fábrica misteriosa, pensou ele, nunca os vi como hoje.

Seguiu-se a mudança para a casa de Botafogo, uma das herdadas; foi preciso alfaiá-la, e ainda aqui o amigo Palha prestou grandes serviços ao Rubião, guiando-o com o gosto, com a notícia, acompanhando-o às lojas e leilões. Às vezes, como já sabemos, iam os três; porque há cousas, dizia graciosamente Sofia, que só uma senhora escolhe bem.


 

XXVII



Tudo isso passava agora pela cabeça do Rubião, depois do café, sentado no pouf, olhando para longe... muito longe... Afinal, lembrou-se de ir ver o Quincas Borba, e soltá-lo... Levantou-se e foi ao jardim, ao fundo.


 

XXVIII



Conheci uma andorinha que definia assim o telégrafo elétrico:

- É um fio de arame estendido sobre postes de madeira para uso exclusivo das andorinhas, quando elas querem repousar um pouco.

Raciocínio de asas cansadas? Não. Sentimento de criatura, que subordina tudo aos seus sentimentos específicos. Digo isto para que vejam bem o que é o egoísmo da espécie. Tratamos de tudo o que se passou nos últimos meses, menos deste cão, origem e cláusula da herança do nosso herói. Verdade é que a história dele, durante esse prazo, é obscura, confusa, misturada de carinhos e pontapés. Rubião recomendava-o aos criados da Hospedaria, dava a estes alguma molhadura; mas a paciência dos criados tem um limite, e a dignidade humana não pode ajustar-se muito tempo ao serviço canino: daí os pontapés.

Mas pontapé era o menos: o que ele mais sentia eram as ausências longas do Rubião; de noite, não dormia enquanto ele não voltava, para recebê-lo, como nenhuma mulher amada recebe o seu noivo... Agora, por exemplo, no jardim quando Rubião desceu e abriu-lhe a porta, que alegria! que entusiasmo! que saltos em volta do amo! Chega a lamber-lhe a mão de contente, mas Rubião dá-lhe um tabefe, que lhe dói; ele recua um pouco, triste, com a cauda entre as pernas; porém o senhor, dá um estalinho com os dedos, e ei-lo que volta novamente com a mesma alegria.

- Sossega! sossega! brada-lhe Rubião andando e pensando em outra cousa .

(Continua.)




15 de outubro de 1886, nº 19


XXVIII

(Continuação)

Quincas Borba vai atrás dele, pelo jardim fora, contorna a casa, ora andando, ora aos saltos. Saboreia a liberdade, mas não perde o amo de vista. Aqui fareja, ali para a coçar uma orelha, acolá, com os dentes, pesquisa uma pulga na barriga, mas de um salto galga o espaço e o tempo perdido, e cose-se outra vez com os calcanhares do senhor. Parece-lhe que Rubião não pensa em outra cousa, que anda agora de um lado para outro justamente para fazê-lo andar também, e recuperar o tempo em que esteve preso na casinha de pau e grades. Quando Rubião estaca, ele olha para cima, esperando; naturalmente, cuida dele; é alguma ideia, algum projeto, ir com ele fora, ou cousa assim agradável. Não lhe lembra nunca a possibilidade de um pontapé ou de um tabefe. Tem o sentimento da confiança, e muito curta a memória das pancadas. Ao contrário, os afagos ficam-lhe impressos e fixos, por mais distraídos que sejam. Ama ser amado. Contenta-se de crer que o é.

A vida ali não é completamente boa nem completamente má. Há um moleque que o lava todas as manhãs em água fria, usança do diabo, a que ele se não acostuma. Jean, o cozinheiro, gosta dele, - o criado espanhol não gosta nada. Rubião passa muitas horas fora de casa; mas não o trata mal, e consente que ele vá acima, que assista ao almoço e ao jantar, que o acompanhe à sala ou ao gabinete. Brinca às vezes com ele; fá-lo pular. Se chegam visitas de alguma cerimônia, manda levá-lo para dentro ou para baixo, e, resistindo ele sempre, o espanhol toma-o a princípio com muita delicadeza, mas vinga-se daí a pouco, arrastando-o por uma orelha ou por uma perna, atira-o ao longe, e fecha-lhe todas as comunicações com a casa:

- Perro del infierno!

Machucado, separado do amigo, Quincas Borba vai então deitar-se a um canto, e fica ali muito tempo, calado; agita-se um pouco, até que acha posição definitiva, e cerra os olhos. Não dorme, recolhe as ideias, combina, relembra; a figura vaga do finado amigo passa-lhe ao longe, muito longe, aos pedaços, depois mistura-se à do amigo atual, e parecem ambas uma só pessoa; depois outras ideias...

Mas já são muitas ideias, - são ideias demais; em todo caso são ideias de cachorro, poeira de ideias, - menos ainda que poeira, explicará o leitor. Mas a verdade é que este olho que se abre de quando em quando para fixar o espaço, tão expressivamente, parece traduzir alguma cousa, que brilha lá dentro, lá muito, muito ao fundo de outra cousa que não sei como diga, para exprimir uma parte canina, que não é a cauda nem as orelhas. Pobre língua humana!

Afinal adormece. Então as imagens da vida brincam nele, em sonho, vagas, recentes, farrapos daqui, remendo dali. Quando acorda, esqueceu o mal; tem em si uma expressão, que não digo seja melancolia, para não agravar o leitor. Diz-se de uma paisagem que é melancólica, mas não se diz igual cousa de um cão. A razão não pode ser outra senão que a melancolia da paisagem é de nós mesmos, é a sensação que esta nos traz por certas combinações de forma e de cor, enquanto que atribuí-la ao cão é deixá-la fora de nós. Seja tristeza, porque também a coruja é triste. Seja o que for, é alguma cousa que não é a alegria de há pouco; mas venha um assobio do cozinheiro, ou um gesto do senhor, e lá vai tudo embora, como este sol da manhã em que escrevo, depois de três dias de chuva aborrecível.


 

XXIX



Rubião passou o resto da manhã alegremente. Era domingo; dous amigos vieram almoçar com ele, um rapaz de vinte e quatro anos, que roía as primeiras aparas dos bens da mãe, e um homem de quarenta e quatro ou quarenta e seis, que já não tinha que roer.

Carlos Maria chamava-se o primeiro, Freitas o segundo. Rubião gostava de ambos, mas diferentemente; não era só a idade que o ligava mais ao Freitas, era também a índole deste homem. Freitas elogiava tudo, saudava cada prato e cada vinho com uma frase particular, delicada, e saía de lá com as algibeiras cheias de charutos, provando assim que os preferia a quaisquer outros. Tinha-lhe sido apresentado em certo armazém da rua Municipal, onde jantaram uma vez juntos. Contaram-lhe ali a história do homem, a sua boa e má fortuna, mas não entraram em particularidades. Rubião torceu o nariz; era naturalmente algum náufrago, cuja familiaridade não lhe traria nenhum prazer pessoal nem consideração pública. Mas o Freitas atenuou logo, à mesa, essa primeira impressão; era vivo, interessante, anedótico, alegre como um homem que tivesse cinquenta contos de renda. Como Rubião falasse das bonitas rosas que possuía, ele pediu-lhe licença para ir vê-las: era doudo por flores. Poucos dias depois apareceu lá, ia ver as belas rosas, eram poucos minutos, não se incomodasse o Rubião com ele, se tinha que fazer. Rubião, ao contrário, gostou de ver que o homem não se esquecera da conversação, desceu ao jardim onde ele ficara esperando, e foi mostrar-lhe as rosas. Freitas achou-as admiráveis; examinava-as com tal afinco que era preciso arrancá-lo de uma roseira para levá-lo a outra. Sabia o nome de todas, e ia apontando muitas espécies que o Rubião não tinha nem conhecia, - apontando e descrevendo, assim e assim, deste tamanho (indicava o tamanho abrindo e arredondando o dedo polegar e o índex), e depois dizia às pessoas que ele sabia possuírem magníficos exemplares. Mas as do Rubião eram das melhores espécies; esta, por exemplo, era rara, e aquela também, etc. O jardineiro ouvia-o com espanto. Tudo examinado, disse Rubião:

- Venha tomar alguma cousa. Que há de ser?

Freitas contentou-se com qualquer cousa. Subiram; Freitas achou a casa muito bem posta. Examinou os bronzes, os quadros, os bibelots, olhou para o mar.

- Sim, senhor! disse ele, o senhor vive como um príncipe.

Rubião sorriu; príncipe, ainda por comparação, é palavra que se ouve bem. Veio o criado espanhol com a bandeja de prata, vários licores, e cálices; e foi um bom momento para o Rubião. Ofereceu-lhe ele mesmo, este ou aquele licor; recomendou-lhe afinal um que lhe deram como superior a tudo que, em tal ramo, poderia existir no mercado. Freitas sorriu incrédulo.

- Talvez seja encarecimento, disse ele; olhe que eu conheço estas cousas como as palmas de minhas mãos.

Tomou o primeiro trago, saboreou-o devagar, depois segundo e afinal tudo. No fim, pasmado, confessou que era um primor; nunca bebera igual. Mas quem foi que lhe deu isto? Rubião explicou tudo, longamente, a pessoa, as circunstâncias. Freitas pediu outro cálice; e desta vez declarou que era sublime.

Não tardou muito que os dous se tornassem familiares; Freitas vai ali frequentemente, às vezes almoçar ou jantar, e o Rubião gosta dele, dos seus modos "expansivos e francos".

(Continua.)




31 de outubro de 1886, nº 20


 

XXX



"Expansivos e francos!" Imaginai o avesso disso, e tereis Carlos Maria; mas é o que a preguiça do leitor lhe não consente; ela quer que se lhe ponha aqui no papel a cara do homem, toda a cara, a pessoa inteira, e não há fugir-lhe.

De mim digo que sou totalmente outro: arrenego de um autor que me diz tudo, que me não deixa colaborar no livro, com a minha própria imaginação. A melhor página não é só a que se relê, é também a que a gente completa de si para si. Três linhas de Pascal dão cinco a oito minutos de reflexão. Vede aqui, por exemplo, certa ideia que sai do papel para a cabeça, entra na cabeça, e de manso acorda outra ideia, fala-lhe, a conversação das duas desperta outra, as três mais outras, e aí ficam dez ou doze, em boa, longa e familiar palestra.


 

XXXI(i)



Eia, faze um esforço, leitor amado. Já te disse que este Carlos Maria é o avesso do Freitas, e se o outro tem os modos "expansivos e francos", - no bom sentido laudatório, - claro é que ele os tem contrários. assim, não te custará nada vê-lo entrar na sala, lento, frio e superior, ser apresentado ao Freitas, e estender-lhe a mão, olhando para outra parte. Freitas, que já o mandou cordialmente ao diabo, por causa da demora (é perto do meio dia), corteja-o agora rasgadamente, com grandes aleluias íntimas.

Também podes ver por ti mesmo que o nosso Rubião, se gosta mais do Freitas, tem o outro em maior consideração; esperou-o até agora, e esperá-lo-ia até amanhã. Carlos Maria é que não tem consideração a nenhum deles. Examinai-o bem; é um galhardo rapaz de olhos grandes e plácidos, muito senhor de si, e ainda mais senhor dos outros. Olha direito; não tem o riso jovial, mas escarninho. Agora, ao sentar-se à mesa, ao pegar no talher, ao abrir o guardanapo, em tudo se vê que ele está fazendo um insigne favor ao dono da casa, - talvez dous, - o de lhe comer o almoço, e o de lhe não chamar patinho.

E, mau grado essa disparidade de caracteres, o almoço foi alegre. Freitas devorava, com alguma pausa, é certo, - e, confessando a si mesmo que o almoço, se tivesse vindo à hora marcada (onze) talvez não trouxesse o mesmo sabor. Agora orçava pelos primeiros bocados que acodem à fome do náufrago. Ao cabo de uns dez minutos, pôde começar a falar; e falou como de costume, cheio de riso, multiplicando-se em gestos e olhares, desfiando um rosário de ditos agudos e anedotas picarescas. Carlos Maria ouviu a maior parte deles com seriedade, para humilhá-lo, a ponto que o Rubião, que realmente achava graça no Freitas, já não ousava rir. Para o fim do almoço, Carlos Maria afrouxou um tanto a gravata do espírito, expandiu-se, referiu algumas aventuras amorosas de outros; Freitas, para lisonjeá-lo, pediu-lhe uma ou duas dele mesmo. Carlos Maria estourou de riso.

- Que papel quer o senhor que eu faça? disse ele.

Freitas explicou-se; não era uma apologia, eram fatos, pedia-lhe fatos; não havia inconveniente, nem ninguém era capaz de supor...

- O senhor dá-se bem com a residência aqui em Botafogo? perguntou Carlos Maria ao dono da casa.

Freitas, interrompido, mordeu os beiços, e, pela segunda vez, mandou o moço ao diabo. Colou-se ao espaldar, teso, grave, olhando para um painel da parede. Rubião respondeu que se dava bem, que a praia era linda.

- A vista é bonita, mas nunca pude tolerar o mau cheiro que há aqui, em certas ocasiões, disse Carlos Maria. Que lhe parece? continuou voltando-se para o Freitas.

Freitas desencostou-se, e disse tudo o que pensava, que um e outro podiam ter razão; - mas insistiu em que a praia, a despeito de tudo, era magnífica; falou sem amuo, nem vexame; fez até o obséquio de chamar a atenção do Carlos Maria para um pedacinho de fruta que lhe ficara na ponta do bigode.

Chegaram ao fim, era pouco mais de uma hora. Rubião, calado, recompunha mentalmente o almoço, prato a prato, via com gosto os copos e os seus resíduos de vinho, as migalhas esparsas, o aspecto final da mesa, em vésperas de café. De quando em quando dava um olhar à casaca do criado. Chegou a apanhar o rosto de Carlos Maria em flagrante prazer, quando tirava as primeiras fumaças de um dos charutos que ele mandara distribuir. Nisto entrou o criado com uma cestinha coberta por um lenço de cambraia, e uma carta, que acabavam de trazer.


 

XXXII(i)



- Quem é que manda isto? perguntou Rubião.

- D. Sofia.

Rubião não conhecia a letra; era a primeira vez que ela lhe escrevia. Que podia ser? Via-se-lhe a comoção no rosto e nos dedos. Enquanto ele abria a carta, Freitas familiarmente descobria a cestinha: eram morangos. Rubião leu trêmulo estas linhas:



"Mando-lhe estas frutinhas para o almoço, se chegarem a tempo; e, por ordem do Cristiano, fica intimado a vir jantar conosco, hoje, sem falta. Sua verdadeira amiga

SOFIA"

- Que frutas são? perguntou Rubião fechando a carta.

- Morangos.

- Chegaram tarde. Morangos? repetiu ele sem saber o que dizia.

- Não é preciso corar, meu caro amigo, disse-lhe rindo o Freitas, logo que o criado saiu. Estas cousas acontecem a quem ama...

- A quem ama? repetiu Rubião corando deveras. Mas, pode ler a carta, veja...

Ia mostrá-la; mas um sentimento de pudor e discrição levou-o a não dar o papel; fez só o gesto e meteu-o no bolso. Estava fora de si, meio confuso, meio alegre; Carlos Maria deleitou-se em dizer-lhe que ele não podia encobrir que o mimo era de alguma namorada. E não achava que censurar-lhe; o amor era a lei universal: se era alguma senhora casada, louvava-lhe a discrição...

- Mas pelo amor de Deus! interrompeu o anfitrião.

- Viúva? Estamos no mesmo caso, continuou Carlos Maria; a discrição aqui é ainda um merecimento. O maior pecado, depois do pecado, é a publicação do pecado. Eu, se fosse legislador, propunha que se queimassem todos os homens convencidos de indiscrição nestas matérias; e haviam de ir para a fogueira, como os réus da Inquisição, com a diferença que, em vez de sambenito, levariam uma capa de penas de papagaio...

Freitas não podia ter-se com riso, e batia na mesa, à laia de aplauso; Rubião, meio enfiado, acudia que não era casada nem viúva...

- Solteira então? replicou o moço. Um casório em breve? Vá, que é tempo. Morangos de noivado, continuou pegando alguns entre os dedos. Cheiram a alcova de donzela e a latim de padre.

Rubião não sabia mais que dissesse; afinal tornou atrás e explicou-se; eram da senhora de um seu amigo particular. Carlos Maria piscou o olho; Freitas interveio dizendo que, agora, sim, senhor, estava explicado; mas que, a princípio, o mistério, o arranjo da cestinha, o ar dos próprios morangos, - morangos adúlteros, disse ele, rindo, - todas essas cousas davam ao negócio um aspecto imoral e pecaminoso; mas tudo ficara acabado.

Tomaram em silêncio o café; depois passaram à sala. Rubião desfazia-se em obséquios, mas preocupado. Corridos alguns minutos, estava satisfeito com a primeira suposição dos dous convivas; a de um amor adúltero; achou até que se defendera com demasiado calor. Uma vez que não dissesse o nome de ninguém, podia ter confessado que era, em verdade, um negócio intimo. Mas também podia acontecer que o próprio calor da negativa deixasse alguma dúvida no ânimo dos dous, alguma suspeita... Aqui sorriu consolado.

Carlos Maria consultou o relógio; eram duas horas, ia-se embora. Rubião agradeceu-lhe muito, muito o obséquio e pediu-lhe que repetisse; podiam passar alguns domingos assim em boa palestra amigável.

- Apoiado! bradou Freitas aproximando-se.

Tinha metido meia dúzia de charutos no bolso, e ao sair, disse ao ouvido do Rubião:

- Cá vai a lembrança do costume; seis dias de delícias, uma delícia por dia.

- Leve mais.

- Não; virei buscá-los depois.

Rubião acompanhou-os ao portão de ferro. Quincas Borba, logo que ouviu vozes, correu do fundo do jardim e veio saudá-los, particularmente ao senhor; fez festas a Carlos Maria, quis lamber-lhe a mão; o rapaz afastou-se com repugnância. Rubião deu um pontapé no cachorro, que o fez gritar e fugir. Afinal despediram-se todos.

- O senhor para onde vai? perguntou Carlos Maria ao Freitas.

Freitas calculou que ele iria a alguma visita para os lados de S. Clemente, e quis acompanhá-lo.

- Vou até o fim da praia, disse.

- Eu vou para a cidade, acudiu Carlos Maria estendendo-lhe a mão. Estimei conhecê-lo.

(Continua.)




15 de novembro de 1886, nº 21


 

XXXI (ii)



Rubião viu-os ir, entrou, meteu-se na sala, e ainda uma vez leu o bilhete de Sofia. Cada palavra dessa página inesperada era um mistério; a assinatura uma capitulação. Sofia apenas; nenhum outro nome da família ou do casal. Verdadeira amiga era evidentemente uma metáfora. Quanto às primeiras palavras: Mando-lhe estas frutinhas para o almoço respiravam a candidez de uma alma boa e generosa. Rubião viu, sentiu, palpou todas essas cousas pela única força do instinto, e deu por si beijando o papel, - digo mal, beijando o nome, o nome dado na pia de batismo, repetido pela mãe, entregue ao marido como parte da escritura moral do casamento, e agora roubado a todas essas origens e posses para lhe ser mandado a ele, no fim de uma folha de papel... Sofia! Sofia! Sofia!


 

XXXII(ii)



- Por que veio tão tarde? perguntou-lhe Sofia, logo que ele apareceu à porta do jardim, em Sta. Teresa.

- Depois do almoço, que acabou às duas horas, estive arranjando uns papéis. Mas não é tão tarde assim, continuou Rubião vendo o relógio; são quatro horas e meia.

- Sempre é tarde para os amigos, replicou Sofia em ar de censura.

Rubião caiu em si; mas não teve tempo para emendar a mão. Diante dele, ao pé da casa, estavam sentadas em bancos de ferro umas quatro senhoras, caladas, olhando para ele, curiosas; eram visitas de Sofia que esperavam a vinda de um capitalista Rubião. Já tinham ouvido falar dele. Sofia foi apresentá-lo a elas. Três delas eram casadas, uma solteira, ou mais que solteira. Contava trinta e nove anos, e uns olhos pretos, cansados de esperar. Era filha de um major Siqueira, que daí a alguns minutos apareceu no jardim.

- O nosso Palha já me tinha falado em Vossa Excelência, disse o major depois de apresentado ao Rubião. Juro que é seu amigo às direitas. Contou-me o acaso que os ligou. Geralmente, as melhores amizades são essas. Eu, em trinta e tantos, pouco antes da Maioridade, tive um amigo, o melhor dos meus amigos daquele tempo, que conheci assim por um acaso, na botica do Bernardes, por alcunha o João das pantorrilhas... Creio que usou delas, em rapaz, entre 1801 e 1812. O certo é que a alcunha ficou. A botica era na rua de S. José, ao desembocar na da Misericórdia... João das pantorrilhas... Sabe que era um modo de engrossar a perna... Bernardes era o nome dele, João Alves Bernardes... Tinha a botica na rua de S. José. Conversava-se ali muito, à tarde, e à noite. Ia a gente com o seu capote, e bengalão; alguns levavam lanterna. Eu não; levava só o meu capote... Ia-se de capote; o Bernardes, - João Alves Bernardes era o nome todo dele; era filho de Maricá, mas criou-se aqui no Rio de Janeiro... João das pantorrilhas era a alcunha; diziam que ele andara de pantorrilhas, em rapaz, e parece que foi um dos petimetres da cidade. Nunca me esqueci: João das pantorrilhas... Ia-se de capote...

A alma do Rubião bracejava no meio deste aguaceiro de palavras; mas, estava num beco sem saída por um lado, e de outro atravancado de carroças. Nenhuma porta aberta, nenhum corredor, e a chuva a cair. Se pudesse olhar para as moças viria, ao menos, que era objeto da curiosidade de todas, principalmente da filha do major, D. Tonica; mas não podia; escutava o major, e o major chovia a cântaros. Foi o Palha que lhe trouxe um guarda-chuva.

Sofia tinha ido dizer ao marido que o Rubião acabara de chegar; daí a nada estava o Palha no jardim, e saudava o amigo, dizendo-lhe que viera tarde. O major, que explicava ainda uma vez a alcunha do boticário, abandonou a presa, e foi ter com as moças; depois saiu à rua.


XXXIII



As senhoras casadas eram bonitas; a mesma solteira não devia ter sido feia, aos vinte e cinco anos; mas Sofia primava entre todas elas.

Não seria tudo o que o nosso amigo sentia, mas era muito. Era daquela casta de mulheres que o tempo, como um escultor vagaroso, não acaba logo, e vai polindo ao passar dos longos dias... Essas esculturas lentas são miraculosas; Sofia rastejava os vinte e oito anos; estava mais bela que aos vinte e sete; era de supor que só aos trinta desse o escultor os últimos retoques, senão quisesse prolongar ainda o trabalho, por dous ou três anos.

Os olhos, por exemplo, não são os mesmos da estrada de ferro, quando o nosso Rubião falava com o Palha, e eles iam sublinhando a conversação... Agora, parecem mais negros, e já não sublinham nada; compõem logo as cousas, por si mesmos, em letra vistosa e gorda, e não é uma linha nem duas, são capítulos inteiros. A boca parece mais fresca. Ombros, mãos, braços, são melhores, e ela ainda os faz ótimos por meio de atitudes e gestos escolhidos. Uma feição que a dona nunca pôde suportar, - cousa que o próprio Rubião achou a princípio que destoava do resto da cara, - o excesso de sobrancelhas, - isso mesmo, sem ter diminuído, como que lhe dá ao todo um aspecto mui particular.

Traja bem; comprime a cintura e os seios no corpinho de lã fina cor de castanha, obra simples, e traz nas orelhas duas pérolas verdadeiras, - mimo que o nosso Rubião lhe deu pela Páscoa.


 

XXXIV



A bela dama é filha de um velho funcionário público. Casou aos vinte anos com este Cristiano de Almeida Palha, zangão da praça, que então contava vinte e cinco. O marido ganhava dinheiro, era jeitoso, ativo, e tinha o faro dos negócios e das situações. Em 1864, apesar de recente no ofício, adivinhou, - não se pode empregar outro termo, - adivinhou as falências bancárias.

- Nós temos cousa, mais dia menos dia; isto anda por arames. O menor brado de alarma leva tudo.

O pior é que ele despendia todo o ganho e mais. Era dado à boa-xira; reuniões frequentes, vestidos caros e joias para a mulher, adornos de casa, mormente se eram de invenção ou adoção recente, - lá lhe levavam os lucros presentes e futuros. Salvo em comidas, era escasso consigo mesmo. Ia muita vez ao teatro sem gostar dele, e a bailes, em que se divertia muito, - mas ia menos por si que para aparecer com os olhos da mulher, os olhos e os seios. Tinha essa espécie de vaidade impudica; decotava a mulher sempre que podia, e até quando não podia, para mostrar aos outros as suas venturas particulares. Era assim um rei Candaules, mais restrito por um lado, e, por outro, mais público.

E aqui façamos justiça à nossa dama. A princípio, cedeu sem vontade aos desejos do marido; mas tais foram as admirações colhidas, e a tal ponto o uso acomoda a gente às circunstâncias, que ela acabou gostando de ser vista, muito vista, para recreio e estímulo dos outros. Não a façamos mais santa do que é, nem menos. Para as despesas da vaidade, bastavam-lhe os olhos, que eram ridentes, inquietos, convidativos e só convidativos: podemos compará-los à lanterna de uma hospedaria em que não houvesse cômodos para hóspedes. A lanterna fazia parar toda a gente, tal era a lindeza da cor, e a originalidade dos emblemas; parava, olhava e andava. Para que escancarar as janelas? Escancarou-as, finalmente; mas a porta, se assim podemos chamar ao coração, essa estava trancada e retrancada.


 

XXXV



- Meu Deus! como é bonita! Sinto-me capaz de fazer um escândalo! pensava Rubião, à noite, ao canto de uma janela, de costas para fora, olhando para Sofia, que olhava para ele.

Cantava uma senhora. Os três maridos de fora, que ali estavam de visita, interromperam o voltarete, em atenção à cantora, e vieram à sala, por alguns instantes; a cantora era mulher de um deles. O Palha é que a acompanhava ao piano; não via a contemplação mútua da esposa e do capitalista. Não sei se todas as outras pessoas estavam no mesmo caso. Uma, sim, essa sei que os via: Tonica, a filha do major.

- Meu Deus! como é bonita! Sinto-me capaz de fazer um escândalo! continuava a pensar o Rubião, encostado à janela, de costas para fora, com os olhos esquecidos na bela dama, que olhava para ele.

(Continua.)




30 de novembro de 1886, nº 22


 

XXXVI



Compreende-se que a D. Tonica não escapasse a contemplação dos dous. Desde que Rubião ali chegou, não cuidou ela mais que de atraí-lo. Os seus pobres olhos de trinta e nove anos, olhos sem parceiros na terra, indo já a resvalar do cansaço na desesperança, acharam em si algumas fagulhas. Volvê-los uma e muitas vezes, requebrando-os, era o longo ofício deles. Não lhe custou nada armá-los contra o capitalista.

O coração, meio desenganado, agitou-se outra vez. Alguma cousa lhe dizia que esse mineiro rico era destinado pelo céu a resolver o problema do matrimônio. Rico era ainda mais do que ela pedia; não pedia riquezas, pedia um esposo. Todas as suas campanhas fizeram-se sem a consideração pecuniária; nos últimos tempos ia baixando, baixando, baixando; a última foi contra um estudantinho pobre... Mas quem sabe se o céu não lhe destinava justamente um homem rico? D. Tonica tinha fé em sua madrinha, Nossa Senhora da Conceição, e investiu a fortaleza com muita arte e valor.

- Todas as outras são casadas, pensou ela.

Não tardou em perceber que os olhos de Rubião e os de Sofia caminhavam uns para os outros; notou, porém, que os de Sofia eram menos frequentes e menos demorados, fenômeno que lhe pareceu explicável, pelas cautelas naturais da situação. Podia ser que se amassem... Esta ideia afligiu-a; mas o desejo e a esperança teceram-lhe um véu de ouro, com que ela cobriu os olhos, e eles entraram a ver que, depois de um ou mais amores, um homem pode muito bem vir a casar. D. Tonica disse a si mesma que toda a questão era captá-lo; a ideia de casar e ter família podia ser que acabasse de matar qualquer outro sentimento da parte dele, se algum houvesse.

Ei-la que redobra esforços. Todas as suas graças foram chamadas a postos, e obedeceram, ainda que murchas. Gestos de ventarola, apertos de lábios, olhos oblíquos, marchas, contramarchas para mostrar bem a elegância do corpo e a cintura fina que tinha, tudo foi empregado. Era o velho formulário em ação; nada lhe rendera até ali, mas a loteria é assim mesmo: lá vem um bilhete que resgata os perdidos.

Agora, porém, à noite, por ocasião do canto ao piano, é que D. Tonica deu com eles embebidos um no outro. Não teve mais dúvida; não eram olhares aparentemente fortuitos, breves, como até ali, era uma contemplação que eliminava o resto da sala. D. Tonica sentiu o grasnar do velho corvo da desesperança. Quoth the Raven: NEVERMORE.

Ainda assim continuou a luta; chegou a conseguir que Rubião viesse sentar-se ao pé dela, por alguns minutos, e tratou de dizer cousas bonitas, frases que lhe ficaram de romances, outras que a própria melancolia da situação lhe ia inspirando. Rubião ouvia e respondia, mas inquieto, quando Sofia deixava a sala, e não menos quando tornava a ela. Uma das vezes a distração foi excessiva. D. Tonica confessava-lhe que tinha muita vontade de ver Minas, principalmente Barbacena. Que tais eram os ares?

- Os ares, repetiu maquinalmente o outro.

Olhava para Sofia, que estava então em pé, de costas para ele, falando a duas senhoras sentadas. Rubião admirou-lhe ainda uma vez a figura, o busto bem talhado, estreito em baixo, largo em cima, emergindo das cadeiras amplas, como uma grande braçada de folhas sai de dentro de um vaso. A cabeça podia então dizer-se que era como uma magnólia única, direita, espetada no centro do ramo. Era isto que Rubião mirava, quando D. Tonica lhe perguntou pelos ares de Barbacena, e ele repetiu a palavra dela, sem lhe dar sequer a mesma forma interrogativa.


 

XXXVII



Rubião estava resoluto. Nunca a alma de Sofia pareceu convidar a dele, com tamanha instância, a voarem juntas até às terras clandestinas, donde elas tornam, em geral, velhas e cansadas. Algumas não tornam. Outras param a meio caminho. Grande número não passa da beira dos telhados...


 

XXXVIII



A lua era magnífica. No morro, com as estrelas e a lua sobre a cabeça, alma menos audaz era capaz de ir contra um exército inimigo, e destroçá-lo. Vede o que não seria com este exército amigo. Estavam no jardim. Sofia tinha enfiado o braço no dele, para irem ver a lua. Convidara D. Tonica, mas a pobre dama respondeu que tinha um pé dormente, que já ia, e não foi.

Os dous ficaram calados algum tempo. Pelas janelas abertas viam-se as outras pessoas conversando, e até os homens, que tinham acabado o voltarete. O jardim era pequeno; mas a voz humana tem todas as notas, e os dous podiam dizer poemas sem ser ouvidos.

Rubião lembrou-se de uma comparação velha, mui velha, apanhada em não sei que décima de 1850, ou qualquer outra página em prosa de todos os tempos. Essa ideia foi chamar aos olhos de Sofia as estrelas da terra, e às estrelas os olhos do céu. Tudo isso baixinho e trêmulo.

Sofia ficou pasmada. De súbito endireitou o corpo, que até ali viera pesando no braço do Rubião. Estava tão acostumada à timidez do homem... Estrelas? olhos? Quis dizer que não caçoasse com ela, mas não achou como dar forma à resposta, sem rejeitar uma ideia que também era sua, ou então sem animá-lo a ir adiante. Daí um longo silêncio.

- Com uma diferença, continuou Rubião. as estrelas são ainda menos lindas que os seus olhos, e afinal nem sei mesmo o que elas sejam; Deus, que as pôs tão alto, é porque não poderão ser vistas de perto, sem perder muito da formosura... Mas os seus olhos, não; estão aqui, ao pé de mim, grandes, luminosos, mais luminosos que o céu...

Loquaz, destemido, Rubião parecia totalmente outro. Não parou ali; falou ainda muito, mas não deixou o mesmo círculo de ideias. Tinha poucas; e a situação, apesar da repentina mudança do homem, tendia antes a cerceá-las, que a inspirar-lhe novas. Sofia é que não sabia que fizesse. Trouxera ao colo um pombinho, manso e quieto, e sai-lhe um gavião, - um gavião adunco e faminto.

Era preciso responder, fazê-lo parar, dizer que ia por onde ela não queria ir, e tudo isso, sem que ele se zangasse, sem que se fosse embora... Sofia procurava alguma cousa; não achava, porque esbarrava na questão, para ela insolúvel, se era melhor mostrar que entendia, ou que não entendia. Aqui lembraram-lhe os próprios olhos dela, as palavrinhas doces, as atenções particulares; concluía que, em tal situação, não podia ignorar o sentido das finezas do homem. Mas confessar que entendia, e não despedi-lo de casa, eis aí o ponto melindroso.

(Continua.)




15 de dezembro de 1886, nº 23


 

XXXIX



Em cima, as estrelas pareciam rir daquela situação inextricável.

Vá que a lua os visse! A lua não sabe escarnecer; e os poetas, que a acham saudosa, terão percebido que ela amou outrora algum astro vagabundo, que a deixou ao cabo de muitos séculos. Pode ser até que ainda se amem. Os seus eclipses (perdoe-me a astronomia) talvez não sejam mais que entrevistas amorosas. O mito de Diana descendo a encontrar-se com Endimião bem pode ser verdadeiro. Descer é que é demais. Que mal há em que os dous se encontrem ali mesmo no céu, como os grilos entre as folhagens cá de baixo? A noite, mãe caritativa, encarrega-se de velar a todos.

Depois, a lua é solitária. A solidão faz a pessoa séria. as estrelas, em chusma, são como as moças entre quinze e vinte anos, alegres, palreiras, rindo e falando a um tempo de tudo e de todos.

Não nego que são castas; mas tanto pior, - terão rido do que não entendem... Castas estrelas! é assim que lhes chama Otelo, o terrível, e Tristram Shandy, o jovial. Esses extremos do coração e do espírito estão de acordo neste ponto: as estrelas são castas. E elas ouviam tudo (castas estrelas!) tudo o que a boca temerária de Rubião ia entornando na alma pasmada de Sofia. O recatado de longos meses era agora (castas estrelas!) nada menos que um libertino. Disséreis que o Diabo andara a enganar a outra com as duas grandes asas de arcanjo que Deus lhe pôs; de repente, meteu-as na algibeira, e desbarretou-se para mostrar as duas pontas malignas, fincadas na testa. E rindo, daquele riso oblíquo dos maus, propunha comprar-lhe não só a alma, mas a alma e o corpo... Castas estrelas!


 

XL



- Vamos para dentro, murmurou Sofia.

Quis tirar o braço; mas o dele reteve-lho com força. Não; ir para quê? Estavam ali bem, muito bem... Que melhor? Ou seria que ele a estivesse aborrecendo? Sofia acudiu que não, ao contrário; mas precisava ir fazer sala às visitas... Há quanto tempo estavam ali!

- Não há dez minutos, disse o Rubião. Que são dez minutos?

- Mas podem ter dado pela nossa ausência.

Rubião estremeceu diante deste possessivo: nossa ausência. Achou-lhe um princípio de cumplicidade. Concordou que podiam dar pela nossa ausência. Tinha razão, deviam separar-se; só lhe pedia uma cousa, duas cousas; a primeira é que não esquecesse aqueles dez minutos sublimes; a segunda é que, todas as noites, às dez horas, fitasse o Cruzeiro, ele o fitaria também, e os pensamentos de ambos iriam achar-se ali juntos, íntimos, entre Deus e os homens.

O convite era poético, mas só o convite. Rubião, enquanto falava, ia devorando a moça com os olhos de fogo, e segurava-lhe uma das mãos para que ela não fugisse. Nem os olhos nem o gesto tinham poesia nenhuma. Sofia esteve a ponto de dizer alguma palavra áspera, mas engoliu-a logo, ao advertir que Rubião era um bom amigo da casa. Quis rir, mas não pôde; mostrou-se então arrufada, logo depois resignada, afinal suplicante; pediu-lhe pela alma da mãe dele, que devia estar no céu... Rubião não sabia do céu nem da mãe, nem de nada. Que era mãe? que era céu? parecia dizer a cara dele.

- Ai, não me quebre os dedos! exclamou baixinho a moça

Aqui é que ele começou a voltar a si; afrouxou a pressão, sem soltar-lhe os dedos.

- Vá, disse ele, mas primeiro...

Inclinava-se para beijar a mão, quando uma voz, a alguns passos, veio acordá-lo inteiramente.


 

XLI



- Olá! estão apreciando a lua? Realmente, está deliciosa; está uma noite para namorados... Sim, deliciosa... Há muito que não vejo uma noite assim... Olhem só para baixo, os bicos de gás... Deliciosa! para namorados... Os namorados gostam sempre da lua. No meu tempo, em Icaraí...

Era Siqueira, o terrível major. Rubião não sabia que dissesse; Sofia, passados os primeiros instantes readquiriu a posse de si mesma; respondeu que, em verdade, a noite era linda; depois contou que Rubião teimava em dizer que as noites do Rio não podiam comparar-se às de Barbacena, e, a propósito disso, referira uma anedota de um padre Mendes... Não era Mendes?

- Mendes, sim, o padre Mendes, murmurou o Rubião.

O major mal podia conter o assombro. Tinha visto as duas mãos presas, a cabeça do Rubião meia inclinada, o movimento rápido de ambos, quando ele entrou no jardim; e sai-lhe de tudo isto um padre Mendes... Olhou para Sofia; viu-a risonha, tranquila, impenetrável. Nenhum medo, nenhum acanhamento; falava com tal simplicidade, que o major pensou ter visto mal. Mas o Rubião estragou tudo. Vexado, calado, não fez mais que tirar o relógio para ver as horas, levá-lo ao ouvido, como se lhe parecesse que não andava, depois limpá-lo com o lenço, devagar, devagar, sem olhar para um nem para outro...

(Continua.)




31 de dezembro de 1886, nº 24

XLI

(Continuação)

- Bem, conversem, vou ver as amigas que não podem estar sós. Os homens já acabaram o maldito voltarete?

- Já, respondeu o major olhando curiosamente para Sofia. Já, e até perguntaram por este senhor; por isso é que eu vim ver se o achava no jardim. Mas estavam aqui há muito tempo?

- Agora mesmo, disse Sofia.

Depois, batendo carinhosamente no ombro do major, passou do jardim à casa; não entrou pela porta da sala de visitas, mas por outra que dava para a de jantar; de maneira que, quando chegou àquela pelo interior, era como se acabasse de dar ordens para o chá.

Rubião, voltando a si, ainda não achou que dizer, e contudo urgia dizer alguma cousa. Boa ideia era a anedota do padre Mendes; o pior é que não havia padre nem anedota, e ele era incapaz de inventar nada. Pareceu-lhe bastante isto:

- O padre! o Mendes! Muito engraçado o padre Mendes!

- Conheci-o, disse o major sorrindo. O padre Mendes? Conheci-o; morreu cônego. Esteve algum tempo em Minas?

- Creio que esteve, murmurou o outro espantado.

- Era filho aqui de Saquarema; era um que não tinha este olho, continuou o major levando o dedo ao olho esquerdo. Conheci-o muito, se é que é o mesmo; pode ser que seja outro.

- Pode ser.

- Morreu cônego. Era homem de bons costumes, mas amigo de ver moças bonitas, como se mira um painel de mestre; e que maior mestre que Deus? dizia ele. Esta D. Sofia, por exemplo, nunca ele a viu na rua que me não dissesse: Hoje vi aquela bonita senhora do Palha... Morreu cônego, era filho de Saquarema... E, na verdade, tinha bom gosto... Realmente, a mulher do nosso Palha, é um primor, bela de cara e de figura; eu ainda a acho mais bem feita que bonita... Que lhe parece?

- Parece que sim...

- E boa pessoa, excelente dona de casa, continuou o major acendendo um charuto a um fósforo.

A luz do fósforo deu à cara do major uma expressão de escárnio, ou de outra cousa menos dura, mas não menos adversa. Rubião sentiu correr-lhe um frio pela espinha. Teria ouvido? visto? adivinhado? Estava ali um indiscreto, um bisbilhoteiro, um denunciante? A cara do homem dizia que sim e que não; em todo caso, era mais seguro crer no pior. Aqui temos o nosso herói como alguém que, depois de navegar cosido com a praia, longos anos, acha-se um dia entre as ondas do alto mar: felizmente o medo também é oficial de ideias, e deu-lhe ali uma, a única da ocasião, que era lisonjear o interlocutor. Não hesitou em achá-lo gracioso e interessante, e disse-lhe que tinha uma casa às suas ordens, na praia de Botafogo, número tantos. Dava-lhe muita honra em travar relações com ele. Contava poucos amigos aqui: o Palha, a quem devia grandes obséquios, - D. Sofia, que era uma senhora de rara gravidade, e mais três ou quatro pessoas. Vivia só; podia ser até que se retirasse para Minas.

- Já?

- Não digo já, mas pode ser que me não demore. Sabe que uma pessoa que viveu toda a sua vida em um lugar, custa-lhe muito a acostumar-se em outro.

- Isso conforme.

- Sim, conforme... Mas é a regra.

- Regra será, mas o senhor vai ser uma exceção. A corte é o diabo; apanha-se uma paixão como se apanha uma constipação; basta uma fresta de ar, fica-se perdido. Olhe, eu não me dava de apostar que o senhor, antes de seis meses, está casado...

- Não viu nada, pensou Rubião.

E depois, alegre:

- Pode ser, mas também em Minas há casamentos; nem lá faltam padres.

- Falta o padre Mendes, acudiu rindo o major.

Rubião sorriu constrangido, não entendendo se a palavra do major era inocente ou maliciosa. Este é que colheu as rédeas ao assunto, e falou de outras cousas, do tempo, da cidade, do ministério, da guerra, e do marechal López. E vede o contraste dos tempos: esse aguaceiro, maior que o da entrada, parecia um raio de sol ao nosso Rubião. Ei-lo que espaneja a alma ao calor do discurso infinito do major, intercalando alguma palavrinha se pode, e sempre cabeceando com aplauso. E pensava outra vez que não, que ele não vira nada.

- Papai! Papai está aí? disse uma voz à porta que dava para o jardim.

Era D. Tonica; vinha chamá-lo para irem embora. O chá estava na mesa, é verdade; mas não podia esperar mais, tinha dor de cabeça, disse ela ao pai, baixinho. Depois estendeu os dedos ao Rubião; este pediu-lhe que ficasse ainda alguns minutos; o estimável major...

- Perde o seu tempo, interrompeu este; ela é que me governa.

Rubião ofereceu-lhe a casa com instância; exigiu até que lhe marcasse um dia, naquela mesma semana, mas o major acudiu que não podia dispor de dia certo; iria, logo que lhe fosse possível. A vida dele era muito trabalhosa; tinha os negócios do arsenal, que já eram muitos, e tinha mais...

- Papai! vamos!

- Vamos. Está vendo? Não posso conversar um instante. Já te despediste? Onde está o meu chapéu?


 

XLII


Ladeira abaixo, D. Tonica foi ouvindo o resto do discurso do pai, que mudou de assunto, sem mudar de estilo, - difuso e derramado. Ouvia sem entender. Ia metida em si mesma, absorta, remoendo a noite, recompondo os olhares de Sofia e de Rubião.

Chegaram à casa na rua do Senado; o pai foi dormir, a filha não se deitou logo, deixou-se estar em uma cadeirinha, ao pé da cômoda, onde tinha uma imagem da Virgem. Não trazia ideias de paz nem de candura. Sem conhecer o amor, tinha notícia do adultério, e a pessoa de Sofia pareceu-lhe hedionda. Via nela agora um monstro, metade gente, metade cobra, e sentiu que a aborrecia, que era capaz de vingar-se exemplarmente, de dizer tudo ao marido.

- Conto-lhe tudo, - ia pensando - ou de viva voz, ou por uma carta... Carta não; digo-lho tudo um dia, em particular.

E imaginando o colóquio, antevia o espanto do homem, depois o agastamento, depois os impropérios, as palavras duras que ele havia de dizer à mulher, miserável, indigna, vil... Todos esses nomes soavam bem aos ouvidos do seu desejo; ela fazia derivar por eles a própria cólera; fartava-se de a rebaixar assim, de a pôr debaixo dos pés do marido, já que o não podia fazer por si mesma... Vil, indigna, miserável...

Durou muito tempo essa explosão de raiva interior, - perto de vinte minutos; mas a alma cansou, e tornou a si. A imaginação não podia mais, e a realidade próxima atraiu-lhe a vista. Olhou em volta de si, mirou a alcova de solteira, arrumadinha com arte, - dessa arte engenhosa que faz da chita seda e de um retalho velho uma fita, que recama, enlaça, alegra o mais que pode a nudez das cousas, enfeita as paredes tristes, aprimora os trastes modestos e poucos. E tudo ali parecia feito para receber um noivo amado.

Onde li eu que uma tradição antiga fazia esperar a uma virgem de Israel, durante certa noite do ano, a concepção divina? Seja onde for, comparemo-la à desta outra, que só difere daquela em não ter noite fixa, mas todas, todas, todas... O vento, zunindo fora, nunca lhe trouxe o varão esperado, nem a madrugada alva e menina lhe disse em que ponto da terra é que ele mora. Era só esperar, esperar...

Agora, aquietada a imaginação e o ressentimento, mira e remira a alcova solitária; recorda as amigas do colégio e de família, as mais íntimas, casadas todas. A derradeira delas desposou aos trinta anos um oficial de marinha, e foi ainda o que reverdeceu as esperanças à amiga solteira, que não pedia tanto, posto que a farda de aspirante foi a primeira cousa que lhe seduziu os olhos, aos quinze anos... Onde iam eles? Mas lá passaram cinco anos, cumpriu os trinta e nove, e os quarenta não tardam. Quarentona, solteirona; D. Tonica teve um calefrio. Olhou ainda, recordou tudo, ergueu-se de golpe, deu duas voltas e atirou-se à cama chorando...

(Continua.)




15 de janeiro de 1887, nº 01

Nesta data, foram publicados os capítulos XLIII, XLIV, XLV, XLVI e XLVII, não encontrados até o momento.




31 de janeiro de 1887, nº 02


 

XLVIII



- Vossa Senhoria há de ter visto que o cavalinho é bom...

Rubião abriu os olhos, meio fechados, e deu com o cocheiro que sacudia ao de leve a pontinha do chicote para espertar o animal. Interiormente zangou-se com o homem, que o veio tirar de recordações antigas. Não eram belas, mas eram antigas, - antigas e enfermeiras, porque lhe davam a beber um elixir que de todo parecia curá-lo do presente. E vai o cocheiro empurra-o e acorda-o. Iam subindo a rua da Lapa; o cavalo, em verdade, comia o espaço como se fosse a descer.

- Este cavalo tem-me uma amizade, continuou o cocheiro, que se não acredita. Podia contar cousas extraordinárias. Há pessoas que até dizem que é mentira minha; mas, não, senhor, não é. Quem não sabe que cavalo e cachorro são os animais que mais gostam da gente? Cachorro parece que ainda gosta mais...

Cachorro trouxe à memória de Rubião o Quincas Borba, que lá devia estar em casa, à espera dele, ansioso. Tinha ordenado agora que o soltassem para guardar a casa, e também para ver se ele não gania, às noites, como de costume, para dormir fechado. Dormia fechado para não fugir. Rubião não esquecia a condição do testamento; jurava cumpri-la à risca. Convém dizer que, de envolta com o receio de vê-lo fugir, entrava o de vir a perder os bens. Não valiam afirmações do advogado; não há, dizia-lhe este, não há no testamento cláusula reversível para outrem, no caso de fuga do cachorro; os bens não podiam sair-lhe das mãos. Que lhe importava a fuga, se era até melhor, um cuidado menos? Rubião aceitava aparentemente a explicação, mas lá ficava a dúvida, os exemplos de longas demandas, a variedade das opiniões jurídicas sobre uma só matéria, a ação de algum invejoso ou inimigo, e, o que resumia tudo, o terror de ficar sem nada. Daí os rigores da reclusão; daí também o remorso de ter passado a tarde e a noite sem pensar uma só vez no Quincas Borba.

- Sou um ingrato! disse consigo.

Emendou-se logo; mais ingrato era não ter pensado no outro Quincas Borba, que lhe deixou tudo. Vai senão quando, teve uma ideia extraordinária, a de serem os dous Quincas Borbas a mesma criatura, por efeito da entrada da alma do defunto no corpo do cachorro, menos a purgar os seus pecados que a vigiar o dono. Foi uma preta de S. João del Rei que lhe meteu, em criança, essa ideia de transmigração. Dizia ela que a alma cheia de pecados ia para o corpo de um bruto; chegava a jurar que conhecera um escrivão que acabou em gambá...

- Vossa Senhoria, não se esqueça de dizer onde é a casa, disse-lhe repentinamente o cocheiro.

- Pare. Já passamos, é aquela.

O tílburi deu volta e foi parar à porta; Rubião pagou e desceu.


 

XLIX



O cão ladrou de dentro; mas, logo que Rubião entrou, recebeu-o com grande alegria; e por mais importuno que fosse, Rubião desfez-se em carícias. A ideia de poder estar ali o testador dava-lhe arrepios. Subiram juntos a escada de pedra; ali ficaram por alguns instantes, à luz do lampião que Rubião mandara deixar aceso. Rubião era mais crédulo que crente; não tinha razões para atacar nem para defender nada: - terra eternamente virgem para se lhe plantar qualquer cousa. A vida da corte deu-lhe até uma particularidade; entre incrédulos, chegava a ser incrédulo, embora reagisse depois...

Olhou para o cão, enquanto esperava que lhe abrissem a porta. O cão olhava para ele, de tal jeito que parecia estar ali dentro o próprio e defunto Quincas Borba; era o mesmo olhar meditativo do filósofo, quando examinava as cousas humanas... Novo arrepio; mas o medo, que era grande, não era tão grande que lhe atasse as mãos. Rubião estendeu-as sobre a cabeça do animal, coçando-lhe as orelhas e a nuca.

- Pobre Quincas Borba! Gosta de seu senhor, não gosta? Rubião é muito amigo de Quincas Borba.

E o cão movia devagar a cabeça, para a esquerda e para a direita, ajudando a distribuição das carícias às duas orelhas pendentes; depois levantava o queixo, para que lhe coçasse em baixo, e o dono obedecia; mas então os olhos do cão, meio fechados de gosto, tinham um ar dos olhos do filósofo, na cama, contando-lhe cousas de que ele entendia pouco ou nada... Rubião fechava os seus. Abriram-lhe a porta; despediu-se do cão, mas com tais carinhos, que era o mesmo que pedir-lhe que entrasse. O criado espanhol incumbiu-se de o levar para baixo.

- Não lhe dê pancadas, recomendou Rubião.

Não lhe deu pancadas; mas a descida só era dolorosa, e o cão amigo gemeu por muito tempo no jardim. Rubião entrou, despiu-se e deitou-se. Ah! tinha vivido um dia cheio de sensações diversas e contrárias, desde as recordações da manhã, e o almoço aos dous amigos, até aquela última ideia de metempsicose, passando pela lembrança do enforcado, e por uma declaração de amor não aceita, mal repelida, parece que adivinhada por outros... Misturava tudo, o espírito ia de um para outro lado como bola de borracha entre mãos de crianças. Contudo, a sensação maior era a do amor. Rubião estava admirado de si mesmo, e arrependia-se; mas o arrependimento era obra da consciência, ao passo que a imaginação não soltava por nenhum preço a figura da bela Sofia... Uma, duas, três horas... Sofia ao longe, os latidos do cão embaixo... O sono esquivo... Onde iam já as três horas? Três e meia... Enfim, depois de muito cuidar, apareceu-lhe o sono, espremeu as clássicas papoulas, e foi um instante; Rubião dormiu antes das quatro.


 

L



Não, senhora minha, ainda não acabou este dia tão comprido; não sabemos o que se passou entre Sofia e o Palha, depois que todos se foram embora. Pode ser até que acheis aqui melhor sabor que no caso do enforcado e da transmigração da alma do Quincas Borba; e cuido que havereis razão.

Tende paciência; é vir agora outra vez a Sta. Teresa. A sala está ainda alumiada, mas por poucos bicos de gás; apagaram-se alguns, e ia apagar-se o último, quando o Palha mandou que o criado esperasse um pouco lá dentro. A mulher ia a sair, o Palha deteve-a, ela estremeceu.

- A nossa festa esteve bem bonita, disse ele.

- Esteve.

- O Siqueira é um cacete, mas paciência; é alegre. A filha não estava mal arranjada. Viste o Ramos como devorava tudo o quê se lhe pôs no prato? Tu verás que ele um dia engole a mulher.

- A mulher? disse Sofia, sorrindo.

- É gorda, concordo; mas a primeira era muito mais gorda, e creio que não morreu, ele engoliu-a, com certeza.

Sofia reclinada no canapé, riu das graças do marido. Criticaram ainda alguns episódios da tarde e da noite; depois, Sofia, acariciando os cabelos do marido, disse-lhe de repente:

- E você ainda não sabe do melhor episódio da noite.

- Que foi?

- Adivinhe.

(Continua.)




15 de fevereiro de 1887, nº 03

L

(Continuação)

Palha ficou algum tempo calado, olhando para a mulher, a ver se adivinhava qual tinha sido o melhor episódio da noite. Não podia acertar; acudia-lhe isto ou aquilo, nada; Sofia abanava a cabeça.

- Mas então que foi?

- Não sei; adivinha.

- Não posso. Dize logo.

- Com uma condição, acudiu ela; não quero zangas nem barulhos.

Palha foi ficando mais sério. Zangas? barulhos? Que diabo podia ser? pensava ele. Já se não ria; tinha só um resto de sorriso forçado e resignado. Olhou bem para ela, e perguntou-lhe o que era.

- Você promete o que lhe disse?

- Vá lá. Que foi?

- Pois saiba que ouvi nada menos que uma declaração de amor.

Palha empalideceu. Não prometera deixar de empalidecer. Gostava da mulher, como sabemos, até o ponto singular de publicá-la; não podia ouvir a frio a notícia. Sofia viu a palidez, e gostou da má impressão causada; para saboreá-la mais, inclinou a cabeça, soltou o cabelo atrás, que a incomodava um pouco, recolheu os grampos em um lenço, depois sacudiu a cabeça, respirou largo, e pegou nas mãos do marido, que ficara de pé.

- É verdade, meu velho, namoraram-te a mulher.

- Mas quem foi o patife? disse ele impaciente.

- Mau, se vamos assim, não digo nada. Quem foi? Quer saber quem foi? Há de ouvir quietinho. Foi o Rubião.

- O Rubião?

- Nunca imaginei tanto. Parecia-me acanhado e respeitoso; fica sabendo que não é o hábito que faz o monge. De tantos homens que aqui vêm, e até rapazes solteiros, não ouvi nunca a menor cousa. Olhava para mim; naturalmente, porque não sou feia... Para que estás andando assim de um lado para outro? Para, que não quero levantar a voz... Bem, assim... Vamos ao caso. Não me fez declaração positiva...

- Ah! não? acudiu vivamente o marido.

- Não, mas vem a dar na mesma.

E depois de contar o que se passara no jardim, desde que ali chegaram os dous, até que o major apareceu:

- Foi só isso, concluiu; mas é bastante para ver que se ele não disse amor é porque não lhe chegou a língua, mas chegou-lhe a mão, que me apertou os dedos... Só isso, e é demais. Ainda bem que te não zangas; mas é preciso trancar-lhe a porta, - ou de uma vez ou aos poucos; eu preferia logo, mas estou por tudo. Como achas melhor?

Mordendo o beiço inferior, Palha ficou a olhar para ela a modo de estúpido. Sentou-se no canapé, mas não falou logo. Considerava o negócio. Achava natural que as gentilezas da esposa chegassem a cativar um homem, - e Rubião podia ser esse homem; neste, porém, tinha tal confiança, que o bilhete que Sofia mandara naquele dia ao Rubião, com uma cestinha de morangos, foi redigido por ele mesmo; a mulher limitou-se a copiá-lo, assiná-lo e mandá-lo. Nunca, entretanto, imaginou que ele tivesse a coragem de confessar a alguém, menos ainda a ela, que lhe tinha amor, se é que era amor, se não era um gracejo de intimidade. É certo que ele olhava para ela muita vez, e que ela parece que, em algumas ocasiões, pagava os olhares com outros... Concessões de moça bonita! Mas, enfim, contanto que lhe ficassem os olhos, podiam ir alguns raios deles. Não havia de ter ciúmes do nervo ótico, ia ele pensando... Sofia levantou-se, foi pôr o lenço com os grampos em cima do piano, e deu uma olhada ao espelho para ver-se com a trança caída. Quando voltou ao canapé, o marido pegou-lhe na mão, rindo:

- Parece-me que te amofinaste mais do que o caso merecia. Comparar os olhos de uma moça às estrelas, e as estrelas aos olhos, afinal de contas é cousa que até se pode fazer à vista de todos, em família, e em prosa ou verso para o público. A culpa é de quem tem olhos bonitos. Demais, apesar do que me contas, sabes que ele é ainda matuto...

- Então o diabo também é matuto, porque ele pareceu-me nada menos que o diabo. E pedir-me que a certa hora olhasse para o Cruzeiro, afim de que as nossas almas se encontrassem?

- Isso, sim, isso já cheira a namoro, concordou Palha; mas bem vês que é um pedido de alma cândida. É assim que as moças falam aos quinze anos; é assim que falam os tolos em todos os tempos, e os poetas também; mas ele nem é moça nem poeta.

- Creio que não; mas segurar-me nas mãos para reter-me no jardim?

Palha teve um calefrio; a ideia do contato das mãos e da força empregada para reter a mulher é que o mortificava mais. Francamente, se pudesse, era capaz de ir ter com ele, e deitar-lhe as mãos ao gasnate. Outras ideias, porém, acudiram e dissiparam o efeito da primeira; de modo que, cuidando Sofia havê-lo irritado, viu-o dar de ombros com desprezo, e responder-lhe que efetivamente era um ato de grosseria.

- E depois, Sofia, que ideia foi essa de convidá-lo a ir ver a lua, não me dirás?

- Chamei D. Tonica para ir conosco.

- Mas uma vez que D. Tonica recusou, devias ter achado meios e modos de não ir ao jardim. São cousas que acodem logo. Tu é que deste ocasião...

Sofia olhou para ele, contraindo as grossas sobrancelhas; ia responder, mas calou-se. Ele continuou a desenvolver a mesma ordem de ideias; a culpa era dela, não devia ter dado ocasião...

- Mas você mesmo não me tem dito que devemos tratá-lo com atenções particulares? Seguramente, que eu não iria ao jardim, se pudesse imaginar o que se passou. Mas nunca esperei que um homem tão pacato, tão não sei como, se tirasse dos seus cuidados para vir dizer-me cousas esquisitas...

- Pois daqui em diante evita a lua e o jardim, disse o marido, procurando sorrir.

- Mas, Cristiano, como queres tu que lhe falhe a primeira vez que ele cá vier? Não tenho cara para tanto; olha, o melhor de tudo é acabar com as relações.

Palha atravessou uma perna sobre a outra e começou a rufar no sapato. Durante alguns segundos ficaram calados; cada um deles pensava em alguma cousa. Palha cuidava na proposta de acabar com as relações, não que quisesse aceitá-la, mas não sabia como responder à mulher, que mostrava tanto ressentimento, e se portava com tal dignidade. Era preciso nem desaprová-la, nem aceitar a proposta, e não lhe acudia nada. Levantou-se, meteu as mãos nas algibeiras das calças e depois de alguns passos, parou defronte de Sofia.

- Talvez nos estejamos a incomodar com um simples efeito de vinhos. Olha que ele não mandou o seu quinhão ao vigário; cabeça fraca, um pouco de abalo, e entornou o que tinha dentro... Sim, eu não nego que lhe possas ter causado certa impressão, como tantas outras senhoras. Há dias foi a um baile no Catete, e falou-me depois encantado das senhoras que lá vira, de uma principalmente, a viúva Mendes...

Sofia interrompeu-o:

- Por que é que não convidou essa beleza a ver o Cruzeiro?

- Não jantou lá, naturalmente, e não havia jardim nem lua. O que eu quero dizer é que o nosso amigo não estaria em si. Talvez se ache agora arrependido do que fez, envergonhado, sem saber como se há de explicar, ou se não explicará nada... É muito possível até que se ausente...

- Era melhor.

- ... Se o não chamarmos, concluiu Palha.

- Mas para que chamá-lo?

- Sofia, disse-lhe o marido, sentando-se ao pé dela. Não quero entrar em minudências; digo só que não permito que alguém te falte ao respeito...

Houve uma pequena pausa; Sofia olhava para ele esperando.

- Ouve, continuou ele; não consinto, e ai daquele que o fizesse, assim como ai de ti se o consentires; sabes que sou de ferro, a este respeito, e que a certeza da tua amizade, - ou, vá logo tudo, - do amor que me tens é que me tranquiliza. Pois bem, nada me abala relativamente ao Rubião. Crê que o Rubião é nosso amigo, devo-lhe obrigações...

- Alguns presentes, algumas joias, camarotes no teatro, não são motivos para que eu fite o Cruzeiro com ele.

(Continua.)




28 de fevereiro de 1887, nº 04

L

(Continuação)

- Prouvera a Deus que fosse só isso! suspirou o zangão.

- Que há mais?

- Não entremos em minudências... Há outras cousas... Falaremos depois... Mas fica certa que nada me faria recuar, se visse no que contaste alguma gravidade. Não há nenhuma. O homem é um simplório.

- Não.

- Não?

Sofia levantou-se; também não queria entrar em minudências. O marido pegou-lhe na mão, ela ficou de pé e calada. Palha, com a cabeça reclinada nas costas do sofá, olhava sorrindo, sem achar que dizer. Ao cabo de alguns minutos, ponderou a mulher que era tarde, que ia mandar apagar tudo.

- Bem, tornou o Palha depois de breve silêncio; escrevo-lhe amanhã que não ponha aqui os pés.

Olhou para a mulher esperando alguma recusa. Sofia coçava as sobrancelhas, e não respondeu nada. Palha repetiu a solução; e pode ser que desta vez com sinceridade. A mulher então com ar de tédio:

- Ora, Cristiano... Quem é que te pede cartas? Já estou arrependida de haver falado nisto. Contei-te um ato de desrespeito, e disse que era melhor cortar as relações, - aos poucos ou de uma vez.

- Mas como se hão de cortar as relações de uma vez?

- Fechar-lhe a porta, mas não digo tanto; basta, se queres, aos poucos...

Era uma concessão; Palha aceitou-a; mas imediatamente ficou sombrio, soltou a mão da mulher, com um gesto de desespero. Depois, agarrando-a pela cintura, disse em voz mais alta do que até então:

- Mas, meu amor, eu devo-lhe muito dinheiro.

Sofia tapou-lhe a boca e olhou assustada para o corredor.

- Está bom, disse, não falemos mais nisto. Verei como ele se comporta e tratarei de ser mais fria... Nesse caso, tu é que não deves mudar, para que não pareça que sabes alguma cousa. Verei o que posso fazer.

- Você sabe, cousas do negócio, algumas perdas... é preciso tapar um buraco daqui, outro dali... o diabo! É por isso que... Mas riamos, meu bem; não vale nada. Sabes que confio em ti...

- Vamos, que é tarde.

- Vamos, repetiu o Palha dando-lhe um beijo na face.

- Estou com muita dor de cabeça, murmurou ela. Creio que foi do sereno, ou desta história... Estou com muita dor de cabeça...


 

LI



- Isso é do jantar. Olha, toma um pouco de camomila, acudiu o Palha, no quarto, enquanto ela se despia.

Preparou-lhe a camomila. Sofia já deitada, bebeu o remédio, e deixou cair a cabeça no travesseiro. Dormiu pouco, e interrompidamente. De manhã é que dormiu um pouco mais, tanto que não viu o marido levantar-se; mas, cousa digna de reparo, só então é que lhe apareceu a dor de cabeça, que ela dizia ter na véspera. Pode ser que fosse mera coincidência; pode ser também que, como escreve um poeta, a natureza pense antes do homem, e Sofia dissesse que lhe doía a cabeça, inconscientemente e por antecipação. Mas tudo isso é metafísica; melhor é crer que falou da dor como falaria dos espargos do jantar, que achou deliciosos.

Banhado, barbeado, meio vestido, Palha lia os jornais, à espera do almoço, quando a viu entrar no gabinete abatida e pálida.

- Estás pior?

Sofia respondeu com um gesto dos lábios, que tanto negava como afirmava. Palha acreditou que, pelo dia adiante, passaria o incômodo: a agitação da véspera, o jantar tarde... Depois, pediu que lhe deixasse acabar de ler um artigo relativo a certo negócio da praça. Era uma briga entre dous comerciantes, a propósito de uns saques; na véspera escrevera um deles, hoje vinha a resposta do outro. Resposta completa, disse ele acabando a leitura; e explicou longamente à mulher a questão dos saques, o mecanismo da cousa, a situação dos dous adversários, os boatos da praça, tudo com o3 vocabulário técnico. Sofia ouvia e suspirava; mas para o despotismo da profissão não há suspiros de mulher, nem cortesia de homem. Felizmente, o almoço estava na mesa.

Ficando só, a nossa amiga, que apenas tomou um caldo, lá para as duas horas, foi sentar-se à porta de casa, no jardim... Naturalmente, voltou a pensar no lance da véspera. Não estava bem em si nem fora de si, nem com Deus nem com o diabo. Arrependia-se de haver contado o episódio ao marido, e ao mesmo tempo irritava-se com as tentativas de explicação que este lhe deu. No meio das reflexões, ouviu distintamente as palavras do major: "Olá! estão apreciando a lua?" como se as folhas as tivessem guardado, e repetido agora que a aragem começava a movê-las. Sofia teve um calefrio. Siqueira era indiscreto, - indiscreto em farejar e indagar das cousas alheias; sê-lo-ia ao ponto de publicá-las? Sofia considerava-se já objeto de suspeita ou de calúnia... Formava planos. Não visitaria ninguém; ou iria para fora, para Nova Friburgo ou mais longe. A exigência do marido em receber o Rubião, como dantes, era excessiva; maiormente pela causa dada. Não querendo obedecer nem desobedecer, cuidava em deixar a cidade, pretextando o que quer que fosse.

- A culpa foi minha! suspirou ela consigo.

A culpa eram as atenções especiais com o homem, carinhos, lembranças, obséquios familiares, e, na véspera, aqueles olhos tão longamente pregados nele... Se não fosse isso... Ia-se assim perdendo em reflexões multiplicadas. Tudo a aborrecia, plantas, móveis, uma cigarra que cantava, um rumor de vozes, na rua, outro de pratos, em casa, o andar das escravas, e até um pobre preto velho que, em frente à casa dela, trepava com dificuldade um pedaço de morro. as cautelas do preto buliam-lhe com os nervos.


 

LII



Nisto passou um rapaz alto, que a cortejou sorrindo e vagarosamente. Sofia cortejou-o também, um pouco espantada da pessoa e da ação.

- Quem é este sujeito? pensou ela.

E entrou a cogitar donde é que o conhecia, porque, em verdade, a cara não lhe era estranha, nem as maneiras, nem os olhos plácidos e grandes. Onde é que o teria visto? Percorreu várias casas, sem acertar com a verdadeira; afinal pensou em certo baile, - no mês anterior, - em caça de um advogado que fazia anos. Era isso; viu-o lá, dançaram uma quadrilha, por simples condescendência dele, que não dançava nunca; lembrava-se de lhe ter ouvido muitas cousas agradáveis, relativamente à beleza da mulher, que, dizia ele, consistia principalmente nos olhos e nos ombros. Os dela, como sabemos, eram magníficos. E quase não tratou de outra cousa, - os ombros e os olhos; - a propósito de uns e outros contou várias anedotas sucedidas com ele, algumas sem interesse, mas falava tão bem! e o assunto era tão dela! É verdade; lembrava-se agora que, logo que ele a deixou, Palha veio ter com ela, sentou-se na cadeira, ao lado, e disse-lhe o nome do rapaz, porque ela não ouvira bem a pessoa que lho apresentara: era Carlos Maria, - o próprio do almoço do nosso Rubião.

- É a primeira figura do salão, disse-lhe o marido com orgulho de ver que se ocupara tanto tempo com ela.

- Entre os homens, explicou Sofia.

- Entre as senhoras és tu, acudiu ele mirando-se no colo da mulher, e circulando depois os olhos pela sala, com uma expressão de posse e domínio, que a mulher já conhecia e que lhe fazia bem.

Quando acabou de recordar tudo, já iria longe o rapaz; ao menos, foi uma interrupção na série de tédios que lhe tomavam a alma. A mesma dor de cabeça calara-se por alguns instantes. Voltou logo, teimosa, aborrecida; Sofia reclinou-se na cadeira e fechou os olhos. Quis ver se passava pelo sono, mas não pôde. Os pensamentos eram tão teimosos como a dor, e ainda mais ruins que ela. De quando em quando um bater de asas, rápido, quebrava o silêncio: eram as pombas de uma casa vizinha que tornavam ao pombal. Sofia a princípio abriu os olhos, umas duas vezes; depois, acostumou-se ao rumor, e deixou-os fechados, a ver se dormia. Passado algum tempo, ouviu passos na rua, e levantou a cabeça, supondo que era Carlos Maria que regressava; era um carteiro que lhe trazia uma carta da roça. Entregou-lha em mão. Ao sair do jardim, tropeçou o carteiro no pé de um banco e caiu tão desastradamente que as cartas espalharam-se-lhe no chão. Sofia não pôde conter o riso.

(Continua.)




15 de março de 1887, nº 05

Note-se que capítulo LII, salta-se para o LIV. Não há capítulo LIII.




 

LIV



Perdoem-lhe esse riso. Bem sei que o desassossego, a noite mal passada, o terror da opinião, tudo contrasta com esse riso inoportuno. Mas, leitora amada, talvez a senhora nunca visse cair um carteiro. Os deuses de Homero, - e mais eram deuses, - debatiam uma vez no Olimpo, gravemente, e até furiosamente. A orgulhosa Juno com os seus grandes olhos e braços magníficos, ciosa dos colóquios de Tétis e Júpiter em favor de Aquiles, interrompe o filho de Saturno. Júpiter troveja e ameaça; a esposa treme de cólera. Os outros gemem e suspiram. Mas quando Vulcano pega da urna de néctar, e vai coxeando servir a todos, rompe no Olimpo uma enorme gargalhada inextinguível. Por quê? Senhora minha, com certeza nunca viu cair um carteiro.

Às vezes, nem é preciso que ele caia; outras vezes nem é sequer preciso que exista. Basta imaginá-lo ou recordá-lo. A sombra da sombra de uma lembrança grotesca projeta-se no meio da paixão mais aborrecível, e o sorriso vem às vezes à tona da cara, leve que seja, - um nada. Deixemo-la rir, e ler a sua carta da roça.


 

LV



Quinze dias depois, estando Rubião em casa, apareceu-lhe o marido de Sofia. Vinha perguntar-lhe o que era feito dele? onde se tinha metido que não aparecia? estivera doente? ou já não cuidava dos pobres? Rubião mastigava as palavras, sem acabar de compor uma frase única. No meio disto, Palha viu que havia na sala um homem mirando os quadros, e abafou a voz.

- Desculpe, não vi que estava com visitas, disse ele.

- Desculpar o quê? é um amigo, como o senhor. Doutor, aqui está o meu amigo Cristiano de Almeida e Palha. Creio que já lhe falei dele. Este é o meu amigo Dr. Camacho, - João de Sousa Camacho.

Camacho fez um sinal de cabeça, disse uma ou duas cousas, e quis sair; mas Rubião acudiu, que não, senhor, que ficasse. Eram ambos amigos; e depois a lua não tardava a iluminar a bela enseada de Botafogo.

A lua, - outra vez a lua, - e esta frase: Creio que já lhe falei dele, atordoaram de tal jeito o recém-chegado, que não lhe foi possível proferir uma palavra durante algum tempo. Bom é acrescentar que o dono da casa também não sabia que dissesse. Estavam os três sentados, Rubião no canapé, Palha e Camacho em cadeiras defronte um do outro. Camacho, que conservara a bengala na mão, pô-la verticalmente nos joelhos, batendo no nariz e olhando para o teto. Fora, rumor de carros, tropel de cavalos, e algumas vozes. Eram sete horas e meia da noite, ou mais, perto de oito. O silêncio foi mais longo do que era lícito na ocasião; nem Rubião nem Palha davam por ele. Camacho é que, aborrecido, foi à janela, e exclamou dali para os dous:

- Lá vem o luar entrando!

Rubião fez um gesto, Palha outro; mas quão diferentes! Rubião era para transportar-se à janela; Palha ia a agarrá-lo pela gola. Cedia menos à divulgação possível da aventura do que à lembrança da violência com que ele pegara nas mãos da mulher para atraí-la a si. Um e outro contiveram-se; logo depois, Rubião, cruzando a perna esquerda sobre a direita, voltou-se para o Palha, e perguntou-lhe:

- Sabe que vou deixá-los?


 

LVI (i)



Tudo esperava o outro, menos isto. Daí o espanto em que se dissolveu a cólera; daí também uma sombrinha de pesar, que é o que o leitor menos espera. Deixá-los? Naturalmente ia-se embora do Rio de Janeiro; era o castigo que a si mesmo impunha, pela ação ruim que praticara, em Sta.Teresa; logo, vexara-se, arrependera-se... Não tinha cara de aparecer à esposa do amigo... Tal foi a primeira conclusão do Palha; mas vieram outras hipóteses... Por exemplo, a paixão podia persistir, e a saída dele era um modo de afastar-se da pessoa amada... Também podia acontecer que entrasse aí algum plano de casamento.

A última hipótese trouxe à fisionomia do Palha um elemento novo, que não sei como chame. Desapontamento? Já o elegante Garrett não achava outro termo para tais sensações, e nem por ser inglês o desprezava. Vá desapontamento. Misturem-lhe o espanto da notícia de separação, e a sombrinha de pesar; não se esqueçam da cólera que primeiro trovejou surdamente, e não faltará quem ache que a alma deste homem é uma colcha de retalhos.

Pode ser; mas as colchas inteiriças são tão raras! A questão é que as cores se não desmintam uma às outras, - quando não possam obedecer à simetria e regularidade. Era o caso do nosso homem. Tinha o aspecto baralhado à primeira vista; mas atentando bem, por mais opostos que fossem os matizes, lá se achava a unidade moral da pessoa.


 

LVII (i)



Mas, por que é que Rubião ia deixá-los? Que razão? Que negócio?

No dia seguinte ao do caso de Sta. Teresa, acordou opresso. Almoçou mal. Não cuidou de nada; calçou as chinelas africanas sem interesse, não cuidou das coisas belas, ou simplesmente ricas, que lhe enchiam a casa. Não pôde suportar as carícias do cão mais de dous minutos; tão depressa o recebeu na sala, como o mandou embora. Ele é que enganou os criados e tornou ao amo; mas, tal foi o tabefe que recebeu na orelha, que não repetiu os afagos: estirou-se no chão com os olhos no amigo.

Rubião estava arrependido, irritado, envergonhado. No cap. X deste livro ficou escrito que os remorsos deste homem eram fáceis, mas de pouca dura; faltou explicar a natureza das ações que os podiam fazer curtos ou compridos. Lá tratava-se daquela carta escrita pelo finado Quincas Borba, tão expressiva do estado mental do autor, e que ele ocultou do médico, podendo ser útil à ciência ou à justiça. Se entrega a carta, não teria remorsos, nem talvez legado, - o pequeno legado que então esperava do enfermo. No caso presente, era uma tentativa de adultério. Certo que ele suspirava há muito, e tinha ímpetos interiores; mas foi só a animação indiscreta da moça, e a própria excitação do momento que o levou a fazer a declaração repelida. Passados os vapores da noite, não era só o vexame que sentia, mas também os remorsos. A moral é uma, os pecados são diferentes.

(Continua.)




31 de março de 1887, nº 06


 

LVI (ii)


(Continuação)


Saltemos por cima de tudo o que ele sentiu e pensou durante os primeiros dias. Chegou a esperar alguma cousa no domingo, um bilhete como o do anterior, - com morangos ou sem eles. Na segunda-feira estava determinado a ir a Minas passar uns dous meses; tinha necessidade de restaurar a alma aos ventos de Barbacena. Não contava com o Dr. Camacho.

- Deixar-nos? perguntou finalmente o Palha.

- Creio que sim; vou a Minas.

Camacho, voltando da janela, sentou-se na cadeira em que estivera antes.

- Que Minas? disse ele sorrindo. - Deixe-se de Minas por ora; lá irá quando for preciso, e não se demorará muito que o seja.

Palha não ficou menos admirado das palavras deste que das do outro. Donde surgira semelhante homem, com ar de dominar o Rubião? Olhou para ele; era pessoa de estatura média, rosto estreito, pouca barba, queixo comprido, orelhas de pavilhão largo e aberto. Foi tudo o que pôde observar rapidamente. Viu também que a roupa era fina, sem luxo, e que os pés não estavam mal calçados. Não examinou os olhos, nem o sorriso, nem as maneiras; não chegou a reparar no princípio de calva, nem nas mãos magras e cabeludas.


 

LVII (ii)



Camacho era homem político. Formado em direito em 1844, pela faculdade do Recife, voltara para a província natal, onde começou a advogar; mas a advocacia era um pretexto. Já na academia, escrevera um jornal político, sem partido definido, mas com muitas ideias colhidas aqui e ali, e expostas em estilo meio magro e meio inchado. Pessoa que recolheu esses primeiros frutos de Camacho fez um índice dos seus princípios e aspirações: - ordem pela liberdade, liberdade pela ordem; - a autoridade não pode abusar da lei, sem esbofetear-se a si própria; - a vida dos princípios é a necessidade moral das nações novas como das nações velhas; - dai-me boas finanças, dar-vos-ei boa política (Barão Louis); - mergulhemos no Jordão constitucional; - dai passagem aos valentes, homens do poder; eles serão os vossos sustentáculos, etc., etc.

Na província natal, essa ordem de ideias teve de ceder a outras; e o mesmo se pode dizer do estilo. Fundou ali um jornal; mas, sendo a política local menos abstrata, Camacho aparou as asas e desceu dos intermúndios de Epicuro, às nomeações de delegados, às obras provinciais, às gratificações, à luta com a folha adversa, e aos nomes próprios e impróprios. A adjetivação exigiu grande apuro. Nefasto, esbanjador, vergonhoso, perverso, foram os termos obrigados, enquanto atacou o governo; mas, logo que, por uma mudança de presidente, passou a defendê-lo, as qualificações mudaram também: enérgico, ilustrado, justiceiro, fiel aos princípios, verdadeira glória da administração, etc., etc. Esse tiroteio durou três anos. No fim deles, a paixão política dominava a alma do jovem bacharel.

Membro da assembleia provincial, logo depois da câmara dos deputados, presidente de uma província de segunda ordem, onde, por natural desforço do destino, leu nas folhas da oposição todos os nomes que escrevera outrora, nefasto, esbanjador, vergonhoso, perverso. Camacho teve dias grandes e pequenos, andou fora e dentro da câmara, falou, escreveu, lutou constantemente. Acabou por vir morar na capital do império. Deputado da conciliação dos partidos, viu governar o marquês de Paraná, e instou por algumas nomeações, em que foi atendido; mas se é certo que o marquês lhe pedia conselhos, e, usava confiar-lhe os planos que trazia, ninguém podia afirmá-lo, porque ele, em se tratando da própria consideração, mentia sem dificuldade.

O que se pode afirmar é que queria ser ministro, e trabalhou por obtê-lo. Agregou-se a vários grupos, segundo lhe parecia acertado; na câmara discorria largamente sobre matérias de administração, acumulara algarismos, artigos de legislação, pedaços de relatórios, trechos de autores franceses, embora mal traduzidos. Mas, entre a espiga e a mão, está o muro de que fala o poeta; e por mais que o nosso homem estendesse a mão do seu desejo para colhê-la, a espiga lá ficava do lado oposto, donde a arrancavam outras mãos, mais ou menos sôfregas, ou até descuidadas.

Há solteirões na política. Camacho ia entrando nessa categoria melancólica, em que os sonhos nupciais se evaporam com o tempo; mas não tinha a superioridade de abandoná-la. Ninguém que organizasse um gabinete se atrevia, ainda que o desejasse, a dar-lhe uma pasta. Camacho ia-se sentindo cair; para simular influência, tratara familiarmente os poderosos do dia, contava em voz alta as visitas aos ministros e a outras dignidades do Estado; mas nem por isso dava um passo adiante.

Não lhe faltava que comer. A família era pequena; mulher, uma filha, que ia nos dezoito anos, um afilhado de nove, e para isso dava a advocacia. Mas trazia a política no sangue; não lia, quase não falava de outra cousa. De literatura, ciências naturais, história, filosofia, artes, não se preocupava absolutamente nada. Também não conhecia grandes cousas de direito; guardava algum do que lhe dera a academia, e mais a legislação posterior e as práticas forenses. Com isso ia arrazoando e ganhando.

(Continua.)




15 de abril de 1887, no 07

A maior parte do texto publicado neste número, até as palavras "crianças e moleques", no capítulo LXII, não consta da edição da Comissão Machado de Assis. Foi descoberto e publicado por Ana Cláudia Suriani da Silva.


 

LVIII



Dias antes, indo passar a noite em casa de um conselheiro, viu ali Rubião. Falava-se de política. O principal assunto da noite foi a mudança da situação, com a chamada dos conservadores ao poder, e a dissolução da Câmara. Rubião assistira à reunião em que o ministério Itaboraí pediu os orçamentos. Tremia ainda ao contar as suas impressões, descrevia a Câmara, tribunas, galerias cheias que não cabia um alfinete, o discurso de José Bonifácio, a moção, a votação... Toda essa narrativa nascia de uma alma simples; era claro. A desordem dos gestos, o calor da palavra tinham a eloquência da sinceridade. Camacho escutava-o atento. Teve modo de o levar a um canto da janela e fazer-lhe considerações graves sobre a situação. Rubião opinava de cabeça, ou por palavras soltas e aprobatórias.

- Os conservadores não se demoram no poder, disse-lhe finalmente Camacho.

- Não?

- Não; eles não querem a guerra, e têm de cair por força. Veja como andei bem no programa da folha.

- Que folha?

- Conversaremos depois.

No dia seguinte, almoçaram no Hotel de la Bourse, a convite de Camacho. Este referiu ao outro que fundara, meses antes, uma folha com o único programa de continuar a guerra a todo transe... Andava muito acesa a dissenção entre liberais; pareceu-lhe que o melhor modo de servir ao próprio partido era dar-lhe um terreno neutro e nacional.

- E isto agora serve-nos, concluiu ele, porque o governo inclina-se à paz. Já amanhã sai um artigo meu, furibundo.

Rubião ouvia tudo, quase sem tirar os olhos do outro, comendo rapidamente, nos intervalos em que o próprio Camacho inclinava a cabeça ao prato. Folgava de ver-se confidente político; e, para dizer tudo, a ideia de entrar em luta para colher alguma coisa depois, um lugar na Câmara, por exemplo, espanejou as asas de ouro no cérebro do nosso amigo. Camacho não lhe falou em mais nada; procurou-o no dia seguinte, e não o achou. Agora, pouco depois de entrar, vinha o Palha interrompê-los.


 

LIX



- Sim, mas eu preciso ir a Minas, teimou Rubião.

- Para quê? pergunta Camacho.

E o Palha fez-lhe igual pergunta. Para que iria a Minas, salvo se era negócio de pouco tempo. Ou já estava aborrecido da Corte?

- Não, aborrecido não estou; ao contrário...

Ao contrário, gostava muito dela; mas a terra natal, - por menos bonita que seja, - um lugarejo, - dá saudades à gente; - ainda mais quando a pessoa veio de lá homem. Queria ver Barbacena. E Barbacena era a primeira terra do mundo. Durante alguns minutos, Rubião pôde subtrair-se à ação dos outros. Tinha a terra natal em si mesmo: ambições, vaidades da rua, prazeres efêmeros, tudo cedia ao mineiro saudoso da província. Se a alma dele foi alguma vez dissimulada, e escutou a voz do interesse, agora era a simples alma de um homem arrependido do amor, e do gozo, e mal acomodado na própria riqueza.

Palha e Camacho olharam um para o outro... Oh! esse olhar foi como um bilhete de visita trocado entre as duas consciências. Nenhuma disse o seu segredo, mas viram os nomes no cartão, e cumprimentaram-se. Sim, era preciso impedir que o Rubião saísse ainda que por algum tempo; Minas podia retê-lo. Que era ele mais que um hóspede de alguns meses? Entenderam-se os dois, e uniram-se na ação. Concordaram que lá fosse; mas depois, - alguns meses depois; - e talvez o Palha fosse também. Nunca vira Minas; seria excelente ocasião.

- O senhor? perguntou Rubião.

- Sim, eu; há muito que desejo ir a Minas e a São Paulo. Olhe, há mais de um ano que estivemos vai não vai... Sofia é companheira para estas coisas. Lembra-se quando nos encontramos no trem da estrada de ferro?... Vínhamos de Vassouras; mas esta ideia de Minas nunca nos deixou. Iremos os três.

Rubião agitava-se no canapé, um pouco trêmulo. Sorria, abanava a cabeça. Camacho alegava os sucessos políticos…

- Por isso mesmo, as eleições, interrompia Rubião.

- Não, deixe lá as eleições. Cá temos muito que fazer por ora. Precisamos lutar aqui mesmo, na capital; aqui é que devemos esmagar a cabeça da cobra. Lá irá quando for tempo; irá então receber a recompensa e matar as saudades… E sabia que político não tem saudades; e o dever do cidadão é entregar-se ao seu partido, militar no ostracismo para triunfar no dia da vitória.

A recompensa era, com certeza, o diploma de deputado. Rubião entendeu bem, posto que o outro não lhe falasse em tal. Visão deliciosa, ambição que nunca teve, quando era um pobre diabo... Ei-la que o toma, que lhe aguça todos os apetites de grandezas e de glória... De outro lado, o amigo Cristiano continua a falar da necessidade de ficar, por enquanto, ? mormente agora que acaba de saber da vocação política do amigo. Concorda com o outro, sem saber bem porque, nem para quê. Tudo é que fique.

- Mas uma viagem de alguns dias, disse Rubião sem desejo de lhe aceitarem a proposta.

- Vá de alguns dias, concordou Camacho.

A lua estava então brilhante...; a enseada, vista pelas janelas, apresentava aquele aspecto sedutor que nenhum carioca pode crer que exista em outra parte do mundo. A figura de Sofia passou ao longe, na encosta do morro, e diluiu-se no luar; a última sessão da Câmara, tumultuosa, ressoou aos ouvidos do Rubião... Camacho foi até à janela e voltou logo.

- Mas quantos dias? perguntou ele.

- Isso é que não sei, mas poucos.

- Em todo o caso, amanhã falaremos.

Camacho despediu-se. Palha ficou ainda alguns instantes, para dizer-lhe que seria esquisito voltar a Minas, sem que eles liquidassem as contas... Rubião interrompeu-o. Contas? Quem lhe falava em contas?

- Bem se vê que o senhor não é homem de comércio, redarguiu Cristiano.

- Não sou, é verdade; mas as contas pagam-se quando se pode. Entre nós, tem sido isto. Ou, quem sabe? Seja franco; precisa de algum dinheiro?

- Não, não preciso. Obrigado. Tenho que propor um negócio, mas há de ser mais demoradamente. Vim vê-lo para não botar anúncios nos jornais: "Desapareceu um amigo, por nome Rubião, que tem um cachorro..."

Rubião gostou da facécia. Palha saiu e ele foi acompanhá-lo até a esquina da Rua Marquês de Abrantes. Ao despedir-se prometeu ir visitá-lo em Sta. Teresa, antes de ir a Minas.


 

LX



Pobre Minas! Rubião voltou para casa, sozinho, a passo lento, pensando no modo de lá não ir agora, visto que era necessário ficar. E as palavras dos dois andavam-lhe no cérebro, como peixinhos de ouro em globo de vidro, abaixo, acima, rutilantes: "aqui é que se deve esmagar a cabeça da cobra"; - "Sofia é companheira para estas coisas". Pobre Minas!


 

LXI



No dia seguinte recebeu um jornal que nunca vira antes, a Atalaia, sem nome de redactor, artigos anônimos, várias notícias, poucos anúncios e de grandes letras. O artigo editorial desancava o ministério; a conclusão, porém, estendia-se a todos os partidos e à nação inteira: - Mergulhemos no Jordão constitucional. Rubião achou-o excelente; tratou de ver onde se imprimia a folha para assiná-la. Freitas, que veio almoçar com ele, deu-lhe explicações sobre a Atalaia. Era redigido pelo Dr. Camacho, um Camacho…

- Conheço; ainda ontem esteve aqui comigo, interrompeu Rubião.

- É dele, e não é má. Que diz o número de hoje?

Freitas leu o artigo com ênfase, por modo que o Rubião ainda o achou melhor do que quando o lera na cama. Concordaram que era magnífico. Ao almoço, falaram muito do Camacho, confessando Rubião que simpatizava com ele, e pedindo ao outro a sua opinião. A opinião era a mesma. Depois indagou dos costumes da pessoa, da consideração em que a tinham, e todas as respostas foram agradáveis; era homem circunspecto, estimado, perfeito cavalheiro, um gentleman.


 

LXII



Nesse mesmo dia foi ao escritório de Camacho. Queria elogiar o artigo e assinar a folha. Ia andando pela rua da Ajuda, quando sucedeu dar com um menino de dois anos, se tanto, no meio da rua, e um carro que descia a trote largo, com o cocheiro distraído. A mãe, que estava à porta de uma colchoaria, deu um grito angustioso, mas não teve forças para correr a salvá-lo.

- Deolindo!... bradou a pobre mulher.

Rubião ouviu o grito primeiro; depois é que viu o perigo. Tudo foi rápido. O carro vinha já sobre a criança. Rubião correu ao meio da rua, bradou ao cocheiro que parasse. A criança, tendo ouvido a mãe, ia a voltar para ela, mas deu com o carro, atarantou-se e caiu. O cocheiro refreou os animais, mas a marcha em que vinha não permitia fazê-los parar de súbito. Então o nosso amigo deitou a mão com força ao freio de um deles, e com a outra pegou do menino, que já estava entre as patas de ambos. Podia ser envolvido por eles, mas conseguiu salvar a criança.

A mãe, quando o recebeu das mãos do Rubião, não podia falar; estava pálida, trêmula. Algumas pessoas puseram-se a altercar com o cocheiro, mas um homem calvo, que vinha dentro, ordenou-lhe que fosse andando, sem demora. O cocheiro continuou o seu caminho. assim, quando o pai, que estava no interior da colchoaria, veio fora, já o carro dobrava a esquina de São José.

- Ia quase morrendo, disse a mãe. Se não fosse este senhor, não sei o que seria do meu pobre filho.

Era um acontecimento no quarteirão. Vizinhos entraram a ver o que sucedera ao pequeno; na rua, crianças e moleques, espiavam pasmados. A criança tinha apenas um arranhão no ombro esquerdo, e certamente produzido pela queda, não pelos cavalos.

- Ah! mas você é descuidada, Josefina! dizia o marido. Como é que você deixa sair assim o menino?

- Estava aqui na calçada, redarguiu a mãe.

- Qual calçada! A criança o que quer é brincar. Você é muito distraída...

- E você também não é? Quero ver se você também não se distrai.

- Não foi nada, interveio Rubião; em todo caso, não deixem o menino sair à rua; é muito pequenino.

- Obrigado, disse o marido; mas onde está o seu chapéu?

Rubião advertira então que perdera o chapéu. Um rapazinho esfarrapado, que o apanhara, estava à porta da colchoaria, aguardando a ocasião de restituí-lo. Rubião deu-lhe uns cobres em recompensa, cousa em que o rapazinho não pensava, ao ir apanhar o chapéu. Não o apanhou senão para ter uma parte na glória e nos serviços. Entretanto, aceitou os cobres com prazer; foi talvez a primeira ideia que lhe deram da venalidade das cousas.

- Mas, espere, tornou o colchoeiro, o senhor feriu-se?

Com efeito, a mão do nosso amigo tinha sangue; havia um ferimento na palma, cousa pequena, e que ele não podia saber se era obra do dente do cavalo, se de algum ferrão das correias. A verdade é que só agora começou a senti-lo. A mãe do pequeno correu a buscar uma bacia e uma toalha, apesar de dizer o Rubião que não era nada, que não valia a pena. Veio a água; enquanto ele lavava a mão, o colchoeiro correu à farmácia próxima, e trouxe o medicamento necessário. Rubião curou-se, atou o lenço na mão; a mulher do colchoeiro escovou-lhe o chapéu, e, quando ele saiu, um e outro agradeceram-lhe muito o benefício da salvação do filho. A outra gente, que estava à porta e na calçada fez-lhe alas. Rubião seguiu o seu caminho.

(Continua.)




30 de abril de 1887, no 08


 

LXIII



- Que é que tem aí na mão? inquiriu Camacho.

Rubião narrou o incidente da rua da Ajuda. O advogado fez-lhe muitas perguntas sobre a criança, os pais, o número da casa; mas, o próprio Rubião pôs termo às respostas.

- Não sabe ao menos, o nome do pequeno?

- Ouvi chamar Deolindo. Vamos ao que importa. Venho assinar a sua folha; recebi um número, e quero contribuir para...

Camacho acudiu que não precisava de assinaturas. Em assinaturas, a folha ia bem. O que ela precisava era de material tipográfico e desenvolvimento no texto; ampliar a matéria, pôr-lhe mais noticiário, variedades, tradução de algum romance para o folhetim, movimento do porto, da praça, etc. Tinha anúncios, como viu.

- Sim, senhor.

- Nem pense que eu me descuido disso. Tenho o capital quase subscrito. Bastam dez pessoas, e já somos oito; eu e mais sete. Faltam dous. Com mais duas pessoas está completo o capital.

- Quanto será? pensou Rubião.

Camacho batia com um canivete na beira da escrivaninha, olhando às furtadelas para o outro. Rubião passava uma vista à sala, poucos móveis, alguns autos sobre um tamborete ao pé do advogado, estante com livros, Lobão, Pereira e Souza, Dalloz, Ordenações do Reino, um retrato na parede, diante da escrivaninha.

- Conhece? disse Camacho apontando para o retrato.

- Não, senhor.

- Veja se conhece.

- Não posso saber. Nunes Machado?

- Não, acudiu pesaroso o ex-deputado. Não pude obter um bom retrato dele. Vendem-se aí umas fotografias que me não parecem boas. Não; aquele é o marquês.

- De Barbacena?

- Não, do Paraná; é o grande marquês, meu particular amigo. Tentou conciliar os partidos, e foi por isso que me achei com ele. Morreu cedo; a obra não pôde ir adiante. Hoje, se ele a quisesse, ter-me-ia contra si. Não! nada de conciliações; guerra de morte. Havemos de destruí-los; leia a Atalaia, meu bom companheiro de lutas; recebê-la-á em casa.

- Não, senhor.

- Por que não?

Rubião baixou os olhos diante do nariz interrogativo do Camacho.

- Não, senhor; sou firme, desejo ajudar os amigos. Receber a folha de graça...

- Mas, se já lhe disse que de assinaturas vamos bem, retorquiu Camacho.

- Sim, senhor, mas não disse também que faltam duas pessoas para o capital?

- Duas, sim; temos oito...

- Quanto é o capital?

- O capital é de cinquenta contos; cinco por pessoa.

- Pois entro com cinco.

Camacho agradeceu-lho em nome das ideias. Tinha intenção de convidá-lo para entrar com eles; era um direito adquirido pela convicção, pela fidelidade, pelo amor aos negócios públicos do seu recente amigo. Uma vez que espontaneamente se alistou, pedia-lhe que o desculpasse... Mostrou-lhe a lista dos outros; Camacho era o primeiro; entrava com a folha, o material existente, as assinaturas e o trabalho hercúleo... Ia a emendar-se, mas repetiu corajosamente: trabalho hercúleo. Podia dizer que o era, sem deslustre, nem mentira; esganou cobras, em criança. Já agora era um vício; gostava da luta, morreria nela, envolvido na bandeira...

- Está aí uma senhora que deseja falar a V. Exa., veio dizer o porteiro.

Rubião levantou-se.

- Mande entrar. Adeus, até breve; temos de fazer uma reunião...

Rubião despediu-se. No corredor passou por ele uma senhora alta, vestida de preto, com um arruído de seda e vidrilhos. Indo a descer a escada, ouviu a voz do Camacho, mais alta do que até então: - Oh! senhora baronesa!


 

LXIV



Na rua, encontrou Sofia com uma senhora idosa e outra moça. Não teve olhos para ver bem as feições desta; todo ele foi pouco para Sofia. Falaram-se acanhadamente, dous minutos apenas. Rubião parou adiante, e olhou para elas; mas as três senhoras iam andando sem voltar a cabeça. Depois do jantar, consigo:

- Irei lá hoje?

Reflexionou muito sem adiantar nada. Ora que sim, ora que não. Achara-lhe um modo esquisito; mas lembrava-se que sorriu, - pouco, mas sorriu. Pôs o caso à sorte. Se o primeiro carro que passasse viesse da direita, iria; se viesse da esquerda, não. E deixou-se estar na sala, no pouf central, olhando. Veio logo um da esquerda. Estava dito; não ia a Sta.Teresa. Mas aqui a consciência reagiu; queria os próprios termos da proposta: um carro. Tilbury não era carro. Devia ser o que vulgarmente se chama carro, uma caleça inteira ou meia, ou ainda uma vitória... Daí a pouco vieram chegando da direita muitas caleças, que voltavam de um enterro. Foi.

Sofia deu-lhe a mão gentilmente, sem sombra de rancor. as duas senhoras do passeio estavam com ela, em trajes caseiros; apresentou-as. A moça era prima, a velha era tia, - aquela tia da roça, autora da carta que Sofia recebeu no jardim das mãos do carteiro, que logo depois deu uma queda. A tia chamava-se D. Maria Augusta; tinha uma fazendola, alguns escravos e dívidas, que lhe deixara o marido, além das saudades. A filha era Maria Benedita, - nome que a vexava, por ser de velha, dizia ela; mas a mãe retorquia-lhe que as velhas foram algum dia moças e meninas, e que os nomes adequados às pessoas eram cousas de poetas e contadores de histórias. Maria Benedita era o nome da avó dela, afilhada de Luís de Vasconcelos, o vice-rei. Que queria mais?

(Continua.)




15 de maio de 1887, no 09

LXIV

(Continuação)

Contaram isto ao Rubião, sem que ela se vexasse. Sofia, ou por atenuar o caso, ou por outro motivo, acrescentou que os mais feios nomes eram lindos, segundo a pessoa. Maria Benedita era lindíssimo.

- Não lhe parece? concluiu voltando-se para Rubião.

- Deixa de caçoada, prima! acudiu Maria Benedita, rindo.

Podemos crer que a velha nem Rubião entenderam o dito, - a velha, porque começava a cochilar, - Rubião porque afagava um cãozinho que tinham dado a Sofia, pequeno, delgado, leve, buliçoso, olhos negros, com um guizo ao pescoço. Mas, insistindo a dona da casa, ele respondeu que sim, sem saber o que era. Maria Benedita tornou a rir. Em verdade, não era uma formosura; não lhe pedissem olhos que fascinam, nem dessas bocas que segredam alguma cousa, ainda caladas. Altinha, mãos grandes, grandes olhos atônitos quando escutavam somente, mas que sabiam rir e conversar, se a boca falava também, - aí fica o principal das feições da moça. Era natural, sem acanho de roceira; e tinha um donaire particular, que corrigia os descuidos do vestido.

Nascera na roça e gostava da roça. A roça era perto, Iguaçu. De longe em longe vinha à cidade, passar alguns dias; mas, ao cabo dos dous primeiros, já estava ansiosa por tornar a casa. A educação foi sumária: ler, escrever, doutrina e algumas obras de agulha. Nos últimos tempos (ia em dezenove anos), Sofia apertou com ela para aprender piano; a tia consentiu: Maria Benedita veio para a casa da prima, e ali esteve uns dezoito dias. Não pôde mais; apertaram as saudades da mãe e da filha, e a moça voltou para a roça, deixando consternado o professor, que anunciou nela, desde os primeiros dias, um grande talento musical.

- Oh! sem dúvida, um grande talento!

Maria Benedita riu-se quando a prima lhe contou isto, e nunca mais pôde ver a sério o homem. Às vezes, no meio de uma lição, deitava a rir; Sofia contraía as sobrancelhas, a modo de ralho, e o pobre homem perguntava o que era, e de si mesmo explicava rindo que havia de ser alguma lembrança de moça, e continuava a lição. Nem piano nem francês, - outra lacuna, que Sofia mal podia desculpar. D. Maria Augusta não compreendia a consternação da sobrinha. Para que francês? A sobrinha dizia-lhe que era indispensável para conversar, para ir às lojas, para ler um romance...

- Sempre fui feliz sem francês, respondia a velha; e os meia-línguas da roça são a mesma cousa; não vivem pior que os crioulos.

Um dia acrescentou:

- Nem por isso lhe hão de faltar noivos. Pode casar, já lhe disse que pode casar quando quiser, que eu também casei; e até deixar-me na roça, sozinha, morrer como uma besta velha...

- Mamãe!

- Não tenha pena; é só aparecer o noivo. Em aparecendo, vá com ele, e deixe-me ficar. Olha Maria José o que fez comigo? Vive lá pelo Ceará...

- Mas se o marido é juiz de direito, ponderava Sofia.

- Torto que seja! Para mim é a mesma cousa. Cá fica o frangalho da velha. Casa, Maria Benedita, casa depressa; eu morrerei com Deus... Não terei filhos, mas terei Nossa Senhora, que é mãe de todos. Casa, anda, casa!

Toda essa rabugem era cálculo; tinha em mira arredar a filha do matrimônio, excitando-lhe o terror e a piedade. Quando menos, retardar-lho. Não creio que confessasse esse pecado ao confessor, nem que chegasse a senti-lo: era obra de um egoísmo idoso e melindroso. D. Maria Augusta fora longamente querida; a mãe era doida por ela, o marido amou-o até o último dia com a mesma intensidade. Mortos ambos, todas as suas saudades filiais e matrimoniais foram postas na cabeça das duas filhas. Uma fugira-lhe, casando. Ameaçada da solidão, se a outra casasse também, D. Maria Augusta fazia tudo o que podia por espaçar o terrível lance.


 

LXV



Curta foi a visita de Rubião. Às oito horas levantou-se ele discretamente, esperando qualquer palavra de Sofia, um pedido para que ficasse ainda algum tempo, que esperasse o marido que já vinha, um espanto que fosse: Já! mas nem isso. Sofia estendeu-lhe a mão, em que ele mal pôde tocar. Contudo, a moça, durante a visita, mostrou-se tão natural, tão sem rancor... Não teve seguramente os olhos longos e pausados, como dantes; parecia até que não houvera nada, nem bem nem mal, nem morangos, nem lua. Rubião tremia, não achava palavras; ela achava todas as que queria, e, se era preciso olhar para ele, fazia-o diretamente, tranquilamente...

- Lembranças ao nosso Palha, murmurou ele de chapéu e bengala na mão.

- Obrigada! Foi fazer uma visita; parece que ouço passos; há de ser ele.

Não era ele; era Carlos Maria. Rubião ficou espantado de o ver ali, mas achou logo que a presença da fazendeira e da filha explicaria tudo; podia ser até que fossem aparentados.

- Ia saindo, quando o senhor entrou, disse-lhe Rubião depois de o ver sentado ao pé de D. Maria Augusta.

- Ah! respondeu o outro, indiferentemente, olhando para o retrato de Sofia.

Sofia foi até à porta despedir-se do Rubião; disse-lhe que naturalmente o marido ficaria com pena de não estar em casa; mas que a visita era imperiosa. Negócios... Iria pedir-lhe desculpa.

- Que desculpa? acudiu Rubião.

Parece que quis dizer ainda alguma cousa; mas o aperto de mão de Sofia e a reverência que esta lhe fez, deram-lhe o sinal de despedida. Rubião despediu-se, atravessou o jardim, ouvindo a voz de Carlos Maria, na sala:

- Vou denunciar seu marido, minha senhora; é um criminoso provável; le mauvais goût mène au crime... e ele é homem de muito mau gosto.

Rubião parou.

- Por quê? suspirou Sofia.

- Tem este seu retrato na sala, continuou Carlos Maria; a senhora é muito mais bela, infinitamente mais bela do que a pintura... Comparem, minhas senhoras.

(Continua.)

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31 de maio de 1887, no 10.

O romance não foi publicado nesse número - hipótese da Comissão Machado de Assis, confirmada no número da revista encontrado por Ana Cláudia Suriani da Silva.




15 de junho de 1887, no 11


 

LXVI



Como ele diz aquelas cousas tão naturalmente! pensou Rubião, em casa, relembrando as palavras de Carlos Maria. Desfazer no retrato só para elogiar a pessoa! Note-se que o retrato é muito parecido...


 

LXVII



De manhã, na cama, teve um sobressalto. O primeiro jornal que abriu foi a Atalaia. Leu o artigo editorial, uma correspondência, e algumas notícias. De repente, deu com o seu nome.

- Que é isto?

Era o seu próprio nome impresso, rutilante, multiplicado, nada menos que uma notícia do caso da rua da Ajuda. Depois do sobressalto, aborrecimento. Que diacho de ideia aquela de imprimir uma cousa particular, contada em confiança? Não quis ler nada; desde que percebeu o que era, deitou a folha ao chão, e pegou em outra. Infelizmente, perdera a serenidade, lia por alto, pulava algumas cousas, não entendia outras; ou dava por si no fim de vinte linhas sem saber como viera escorregando até ali...

Ao levantar-se, sentou-se na poltrona, ao pé da cama, e pegou da Atalaia. Lançou os olhos pela notícia: era mais de uma coluna. Coluna e tanto para cousa tão diminuta! pensou consigo. E afim de ver como é que Camacho enchera o papel, leu a notícia, um pouco às pressas, vexado dos adjetivos e da descrição dramática do caso.

- Foi bem feito! disse em voz alta. Quem me mandou ser linguarudo?

Passou ao banho, vestiu-se, penteou-se, sem esquecer a bisbilhotice da folha, acanhado com a publicação de um negócio, que ele reputava mínimo, e ainda mais pelo encarecimento que lhe dera o escritor, como se se tratasse de dizer bem ou mal em política. Ao café, pegou novamente na folha, para ler outras cousas, nomeações do governo, um assassinato em Garanhuns, meteorologia, até que a vista desastrada foi cair na notícia, e leu-a então com pausa. Aqui, confessou Rubião que bem podia crer na sinceridade de Camacho. O entusiasmo da linguagem explicava-se pela impressão que lhe ficou do fato; tal foi ela que lhe não permitiu ser mais sóbrio. Naturalmente é o que foi. Rubião recordou a sua entrada no escritório do Camacho, o modo por que falou; e daí tornou atrás, ao próprio ato. Estirado no gabinete, evocou a cena: o menino, o carro, os cavalos, o grito, o salto que deu, levado de um ímpeto, irresistível: - Agora mesmo não podia explicar o negócio; foi como se lhe tivesse passado uma cousa pelos olhos... Atirou-se à criança, e aos cavalos, cego e surdo, sem atender ao próprio risco... E podia ficar ali, embaixo dos animais, esmagado pelas rodas, morto ou ferido; ferido que fosse... Podia ou não podia? Era impossível negar que a situação foi grave... A prova é que os pais e a vizinhança...

Rubião interrompeu as reflexões para ler ainda a notícia. Que era bem escrita, era. Trechos havia que releu com muita satisfação. O diabo do homem parecia ter assistido à cena. Que narração! que viveza de estilo! Alguns pontos estavam acrescentados, - confusão de memória, - mas o acréscimo não ficava mal. E certo orgulho que lhe notou ao repetir-lhe o nome? "O nosso amigo, o nosso distintíssimo amigo, o nosso valente amigo..."

Ao almoço, riu-se de si mesmo; achou-se mortificado em demasia. Afinal, que tinha que o outro desse aos seus leitores uma cousa que era verdadeira, que era interessante, dramática, - e, seguramente - não vulgar? Saindo, recebeu alguns cumprimentos; Freitas chamou-lhe S. Vicente de Paula. E o nosso amigo sorria, agradecia, diminuía-se, não era nada...

- Nada? replicou alguém. Dê-me muitos desses nadas... Salvar uma criança com risco da própria vida.

Rubião ia concordando, ouvindo, sorrindo; contava a cena a alguns curiosos, que a queriam da própria boca do autor. Certos ouvintes respondiam com proezas suas, - um que salvara uma vez um homem, outro uma menina, prestes a afogar-se no boqueirão do Passeio, estando a tomar banho. Vinham também suicídios malogrados, por intervenções do ouvinte, que tomou a pistola ao infeliz, e fê-lo jurar... Cada gloriazinha oculta picava o ovo, e punha a cabeça de fora, olho aberto, sem penas, em volta da glória máxima do Rubião. Também teve invejosos, alguns que nem o conheciam, só por ouvi-lo louvar em voz alta. Rubião foi agradecer a notícia ao Camacho, não sem alguma censura pelo abuso de confiança, mas uma censura mole, ao canto da boca... Daí foi comprar uns tantos exemplares da folha para os amigos de Barbacena. Nenhuma outra transcreveu a notícia; ele, a conselho do Freitas, fê-la reimprimir nos a pedidos do Jornal do Commercio, interlinhada.


 

LXVIII



Maria Benedita consentiu finalmente em aprender francês e piano. Durante quatro dias a prima teimou com ela, a todas as horas, de tal arte e maneira, que a mãe da moça resolveu apressar a volta à fazenda, para evitar que ela acabasse aceitando. A filha resistiu muito; respondia que eram cousas supérfluas, que moça de roça não precisa de prendas da cidade. Uma noite, porém, estando ali Carlos Maria, pediu-lhe este que tocasse alguma cousa; Maria Benedita fez-se vermelha. Sofia acudiu com uma mentira:

- Não lhe peça isso; ainda não tocou depois que veio. Diz que agora só toca para os roceiros.

- Pois faça de conta que somos roceiros, insistiu o moço.

Felizmente, falou logo de outra cousa, do baile da baronesa do Piauí (casualmente, a mesma que o nosso amigo Rubião encontrou no escritório do Camacho), um baile esplêndido, oh! esplêndido! A baronesa prezava-o muito. No dia seguinte, Maria Benedita declarou à prima que estava pronta a aprender piano e francês, rabeca e até russo, se quisesse. A dificuldade era vencer a mãe. Esta, quando soube da resolução da filha, pôs as mãos na cabeça. Que francês? que piano? Bradou que não, ou então que deixasse de ser sua filha; podia ficar, tocar, cantar, falar cabinda ou a língua do diabo que os levasse a todos. Palha é que a persuadiu finalmente; disse-lhe que, por mais supérfluas que lhe parecessem aquelas prendas, eram o mínimo dos adornos de uma educação de sala...

- Mas eu criei minha filha na roça e para a roça, interrompeu a tia.

- Para a roça? Quem sabe lá para que cria os filhos? Meu pai destinava-me a padre; é por isso que arranho algum latim. A senhora não há de viver sempre; os seus negócios andam atrapalhados. Pode acontecer que Maria Benedita fique ao desamparo... Ao desamparo, não digo; enquanto vivermos somos todos uma só pessoa. Mas não é melhor prevenir? Podia ser até que, se lhe faltássemos todos, ela vivesse à larga, só com ensinar francês e piano... Basta que os saiba para estar em condições melhores. É bonita, como a senhora foi no seu tempo; e possui raras qualidades morais. Pode achar marido rico... Sabe a senhora se já tenho alguém em vista, pessoa séria?

- Sim? Então ela vai aprender francês, piano e namoro?

- Que namoro? Falo-lhe de pensamentos íntimos, de um plano que me pareceu adequado à felicidade dela e de sua mãe. Pois eu havia... Ora, tia Augusta!

Palha mostrou-se tão mortificado, que a tia deixou o tom áspero pelo tom seco. Resistiu ainda: mas a noite deu-lhe bons conselhos. O estado dos seus negócios, e a possibilidade de um genro abastado fizeram mais que outras razões. Os melhores genros da roça aliavam-se a outras fazendas, a famílias de representação e riqueza segura. Dous dias depois acharam um modus vivendi: Maria Benedita ficaria com a prima; iriam de quando em quando à roça, e a tia também viria à capital, para vê-los. Palha chegou a dizer que, logo que o estado da praça o permitisse, arranjaria meio de liquidar-lhe os negócios e transportá-la para aqui. Mas a isto a boa senhora abanou a cabeça.

(Continua.)




30 de junho de 1887, nº 12

LXVIII

(Continuação)

Não se pense que tudo isso foi tão fácil como aí fica escrito. Na prática, vieram os óbices, amofinações, saudades, rebeliões de Maria Benedita. Dezoito dias depois da volta da mãe à fazenda, quis ir visitá-la, e a prima acompanhou-a; estiveram lá uma semana. A mãe, dous meses depois, veio passar uns dias aqui. Sofia acostumava habilmente a prima às distrações da cidade; teatros, visitas, passeios, reuniões em casa, vestidos novos e bem talhados, chapéus lindos e graciosos, joias. Maria Benedita era mulher, posto que mulher esquisita; gostou de tais cousas, mas tinha para si que, logo que quisesse, podia arrebentar todos esses liames, e andar para a roça. A roça vinha ter com ela, às vezes, em sonho ou simples devaneio. Depois dos primeiros saraus, quando voltava para casa, não eram as sensações da noite que lhe enchiam a alma; eram as saudades de Iguaçu. Cresciam mais a certas horas do dia, quando a quietação da casa e da rua era completa. Então batia as asas para a varanda da velha casa, onde bebia café, ao pé da mãe; pensava na escravaria, nos móveis antigos, nas lindas chinelas que lhe mandara o padrinho, um fazendeiro rico de S. João d`El Rei, - e que lá ficaram em casa. Sofia não consentiu que ela os trouxesse.

Os mestres de francês e piano eram homens sabedores do ofício. Sofia teve modo de dizer-lhes em particular que a prima vexava-se de aprender tão tarde, e pediu-lhes que não falassem nunca de tal discípula. Prometeram que sim; o de piano apenas referiu o pedido a alguns colegas d`arte, que lhe acharam graça, e contaram outras anedotas da clientela. O certo é que Maria Benedita aprendia com singular facilidade, estudava com afinco, quase todas as horas, a tal ponto que a mesma prima julgou acertado interrompê-la.

- Descansa, filha de Deus!

- Deixa recobrar o tempo perdido, respondia ela rindo.

Então Sofia inventava passeios, à toa, para fazê-la descansar. Ora um bairro, ora outro. Em certas ruas, Maria Benedita não perdia tempo: lia as tabuletas francesas, e perguntava pelos substantivos novos, que a prima, algumas vezes, não sabia dizer o que eram, tão estritamente adequado era o seu vocabulário às cousas do vestido, da sala e do galanteio.

Mas não era só nessas disciplinas que Maria Benedita fazia progressos rápidos. A pessoa ajustara-se ao meio, mais depressa do que faziam crer o gosto natural e a vida da roça. Já competia com a outra, embora houvesse nesta um desgarre, e não sei que expressão particular que, para assim dizer, sublinhava todas as linhas e gestos da figura. Não obstante essa diferença, é certo que a outra era vista e notada ao pé dela, de tal jeito que Sofia, que começara por louvá-la em toda a parte, não a deslouvava agora, mas ouvia calada as admirações. Falava bem; - mas, quando calava, era por muito tempo; dizia que eram os seus "calundus". Contradançava sem vida, que é a perfeição desse gênero de recreio; gostava muito de ver polcar e valsar. Sofia, adivinhando que era por medo que a prima não valsava nem polcava, quis dar-lhe algumas lições em casa, sozinhas, com o marido ao piano; mas a prima recusava sempre.

- Isso é ainda um bocadinho de casca da roça, disse-lhe uma vez Sofia.

Maria Benedita sorriu de um modo tão particular, que a outra não insistiu. Não foi riso de vexame, nem de despeito, nem de desdém. Desdém, por quê? Contudo, é certo que o riso parecia vir de cima. Não menos o é que Sofia polcava e valsava com ardor, e ninguém se pendurava melhor do ombro do parceiro; Carlos Maria, que era raro dançar, só valsava com Sofia, - dous ou três giros, dizia ele; - Maria Benedita contou uma noite quinze minutos.

(Continua.)




15 de julho de 1887, nº 13


 

LXIX



Os quinze minutos foram contados no relógio do Rubião, que estava ao pé da Maria Benedita, e a quem ela perguntou duas vezes que horas eram, no princípio e no fim da valsa. A própria moça inclinou-se para ver bem o ponteiro dos minutos.

- Está com sono? perguntou Rubião.

Maria Benedita olhou para ele de soslaio. Viu-lhe o rosto plácido, sem intenção nem riso.

- Não, respondeu; digo-lhe até que estou com medo que prima Sofia se lembre de ir cedo para casa.

- Não vai cedo. Já acabou a desculpa de Sta. Teresa, por causa da subida. A casa fica perto daqui.

De fato as duas moravam agora na praia do Flamengo, e o baile era na rua dos Arcos.

É de saber que tinham decorrido oito meses desde o princípio do capítulo anterior, e muita cousa estava mudada. Rubião, por exemplo, é sócio do marido de Sofia, em uma casa de importação, à rua da Alfândega, sob a firma Palha & Comp. Era o negócio que este ia propor-lhe, naquela noite, em que achou o Dr. Camacho na casa de Botafogo. Rubião, apesar de fácil, recuou algum tempo. Pediam-lhe um bom par de contos de réis, não entendia de comércio, não lhe tinha inclinação. Demais, os gastos particulares eram já grandes; o capital precisava do regímen do bom juro e alguma poupança, a ver se recobrava as cores e as carnes primitivas. O regímen que lhe indicavam não era claro; Rubião não podia compreender os algarismos do Palha, cálculos de lucros, tabelas de preço, direitos da alfândega, nada; mas, a linguagem falada supria a escrita. Palha dizia cousas extraordinárias e aconselhava ao amigo que aproveitasse a ocasião para pôr o dinheiro a caminho, multiplicá-lo. Se tinha medo, era outra cousa; ele, Palha, faria o negócio com John Roberts, sócio que foi da casa Wilkinson, fundada em 1844, cujo chefe voltou para a Inglaterra, e era agora membro do parlamento.

Rubião não cedeu logo, pediu prazo, cinco dias. Consigo, era mais livre; mas desta vez a liberdade só servia para atordoá-lo. Computou os dinheiros despendidos, avaliou os rombos feitos no cabedal, que lhe deixara o filósofo. E, como nessa ocasião, o cão estivesse diante dele, no gabinete, deitado, levantou casualmente a cabeça e fitou-o. Rubião estremeceu; a ideia de que naquele Quincas Borba podia estar a alma do outro nunca se lhe varreu inteiramente do cérebro. Desta vez chegou a ver-lhe um tom de reproche no olhar; mas riu-se, era tolice; cachorro não podia ser homem. Insensivelmente, porém, abaixou a mão e coçou as orelhas ao animal, para captá-lo.

Atrás dos motivos de recusa, vieram outros contrários. E se o negócio rendesse? Se realmente lhe multiplicasse o que tinha? Acrescia que a posição era respeitável, e podia trazer-lhe vantagens na eleição, quando houvesse de propor-se ao parlamento, como o velho chefe da casa Wilkinson. Outra razão mais forte ainda era o receio de magoar o Palha, de parecer que lhe não confiava dinheiros, quando era certo que, dias antes, recebera parte da dívida antiga, e a outra parte restante devia ser-lhe restituída dentro de dous meses.

Nenhum desses motivos era pretexto de outro; vinham de si mesmos. Sofia apareceu no fim, sem deixar de estar nele, desde o princípio, ideia latente, inconsciente, uma das causas últimas do ato, e a única dissimulada. Rubião abanou a cabeça para expeli-la, e levantou-se. Sofia (dona astuta!) recolheu-se à inconsciência do homem, respeitosa da liberdade moral, e deixou-o resolver por si mesmo que entraria de sócio com o marido, mediante certas cláusulas de segurança. Foi assim que se fez a sociedade comercial; assim é que Rubião legalizou a assiduidade das suas visitas.

- Senhor Rubião, disse Maria Benedita depois de alguns segundos de silêncio, não lhe parece que minha prima é bem bonita?

- Não desfazendo na senhora, acho.

- Bonita e bem feita.

Rubião aceitou o complemento. Um e outro acompanharam com os olhos o par de valsistas, que passeava ao longo do salão. Sofia estava magnífica. Trajava de azul escuro, mui decotada, - pelas razões ditas no cap. XXXVIII; os braços nus, cheios, com uns tons de ouro claro, ajustavam-se às espáduas e aos seios, tão acostumados ao gás do salão. Diadema de pérolas feitiças tão bem acabadas, que iam de par com as duas pérolas naturais, que lhe ornavam as orelhas, e que Rubião lhe dera um dia...

Ao lado dela, Carlos Maria não ficava mal. Era um rapaz galhardo, como sabemos, e trazia os mesmos olhos plácidos do almoço do Rubião. Não tinha as maneiras súbditas, nem as curvas reverentes dos outros rapazes; falava com a graça de um rei benévolo. Entretanto, se, à primeira vista, parecia fazer apenas um obséquio àquela senhora, não é menos certo que ia desvanecido, por trazer ao lado a mais esbelta mulher da noite. Os dous sentimentos não se contradiziam; fundiam-se ambos na adoração que este moço tinha de si mesmo. assim, o contato de Sofia era para ele como a prosternação de uma devota, - devota magnífica, era o essencial. Carlos Maria era feito de modo que, se um dia acordasse imperador, só se admiraria da demora do ministério em vir cumprimentá-lo.

(Continua.)




31 de julho de 1887, nº 14

LXIX

(Continuação)

- Vou descansar um pouco, disse Sofia.

- Está cansada ou... aborrecida? perguntou-lhe o braceiro.

- Oh! cansada apenas!

Carlos Maria, arrependido de haver admitido a outra hipótese, deu-se pressa em emendar-se.

- Sim, creio; por que é que estaria aborrecida? Mas eu afirmo que é capaz de fazer-me o sacrifício de passear ainda algum tempo. Cinco minutos?

- Cinco minutos.

- Nem mais um que seja? Pela minha parte, passaria a eternidade.

Sofia abaixou a cabeça.

- Com a senhora, note bem.

Sofia deixou-se ir com os olhos no chão, sem contestar, sem concordar, sem agradecer, ao menos. Podia não ser mais que uma galanteria, e as galanterias é de uso que se agradeçam. Já lhe tinha ouvido outrora palavras análogas, dando-lhe a primazia entre as mulheres deste mundo. Deixou de as ouvir durante seis meses, - quatro que ele gastou em Petrópolis, - dous em que lhe não apareceu. Ultimamente é que tornou a frequentar a casa, a dizer-lhe finezas daquelas, ora em particular, ora à vista de toda a gente. Deixou-se ir; e ambos foram andando calados, calados, calados, - até que ele rompeu o silêncio, notando-lhe que o mar defronte da casa dela, batera com muita força, na noite anterior.

- Passou lá? perguntou Sofia.

- Estive lá; ia pelo Catete, já tarde, e lembrou-me descer à praia do Flamengo. A noite era clara; fiquei cerca de uma hora, entre o mar e a sua casa. A senhora aposto que nem sonhava comigo? Entretanto, eu quase ouvia a sua respiração...

Sofia tentou sorrir; ele continuou:

- O mar batia com força, é verdade, mas o meu coração não batia menos rijamente; - com esta diferença que o mar é estúpido, bate sem saber por quê, e o meu coração sabe que batia pela senhora.

- Oh! murmurou Sofia.

Com espanto? Com indignação? Com medo? São muitas perguntas a um tempo. Estou que a própria dama não poderia responder cabalmente, tal foi o abalo que lhe trouxe a declaração do moço. Em todo caso, não foi com incredulidade. Não posso dizer mais senão que a exclamação saiu tão frouxa, tão abafada que ele mal pôde ouvi-la. Pela sua parte Carlos Maria disfarçou bem, ante os olhos de toda a sala: nem antes, nem durante, nem depois das palavras, mostrou no rosto a menor comoção; tinha até umas sombras de riso cáustico, um riso de seu uso, quando mofava de alguém; parecia ter dito um epigrama. Contudo, mais de um olho de mulher espreitava a alma de Sofia, estudava o gesto da moça, tal ou qual acanhado, e as pálpebras teimosamente caídas.

- A senhora está perturbada, disse ele; disfarce com o leque.

Sofia maquinalmente entrou a abanar-se e levantou os olhos. Viu que muitos outros a fitavam, e empalideceu. Os minutos iam correndo, com a mesma brevidade dos anos; os primeiros cinco e os segundos iam longe; estavam no décimo terceiro, atrás deste iam apontando as asas de outro, e mais outro. Sofia disse ao braceiro que queria sentar-se.

- Vou deixá-la e retiro-me.

- Não, disse ela precipitadamente.

Depois, emendou-se:

- O baile está bonito.

- Está, mas eu quero levar comigo a melhor recordação da noite. Qualquer outra palavra que ouça agora será como o coaxar das rãs, depois do canto de um lindo pássaro, um dos seus pássaros lá de casa... Onde quer que a deixe?

- Ao lado de minha prima.


 

LXX



Rubião cedeu a cadeira, e acompanhou Carlos Maria, que atravessou a sala, e foi até o gabinete da entrada, onde estavam os sobretudos e uns dez homens conversando. Antes que o rapaz entrasse no gabinete, Rubião pegou-lhe do braço, familiarmente, para lhe perguntar alguma cousa, - fosse o que fosse, - mas, em verdade, para retê-lo consigo, e procurar sondá-lo. Começava a crer possível ou real uma ideia que o atormentava desde muitos dias. Agora, a conversação dilatada, os modos dela...

Carlos Maria não tinha notícia da longa paixão do mineiro, guardada, mortificada, não se podendo confessar a ninguém, - esperando os benefícios do acaso, - contentando-se de pouco, da simples vista da pessoa, dormindo mal as noites, dando dinheiro para as operações mercantis... Que ele não tinha ciúmes do marido. Nunca a intimidade do casal lhe excitara os ódios contra o legítimo senhor. E lá iam meses e meses, sem alteração do sentimento, nem morte da esperança... Mas a possibilidade de um rival de fora veio atordoá-lo; aqui é que o ciúme trouxe ao nosso amigo uma dentada de sangue.

- Que é? disse Carlos Maria voltando-se.

Ao mesmo tempo entrou no gabinete, onde os dez homens tratavam de política, porque este baile, - ia-me esquecendo dizê-lo, - era dado em casa de Camacho, a propósito dos anos da mulher. Quando os dous ali entraram, a conversação era geral, o assunto o mesmo, e todos falavam para todos, - um turbilhão de ditos, de pareceres, de afirmações diversas... Um, que era doutrinário, conseguiu dominar os outros, que se calaram por instantes, fumando.

- Podem fazer tudo, disse o doutrinário, mas a punição moral é certa. as dívidas dos partidos pagam-se com juros até o último real e até a última geração. Princípios não morrem; os partidos que o esquecem expiram no lodo e na ignomínia.

Outro, meio calvo, não acreditava na punição moral, e dizia por que; mas um terceiro, falou da demissão de uns coletores, e os espíritos, meio tontos com a doutrina, tomaram pé. Os coletores não tinham outra culpa, alem da opinião; e nem ao menos se podia defender o ato com o merecimento dos substitutos. Um destes trazia às costas um desfalque; outro era cunhado de um tal Marques que dera um tiro de garrucha no delegado, em S. José dos Campos. E os novos tenentes-coronéis? Verdadeiros réus de polícia..

- Já se vai embora? perguntou Rubião ao moço, quando o viu tirar o sobretudo dentre os outros.

- Já; estou com sono. Ajude-me a enfiar esta manga. Estou com sono.

- Mas ainda é cedo: fique. O nosso Camacho não deseja que os rapazes saiam; quem é que há de dançar com as moças?

Carlos Maria replicou sorrindo que era pouco dado a danças. Valsara com D. Sofia, por ser mestra no ofício; senão, nem isso. Estava com sono; preferia a cama à orquestra. E estendeu-lhe a mão com benignidade; Rubião apertou-lha, meio incerto.

Não sabia que pensasse. O fato de sair, de a deixar no baile, em vez de esperar para acompanhá-la à carruagem, como de outras vezes... Podia ser engano dele... E pensava, recordava a noite de Sta. Teresa, quando ele ousou declarar à moça o que sentia, pegando-lhe na bela mão delicada... O major interrompera-os; mas por que não insistiu ele mais tarde? Nem ela o maltratou, nem o marido percebera cousa nenhuma... Aqui voltava a ideia do possível rival; é certo que se retirara com sono, mas os modos dela... Rubião, erguia-se, ia à porta do salão, para ver Sofia, depois chegava-se a um canto ou à mesa do voltarete, inquieto, aborrecido.


 

LXXI



Em casa, ao despentear-se, Sofia falou daquele sarau como de uma cousa enfadonha. Bocejava, doíam-lhe as pernas. Palha discordava; era má disposição dela. Se lhe doíam as pernas é porque dançara muito. Ao que retorquiu a mulher que, se não dançasse, teria morrido de tédio. E ia tirando os grampos, deitando-os a um vaso de cristal; os cabelos caíam-lhe aos poucos sobre os ombros, mal cobertos pela camisola de cambraia. Palha, por trás dela, disse-lhe que o Carlos Maria valsava muito bem. Sofia estremeceu; fitou-o no espelho, o rosto era plácido. Concordou que não valsava mal.

- Não, senhora, valsa muito bem.

- Você louva os outros porque sabe que ninguém é capaz de o desbancar. Anda, meu vaidoso, já te conheço.

Palha, estendendo a mão e pegando-lhe no queixo, obrigou-a a olhar para ele. Vaidoso, por quê? por que é que ele era vaidoso?

- Ai, gemeu Sofia; não me machuques.

Palha beijou-lhe a espádua: ela sorriu, sem tédio, sem dor de cabeça, ao contrário daquela noite de Sta. Teresa, em que relatou ao marido os atrevimentos do Rubião. É que os morros serão doentios, e as praias saudáveis...

No dia seguinte, Sofia acordou cedo, ao som dos trilos da passarada de casa, que parecia dar-lhe um recado de alguém. Deixou-se estar na cama, e fechou os olhos para ver melhor.

(Continua.)




15 de agosto de 1887, nº 15


 

LXXII



Ver melhor o quê? Não, seguramente, os morros doentios. A praia era outra cousa. Posta à janela, dali a meia hora, Sofia contemplava as ondas que vinham morrer ao pé do paredão, e, ao longe, as que se levantavam e desfaziam à entrada da barra. A imaginosa dama perguntava a si mesma se aquilo era a valsa das águas, e deixava-se ir por essa torrente de ideias abaixo, sem velas nem remos. Deu consigo olhando para a rua, ao pé do paredão, como procurando os sinais do homem que ali estivera, na antevéspera, alta noite... Não juro, mas cuido que achou os sinais. Ao menos, é certo que cotejou o achado com o texto da conversação:

"A noite era clara; fiquei cerca de uma hora, entre o mar e a sua casa. A senhora aposto que nem sonhava comigo? Entretanto, eu quase que ouvia a sua respiração... O mar batia com força, é verdade, mas o meu coração não batia menos rijamente; com esta diferença que o mar é estúpido, bate sem saber por quê, e o meu coração sabe que batia pela senhora..."

Sofia teve um calefrio, procurou esquecer o texto, mas o texto ia-se repetindo: "A noite era clara..."


 

LXXIII



- Até logo, disse uma voz.

Era o Palha que estava ao portão de casa. Desde que se estabelecera como negociante, almoçava no armazém. Sofia, arrancada às reminiscências da véspera, mal teve tempo de fazer sinal que esperasse. Desceu logo; dali a pouco estava com ele, ao portão, risonha e fresca, apesar de cair de sono, como disse.

- Também eu tenho sono, acudiu o marido bocejando.

- Já tomou café?

Palha, em vez de responder, disse:

- Parece que cá em casa toda a gente acordou cedo, apesar do baile. Maria Benedita há muito que está de pé. Sabes que quer ir para a roça?

- Como para a roça?

- Ora, como! Acordou com essa mania. Repetiu o que tem dito, que uma noite de dança e música faz-lhe lembrar a vida da roça, sem música nem dança; e parece que também sonhou com a mãe, um sonho de facadas... Vê se a distrais.

- Verei; mas se ela teimar em ir?

Palha fez um gesto de estranheza.

- Se teimar? Não pode teimar. Você parece esquecer tudo. Diga-lhe que tratamos de a fazer feliz. Já lhe disse isso mesmo outras vezes, por insinuação; mas é preciso pôr mãos à obra. Rubião é frouxo, acanhado ou não entende; vou pegá-lo pela gola. O que é preciso é distraí-la e guiá-la.

- Você sabe muito bem que, mais de uma vez, tenho falado no negócio, brincando. Maria Benedita ri, creio que entende, mas não lhe faz conta. Como é desconfiada e caprichosa, não teimo no assunto... Mas então hoje disse positivamente que se quer ir embora?

- Calundus!

- Há de haver alguma cousa mais particular para acordar assim disposta.

- Pode ser; e é o que você descobrirá, a sós com ela. as mulheres entendem-se umas às outras. Confesso que achei tão despropositada a ideia de deixar a vida que leva e o futuro que a espera, que engrossei um pouco a voz. Você trate de desfazer qualquer má impressão. Diga-lhe que a estimo muito, que me achou penalizado e triste... Quanto ao mais, habilidade e prudência. E não nos afoguemos em pouca água. Se ela teimar muito, escrevo à mãe pedindo-lhe que venha e nos ajude.

Palha estendeu a mão à mulher, em despedida; mas a mulher prendeu-lha. Era cedo, disse ela acariciando-lhe os dedos; ele replicou que não, ia em mais de oito horas, mas deixou-se ficar. Com quê, estava com sono? E cansada, não?

- Também cansada.

- Pois é descansar; nem visitas nem passeios. Descansar, e dormir cedo. A reunião esteve boa... Ah! sabes que o tal Camacho tem ideias de fazer o Rubião deputado.

- Sim?

- Esteve a contar-me tudo. Afirmou-me que para ele e os seus amigos é questão de honra; Rubião há de entrar na câmara. Fala nisso a Maria Benedita.

- Pois sim, falo... Quantas? continuou Sofia, vendo que o marido consultava o relógio.

- É tarde; passa de oito e meia, respondeu ele puxando a mão.

Sofia ainda o reteve, um instante, para saber se o marido viria cedo. Palha respondeu que sim e despediu-se. A próxima rua ficava distante da casa; mas ele contava tanto com a mulher, que antes de voltar a esquina, olhou para trás; Sofia lá estava, parada, olhando, dizendo-lhe adeus com a mão.


 

LXXIV



- "Pois sim, falo", tinha dito Sofia prometendo dissuadir a prima da ideia de voltar para a roça.

Mas há palavras friorentas ou envergonhadas, que não saem fora do coração: nascem dentro dele, e aí vivem o resto dos seus minutos. Quando muito, enfeitam outras, menos idôneas, e estas é que saem a passear, luzir, respirar os ares da conversação humana. Foi o que se deu com a nossa bela dama. Enquanto esta palavra lhe brotava dos lábios: "Pois sim, falo", eis a que lhe nascia e morria no coração: "Vá para a roça, que me não deixa saudades".


 

LXXV



Com o sentimento da segunda é que Sofia entrou na sala, onde a prima passava pelos olhos os jornais do dia. Não vão crer que lhe tinha ódio; mas a dama casquilha, cônscia de suas graças, não atura de bom rosto uma rival, que, pelo menos, equilibra as impressões. Na véspera, Maria Benedita tinha sido objeto de cortesias rasgadas, de preferências na dança, e até mulheres a acharam deliciosa, e foram dizê-lo à prima. O coração trazia ainda esse veneno.

Maria Benedita percorria uma folha, lendo a trechos, nada seguido, duas linhas de obituário, cinco de anúncios, uma notícia, uma mofina, pedaços de leilão, anedotas; daí o farfalhar contínuo do papel. Sofia compôs o rosto, à porta, e entrou risonha na sala.

(Continua.)




31 de agosto de 1887, nº 16

LXXV

(Continuação)

- Que valentona! Já de pé?

Maria Benedita, colhida de espanto, estremeceu.

- E você? disse ela.

- Cá eu já estou acostumada a estas folias. Danço desde os nove anos. Em criança, arranjava sempre bailes de meninas. Meninas com meninas. Aos doze, dancei com um moço; faltava um par e ele pegou em mim... Mas você dançou muito a noite passada. Tire as polcas e as valsas, creio que não perdeu ocasião. E por que é que não há de polcar também?

Maria Benedita dardejou à prima um olhar, que foi como um relâmpago.

- Não gosto, murmurou.

-Não negue que é medo.

- Medo?

E depois de um instante:

- Não gosto que um homem me aperte o corpo ao seu corpo, e ande comigo, assim, à vista dos outros. Tenho vexame.

Sofia deu de ombros, rindo de pena e de bondade; depois perguntou-lhe que impressão trouxera do baile. A prima acudiu que boas.

- Boas? pensou Sofia. Então as saudades da roça?

Maria Benedita inclinou-se outra vez ao jornal que estivera lendo, e deu com um artigo de agradecimento a um farmacêutico, por ter curado o agradecido da morte, com umas pílulas. Eram treze linhas, que a moça leu inteiras, sem que lhe ficasse uma só palavra. Dançavam-lhe ante os olhos, não as letras, mas a prima e Carlos Maria, valsando agarradinhos, como na véspera, e as mãos da moça tremiam. Deitou fora o jornal; foi como que um esforço para fugir à visão.

- Que é? perguntou Sofia.

- Nada!

A resposta foi seca e surda; Maria Benedita levantou-se, ao proferi-la. Deu uma volta pela sala; depois de alguns instantes, apanhou o jornal, pô-lo dobradinho sobre uma mesa, e foi ter com a prima, sorrindo amarelo. Confessou-lhe que acordara aborrecida, sentia-se capaz de quebrar ou rasgar alguma cousa. E, dizendo isto, rasgou o lenço que trazia na mão. Sofia, espantada, perguntou-lhe o que era, que tinha, e puxou-a a si; mas a outra recuou com repugnância, e desviou-a com um gesto violento.

- Que é que você tem? insistiu Sofia, cada vez mais aturdida. Diga-me? Que foi? Você tem algum desgosto. Anda, Maria Benedita, fala. Que foi?

Maria Benedita tinha ido cair num canapé, ofegante. Os cabelos, não trançados, e mal atados, por um frouxo laço cor de rosa, desataram-se com o movimento e espalharam-se-lhe nos ombros e no peito. De um gesto, a moça pegou deles, enfeixou-os com as duas mãos, derreando a cabeça, mas não achou o laço que os prendia. Sofia, com um puxão, rasgou uma das pontas da fita preta, estreita e já idosa, que lhe servia de cinta, e, chegando-se à prima:

- Deixa ver... Que tolice é essa? Que é que te fiz? Deixa amarrar o cabelo...

Conseguiu atar-lhe os cabelos. Maria Benedita, que se opusera a princípio, obedeceu afinal; advertiu bem no gesto da outra, e achou que o sacrifício do cinto valia alguma cousa, - um pobre cinto velho! Sofia, depois de atar-lhe os cabelos, junto à nuca:

- Já sabia que você amanhecera aborrecida. Cristiano disse-me tudo, e até parece que falou um pouco zangado... Não se amofine com ele; creia que ficou penalizado, e que a própria zanga é sinal da afeição que tem a você. Não imagina como é seu amigo. Não há muitos dias, disse-me ele..

Continuou assim atribuindo ao marido uma porção de palavras que ele não chegara a proferir. Como não desmentiam do sentimento que ela lhe conhecia, nem dos seus motivos, fê-lo sem custo, e foi metendo discursos na história, à maneira de Tucídides. A prima escutava, calada, já mais tranquila, deixando que a outra lhe pegasse nas mãos e as apertasse entre as suas. Quando ela parou:

- Mas eu não estou zangada com o primo Cristiano, acudiu Maria Benedita; nem me lembra até o que ele me disse. Acordei assim, nervosa...

Depois apertou-lhe também as mãos, - frouxamente, é verdade, - e fez uma tentativa para sorrir, mas não passou de um jeito sem significação. O desejo era sincero; mas há organizações reversas, difíceis de tornar às boas, ainda depois de deliberadas.

- E a roça? repetiu Sofia consigo. Ainda me não falou da roça.

Logo, alto:

- Os nervos acabam-se desde que a gente se distrai. Vamos dar um passeio na praia, antes do almoço; ao menos, come-se com apetite. Joana, dá cá os nossos chapéus de sol, bradou para dentro à escrava que lhe servia de camareira.

(Continua.)




15 de setembro de 1887, nº 17

LXXV

(Continuação)

Muitas cousas aturdiam o cérebro da ex-roceira, - sensações complicadas, rascunhos de ideias, fragmentos de raciocínios, cálculos de probabilidade, perguntas sem resposta, respostas sem pergunta... Tudo isso, e muito mais rápido que o tempo que levo a escrevê-lo.

Dedos trôpegos, palavra tardia, enquanto vos fatigais no papel, com estas poucas linhas, já as duas primas receberam os chapelinhos de sol, desceram a escada, atravessaram o saguão e chegaram à porta. Sofia achou o mar admirável. Maria Benedita concluía assim a desordem das suas ideias:

- Sim, ela é boa. Gosta de polcar é o que é; não será mais que isso...


 

LXXVI



Cérebro não tem sintaxe. A frase que lá fica no outro capítulo não se formulou assim na cabeça da nossa amiguinha. É correta, posto que vaga e obscura, para nós; para ela é clara e definida, mas não a formulou assim textualmente.

Não digais nada, se adivinhais tudo. Ela que fique atônita descobrindo que, entre o francês e o piano, há outra língua triste, e outra música menos severa, ambas feitas pelo diabo maestro e poliglota. Resta-lhe a esperança a que se agarra: "Gosta de polcar é o que é; não será mais que isso". Calemo-nos, repito. Deixa-as ir juntinhas, com os chapéus de sol abertos e inclinados para o lado do astro. Vão costeando o mar. Falam disto e daquilo, mas sérias. A mais gárrula é Sofia; não obstante, tem silêncios compridos como a outra, e ambas esquecem-se a ponto de não saber se gastaram dous ou vinte minutos caladas. Defronte da casa, quando vinham de volta, pararam algum tempo antes de ir adiante; aí é que a pausa foi mais longa. Sofia calou-se de repente; Maria Benedita fechou o chapelinho de sol.

- O sol não está quente, disse ela.

Sofia não respondeu nada, não ouviu nada, deixou-se estar com o seu chapéu aberto, pousado no ombro. Olhava para o chão, onde dous dias antes, estivera Carlos Maria, parado, alta noite, mirando a casa dela. Mirava as pedrinhas: chegava a escutar o ranger delas debaixo dos pés daquele belo homem. Arguía-se de não ter adivinhado, acordado, espiado. Para quê? Para contemplá-lo através da sombra, para ouvir-lhe as pancadas do coração. A alucinação foi indo, indo, até eliminar completamente a realidade. Pedras, casa, rua, prima e as mesmas ondas que batiam na praia com fragor, tudo ficou difuso e afinal acabado para ela. Nenhum princípio lutava na alma da curiosa dama; nenhuma ideia chamava por outra. Era tão somente uma sensação confusa, mas deliciosa, em que todo o seu ser se espraiava e se esquecia.

Maria Benedita, que também se esquecera de si fitando o mar, voltou a si primeiro que a outra, e deu com ela a olhar para o chão.

- Que é que você está procurando?

Sofia acordou.

- Nada, respondeu tranquilamente.

E logo depois:

- Estava vendo como estas pedrinhas formam tantas figuras, algumas bem esquisitas. Olhe, aqui está uma estrela; aqui ao pé, vê-se um chapéu, - meio torto, é verdade, - mas parece um chapéu de senhora.

Não lhe custou mentir, assim como à outra não lhe custou crer. Foram seguindo pela praia adiante, deixando a casa atrás. Agora, a menos gárrula era Sofia; levava a cena noturna diante dos olhos, e tinha ainda aos ouvidos a palavra carinhosa e superior de Carlos Maria. Via de memória a "figura aristocrática" do moço; era assim que sentia consigo a mulher do ex-zangão da praça. Parecia-lhe que ainda polcavam no salão do Camacho, que enchiam todos os olhos de inveja e admiração. Maria Benedita, quando olhava para a prima, achava-lhe o mesmo sorriso amigo, porque Sofia acordava logo, interrompia o sonho, falavam de alguém ou de alguma cousa, - Sofia menos, - até que o silêncio volvia, e o devaneio atava outra vez à alma daquela dama as asas de ouro e pluma fina.


 

LXXVII



Como lhes parece que entraram em casa? Entrelaçadas pela cintura. Fruto do passeio à beira d`água, - ou seja que os membros cansados estejam mais perto da simpatia e da confiança, - ou que a salsugem do mar limpe a alma de todas as impurezas. Contudo, alguma cousa inexplicável ficava entre elas: a explosão de Maria Benedita, de manhã. Nem esta queria, nem a outra podia explicá-la. Era um pingo amargo na taça do mel recente. Maria Benedita buscava extraí-lo com esta ideia, que lhe não saía da cabeça: "gosta de polcar; é o que é". A outra é que não achava nada.

(Continua.)




30 de setembro de 1887, nº 18


 

LXXVIII



- Você o que precisa é casar, disse Sofia à prima, depois do almoço.

Maria Benedita fez-se rubra, baixou os olhos, levantou-os, com o fim de dizer alguma cousa, - responder gracejando, - mas não lhe acudiu nada. O dito da prima podia ser vago, abstrato, um conselho, - mas podia ser também alguma insinuação, e, entre todas, só uma a faria realmente feliz... Não lhe achou no rosto expressão maliciosa. Naturalmente fala à toa, pensou ela. Entretanto, pôde sorrir e disse:

- Casar? Você já me deu piano e francês; agora quer também que me case; é muita cousa em menos de um ano. Marido também é prenda de sociedade?

- Seguramente, e até mais fácil de estudar: não tem escalas nem gramática.

Sofia riu da sua própria agudeza; mas, como a outra ficasse séria e pensando, colheu as rédeas ao riso, e repetiu que era preciso casar.

- Com quem? perguntou Maria Benedita.

Aqui a outra hesitou. Era tão simples dizer Rubião, - a ocasião era tão propícia, - mas a boca hesitou em articular o nome. Contara ao marido que já havia feito pressentir à prima, alguma vez, o projeto Rubião, mas disse-o tão somente para o não aborrecer, falando verdade: a verdade é que nunca lhe tocou em tal. Agora que a notícia vinha de si mesma, recuou; e teimando a outra que lhe dissesse com quem é que podia casar, nem assim lhe saiu o nome da boca, por mais que tentasse proferi-lo; nem o nome, nem algum indício. Podia dizer que era pessoa muito da casa, varão sisudo e rico, parece que filho de Minas, próximo deputado, e aí encartava o advento político do Rubião... Nada; não lhe saía nada. Em compensação, bateu-lhe nas mãos, rindo; depois tocou-lhe com o dedo na testa, dando a entender que havia ali um segredo, que ela bem sabia o nome da pessoa, que toda a gente o conhecia, etc. Maria Benedita entendeu o gesto, fez-se outra vez rubra, e desviou os olhos, medrosa.

- Gosta de alguém! disse consigo Sofia. E, querendo descobrir quem era, imaginou citar os nomes conhecidos. Começaria pelo Rubião; fez um pequeno esforço, mas o nome desse homem, que ela sabia que a amava em silêncio, não chegava a sair da boca. O que parece é que lhe custava dar à outra um homem que ela não queria para si, mas que lhe queria a ela, que a comia com os olhos, furtivamente; espécie mui particular de ciúme, o de uma mulher que não cede o que desdenha, e não faz caso de lágrimas que não quer ver enxutas por outrem.


 

LXXIX



Entretanto, à mesma hora em que as duas andavam na praia, abrindo o apetite, Carlos Maria acordava, estirava os membros, e antes de ir para o banho, vestir-se e dar um passeio a cavalo, reconstruía a véspera. Tinha esse costume. De manhã ruminava o dia anterior, menos por filosofia que por amor-próprio; havia sempre nos sucessos da véspera algum fato, algum dito, alguma cousa que lhe ia bem à alma, como um par de suspensórios elásticos, que se acomodam às ondulações e movimentos do tronco. Nesses é que o espírito se demorava; aí eram as estalagens do caminho, onde ele descavalgava o corpo, - la bête, - para beber vagarosamente um golpe d`água fresca. Se não havia sucesso nenhum desses, - ou se os havia só contrários, nem por isso as sensações eram desconfortativas; bastava-lhe o sabor de alguma palavra que ele mesmo houvesse dito, - de algum gesto que fizesse, a contemplação subjetiva, o gosto de se ter sentido viver, - para que a véspera não fosse um dia perdido.

Na véspera figurava Sofia. Parece até que foi o principal da reconstrução, a fachada do edifício, larga e magnífica. Carlos Maria saboreou de memória toda a conversação da noite, e, quando se lembrou da confissão do amor, sentiu-se bem e mal. Era um compromisso, um estorvo, uma obrigação; mas a beleza da pessoa corrigiu o mal, e o espírito do rapaz ficou entre uma e outra sensação, sem plano. Quando recordou a notícia que lhe deu de ter estado na praia do Flamengo, na outra noite, olhando para a casa dela, não pôde suster o riso, porque não era verdade. Nascera-lhe a ideia da própria conversação; mas nem lá foi nem pensara nisso. Afinal susteve o riso, e até arrependeu-se dele; a ideia de haver mentido trouxe-lhe uma sensação de inferioridade, que o abateu. Chegou a pensar em retificar o que dissera, logo que estivesse com Sofia, mas reconheceu que a emenda era pior que o soneto, e que há muitos sonetos mentirosos.

Depressa ergueu a alma. Viu de memória a sala, os homens, as mulheres, os leques impacientes, os bigodes invejosos, e distendeu-se todo num banho de inveja e admiração. De inveja alheia, note-se bem; ele carecia desse sentimento ruim. A inveja e a admiração dos outros é que lhe davam ainda agora uma delícia íntima. A princesa do baile entregava-se-lhe... Definia assim a superioridade de Sofia, posto lhe conhecesse um defeito capital, - a educação. Achava que as maneiras polidas da moça vinham da imitação adulta, após o casamento, ou pouco antes, e ainda assim não subiam do meio em que vivia. De resto, o baile da véspera não passava de uma reles academia de copistas. Carlos Maria achou-se tão humilhado que nem pôde rir desta sua definição... Vingava-se em dizer que a princesa do baile era sua. Princesa, nada menos.

(Continua.)




15 de outubro de 1887, nº 19

LXXIX

(Continuação)

Outras mulheres vieram ali. Eram as que o preferiam aos demais homens no trato e na contemplação da pessoa. Se as requestava ou requestara todas? Não se pôde dizê-lo sem meter a alma no inferno. Algumas, vá: é certo, porém, que se deleitava com todas elas. Tais havia de provada honestidade que folgavam de o trazer ao pé de si, para gostar o contato de um belo homem, sem a realidade nem o perigo do pecado, - como o espectador que se regala das paixões de Otelo, e sai do teatro com as mãos limpas da morte de Desdêmona.

Vinham todas rodear o leito de Carlos Maria, tecendo-lhe a mesma grinalda virginal, - ou quase, - daquele coro de ópera: Wir winden dir den Jungfernkranz... Nem todas seriam moças em flor; mas a distinção supria a juvenilidade melhor que posturas de toucador. Carlos Maria recebia-as, como um Deus antigo devia receber, quieto no mármore, as lindas devotas e suas oferendas. No burburinho geral distinguia as vozes de todas, - não todas a um tempo, - mas às três e às quatro.

A derradeira das vozes foi a da recente Sofia: escutou-a ainda namorado, mas sem o alvoroço do princípio, porque a lembrança das outras donas, pessoas de qualidade, lhe diminuía agora a importância. Contudo, não podia negar que a voz canora e doce caía pela alma dentro como o "óleo derramado" do Cântico. Ouvira essa expressão ao internúncio, em Petrópolis. A pessoa de Sofia era ainda mais atrativa que a voz. Valsava bem. Chegaria a amar com força? Nisto apareceu-lhe outra vez a mentira da praia. Levantou-se aborrecido da cama:

- Quem diabo me mandou dizer semelhante cousa?

Tornou a encarar a ideia de restabelecer a verdade: e desta vez mais seriamente que da outra. Uma peta daquelas parecia-lhe muito ordinária; - desdourava a pessoa pela aparência de inferioridade que trazia. Mentir, sentia ele consigo, é para os lacaios e seus congêneres.

Daí a pouco, - três quartos de hora, mais ou menos, - trepava ele ao cavalo, e saía de casa, que ficava na rua dos Inválidos. Era esbelto a cavalo, e trajava a primor; fazia parar a gente ou chamava a atenção de quem estivesse às janelas ou às portas. Carlos Maria, - e este era o ponto em que cedia à multidão, - recolhia as admirações todas, por ínfimas que fossem; para adorá-lo todos os homens faziam parte da humanidade.


 

LXXX



- Parece que aquele é o cachorro do Rubião, pensou Carlos Maria ao passar pelo largo do Machado.

Não chegou a fazer parar o cavalo; olhou ainda de lado para o cão, atarantado, ganindo, farejando as pessoas, meio doudo; e foi andando. Não amava os cães; não sei mesmo se perdoaria nunca a aplicação de tal verbo a tal criatura. Entretanto, há pessoas que os amam, que os têm por amigos, que os conservam, que os perdem com lágrimas... Algumas chegam a enterrá-los em sagrado, não digo no cemitério, mas em pedaço de terra tão exclusivo, que é como se fosse sagrado para qualquer outro uso, exceto o plantio de flores e folhagens. Conheci uma dessas sepulturas; as flores brotavam mofinas e tristes, como se quisessem ajustar-se às saudades que o cachorro deixara no coração da amiga... Não me digam nada; bem sei que a qualidade da terra e outros fatores explicam o aspecto do produto. Mas, ponhamos de lado os fatores, porque a amiga do cão pode ler estas linhas; deixá-la crer que todas as cousas deste mundo estavam com ela, e viviam para ela.

Napoleão não tinha outra opinião de si mesmo. Além desse exemplo sublime, citarei o do grande Bismarck, com esta vantagem que o chanceler de ferro também viu morrer com lágrimas um pobre cão amigo, Sultão; não houve filho nem família que o arrancasse do quarto onde Sultão exalava o último suspiro; deu-lhe lágrimas de verdade, lágrimas que não deu aos homens mortos em guerra. Eu, se pudesse, mandava pedir ao grande chanceler a sua Bíblia de protestante. Talvez lá esteja emendado o Gênesis: "No princípio, criou Deus o cão; depois, vendo a melancolia do cão, criou o homem..." A dona da sepultura que conheci é capaz de pensar a mesma cousa.

(Continua.)

Quincas Borba não foi publicado no 31 de outubro de 1887, nº 20




15 de novembro de 1887, nº 21

LXXX

(Continuação)

Carlos Maria nem deteve o cavalo, para ver o cão, como ficou dito, - nem desceu à praia do Flamengo para ver Sofia. Ir vê-la agora pareceu-lhe que era dar testemunho da mentira da véspera. Foi serenamente para casa.

Em casa, esperava-o Rubião, que chegara alguns minutos antes, para almoçar com ele.

- Que bom vento o trouxe até aqui?

- O vento da fome, respondeu Rubião. Como o senhor não quis voltar à nossa choupana, vim fazer-me lembrado.

Carlos Maria gostou deste modo despachado do hóspede. Não tardou o almoço. Rubião estava preocupado, mal podia atender às alfaias da casa, que eram louçãs e bem dispostas. Eram novas, porque o dono deixara de roer as aparas dos bens da mãe (cap. XXIX); agora possuía-os todos, - os da mãe e os do pai, - mortos com poucos dias de diferença; viviam separados, por motivos que só a memória de algum velho ainda guardará. Há assim pecadores mal vistos na mocidade e acatados na velhice, - tudo porque o tempo não deixou dos sabedores mais que dous ou três discretos sem sociedade. Aqui as culpas foram do marido. A herança dele era muito menor que a da mulher, sem que a desta subisse a grande altura. Juntas davam para viver com decência. Carlos Maria vivia à larga.

Se Rubião mal podia atender às galas da casa, menos via os requintes do almoço, menos ainda as maneiras de grande senhor do Carlos Maria. Comia pensando. Ouvia trocado. Às vezes falava direitamente, chegava até a algum dito gracioso. No meio do almoço, trouxe um criado uma carta ao rapaz, - carta grande em salva de prata. Carlos Maria e o criado falaram em francês; Rubião teve um calefrio, e logo que o criado saiu, e o da mesa deu uma chegada ao interior, disse ao anfitrião, procurando sorrir:

- Aposto que é carta de namoro?

- Qual!

- Pode ser que seja. Em todo caso, note uma coincidência. Certo dia, almoçávamos três pessoas, eu, o senhor e outro amigo; recebi uma carta à mesa, e por mais que lhes dissesse a verdade, nem o senhor nem o outro amigo quiseram crer que a carta não era de amores; por sinal que me debicaram à grande.

- Não me lembra.

- Há de lembrar-se. A carta vinha com uns morangos...

- Morangos? repetiu Carlos Maria. Tenho ideia vaga de uns morangos... Ah! sim, creio que vinham com uma carta... Há tanto tempo! Mas então o senhor pensa que todas as cartas que se recebem à mesa são de amores?

- Todas, não; mas esta traz cheiro de mulher.

Carlos Maria pegou da carta e levou-a ao nariz do hóspede. Este explicou-lhe que cheiro de mulher nem sempre eram essências de frascos; e disse isto rindo, porque tivera tempo de ver que a letra do sobrescrito, não era de Sofia; - trazia até um caráter comercial. Pareceu-lhe mais que, no alto da sobrecarta, havia uma linha impressa, naturalmente alguma firma ou indicação de escritório. Rubião expeliu a suspeita e continuou a rir-se e a explicar-se.

- Que tem que seja carta de amores? Que há de fazer um homem de sua idade? Ao contrário, o teimar que não há nada é que prova haver alguma cousa.

- Justamente; lembro-me que o senhor teimou naquele dia.

- Apanhou-me! retorquiu Rubião; mas há de lembrar-se também que a acusação foi mais repetida, e eram dous contra um. Águas passadas. O que lhe posso dizer, continuou ele meio sério, é que é melhor amar em moço; gaste-se bem agora para que os anos da madureza o achem sem fogo. Não há nada pior que paixões tardias.

Rubião ficou remoendo as últimas palavras; depois arrependeu-se de as haver dito. Ao café, renasceu-lhe a suspeita. A sobrecarta podia ser uma dissimulação, pensou ele. Não cuidou de ver o modo prático daquela dissimulação; a suspeita não analisava, não examinava; se algum raciocínio punha a cabeça de fora, recolhia-a logo, tão prontamente vinha a suspeita vaga e sumária. Não se diga que esta fase do espírito do nosso homem desmentia a credulidade anterior, a boa fé dos seus maiores, a singeleza que se entrega sem advertir. Não; crédulo com os outros, era-o agora consigo. A suspeita era aqui uma pessoa que lhe dizia uma cousa, em que ele devia crer, tivesse ou não razão.

A carta lá estava, ao pé do rapaz, tranquila, apenas interrogativa. Quando este, antes de acabar o café, deixou a mesa dizendo que voltava já, Rubião teve ideia de lançar mão à carta, abri-la rapidamente, ver a letra. Estava só, nenhum criado, era um instante; mas não teve ânimo. A vontade não cumpria a ideia. Carlos Maria voltou logo, chamou o criado que trouxera a carta, e deu-lhe duas notas de duzentos mil réis.

- Há de receber cinco mil réis de troco, disse em francês. Creio que cinco, repetiu abrindo a carta e examinando-a.

Era uma conta; ficou aberta na mesa. Tanta aflição por uma conta! Rubião criou alma nova. Carlos Maria foi bebendo o resto do café, aos golinhos, entremeados de charuto, gozando em si mesmo o prazer das contas grandes. Costumava dizer, para forçar o riso dos outros, que as duas cousas principais da vida eram o cavalo e o credor. Não pregava calotes; deixava crescer as dívidas para ter o gosto de as pagar volumosas. Aquela não era velha, tinha poucas semanas de existência, e foi contraída em casa de um ourives, por uma só vez.

- Cá os alfaiates da corte, aventurou Rubião, são careiros como o diabo.

Carlos Maria acordou da contemplação de si mesmo. Defendeu os alfaiates; a conta era de um ourives, disse, e mostrou-lha. Rubião não a leu. Contentou-se de olhar; mas daí a pouco, ao levantar-se da mesa, negrejou-lhe outra nuvem no espírito. A conta podia ser o preço de joias dadas, em mimo de anos, a Sofia. Não lhe fez ele alguns iguais presentes?

Na sala, Carlos Maria disse-lhe rindo:

- Ora, o senhor a crer que era carta de namoro! Mas, meu caro senhor Rubião, é preciso que me conheça bem, para ver que sou diferente do que supõe. Nem todo rapaz é namorador de ofício.

- Quem lhe fala de ofício? interrompeu Rubião.

- Alguma paixão particular? Compreendo. Mas eu sou avesso a amores, meu caro senhor Rubião. Gosto de conversar com mulheres, uso dizer cousas duvidosas e até francas; às vezes, chego a supor-me namorado. Nada mais. Tenho um livro lá em cima que diz que o amor iguala Marco Aurélio e o seu lacaio. O senhor provavelmente não sabe quem foi Marco Aurélio... Bem, fique sabendo que não sou eu; para que hei de imitar o lacaio?

(Continua.)




30 de novembro de 1887, nº 22

LXXX

(Continuação)

Rubião disse-lhe que era suspeito de amar uma senhora casada.

- Casada? perguntou Carlos Maria depois de alguns instantes.

- Casada, repetiu Rubião.

E de pé, fronteiro ao rapaz, que estava meio reclinado no canapé, perna sobre perna, repetia que era uma senhora casada, casada, casada. Carlos Maria pensou logo em Sofia; as relações de Rubião com a família faziam crer que era ela. Então imaginou que, - ou o Rubião vinha, de movimento próprio, servir aos interesses do marido, seu sócio, - ou ela mesma o incumbira de ser terceiro entre ambos. Não cuidou que podia ser curiosidade simples, menos ainda rivalidade oculta.

- Que tem isso? disse-lhe Rubião com um ar pelintra, que destoava da compostura, dos modos e até das suíças pendentes e graves, como as de um bispo anglicano. Tudo são amores. Ande cá, diga-me a verdade, que eu sou de confiança, e até pode ser que lhe conte algumas patifarias minhas, em paga. O marido é alto ou baixo?

Interiormente, mordia-se; as lágrimas queriam vir-lhe aos olhos. Como as mãos lhe tremessem muito meteu-as nas algibeiras das calças; a voz saía-lhe soturna, apesar do esforço que ele fazia para alegrá-la. Sentou-se numa cadeira rasa e estendeu as pernas. Carlos Maria, apenas franzira os sobrolhos, voltou logo à posição anterior. Sorria agora, falando, com uma pontinha de ironia ao canto da boca. Que senhora casada? perguntava. Atribuíam-lhe cinco, pelo menos; e era bom saber qual delas. Cinco, com duas viúvas, eram sete pessoas confiadas ao seu coração; não contava as solteiras que lhe davam por noivas. Em suma, um sultão batizado. Casada, mas casada com quem?

- Com um homem, rosnou o mineiro.

Carlos Maria, rindo:

- Seguramente, não há de ser com um cão... A propósito de cão, sabe que encontrei o seu cão no largo do Machado, creio que perdido, farejava muito as pessoas...

- Quando? perguntou Rubião inteiriçando-se na cadeira.

- Quando estava para almoçar.

- Perdido?

- Creio que perdido; só se havia ali algum criado com ele; mas não parece. O cachorro estava desorientado...

- Mas é impossível, reflexionou Rubião: ele nunca sai só e lá de Botafogo até o largo do Machado é longe. Conhece bem os meus criados?

Tinha-se levantado. Carlos Maria declarou-lhe finalmente e seriamente que não trazia amores com senhoras casadas. Corriam boatos a seu respeito, pela razão de que ele gostava mais de conversar com mulheres que com homens. Os homens eram insuportáveis. Naturalmente, concluíam das suas conversações para os seus amores; mas a verdade é que nenhuma senhora, casada nem outra cousa, podia dizer que lhe possuía o coração.

- Jura-me isso? perguntou Rubião.

- Se eu posso mentir, posso jurar a mentira, observou Carlos Maria.

Calou-se Rubião, por algum tempo, indo do canapé à janela e da janela ao canapé. A ideia do cão perdido, por instantes, excluía qualquer outra; então o nosso amigo não podia fugir aos remorsos de estar ali, e falava, e indagava; queria uma descrição; podia não ser o Quincas Borba...

- Pareceu-me que era, dizia Carlos Maria.

- Conheceu-o bem?

- Jurar, não juro; mas cuido que o conheci.

Rubião despediu-se; ia saber o que era. Quanto aos amores, desculpasse a curiosidade; mas que diriam dous homens solteiros, entre si? Carlos Maria perdoou-lhe a comparação. De pé, estendeu-lhe os dedos; sentindo que os do outro estavam trêmulos, pegou-lhe no punho para retê-lo, para interrogá-lo, para pedir uma explicação. Rubião, porém, puxou o braço, e disse-lhe adeus, rindo, - rindo mal.

- Já agora não vá sem confessar uma cousa que suspeito, disse Carlos Maria.

Rubião enfiou.

- Está-me parecendo que o senhor vinha fazer-me alguma confidência.

- Não, murmurou o outro.

E, por um instante, cuidou em fazê-la. as suspeitas fugiam diante da palavra indiferente do rapaz, do seu ar duro e soberano, e, quando preciso, do sarcasmo agudo e seco. Acresce, - e esta razão agora é mais decisiva, - que Rubião precisava confiar a alguém o seu segredo; não tinha peito para guardá-lo só consigo. Se Carlos Maria fosse mais instante e expansivo, era mui provável que ali ficasse tudo; este, porém, tão depressa lhe ouviu dizer que não, falou de outra cousa, - do Quincas Borba. Quem é que lhe dera aquele cachorro? Rubião enfiou outra vez.

- Um amigo, um bom amigo, resmungou despedindo-se.

- Mau amigo, que nos separa.

- Não, não, bom amigo. Adeus! Apareça por lá, conversaremos de outras cousas. Adeus! até breve! disse Rubião, descendo precipitadamente as escadas.


 

LXXXI



Carlos Maria voltou a sentar-se no canapé, no qual estivera a princípio, perna sobre perna, - parecendo mirar o tempo, - o grande invisível, - mas realmente interrogando um vaso de Sèvres, que estava no aparador fronteiro. O vaso, porém, como todos os vasos, - sejam de Sèvres ou da China, - deixava-se estar pousado e mudo.

(Continua.)




15 de dezembro de 1887, nº 23




 

LXXXII



Na edição da Comissão Machado de Assis, este capítulo leva, por engano, o número LXXII.

Na rua, a ideia que ficou ao Rubião foi a do cachorro perdido. Todo o prestígio da conversação e do seu principal objeto cedeu ao medo de não tornar a ver o Quincas Borba. Em casa, não o achou. Nenhum criado o vira sair. Estava torto o homem. Gostava do pobre bicho, achava-lhe graça, acostumara-se às carícias, aos latidos de prazer, aos saltos com que ele o recebia; eram provas de afeto, e o nosso amigo queria ser amado. Demais, não perdera ainda a superstição de estar ali a alma do outro Quincas Borba, guarda invisível, espiando-lhe os atos e os sentimentos. assim é que, pelo aniversário da morte do filósofo, Rubião mandou dizer uma missa; e, antes de sair para ela, falou ao cachorro, coçando-lhe a cabeça.

- Mal sabes tu que vou à missa por alma do nosso bom amigo.

Não se achou o cão; mas um criado da vizinhança disse que o vira sair atrás do senhor. Rubião construiu o resto. Na esquina da rua do Marquês de Abrantes metera-se em um tilbury, naturalmente o cachorro correu atrás do tilbury, até que o perdeu e ficou desorientado. Onde estaria agora? Podia ter sido apanhado por algum amador; - podiam tê-lo envenenado, oficialmente, por meio de uma bola municipal.

Mandou pôr anúncios, - dando os sinais do cão, e prometendo gratificar a pessoa que lho restituísse; nada. Três dias depois, marcou vinte mil reis de gratificação; mais tarde, cinquenta; afinal, cem.

- Cem mil reis! Olha, que, não é por amor ao dinheiro, - mas, quem dá cem mil reis por um animal é que o estima muito. Vamos mandá-lo ao dono.

O major Siqueira repetiu isto à filha, moradores agora na rua Dous de Dezembro. Foi um sobrinho que lhe levou ali o cão, pedindo que o guardasse até o dia seguinte, que mandaria buscá-lo. D. Tonica, porém, achou-o tão bonito, tão triste, tão ansioso de ir ter com o senhor ou a senhora, que resolveu de ficar com ele. Seria uma afeição doméstica. D. Tonica estava ainda qual a deixamos no capítulo XLIII - com a diferença de que os quarenta anos vieram. Quarentona, solteirona. Chorou-os consigo, logo de manhã, no dia em que os completou: não pôs fita nem rosa no cabelo. Nenhuma festa; tão somente um discurso do pai, ao almoço, lembrando-lhe cousas de criança, anedotas da mãe e da avó, um dominó de baile de máscaras, as festas do Divino, as cocadas da mãe, dous ministros da guerra, 1848, a solitária de um coronel Clodomiro, várias coisas assim de mistura, antigas ou menos antigas, - para entreter o almoço. A filha mal podia ouvi-lo; metida em si mesma, ia roendo o pão da solitude moral, ao mesmo tempo que se arrependia dos últimos esforços empregados na busca de um marido. Quarenta anos; era tempo de parar. Se Deus lhe guardasse algum noivo, dar-lho-ia em tempo; se não, para quê?

Nestas circunstâncias, o cão era uma companhia, uma afeição. Não quis desfazer-se dele, quando o primo veio buscá-lo no dia seguinte. Não lhe sabendo o nome, pôs-lhe o de Fujão. Apareceram anúncios, não fizeram caso; o de cinquenta mil réis deu que pensar ao major; o de cem mil exaltou-o. Tinha escassos meios; cem mil réis vinham do céu. Demais, o cão não se acostumava à casa, não queria comer, vivia ganindo, farejando as portas, querendo sair; para que fazê-lo padecer, - a ele e ao dono?

- Ele acostuma-se, papai.

E pegava do cachorro, metia-o no regaço, apesar de grande. Quincas Borba olhava para ela, ela para ele, um longo olhar tristonho e miserável. Siqueira ao lado, relia o anúncio, os sinais eram os mesmos. Só não vinha o nome; por que não vinha o nome? Erguia-se, repreendia a filha; depois, inclinando-se, fazia festas ao cachorro, falava-lhe do senhor, perguntava-lhe quem era, tudo com os cem mil réis no coração. Que aborrido que foi o jantar! De tarde era costume do major, cochilar um pouco, relendo algum romance cortado das folhas e cosido à margem com barbante; tinha-os mui antigos, saídos em folhetim do Jornal do Commercio e do Correio Mercantil de cinquenta e tantos. Nem leitura nem sono, nada pôde com ele. No dia seguinte, correu à casa indicada no anúncio; deu com Rubião, e durante os primeiros minutos, espantado, não pôde sair dos cumprimentos. Afinal, batendo-lhe no ombro:

- O cachorro é seu?

- Achou-o?

Contou o major tudo o que se passara até à obstinação da filha. Vá depressa, concluiu ele, antes que a amizade cresça; penso até que ele já gosta dela.

- Como hei de dar os cem mil réis a este homem? pensou Rubião.

Ficou de ir buscar o cão, entre quatro e cinco horas. O major pediu-lhe que não dissesse nada à filha do que se passara entre eles. De tarde, parou uma carruagem à porta do major; era o nosso amigo. O espanto daquele, ao vê-lo, não foi menor que o da filha, que estava com o pai na sala. Que milagre é que o trazia àquela sua casa? etc.

- Não é capaz de adivinhar, retorquiu Rubião. Dou-lhe um doce, se adivinhar...

- Doce de quê?

Um e outro requintavam no espanto, quase que por aposta de saber quem era capaz de dissimular melhor. Afinal Rubião falou no cachorro; tinha sabido casualmente que ele estava ali, e vinha buscá-lo. D. Tonica enfiou. O pai respondeu que já agora tinha de perdê-lo, porque a filha não o restituiria, nem ao padre Eterno que fosse.

- Estou que cederá, acudiu Rubião, se lhe disser que este cão me foi legado pelo meu maior amigo. Herdei-lhe os bens com a cláusula de o tratar, de fazê-lo viver comigo, de lhe dar sepultura. Cederá também se souber que o pobre cachorro gosta de mim, tanto ou mais do que ao outro senhor; e que eu lhe quero igualmente...

Siqueira estava admirado daquelas circunstâncias ignoradas. Provavelmente, é tudo mentira, disse consigo; mas confirmou-as para enternecer a filha. Esta replicou sorrindo que não era preciso tanto para levar o que era seu; levantou-se e foi chamar o cão. Quincas Borba já então farejava pela sala de jantar, veio com ela à de visitas, e atirou-se latindo de prazer, trêmulo, doudo, aos joelhos de Rubião. O major admirava dos beiços para fora; a filha contemplava os dous, com inveja.

- Como se chama? interrompeu ela.

- Quincas Borba; era o nome do meu pobre amigo...

- Então o senhor...?

- Eu não; foi ele mesmo que lhe deu este nome em vida. Respeitei o ato, que aliás consta do testamento...

- Por que continua a mentir? perguntou a si mesmo o major, irritado.

(Continua.)




31 de dezembro de 1887, nº 24

LXXXII

(Continuação)

- Sossega! disse Rubião; mas o Quincas Borba não se aquietava, lambia-lhe as mãos, dava saltos, até que de um deles trepou aos joelhos do senhor, pousou-lhe as patas nos ombros, e entrou a lamber-lhe as barbas. Nos dias em que ele passou ali, D. Tonica tivera cuidado de o lavar por suas próprias mãos, penteá-lo, aromá-lo com água florida.

- Sai! sai! disse Rubião.

D. Tonica prosseguia na contemplação dos dous; lembrou-se de Sta. Teresa, pensou na soma de afetos que esse homem parecia trazer em si. Como não amaria ele a esposa, se Deus lha desse? Expeliu tais ideias, e restringiu-se ao cão. Havia de comprar um para seu companheiro; precisava de uma afeição daquelas, exclusiva, obediente...

- Já vê que somos amigos, disse Rubião depois de fazer descer o Quincas Borba. Há de tê-lo mesmo adivinhado pelos anúncios...

- Os anúncios, é verdade, retorquiu a dama com viveza; esquecia-me dizer-lhe que não dispenso os cem mil réis.

Rubião ficou atônito, não menos que o pai. O primeiro, não querendo ofendê-la, nem mentir à promessa, trazia consigo um par de brincos, que lhe custara cento e trinta mil réis; ainda assim achava difícil oferecê-lo. Agora não pôde mais que assentir por um gesto; D. Tonica, porém, rematou o que ia dizendo:

- Não dispenso os cem mil réis, nem o favor de os entregar na igreja do largo do Machado, para a cera de Nossa Senhora, minha madrinha; mas note que há de fazê-lo em seu nome.

Rubião declarou prontamente que sim. O major tinha os olhos prenhes de discursos; não penetrou logo, logo, a intenção da filha; mas, tão depressa ficaram sós, ela es tendeu-lhe as mãos rindo, com o ar contrito da pecadora que pede absolvição. Compreendeu tudo.

- Então isso são cousas que se atribuam a seu pai? disse ele. Tinha medo que eu fosse atrás do sujeito pedir-lhe os cem mil réis? Sou algum mendigo?... Não, graças a Deus... Mendigo que fosse... Faça-me o favor de dizer o que é que ele vai pensar de mim? Que sou um pedinchão... Isso são cousas que se atribuam a seu pai? Ele, com certeza, vai imaginar o diabo: o menos que pensa é que eu ia atrás dele pedir-lhe os cem mil réis; porque este ar despachado de uma filha que diz que não dispensa os cem mil réis e pede para levá-los à igreja, a Nossa Senhora, - a Nossa Senhora que nos vê a todos, e que há de reprovar a ação da afilhada, uma afilhada sem entranhas da filha. Como se eu fosse um pedinchão, um mendigo...

D. Tonica fizera-o sentar, pegando-lhe nos pulsos; ele obedeceu sem sentir, falou, falou; ela, cautelosa, deixou-o falar, até que começou a pingar algumas palavrinhas no discurso, - mau, precipitado, injusto, - ou então que lhe perdoasse, que não valia a pena; - era um modo de não entregar o cachorro de graça. Lá isso, sim, aprovou o major; já que o estimava tanto, levá-lo de graça era uma empulhação; mas, por que não disse ela isso mesmo a seu pai, a fim de que ele...? D. Tonica acudiu que era a mesma cousa; ficava até melhor na boca de uma senhora.


 

LXXXIII



- A moça é devota, reflexionou o Rubião ao sair de lá, na carruagem, com o focinho do cão entre os joelhos. Na verdade, quando ela me disse que não dispensava os cem mil réis, achei esquisito; mas o fim explicou o princípio. Nossa Senhora é sua madrinha... Contudo, sendo eles pobres, davam para um vestido ou dous, e um chapéu. Não é qualquer aquela moça... isto é, ela já há de rastejar pelos quarenta, mas tão bem arranjadinha, tão esbelta que não parece. Não, não é qualquer; teve graça no modo de resolver o caso. Sossega. Quincas Borba! bradou ele ao cachorro que teimava em trepar-lhe aos joelhos, assustado com os solavancos da carruagem.

(Continua.)




15 de janeiro de 1888, nº 01

LXXXIII

(Continuação)

Dous dias depois recebeu o major um bilhete de Rubião, acompanhado do recibo dos cem mil réis, dados à igreja. Ficou vexado; a cousa, posta assim no papel, trazia as feições próprias de uma gratificação. Foi ter com o Rubião, pediu-lhe desculpa das palavras da filha, afirmou-lhe que nenhum deles tivera nunca a intenção de aceitar nada. Quando a filha pediu que desse os cem mil réis à igreja, não a reprimiu, porque cuidou que era um modo de gracejar; conquanto estivesse certo que era mui devota. Erro, má lembrança...

- Que má lembrança, o quê? atalhou Rubião; eu achei até que foi delicada. Digo-lhe mais...

Rubião estacou por alguns instantes rápidos; depois continuou com singeleza:

- Digo lhe mais que embora nunca me passasse pela cabeça gratificar pessoas tão distintas...

- Justamente! assentiu o major.

- ... tal foi a alegria que tive em achar o meu pobre cachorro que cheguei a comprar uma joiazinha para oferecer a sua filha em lembrança. Como, porém, me falou de Nossa Senhora, vi logo que era mais bonito assim. Não se aflija com isto; religião não faz mal a ninguém; a falta dela é que perde uma pessoa...

- Sim, realmente, a haver alguma lembrança, antes fique nas mãos da Mãe Santíssima, disse o major depois de alguns segundos de silêncio. E logo depois: - Deve ser muito rico este homem.

- Eu só lhe peço uma cousa, e a sua filha, disse Rubião; é que não contem a ninguém este negócio. O senhor sabe que nem todos apreciam a estima que se pode ter a um animal, - principalmente cachorro, que anda na rua, e apanha pedrada de moleque. Este meu parece gente. Se eu lhe contar contar cousas dele, o senhor não acredita.

- Ah! os cachorros são...

- Mas não é só por isso que o estimo; é lembrança de um amigo, - um bom amigo, - morto há tempos, - e gosta tanto de mim como do outro senhor... Está ouvindo?

- Parece que é ele.

- Quincas Borba! gritou o Rubião.

Ouviu-se logo o passo rápido do cão no corredor. Chegando à sala, Quincas Borba deu com o estranho, rosnou um pouco, foi a ele, entrou a farejá-lo. O major encolheu as pernas. Rubião puxou o cão pela orelha.

-Vem cá! Que é isso? Não conheces mais o pai da moça que tratou de você? Ponha-se em pé! Vamos! ande! fique em pé.

Quincas Borba sustentou-se sobre as pernas traseiras.

- Dê cá a mão! disse-lhe o amigo. assim, muito bem; agora a outra.

Com efeito, o cão deu-lhe a pata direita, que ele apertou; depois a esquerda, que apertou também. O major sorria espantado.

- Ora, muito bem! Agora tome a bênção... Então? Tome a bênção, Quincas Borba?

De cansado, voltara o cão à posição natural; mas o senhor fê-lo erguer outra vez, pegou-lhe na pata direita e levou a própria mão à boca do animal, que lhe deu uma lambedela nos dedos. Rubião fez o gesto de abençoá-lo. Então o Siqueira riu-se muito da ação, admirou a paciência do senhor, a inteligência do cachorro, concordou que era um animal muito apreciável. Foi menos sincero aí do que quando lhe disse, minutos depois:

- Realmente, vejo que lhe dava grande desgosto, se o não restituo.

Rubião fincara em Quincas Borba uns olhos longos, metade ternos, metade tristes. Não ouviu as palavras de Siqueira. Este fê-lo acordar, levantando-se para ir embora.

- Já?

- Já; Tonica não janta sem mim.

- Venha jantar comigo alguma vez, disse-lhe Rubião.

- Pode ser, avisando em casa.

Desceram ao jardim. Indiferente ao luxo da sala, não o foi Siqueira aos canteiros de rosas e margaridas, às palmas, às begônias, à disposição das plantas. Era modesto; chegaria a preferir os seus trastes simples de jacarandá, mangas de vidro, castiçais de casquinha, tudo nu e velho, aos tapetes, bronzes e ouros do Rubião; mas as flores deram-lho rebate à alma. Foi a elas, percorreu o jardim todo, acompanhado do outro, indicando-se aqui e ali, falando dos bonitos jardins que conhecera outrora, e ainda agora. Não compreendia o Palha, que deixara as flores de ta. Teresa para meter-se na praia do Flamengo, em casa que não tinha nada.

- Verdade é que também não tenho nada, mas é porque me falta o melhor. Já tive jardim bonito, durante cinco anos, entre 45 e 50. Com a guerra do Rosas, acabei tudo. Do Rosas; veja a ironia do acaso, eu que adoro as rosas... as suas são admiráveis.

Continuou sem parar uns dez minutos; embora algumas reminiscências da guerra tivessem vindo ali, sem propósito, a paixão sincera do major varreu-as do discurso. as folhagens e as flores o absorveram inteiramente. Depois de vê-las todas, suspirou à larga, fitou o dono da casa, e chamou-lhe feliz. Este não teve mais que um sorriso pálido.

- Sabe o que lhe falta? acudiu Siqueira. Uma só cousa; falta-lhe aqui uma mulher. O senhor precisa casar. Case-se, e diga-me que o engano.

Rubião lembrou-se de Sta. Teresa, - daquela famosa noite da conversação com Sofia, - e sentiu correr-lhe um frio pelas costas; mas, a cara do major não tinha nenhum sarcasmo. Estava até séria. Se lhe tem acudido à memória o encontro dos dous no jardim, é provável que vertesse uma gotinha de fel no conselho matrimonial; mas nem lhe ocorreu isso, nem outra cousa; o conselho saiu-lhe livre e desinteressado.

- Case-se, e diga que eu o engano! repetiu ele à saída.

(Continua.)




31 de janeiro de 1888, nº 02


 

LXXXIV



- E por que não? perguntou uma voz, logo depois que o major saiu.

Rubião, apavorado, olhou em volta de si; viu apenas o cachorro, parado, olhando para ele. Era tão absurdo crer que a pergunta viria do próprio Quincas Borba, - ou antes do outro Quincas Borba, cujo espírito estivesse no corpo deste, que o nosso amigo sorriu com desdém; mas, ao mesmo tempo, executando o gesto do capítulo XLIX, estendeu a mão, e coçou amorosamente as orelhas e a nuca do cachorro, - ato próprio a dar satisfação ao possível espírito do finado.

Era assim que o nosso amigo se desdobrava, sem público, diante de si mesmo.


 

LXXXV



- E por que não?, repetiu a mesma voz misteriosa.

Só agora advertiu Rubião que a boca invisível estava dentro dele; a voz emergia das profundezas do inconsciente para interrogá-lo. Sim, por que não havia de casar? continuou andando e raciocinando, alvoroçado com essa ideia tão simples e tão complexa, tão fácil e tão difícil. Casando, esquecia tudo. Mataria a paixão tardia e adúltera que o ia comendo aos poucos, sem esperança nem consolação. Demais, era a porta de um mistério... Casar, sim, não havia outro recurso; casar logo, casar bem. E Rubião ficou a andar de um lado para outro, sem calcar uma planta, uma flor, nada mais que a terra do chão; as pernas é que o levavam por si mesmas, direitas, lúcidas, vagarosas, para que ficasse à cabeça tão somente a tarefa de pensar.

Boas pernas! pernas amigas! Muletas naturais da alma! Só pararam quando o criado veio chamar o Rubião para jantar. Também era tempo; a viagem tinha sido longa. E porque, segundo o velho Goethe, há muito que contar depois de uma viagem, muito contaria o nosso amigo se pudesse coligir todas as reminiscências. Não podia; tal foi o turbilhão de cousas e pessoas que passaram por ele, vagamente, confusamente, que não distinguiria agora um só perfil, uma única cena. Viu mãos de padre e ombros de mulheres, ramalhetes de cravos brancos entremeados de hissope, olhos claros, olhos de todas as cores e tamanhos, bênçãos, risos, lágrimas, carruagens, tudo de mistura, sem poder saber onde é que cada cousa principiava nem acabava.

Dias e dias vieram vindo e passando, sem adiantar nada; mas a ideia conjugal persistia. Que ele é preciso deixar aqui bem claro - a ideia de casar não era só isto, - nem também, como o nosso amigo presumia, - unicamente um modo de matar a paixão adúltera. Era, antes de tudo, uma cousa obscura e inconsciente.


 

LXXXVI



Sim, leitor profundo. A vida de Rubião carecia de unidade. Sem o perceber, o que ele buscava no casamento era a unidade que a vida não tinha. Sentia-se disperso e confuso; era como um morador de hospedaria, que passa, que está aqui dous dias, acolá quatro; tem de visitar hoje um museu, amanhã uma ruína, para a semana outra cidade. Não convive, não mora: fala ao inglês, ao francês, ao italiano, ao alemão, ao russo, a todas as nações, de todas as maneiras, a pé, de carro, fumando, comendo.

Mas, ainda assim, a vida pode ter unidade, - ou na alma ou na situação do homem. Nem a situação nem a alma do nosso homem estava em tal caso. A vida partira-se-lhe. Vivera mais de metade em outro lugar, com outras gentes, outros meios, outros horizontes. Não tinha aqui família; as relações eram de acaso e recentes, não cimentadas pelo tempo nem explicadas por outras causas mais íntimas e profundas. Nenhuma falava da existência anterior. Também não falava dela nenhuma cousa da cidade, um marco de pedra, uma esquina, uma loja, - uma botica velha que fosse, - nada lhe trazia à memória um passo da adolescência ou da mocidade.

A alma era a mesma cousa. Não achava equilíbrio nem alimento em si própria. Acabara o alvoroço dos primeiros tempos. A solidão, que é para outros uma janela aberta, era para ele cárcere fechado. A casa, a despeito do luxo, estava nua. Daí o ruído externo, a dispersão, os teatros sem prazer, as visitas desnecessárias, os jantares a miúdo, os amigos de trânsito, enxame que se renovava trimestralmente, variado sempre, desde o negociante quebrado até o rapaz vadio. O rapaz lia-lhe sonetos, o falido desvendava-lhe os mistérios do comércio, ambos pediam-lhe dinheiro, nenhum o restituía.

Rubião, às vezes, com saudades de Minas, recompunha a existência obscura de outro tempo. Obscura, não, senhor; era muito mais notória que a atual, que se perdia na multidão de tantas vidas. Era simples, limitada ao pouco, mas igual a si mesma e estável; entre o homem e o meio existia comunhão de ideias, de reminiscências, de amor ou de aversão, de nojo ou de alegria, - de hábitos, ao menos. Lá, um trecho de rua ou um retalho de frase acordava em toda a gente a lembrança do mesmo sucesso ou pessoa. Cá tudo era novo; nada fazia sentir nada.

Crê, leitor, tal foi a origem secreta e inconsciente da ideia conjugal. as outras explicações são boas, por serem razoáveis e até honestas, mas a verdadeira e única é a que aí fica. Crê ou fecha o livro. assim, por exemplo, se o próprio Rubião dissesse que o casamento era um modo de calafetar o capital que abria água, podes aceitar essa explicação, não como causa, mas como efeito. Em verdade, ele gastara, muito, ia gastando, contribuía para uma folha política, divertia-se à larga, fazia mimos e empréstimos. Celibato não é incompatível com economia; mas Rubião não tinha força nem vontade; talvez o casamento lhe desse o segredo de viver com parcimônia, - ou tento, pelo menos.

Isso, porém, era puro efeito do ato. A causa era a que ficou dita. O matrimônio enfeixaria os esforços, recolheria em si o homem disperso, embora ele não soubesse nada dessa causa verdadeira e única. Que sabe a aranha a respeito de Mozart? Entretanto, ouve com sumo gosto a guitarra e o piano.

(Continua.)




15 de fevereiro de 1888, nº 03


 

LXXXVII



Um dia, indo ao armazém, achou o Palha de luto. Morrera a tia da mulher, D. Maria Augusta, na fazenda; a notícia chegara na véspera à noite.

- A mãe daquela moça? perguntava Rubião.

- Justamente; uma boa senhora, muito agarrada aos seus costumes da roça, onde viveu sempre. Não havia modo de a prender cá muito tempo. Consegui guardar a filha, mas a mãe...

Rubião ouviu distraído. Cousa singular: a imagem de Sofia, vestida de preto, fixou-se-lhe diante dos olhos. Foi tudo o que lhe trouxe a morte da fazendeira. Palha descreveu a dor da moça; narrou circunstâncias interessantes da sua vida, em pequena, anedotas domésticas, argúcias, graças, repentes; de envolta com isso, a excelente criação que a mãe lhe dera, as virtudes naturais, todas as partes de uma boa dona de casa. Sofia tinha nela a maior confiança. Nem foi à toa que, desde algum tempo, tramara ficar com ela, a despeito da afeição que Maria Benedita votava à mãe e vice-versa; Sofia queria uma segunda dona de casa ao pé de si.

- Sim, senhor... Ora veja ... Acredito... ia dizendo o sócio.

Visivelmente não tinha interesse. Palha fitava nele uns olhos sonsos e tristes, - às vezes suspirava, abanava a cabeça, passeava com as mãos nas algibeiras das calças. Dai a pouco tornou a dizer que a prima ficava morando com eles.

- É claro que, se Maria Benedita já estava conosco, agora fica inteiramente. Sabe que tem uma irmã, Maria José, casada com um juiz de direito? vivem no Ceará. Não é provável que Maria Benedita...

- São ambas Marias?

- Eram as três, a mãe também; na família dizia-se - as três Marias. Uma esquisitice. Mas, como ia dizendo, não é provável que Maria Benedita queira ir para a companhia da irmã; e, ainda que queira, não o queremos nós. Está em nossa casa, cá fica. Havemos de casá-la, afirmou ele golpeando o ar com o dedo indicador da mão esquerda.

- Tem outros parentes?

- Poucos e remotos. Tem, é verdade, tem o padrinho ainda vivo; é um fazendeiro de S. João del Rei. Talvez o senhor o conheça.

- Como se chama?

- O coronel Manoel Ricardo...

- Conheço.

- ... Xavier Carneiro.

- O coronel Manoel Ricardo, não precisa mais nada. Só o vi uma vez, há muitos anos, em S. João del Rei, mas ele é muito conhecido em Minas, e muito respeitado. Grande liberal; parece até que, em rapaz, era exaltado. Sempre ouvi dizer que simpatizava com os barulhos de 1842. Bom homem também.

- A defunta falava dele com elogio, disse Cristiano assinando um papel que o guarda-livros lhe apresentara. E logo depois, deixando a pena: - Não creio que o padrinho queira mandá-la buscar; ainda que o deseje, acharei meio de ficar com ela, sem desgostá-lo. Já não podemos viver sem Maria Benedita. Ela fez maretas para voltar à roça e lá ficar. Ultimamente então, zangada ou aborrecida, ou com saudades, como declarou, pôs os pés à parede, que ia, que ia, até que se desenganou. Agora creio que já está tão acostumada que seria difícil deixar isto. O Rio de Janeiro é o diabo. Aqui caçará, concluiu tirando com a unha um pouco da poeira da gola do Rubião.

Rubião agradeceu, sem acrescentar nada. Palha insistiu na ideia do casamento da prima. Achar-lhe-ia um bom marido, não qualquer, porque era noiva de primeira água, brilhante sem jaça; não a levaria nenhum peralta, mas pessoa digna.

- Parece boa moça, parece, concordava Rubião.

- Não imagina, acudiu Cristiano animado, é o que se pode dizer, sem mentira nem exageração, um anjo. Há moças bonitas e educadas, mas sem préstimo; e há outras que têm préstimo, mas não têm prendas de sociedade, nem beleza; Maria Benedita reúne tudo. Ajuda minha mulher no governo da casa; repartem o serviço, fazem semanas. Eu, às vezes, digo brincando que sou imperador, e pergunto-lhes, ao domingo, quem é a semanária.

Palha disse isto a rir, chegou a repetir as palavras e a rir mais, alegre, de alma aberta, serena e feliz. De repente, fez-se sério.

- Coitada! coitada! murmurou; lá está agora bem triste, e com razão. A defunta era uma santa criatura; tinha suas teimas, seus velhos hábitos, áspera às vezes, mas o coração era ouro maciço.

Assinou ainda alguns papéis; depois disse que ia voltar para casa; viera ver as últimas fazendas entradas. Tirou o paletó, ficou em colete e mangas de camisa. No armazém entravam fardos despachados da véspera, morins ingleses, algodões americanos, baetas. Vinham da calçada para dentro, empurrados por homens descalços, braço peludo e nu, suando em baga. Um caixeiro confrontava os conhecimentos com os números dos fardos. Cada um destes tinha o seu número e firma, em grandes letras pretas, assim:

C. P. & R.

Rio de Janeiro

9,424

Custa dizê-lo, mas a verdade antes de tudo. Rubião não atinou logo que as iniciais eram as dos nomes deles, Cristiano Palha e Rubião; fitou-as muito, viu-as pintadas em todos os fardos, não quis perguntar o que seria; daí a cinco minutos, porém, percebeu que se tratava da firma da casa. Nunca as teria visto ali? Visto, é possível, mas com indiferença, com a cabeça alhures. Agora gostou de ter adivinhado; chegou mesmo a repetir em voz baixa, satisfeito:

- Cristiano Palha & Rubião.

O sócio dava-lhe notícias das vendas, do estado da praça, do movimento dos negócios, que fazendas achavam agora melhor preço. as casimiras francesas iam bem. A propósito, tinham-lhe dito uma cousa boa na véspera; a casa Morais & Cunha pagava todos os credores, integralmente.

- Ah! respondeu Rubião.

Este ah! saiu sem grande alegria. Rubião reconheceu isto, e tornou ao assunto com volubilidade; era bem bom que a casa pagasse integralmente, mas não haveria ilusão, não seria boato falso? Continuou empregando palavras que não eram de uso mercantil, e não lhes deu aquele tom próprio, já não digo do ofício, mas do interesse. Para simulá-lo, entrou a percorrer o armazém. O armazém era escuro e fundo, estava em desordem, mas uma desordem natural; não se tratava ali da vitrina que alicia a pessoa que vai passando. Prateleiras toscas, com rolos e pacotes de panos. Cartões com amostras de fazendas; outros com simples anúncios. O chão atulhado de muitos fardos, ainda encerrados nas tábuas de pinho e cintas de ferro. Rubião ouvia o que o sócio lhe dizia, fitando muito os olhos nele, tornando às mesmas cousas, inclinando-se, apalpando isto e aquilo. Dois fregueses vieram ter com o Palha, e os separaram.

Rubião ficou só, olhando à toa. Percebeu que os empregados o miravam, e assumiu um ar de dono e de entendido. Virava e revirava as amostras, estendia o beiço, mexia a cabeça. Ao fim de dez minutos, ainda os fregueses não tinham saído; ele foi ter com o sócio.

- Bem, adeus, disse-lhe.

- Vai logo lá em casa?

- Logo?

- Vá, vá.

E deixando os fregueses por um instante:

- Vá, elas estão muito tristes; eu mesmo vim porque não podia deixar, tenho um negócio inadiável, mas volto cedo. Vá logo, sim?

- Vou, à noitinha.

Rubião estendeu-lhe os dedos, saiu à rua, e desceu.

(Continua.)




29 de fevereiro de 1888, nº 04


 

LXXXVIII



Antes fosse logo: era a ir alguma parte. Rubião achou-se sozinho na rua, profundamente aborrecido, não sabendo que fizesse do tempo, sempre acrescido, por mais que cuidasse gastá-lo. Não tinha onde ir; o Camacho estava em Vassouras curando da defesa de um réu; o centro político, onde passava alguma hora, só abria tarde; não havia de ir meter-se nas casas comerciais de suas relações; para a rua do Ouvidor era cedo; voltar já para casa, não. Rubião desceu, subiu, parando, olhando, profundamente aborrecido.


 

LXXXIX



Felizmente (há também um Deus para os enojados) felizmente lembrou-lhe que o Freitas estava à morte, na Praia Formosa, onde residia. Rubião chamou um tilbury e foi visitá-lo.

Achou-o estirado em uma cadeira baixa, magro, pálido, com a barba crescida, os olhos meio mortos. Padecia de uma lesão do coração; dias antes, foi acometido de uma congestão pulmonar. Tinha sobre os joelhos um lençol, para esconder as úlceras das pernas inchadas. Uma das mãos, a direita, também estava ferida. Foi com a esquerda que ele apertou a do Rubião, espeitorando estas palavras:

- Como vai? Eu vou melhor, muito melhor. Para que se incomodou? Tenho-me lembrado das suas rosas... bonitas rosas, mamãe; e dos charutos também. Já não fumo, sabe? Deixei por ora o tabaco. Bonitas rosas, rosas vermelhas, brancas, amarelas...

Os olhos do doente foram parando no ar; a palavra ensurdecia-se-lhe.

- Solo... melhor solo... Dou só duas vazas, três, uma em copas... Sete, capenga... Sim, prefiro um abacate...

Em seguida, exaltou-se um pouco, falou da guerra do Paraguai, do duque de Caxias, inclinou a cabeça e fechou os olhos. Respirava a custo. A mãe, - uma triste velha magra e pequenina, que estava ao pé dele, - levantou os olhos medrosos para o Rubião, como a pedir-lhe desculpa do delírio do filho. Depois, pé ante pé, foi buscar uma cadeira e ofereceu-a à visita. Rubião, sentou-se, relanceando a vista pela sala; era pobre, os trastes desiguais, muito usados e poucos. O chão estava gretado; o caio das paredes encardido.

Fez-se, durante alguns minutos, triste e profundo silêncio, apenas interrompido por uma quitandeira, que passava fora, apregoando com toda a força de pessoa sadia: "- Vai cheiro! vai abóbora! vai tomate!" Afinal o doente acordou do torpor; ergueu a cabeça devagar, levantou a mão direita até à altura dos olhos, para mirar a ferida, coberta por um atilho de pano preto; em seguida, falou outra vez ao Rubião, perguntou-lhe como estava, nomeou vários conhecidos de ambos. A mãe pediu licença; foi dar uma vista à panela.

- Já volto, Chiquinho, disse ela ao filho.

Viviam sós os dous; à noite vinha ali ficar um velho compadre da mãe, revezando-se na vigília, hoje um, amanhã outro. O mais estava a cargo dela, cozinhar, lavar a roupa, curar as úlceras do doente, dar-lhe os remédios, e chorar pelos cantos. Antes da moléstia do filho, trabalhava para fora, e comia com isso, porque a casa era deles, resto da antiga mediania, que ela não consentia nunca em alienar. Agora fazia dívidas.

Rubião não tinha repugnância à pobreza; achou-lhe até um sabor misterioso, entre doce e amargo, - como a saudade do poeta; - lembrava-lhe tempos idos, e pode ser que bons tempos. A doença é que lhe dava asco; era tão natural estar de saúde! Contudo, olhava para o enfermo, que ora cochilava, ora dizia alguma cousa, direita ou torta. Quando era direita, entretinha, porque o doente, apesar do coração e das pernas, trazia ainda a nota jovial. Contava anedotas, ditos, com alusões brejeiras. A mãe, voltando à sala, fez suspender certas reminiscências; mas o delírio tornou, trabalhando por essa ordem de ideias, e foi por elas abaixo; a velha recolheu-se à cozinha. Quando estava só, não podia fugir, escutava tudo, obscenidades grossas, nomes crus, toda a lama podre da vida; e, por maior que fosse a vergonha, preferia ouvir-lhe isso a ouvi-lo gemer.

Veio o médico, examinou, perguntou, recomendou, cumprimentou e saiu. Freitas a custo deixou-o sair; nessas ocasiões a vida impunha-se-lhe violentamente, e ele pedia a saúde, como se pede um emprego ou uma joia. A mãe deu-lhe a dose do remédio, que ele bebeu sôfrego e confiado, e era um paliativo; durante muito tempo esteve sem fechar os olhos.

- Ele come? perguntou Rubião.

- Come, não come muito, respondeu a velha limpando o suor do queixo com a ponta do avental de chita.

- Como, como, afirmou o doente.

Rubião consultou o relógio; era hora e meia. Começava a fazer calor.

- Onde vai? espere um pouco, disse o Freitas.

Rubião inclinou-se, pôs os braços sobre os joelhos, e respondeu que tinha negócios; mas o outro riu dos negócios; naturalmente, eram moças bonitas ou receber os juros das apólices. Grandes negócios; em verdade, eram os únicos valiosos deste mundo e do outro... Aqui fez-se muito sério; Rubião não viu a mudança do gesto, e endireitou o corpo, disposto a esperar ainda meia hora para não chegar cedo demais ao centro da cidade. Essa outra parte do tempo não correu tão fácil; mas enfim passou, e foi mais além, porque, quando ele consultou outra vez o relógio, eram duas horas e dez minutos.

- Agora vou, adeus.

Freitas não respondeu, dormia. Rubião levantou-se devagarinho, a velha também, e foi abrir-lhe a porta. Antes de sair, depois de um instante de silêncio:

- A senhora há de ter tido grandes dificuldades de dinheiro, disse o Rubião; e, vendo-a morder o beiço e baixar os olhos: Não se envergonhe; necessidade aflige, mas não envergonha. Eu o que queria era que a senhora aceitasse alguma cousa, que lhe vou deixar para acudir a despesa; pagará um dia, se puder...

Tinha aberto a carteira, tirou seis notas de vinte mil réis, fez um bolo de todas elas, e deixou-lho na mão. Abriu a porta e saiu. A velha, espantada, nem teve alma para responder; ao ouvir o movimento do tilbury, ainda abriu a janela, mas o tilbury ia andando; ela ficou a olhar atônita.

(Continua.)




Quincas Borba não foi publicado no número de 15 de março de 1888, nº 05



31 de março de 1888, nº 06


 

XC



Tudo aquilo saiu tão naturalmente ao Rubião, tão de si e tão pronto, que ele só teve tempo de refletir, depois que o tilbury começou a andar. Parece que chegou a levantar a cortina traseira do tilbury, para ver se a velha estava à janela. Ia entrando; viu-lhe ainda o resto do braço. Coitada da velha! suspirou consigo, e com os olhos no ar, fitos em nada, passou alguns minutos sem saber em quê, nem onde. Não pensava; se pensasse, podia estar cuidando no próprio ato, e a achá-lo bom, - mas não pensava em nada; foi assim, vago, aturdido, fora de si.

Voltando a si, Rubião sentiu toda a vantagem de não estar inválido. Reclinou-se, desabafou o peito com um grande suspiro e olhou para a praia: logo depois inclinou-se. Na vinda, mal pudera vê-la, com a vegetação curiosa que a enchia de ilhas de verdura.

- Vossa Senhoria está gostando, disse-lhe o cocheiro contente com o bom freguês que tinha.

- É muito bonita.

- Nunca veio aqui?

- Creio que vim, há muito anos, quando estive no Rio de Janeiro pela primeira vez. Que eu sou de Minas... Pare, moço.

- O cocheiro estacou o cavalo; Rubião desceu, e disse-lhe que fosse andando devagar.

Em verdade, o espetáculo era raro. as ilhas das Moças e dos Melões, postas ali ao pé da cara dele, à mão, davam vontade de entrar n`água e ir ter com elas. Tão perto da rua! Rubião ia andando sem tirar os olhos d`água. Esquecera o doente e a mãe do doente. assim, sim; fosse o mar todo uma cousa daquele feitio, alastrado de terra e verduras, e valia a pena navegar; - é o que ele ia dizendo consigo. Às vezes estugava o passo; para lá das ilhas ficava a praia dos Lázaros e de S. Cristóvão, - uma pernada apenas. Tudo aquilo fazia um recanto do mundo. Rubião não era poeta; mas o horizonte estreito ajustava-se-lhe à alma, como um colete feito por medida.

- Praia Formosa, murmurou ele; bem posto nome.

Entretanto, a praia ia mudando de aspecto; de quando em quando, interpunham-se casas edificadas à beira d`água. Às vezes, não eram casas, mas canoas, encalhadas no lodo, ou em terra, fundo para o ar. Em dous lugares viu meninos brincando ao pé das canoas, em camisa e descalços; viu até um homem ao pé deles, de barriga para baixo, como as canoas. as casas de ambos os lados eram modestas e desiguais, algumas enterradas no chão. Pareciam feitas para os meninos da praia; eles eram magros e amarelos, e as casas, com um pouco de esforço da imaginação, eram igualmente amarelas e magras.

O melhor, porém, é que, a despeito da má cor e das carnes chupadas, os pequenos riam também, como as ilhas de há pouco. Um ria mais que os outros, porque não acabava de fixar no chão o pé do homem que estava de barriga para baixo. Era um pecurrucho de três anos; agarrava-se-lhe à perna e ia-a estendendo até nivelá-la com o chão, mas o homem fazia um gesto e levava pelo ar o pé e o menino.

Rubião deteve-se alguns minutos diante daquilo. O sujeito, vendo-se objeto de atenção, redobrou o esforço no brinco; perdeu a naturalidade. Os outros meninos mais idosos detiveram-se a olhar para ele espantados. Mas Rubião não distinguia nada; confusamente tudo aquilo e outras muitas cousas.

Andando, levou, a visão consigo. Foi ainda a pé durante largo tempo; passou o Saco do Alferes, a Gamboa, a Saúde. Viu ruas esguias, outras em ladeira, casas apinhadas ao longe e no alto dos morros, becos, muita casa antiga, algumas do tempo do rei, com suas grossas varandas de colunas, lembrando construções do interior. E tudo isso lhe dava uma sensação de nostalgia... Pelo amor de Deus, não lhe atribuam nenhuma corda poética.

Não, não. Se o nosso amigo disse algumas cousas bonitas, naquela noite no morro de Sta. Teresa, é porque há uma poesia que todo homem pode sentir ao pé das mulheres; vulgar, convenho mas que há mais vulgar que os bons-dias? A não ser essa poesia, não sei que outra pudesse ele sentir, salvo a dos lenços marcados. Era uso burguês e popular, ali por 1850, meter quadrinhas nos lenços, a ponto de marca, um verso em cada lado, com uma flor ou um coração, ou qualquer cousa que indicasse onde começava a estrofe. Onde vai esse costume? Talvez expire em alguma vila interior... Poesia chilra, mas ingênua.

Não, não. A nostalgia do nosso amigo não era poética nem profunda; não trazia nada daquela melancolia, que um clássico lusitano chamou dos sabedores, e uma princesa qualificou de sentimento de almas patrícias, - des âmes bien nées. A quem é que lhe não nasceu bem a alma, Deus de justiça? Ao nosso Rubião, cujo sentimento era pura e simplesmente a nostalgia do farrapo, da vida escassa, acalcanhada e sem vexames; era, nos próprios termos, a visão da liberdade perdida. Que o luxo possa oprimir, e o supérfluo chegue a enfastiar, cousa é de difícil compreensão; nem eu estou agora para explicar, senão para narrar. Explicai-vos uns aos outros, dizei isto ou aquilo, tudo ou nada, mas deixai que vos conte onde é que ele tornou a entrar no tilbury, para onde foi e o que fez.

(Continua.)




15 de abril de 1888, nº 07


 

XCI



Em verdade, sucedeu uma cousa imprevista, - possa dizer fulminante; vê-la-emos daqui a pouco.

Rubião chegou ao fim da rua da Saúde. Divagava; os olhos iam espraiados e desatentos... Rente com ele, passou uma mulher, não bonita, nem feia, singela sem elegância, antes pobre que remediada, mas fresca de feições; teria vinte cinco anos, e levava pela mão um menino. Este atrapalhou-se nas pernas do Rubião.

- Que é isso, nhonhô? disse a moça, puxando o filho pelo braço.

Rubião inclinara-se ao pequeno, para ampará-lo, e sorriu quando os viu seguir caminho. A visão da família apoderou-se dele outra vez. - "Case-se, e diga que eu o engano!" Parou, olhou para trás, viu ir a moça, tique-tique, e o menino ao pé dela, amiudando as perninhas, para ajustar-se ao passo da mãe.

Ora, é certo que o nosso Rubião cobiçava a mulher elegante, e ainda fidalga, se fosse possível; aceitá-la-ia corrompida, e, em falta de outra, até sem graça. A riqueza, caindo tarde nas mãos daquele galé da fortuna, deu-lhe a embriaguez da grandeza e do aparato. Mas, tendes visto que já as pobrezas de outro tempo lhe traziam não sei quê de saudades esquisitas. E depois tudo o que contribuísse de uma vez por todas para libertá-lo daquela mulher do diabo, - dizia ele consigo, arrependendo-se logo, - tudo era um benefício do céu.

assim se explica que, andando logo depois, vagarosamente, pensasse em outras mulheres que ele podia escolher muito bem, para casar. Com efeito, desde algum tempo que escutava de cabeça a sonata conjugal: faltava-lhe só, para executá-la a quatro mãos, duas mãos femininas que emparelhassem com as dele. Achou algumas, - as de uma sobrinha do Camacho, por exemplo, moça que começava a entrar em concertos, mas tão atabalhoada que não se lhe entendia uma nota, - e mais outra, e ainda outra, sem contar a própria filha do major, que não dava mais que velhas polcas e mazurcas. Mas, como a resolução ainda estava em flor, pouco tempo deu ao piano dessas artistas, e tornou à harpa de Davi, com os seus cantos régios e egrégios. Cansava, entretanto; os dias iam enferrujando as cordas da harpa; não tardaria a vez da guitarra ou da viola.

A moça da rua da Saúde dera-lhe o som da guitarra. Dedos havia que acordavam naquele instrumento de aparência rude a sonata mística e universal. Rubião sentiu bem que era a mesma música, e escutou os compassos restantes, ainda depois que a moça ia longe, dobrara a esquina, enfiara por algum beco, até entrar em casa. Estrépito de carroças, rumor de trapiches, de serrarias de madeira, nada fazia perder uma só nota daquele rosário de notas divinas...


 

XCII



Rubião parou para entrar no tilbury. A vista do tilbury fez-lhe lembrar o doente da praia Formosa.

- Pobre Freitas! suspirou.

E o suspiro era sincero. Rubião gostava dele; tinha-lhe secreta inclinação. Pensou também no dinheiro que deixara à mãe do enfermo, e achou que fizera bem. Talvez a ideia de haver dado uma ou duas notas demais esvoaçou por alguns segundos no cérebro do nosso amigo; ele a sacudiu depressa, não sem se zangar consigo, e para esquecê-la de todo exclamou ainda em voz alta, - mais alta que a primeira vez:

- Boa velha! pobre velha!


 

XCIII



Como a ideia tornasse ainda, ele atirou-a depressa ao tilbury, entrou e sentou-se, falando ao cocheiro para fugir a si mesmo.

- Dei uma caminhada grande, disse ele; mas, em verdade, isto aqui é bonito, é curioso; aquelas praias, aquelas ruas, é diferente de outros bairros. Gosto disto.

O cocheiro, estendido o chicote, e pingando uns golpes leves nas orelhas do animal, sorria para si de um modo tão particular, que o nosso Rubião desconfiou. Este calou-se, depois quis sair, mas a sua desconfiança era das impacientes, que não sabem desdenhar nem esperar. Ansiava por saber o motivo do riso; talvez lhe houvesse escapado alguma palavra que no Rio de Janeiro tivesse mau sentido; mas repetiu-as e não descobriu nada; eram todas usadas e comuns. Entretanto, o cocheiro sorria ainda, com o mesmo ar do princípio, meio subserviente, meio velhaco. Rubião esteve a pique de o interrogar, mas recuou a tempo. Foi o outro que reatou a conversação.

- Vossa Senhoria está então admirado do bairro? disse ele. Há de deixar que eu não acredite, sem se zangar, que não é para ofender a Vossa Senhoria, nem eu sou pessoa que agrave um freguês sério; mas não creio que esteja admirado do bairro.

- Por que não? aventurou Rubião.

O cocheiro meneou a cabeça para um e outro lado, e insistiu em não crer, - não porque o bairro não fosse digno de apreço, mas porque naturalmente já o conhecia muito. Rubião ratificou a primeira afirmação; tinha ido ali muitos anos antes, quando esteve da outra vez no Rio de Janeiro, mas não se lembrava de nada. E o cocheiro ria; e, à medida que o freguês ia demonstrando, ele ia ficando mais familiar, fazia negativas com o nariz, com os beiços, com a mão.

- Já sei disso, concluiu ele. Nem eu sou homem que não veja as cousas. Vossa Senhoria pensa que não vi a maneira por que olhou para aquela moça que passou ainda agora? Basta só isso para mostrar que Vossa Senhoria tem faro e gosta...

Rubião, lisonjeando, sorriu um pouco; mas emendou-se logo:

- Que moça?

- Que lhe dizia eu? redarguiu o homem. Vossa Senhoria é fino, e faz muito bem; mas eu sou pessoa de segredo, e cá o carro tem servido para estas idas e vindas. Não há muitos dias trouxe aqui um belo moço, muito bem vestido, pessoa fina, - já se sabe, negócios de rabo de saia.

- Mas eu... interrompeu o Rubião.

Mal podia conter-se; a suposição agradava-lhe; não queria sorrir, mas o sorriso, quando deveras quer sair, transpira pelos poros da cara. O cocheiro enganou-se; cuidou que ele dissimulava a culpa.

- Olhe, eu bem digo, - continuou ele; tal qual o moço da rua dos Inválidos. Vossa Senhoria pode ficar descansado; não digo nada; cá estou para outras. Então, quer que eu acredite que é por gosto que uma pessoa, que tem carro às ordens, vem andando a pé desde a praia Formosa até aqui? Vossa Senhoria veio ao lugar marcado, a moça não veio...

- Que moça? Fui ver um doente, um amigo que está para morrer.

- Tal qual o moço da rua dos Inválidos, repetiu o homem. Esse veio ver uma costureira da mulher, como se fosse casado...

- Da rua dos Inválidos? perguntou Rubião, que só agora atentava no nome da rua.

- Não digo mais nada, acudiu o cocheiro. Era da rua dos Inválidos, bonito, um moço de bigodes e olhos grandes, muito grandes. Oh! eu também, se fosse mulher, era capaz de apaixonar-me por ele... Ela não sei donde era, nem diria ainda que soubesse; sei só que era um peixão.

E vendo que o freguês o escutava com os olhos arregalados:

- Oh! Vossa Senhoria não imagina! Era de boa altura, bonito corpo, a cara meia coberta por um véu, cousa papa-fina. A gente, por ser pobre, não deixa de apreciar o que é bom.

- Mas... como foi? ... murmurou Rubião.

- Ora, como foi! Ele chegou como Vossa Senhoria, no meu tilbury, apeou-se e entrou numa casa de rótula; disse que ia ver a costureira da mãe. Como eu não lhe perguntei nada, e ele tinha vindo calado, toda a viagem, muito cheio de si, compreendi logo a finura. Agora, podia ser verdade, porque é mesmo uma costureira que mora na casa da rua da Harmonia...

- Da Harmonia? repetiu Rubião.

- Mau! Vossa Senhoria está arrancando o meu segredo; falemos de outra cousa; não digo mais nada.

Rubião olhava atônito para o homem, que de fato se calou por dous ou três minutos, mas logo depois continuou:

- Também não há muita cousa mais. O moço entrou; eu fiquei esperando; meia hora depois vi um vulto de mulher, ao longe, e desconfiei logo que ia para lá. Meu dito, meu feito; ela veio, veio, devagar, olhando disfarçadamente para todos os lados; ao passar pela casa, não lhe digo nada, nem precisou bater; foi como nas mágicas, a rótula abriu-se por si, e ela enfiou por ali dentro. Se eu já conheço isto. Em que é que Vossa Senhoria quer que a gente ganhe alguma cousa mais? O preço da tabela mal dá para comer; é preciso fazer estes ganchos...

(Continua.)




Quincas Borba não foi publicado nos números de 30 de abril e 15 de maio de 1888, 08 e 09.




31 de maio de 1888, nº 10


 

XCIV



- Não, não podia ser ela... disse consigo Rubião, em casa, vestindo-se para jantar.

Desde que chegara (e veio diretamente) cogitou quase exclusivamente do assunto. Os "olhos grandes" do rapaz e a "boa figura" da senhora roíam-lhe as entranhas; ele andou, disfarçou, arranjou a coleção mensal dos jornais, releu uns recibos, fez pular o cão, dando estalinhos com os dedos; nem assim a visão o deixou completamente. A razão dizia-lhe que era absurdo desconfiar; pelo menos, que há muitas senhoras de "boa figura" e nada provara que a tal fosse a mulher do Palha. Este raciocínio tinha efeito pronto, mas curto; daí a pouco, desenhava-se ao longe, cabisbaixa, vagarosa, uma pessoa, que era nem mais nem menos a própria Sofia, e andava de repente pela porta de uma casa, que se fechava logo... Beati quorum tecta sunt peccata. assim rangia a porta em mau e literal sentido.

A visão foi tal, em certa ocasião, que o nosso amigo ficou a olhar para a parede, como se realmente ali estivesse a rótula da rua da Harmonia. De imaginação, fez uma porção de cousas: - bateu, perguntou pela costureira, disse-lhe que levava uma encomenda de vestidos da mulher. Uma vez lá dentro, lançou-lhe a mão ao gasnate, e pediu-lhe a verdade ou a vida. A pobre mulher, ameaçada da morte, confessou tudo; levou-o a ver a dama, que era outra, não era Sofia... Quando Rubião voltou a si, sentiu-se vexado.


 

XCV



Então, ao vestir-se, disse consigo que, em verdade, a suposição era insensata.

- Não, não podia ser ela.

Vestiu-se de preto, para ir à noitinha, à praia do Flamengo. Tinha enfiado as calças; agora atava a gravata, andando. Era no quarto de dormir; duas janelas abriam para a chácara, nos fundos. No meio a cama celibata. Acabou de compor a gravata e parou diante de uma das janelas, olhando para longe: depois, caindo-lhe os olhos no peitoril, deu com uma caravana de formigas, que iam passando de fora para dentro; ficou indiferente, mas daí a pouco, irritado, levantou o dedo, e riscou transversalmente o peitoril, em três lugares. Talvez alguma das formigas lhe pareceu "boa figura e bonita de corpo". A caravana desfez-se; elas iam e vinham, abaixo e acima, de um lado para outro, às tontas, trocando os passos. Umas doze tinham ficado esmagadas pelo dedo do Rubião.

Este, seja dito em honra da natural benignidade, saiu logo da janela, não sei se com uma ponta de remorso, - uma pontinha de nada. Estava tão melindroso que a morte de uma dúzia de formigas bastava a molestá-lo. Enfiou o colete às pressas, para não pensar naquilo. Felizmente, começou a trilar na chácara um passarinho, com tal melodia e graça que o nosso Rubião esqueceu por um instante as cogitações de outra espécie. Chegou a parar no quarto botão do colete, tão namorados eram os trilos do animal: So, so, so... fia, fia, fia... So, so, so... fia, fia, fia.


 

XCVI (i)



Com um pouco de filosofia, teria Rubião agradecido à natureza a precaução sublime e piedosa de pôr um passarinho vivo ao pé de doze formigas mortas, para compensá-las. Mas aquele homem era avesso a cogitações profundas. Acabou de abotoar o colete, e desceu à sala de visitas, onde o esperavam três habituados; tinha sempre de dous a cinco, ao jantar.


 

XCVII (i)



De noite, correu à praia do Flamengo. Sofia recebeu-o à porta de entrada, como se o esperasse. Ia passando do gabinete, à esquerda, para a sala de visitas, que ficava à direita, e onde acabava de entrar uma família de amizade. Rubião balbuciou duas palavras de pêsames; ela, que o ia recebendo com um sorriso, compôs logo o rosto.

- Obrigada, respondeu. Está bom?

- Estou.

- Temos andado com saudades suas. Dê-me licença, olhe, entre ali, Cristiano e Maria Benedita lá estão.

Rubião foi pendurar o chapéu no cabide, enquanto Sofia passava à sala. Não se enganara; realmente, a cor do luto ia muito bem à moça. Mirou-a por trás, um pouco de relance, e viu tal qual a figura descrita pelo cocheiro, de um modo tão sumário e simples; mas, efeito de uma boa palavra amiga! todos os tormentos daquele dia ficaram dissipados.

A porta do gabinete estava meia aberta; Rubião pediu licença e foi entrando. Ao pé da janela, meia reclinada na cadeira de balanço, viu a filha da defunta, com os olhos cerrados; Palha, ao pé dela, segurava-lhe uma das mãos. Sentadas à mesa do centro, duas mulheres desconhecidas cosiam o luto.

Maria Benedita, levantando a cabeça, agradeceu sem palavras os pêsames do Rubião. Tudo silencioso, a tal ponto que se ouvia o som das agulhas no pano; de quando em quando um som de tesoura, cortando ou caindo na mesa. Ao cabo de dez minutos ouviram rumor de passos e vozes baixas, à porta da sala, e na entrada; eram as visitas que se iam embora. Sofia tornou logo ao gabinete; transmitiu à prima os pêsames, e perguntou-lhe como ia.

- Vou melhor, disse Maria Benedita.

- Não tem mais a afrontação?

Maria Benedita respirou largo.

- Não, disse; estou melhor.

Sofia fez-lhe um carinho com os dedos; depois, voltou-se para o Rubião:

- Conheceu bem minha tia? perguntou.

- Vi-a aqui algumas vezes.

- Uma santa senhora. Olhe, venha para aqui, continuou Sofia indo sentar-se à mesa de costura.

Rubião obedeceu encantado. Havia muito tempo que ela lhe não falava com tanta doçura. Sentou-se no ângulo da mesa, um pouco arredado desta. as duas costureiras olharam para ele, a furto; Palha falava baixo à prima, para distraí-la. Sofia tomou conta do Rubião. Cosia também, pregava umas mangas. as palavras saíam-lhe carinhosas, mas graves; toda ela tinha um ar juntamente amigo e honesto. E Rubião, ouvindo, dava mentalmente punhadas em si mesmo, pela injustiça e perversidade das suas suspeitas.

(Continua.)

Quincas Borba não foi publicado entre 15 de junho e 31 de outubro de 1888, nos 11 a 19




31 de outubro de 1888, nº 20



 

XCVI (ii)



Vieram mais duas visitas. A primeira foi Carlos Maria. Não entrou no gabinete, foi levado para a sala.

- Quem é? perguntou o Palha à mulher, que lia o cartão entregue pelo criado.

- Vai recebê-lo; é aquele moço, o Carlos Maria...

Rubião teve um choque. Olhou bem para ela, não lhe achou sinal algum de comoção. Ao contrário, enquanto o marido caminhava para a sala, Sofia continuou a falar, terminando não sei que história, com tal desprendimento e sossego, que era difícil não a aceitar por sincera. Rubião ouviu-a com prazer. Nem o murmúrio da conversação na sala perturbou a moça, que, acabada a história, pegou logo em outras. Esta outra não era exatamente história, mas desejo e plano. Sofia confessou que tivera muita pena ao ler as notícias de uma epidemia nas Alagoas, e imaginara compor uma comissão de senhoras para coletar esmolas. A morte da tia interrompera os primeiros passos; mas ia continuar a obra, passada a missa de sétimo dia. Que lhe parecia a ele?

- Parece-me bom. Não há homens na comissão?

- Há só senhoras. Os homens dão dinheiro, concluiu Sofia sorrindo.

Rubião, de cabeça, subscreveu logo uma quantia grossa, para obrigar os que viessem depois. Era tudo verdade; era também verdade que esta comissão ia pôr em evidência a pessoa de Sofia, e dar-lhe um empurrão para cima. Uma titular, senhora idosa e recolhida, presidiria a comissão; Sofia tinha outras senhoras em vista, pessoas mui da moda, e, por intermédio da titular alcançaria que todas aceitassem aquela obra de misericórdia. Trabalhariam juntas, pediriam juntas, comeriam juntas, às vezes; o costume traria a comunhão. Poder-se-ia crer que esta ideia nascera na cabeça do Palha; mas era dela mesma, original. Palha o que fez foi aprovar, animar e trabalhar. Não lhe faltaria com dinheiro para as despesas necessárias; pôr-lhe-ia um coupé às ordens, dar-lhe-ia os vestidos que precisasse; estimulou-a, aconselhou-a, cuidou das carteirinhas de notas, do papel, da circular que devia ter, ao alto, (ideia dele) as armas da presidente...

Carlos Maria demorou-se alguns minutos; ouviram-lhe a voz, à porta da saída:

- Os meus respeitos a sua senhora.

E Sofia, no mesmo instante, ao Rubião:

- Conto que nos ajudará; mas, por enquanto não queremos notícia nos jornais; daqui a dias... quando tudo estiver pronto...

- Pronto o quê? perguntou o marido, que viera meter-se, entre eles.

- A comissão.

- Ah! uma boa ideia! Uma comissão de senhoras, sabe? Já lhe disseste que a baronesa aceitou? Tudo gente fina... Outra visita?

Com efeito, era outra visita. O criado acudira ao tímpano, fez entrar a pessoa para a sala, e trouxe o cartão ao Palha. Era um presidente de banco; Palha correu a recebê-lo. Maria Benedita levantou-se então, queria recolher-se, precisava de repouso. Tinha os grandes olhos cansados de chorar; estava abatida e trôpega. Sofia foi acompanhá-la, dizendo ao Rubião que voltava já.

- D. Sofia, são horas de eu ir para casa, disse uma das costureiras.

- Espere um bocadinho; já venho.


 

XCVII (ii)



Rubião, ficando só com as duas mulheres, entrou a andar de um lado para outro, abafando os passos, para não incomodar ninguém. Ouvia os tacões rápidos e intimativos de Sofia, no quarto de Maria Benedita, que ficava por cima do gabinete; ouvia também o pé descalço e obediente da mucama... Da sala vinha o rumor da conversação, e uma ou outra palavra do Palha: "Em todo o caso pode crer..." - "Nem a administração de um banco é cousa de brincadeira..." - "Positivamente..." O presidente falava pouco, seco e baixo.

Entretanto, a costureira que anunciara a partida, ia arrecadando os retalhos, as tesouras, os carretéis de linha, de retrós, com ar apressado. Rubião deteve-se a vê-la, curioso. Era magrinha, pálida, olhos sonsos e não feios; trinta anos de idade.

- Mas, Dondon, você por que não espera um bocadinho, que eu vou também? disse a outra cosendo.

- Não posso.

Tinha arrecadado tudo em uma cesta pequena, que deixou no centro da mesa; depois foi ao cabide da entrada buscar o chapéu e o xale; ao voltar, perguntou ao Rubião que horas eram.

- Oito e meia.

- Jesus! é muito tarde!

E atou às pressas as fitas do chapéu, e embrulhou-se no xale, inquieta, murmurando. Rubião, para dizer alguma cousa perguntou-lhe por que não esperava, como a outra pedia.

- Se eu pudesse, esperava, acudiu Dondon com respeito; mas o senhor sabe onde ela mora? Mora na rua do Passeio. E eu vou dar com os ossos na rua da Harmonia... Olhe que daqui à rua da Harmonia é um estirão.


 

XCVIII



Quando Rubião deu acordo de si, estava Sofia embaixo, e a costureira despedia-se dela; falaram ainda do trabalho no dia seguinte. Sofia acompanhou-a à porta do gabinete, dizendo-lhe que viesse almoçar.

- Demorei-me muito? perguntou depois, voltando-se para o Rubião.

- Não, senhora...

Sofia notou que ele tinha alguma cousa, e perguntou-lhe o que era. Rubião aproveitou a ponte, e galgou-a; era dor de cabeça, uma dor terrível, que lhe tomava as fontes; ia-se embora, pedia-lhe licença... Quer um pouco de água de melissa?

- Não, agradeço, agradeço...

Na sala, rumor de passos; depois, à porta da entrada, a visita despediu-se. Palha agradecia-lhe a fineza, estimava-lhe a saúde. Onde estava o chapéu? Achou-o; deu-lhe também o sobretudo; e, parecendo-lhe que o outro procurava alguma cousa, perguntou se era a bengala.

- Não, senhor; é o guarda-chuva. Creio que é este; é este. Adeus.

- Ainda uma vez, obrigado, muito obrigado. Ponha o seu chapéu, está úmido, não faça cerimônias. Obrigado, muito obrigado, concluiu apertando-lhe a mão nas suas, e curvado em ângulo.

Quando Palha voltou ao gabinete, com o olho brilhante e um sorriso mal coberto, deu com o sócio, que teimava em ir. Instou também; disse-lhe que tomasse uma xícara de chá, que lhe passava logo; Rubião agradeceu.

- A sua mão está fria, observou a moça ao Rubião, apertando-lha; por que não espera? Água de melissa é muito bom. Vou buscar.

Rubião deteve-a; não era preciso; conhecia aqueles achaques, curavam-se com o sono. Palha quis mandar vir um tilbury; mas o outro recusou dizendo que o ar da noite lhe faria bem, e que no Catete acharia condução.

(Continua.)




15 de novembro de 1888, nº 21


 

XCIX



- Vou agarrá-la antes de chegar ao Catete, disse o Rubião subindo pela rua mais próxima.

Calculou que a costureira teria ido por ali. Ao longe, descobriu alguns vultos de um e outro lado; um deles pareceu-lhe de mulher. Há de ser ela, pensou; e picou o passo. Entende-se naturalmente que levava a cabeça atordoada: rua da Harmonia, costureira, uma dama, e todas as rótulas abertas. Não admira que, fora de si, andando rápido, desse um encontrão em certo homem que ia devagar, cabisbaixo, pensando. Nem lhe pediu desculpa; alargou o passo, vendo que a mulher também andava depressa.


 

C



E o homem empurrado, mal sentiu o empurrão. Caminhava absorto, mas contente, espraiando a alma, desabafado de cuidados e fastios. Era o presidente de banco, o que acabava de fazer a visita de pêsames ao Palha. Sentiu o empurrão, e não se zangou; consertou o sobretudo e a alma, e lá foi andando tranquilamente.

Tinha tido comoções diversas: fora primeiro à casa de um ministro de Estado, tratar do requerimento de um irmão. O ministro, que acabava de jantar, digeria calado e pacífico. O presidente expôs, contou, saltou adiante, tornou atrás, ligou e desligou as cousas. Mal sentado, para não perder a linha do respeito, trazia na boca um sorriso constante e venerador: e curvava-se, pedia desculpas. O ministro fez algumas perguntas, ele, animado, deu respostas longas, extremamente longas, para explicar bem o negócio, e acabou entregando um memorial.

Depois ergueu-se, agradeceu, apertou a mão que o ministro lhe estendia, e curvou-se em despedida; o ministro foi levá-lo, ainda que opresso, até o terraço. Aí fez o presidente duas cortesias, - uma em cheio, no patamar da escada, - outra em vão, já embaixo; em vez do ministro, viu só a porta de vidro fosco, e no terraço, pendente do teto, o lampião de gás. Enterrou o chapéu, e saiu.

Saiu humilhado, vexado de si mesmo. Não era o negócio que o afligia, mas as curvaturas que fez, as desculpas que pediu, as atitudes subalternas, um rosário de atos sem proveito. Chegou a dar uma punhada no ar, e a soltar um nome feio, - ele, em geral, pacato e honesto. Foi assim que chegou à casa do Palha.

Em dez minutos, tinha a alma espanada, e restituída a si mesma, tais foram as curvaturas do dono da casa, as palavrinhas doces, os apoiados de cabeça, e uma ponta de sorriso perene, não contando oferecimentos de chá e charutos. O presidente fez-se então severo, superior, frio, poucas palavras; chegou a arregaçar com desdém a venta esquerda, a propósito de uma ideia do Palha, que a recolheu logo, concordando que era absurda. Copiou algumas das atitudes do ministro, mas tão mal e desengraçadas, que só podiam criar tédio; foi justamente quando o Palha se mostrou mais serviçal e atento. Saindo, não foram dele as cortesias, mas do dono da casa.

Estava outro, quando chegou à rua; daí o andar lento e satisfeito, o espraiar da alma restituída a si própria, e a quase indiferença com que recebeu o embate do Rubião. Lá se iam a gravidade do ministro, e as suas próprias curvaturas; agora o que ele rumina gravemente são as curvaturas e os rapapés de Cristiano Palha.


 

CI



Não contaria toda essa odisseia miúda de uma alma, senão tivesse dous motivos capitais, - explicar a benevolência do empurrado, e dar ao leitor um bom ensejo de fazer uma reflexão. A benevolência está explicada; resta só refletir.


 

CII



Aos preguiçosos... Sim, há desses cérebros, capazes de criar um mundo, mas que por indolência, não acabam de compor uma flor nem de consolidar um seixo. Cérebros invejáveis! Melhor é o poder virtual que o poder efetivo. Mais vale possuir uma ideia que divulgá-la; enquanto a ideia está em tua casa, é a virgem pura e celeste, de olhares serenos e claros, mãos finas e hábeis, silenciosa ou falando pouco, mas só palavras eternas, castamente nua, e linda. Abre-lhe, porém, a porta: deixa que ela vá por esse mundo. Não faltará namorado vadio que a apanhe, nem logo outro que lha furte, e ela irá assim de casa em casa, de porta em porta, de rua em rua; e com pouco, virão contar a ti mesmo, - a ti, que a recebeste do céu, após uma noite de fadiga, - que ela é a mais bela das criaturas humanas, tem os olhos claros, mãos hábeis e finas, - única e nova.

Mas não é essa a reflexão que eu queria fazer aos preguiçosos, e que provavelmente já os diligentes fizeram calados. A reflexão é que aquele presidente não tem nome. Não tem nome, é certo, mas é porque não o achei na lista das pessoas deste livro, que é um livro exato. Podia por-lhe um, à escolha; seria repetir o ato do pai Adão, a quem o Senhor levou os animais todos, para que os nomeasse à vontade. Nem aqui se trata de animais nem eu imitaria, por mim mesmo, as ações do primeiro homem bíblico. Não gosto de Adão; é um simplório. Se ele tem frustrado a desobediência da mulher, não haveria inimizade entre a posteridade desta e a da serpente: nem a mulher pisaria a cabeça à serpente, nem esta lhe morderia o calcanhar; - poderíamos estar hoje comendo com panteras à mesa; as moças em vez de brincos, trariam escorpiões.


 

CIII



Não tem nome o presidente, nem é já preciso, porque o vamos deixar aqui na esquina do Catete, à direita, onde está um homem conversando com uma mulher.

(Continua.)




30 de novembro de 1888, nº 22


 

CIV



- Você está aqui há muito tempo? perguntava a mulher.

- Estou há uns vinte minutos.

- Não pude sair mais cedo; descuidei-me da hora, é verdade; mas, depois tive de esperar por D. Sofia, que foi levar a prima ao quarto. Vamos.

- Vamos... Mas espera, por que não ficamos hoje na rua da Barreira?

- Pois sim.

- O melhor, Dondon, é você mudar-se de uma vez lá para casa. A rua da Harmonia fica muito fora de mão...

Lá foram andando para o lado da Glória. O presidente achou-os no meio da conversa, e atravessou logo a rua. Na outra esquina roçou por um homem, que alongava os olhos e as orelhas para o grupo e o diálogo fronteiros. Era Rubião; acompanhara às pressas a costureira, mas, quando ia a pegá-la, deu com o desconhecido. Só ouviu estas primeiras palavras:

- Você está aqui há muito tempo?

- Estou há uns vinte minutos.

- Não pude...


 

CV



O resto? Oh! o resto das cousas! Foi para a outra esquina, e parou: tentou ouvir, mas não ouviu nada. Viu só que o homem tinha os modos honestos, e que a familiaridade de ambos podia ser conjugal. Suponha-se um marido pobre, que acabava o seu trabalho, e vinha esperar a mulher...

Mas então ela é casada? perguntava ele a si mesmo.

Viu que davam o braço, e seguiram para o lado da Glória. Deixou-se estar quedo, acompanhando com os olhos os dous, que lá se perdiam na noite e no mistério.

Gulliver, atado pelos fios da gente de Lilliput, com os primeiros esforços que fez, pôde desvencilhar-se deles, sem dor; mas, ao levantar a cabeça, que estava presa pelos cabelos, é que padeceu uma dor de todos os diabos. assim aconteceu ao nosso amigo. Perdera de vista o casal e caminhou para o lado oposto. Pouco depois acordava, como o outro náufrago, e, de um gesto, rasgou todos os retroses da costureira; era casada, não podia entender-se com ela o caso da rua da Harmonia, posto lá morasse. Mas este nome da rua ventou e trovejou, ainda na alma de Rubião; era a suspeita que revivia. Ele, porém, comparou os obséquios daquela noite, com as outras indicações mínimas e vagas, fez um nobre esforço e sacudiu o resto do mal. Custou-lhe naturalmente, e não o fez sem dor, como o outro Gulliver, arrancando os cabelos presos ao chão pelos fios da gente miúda ...

- Não, não pode ser verdade; Sofia é inocente.


 

CVI



"Ficamos ontem muito inquietos, depois que o senhor saiu. Cristiano não..."

Rubião recebeu este bilhete, ainda na cama, estando a ler os jornais. Em cima da cama, indo de um para outro lado, lambendo-lhe as mãos, deitando-se a fio comprido ou enroscado em si mesmo, estava o Quincas Borba. O criado pediu-lhe licença, entrou, e deu-lhe a carta.

- Tem resposta? perguntou Rubião.

- Diz que tem, sim, senhor.

Rubião não viu o sobrescrito. Se o visse, conheceria a letra e deixaria logo a folha; mas, com a carta na mão, acabou de ler uma notícia, - cousa curta, - onze ou treze linhas, - mas que o interessava. Tratava-se de um caso da véspera, à noite, no fim do Catete; um velho fora esbofeteado por alguém que desapareceu. Cavalheiro que passava encontrou o velho chorando; ouviu a história, foi chamar um polícia; este veio, bradou que o velho estava bêbado, vibrou-lhe algumas pranchadas, e levou-o preso. O cavalheiro foi com os dous à estação policial. O tenente ouviu a praça e o cavalheiro, que deu todas as explicações e fianças necessárias. O policial berrou e puxou pela espada; reconheceu-se que estava fora de si, avinhado ou louco; foi recolhido ao xadrez. Depois, o tenente pôs o velho em liberdade.


 

CVII



Não valia a pena fazer esperar a carta; entretanto, Rubião ainda a fez esperar um pouco. Abriu-a, é verdade, mas devagar, sem ler o sobrescrito, com os olhos na cúpula do cortinado. Chegou a ficar parado, com ela na mão, aberta. Quincas Borba pôs-se de pé, a espreitá-lo. O criado que até então se apoiava na perna esquerda, mudou de apoio e esperou.

(Continua.)




15 de dezembro de 1888, nº 23


 

CVIII



Rubião pensava na notícia da folha, porque o cavalheiro era ele próprio; ele é que fez tudo para salvar o pobre diabo, que acabava de receber uma bofetada, - ao que parece, sem vislumbre de ódio, nem nada, por desafio ou talvez por graça. Era tudo verdade. Rubião arrepiara caminho para ir à estação depor contra o policial, e ver se punha o velho em liberdade; tal qual a folha dizia.

O que a folha não dizia é que o velho, a um canto da sala da estação, enxugava os olhos na manga, enquanto se examinavam as cousas. Quando lhe deram liberdade, ainda enxugou os olhos, o rosto serenou-se-lhe, ele acabou dizendo ao tenente e ao Rubião, "que ficava muito obrigado a Suas Senhorias", e saiu. Rubião saiu também; viu o homem atravessar a rua, coser-se às casas do outro lado, e perder-se, como a costureira e o marido (se o era) na noite e no silêncio.

Rubião seguira outra vez para casa, meio desconsolado, porque o velho lá ia, sem lhe dar um particular agradecimento; parecia-lhe que não avaliara bem o favor, nem mais se lembraria dele, senão para relatar o caso aos amigos: "Um senhor que ia passando..." Um senhor! um anônimo! Nem lhe perguntou quem era, onde morava, para ir cumprimentá-lo no dia seguinte e, ainda uma vez, agradecer. Não lhe apertou a mão, não a levou ao peito ou qualquer outro modo assim demonstrativo; não fez nada, nada.

- Fico obrigado a Vossas Senhorias.

Olhou ainda para trás; o velho ia passando por um lampião, com o chapéu inclinado sobre os olhos, e ombro direito meio caído. Talvez fosse pensando justamente na bofetada anônima.


 

CIX



Tudo acabaria se ele lesse a carta logo... Oh! se Júlio César tem lido a carta de aviso que lhe entregaram na rua, quando ia ser assassinado! O século tomaria outro curso. - Nem César nem Rubião: o destino parece que os marcou bem com o selo da morte e da amargura. Fique esta linha de paralelo à maneira de Plutarco. Em alguma cousa se hão de parecer os homens.


 

CX



Quincas Borba chamou o dono amigo à realidade, dando um pulo sobre ele, e latindo; Rubião voltou a si e leu então o papel.

"Ficamos ontem muito inquietos, depois que o senhor saiu. Cristiano não vai lá agora, porque acordou tarde, e tem de ir falar ao inspetor da alfândega. Mande-nos dizer se passou melhor. Lembranças de Maria Benedita e da

Sua amiga e obrigada

SOFIA.


 

CXI



Rubião releu essas poucas linhas, a segunda vez mais demoradamente; depois, deparando no criado, disse-lhe que fosse dizer ao portador da carta que esperasse a resposta.

- Que bobo! pensou o criado, ao sair do quarto; tanto tempo para dizer o que podia ter dito logo.

Daí a vinte minutos a resposta chegou à mão do moleque que trouxera a carta; foi o próprio Rubião que lha entregou, perguntando-lhe como tinham passado as senhoras. Soube que bem; deu-lhe dez tostões recomendando-lhe que, quando precisasse alguma cousa dele, viesse procurá-lo. O rapaz, espantado, arregalou os olhos e prometeu tudo.

- Adeus! disse-lhe benevolamente o Rubião.

E ficou parado, enquanto o portador descia os poucos degraus. Indo este a meio jardim, ouviu bradar o Rubião:

- Espera!

Voltou para acudir ao chamado; Rubião já tinha descido os degraus; foram um ao outro, e pararam, calados, no meio do jardim. Correram três minutos sem que Rubião abrisse a boca. Afinal, perguntou alguma cousa, - se as senhoras tinham passado bem. Era a mesma pergunta de há pouco; o criado confirmou a resposta. Depois, Rubião deixou vagar os olhos pelo jardim. as rosas e as margaridas estavam lindas e frescas, alguns cravos desabrochavam, outras flores e folhagens, begônias e trepadeiras, todo esse pequeno mundo parecia estender os olhos invisíveis ao Rubião, e bradar-lhe:

- Alma sem vigor, acaba de uma vez com o teu desejo; colhe-nos, manda-nos...

- Bem, disse finalmente Rubião; lembranças às senhoras. Não se esqueça do que lhe disse; precisando de mim, venha cá. Guardou a carta?

- Está aqui, sim, senhor.

- É melhor metê-la no bolso, mas olhe não machuque.

- Não machuco, não, senhor, retorquiu o criado acomodando a carta.

(Continua.)




31 de dezembro de 1888, nº 24


 

CXII (i)



Saiu o moleque; Rubião ficou passeando no jardim, com as mãos nos bolsos do chambre, e os olhos nas flores. Que tinha que mandasse algumas? Era um presente natural, e até de obrigação para pagar uma cortesia com outra. Fez mal; chegou ao portão; mas já o moleque ia longe, dando aos ombros, com ar pachola. De repente, Rubião advertiu que o luto da família devia excluir as lembranças alegres, e ficou tranquilo.


 

CXIII (i)



Senão quando, ao recomeçar o passeio, viu uma carta ao pé de um canteiro, meia coberta por folhas. Inclinou-se, apanhou-a, leu o sobrescrito... Ficou estupefato.

Perto havia um banco; foi sentar-se, com a carta nas mãos, sem poder arrancar dali os olhos nem a alma. Que demônio trouxera durante a noite, aquele papel imundo e assassino, e o deixara cair no jardim, para que ele lesse de manhã, e morresse de um golpe? Traduzo assim as sensações confusas e vagas do nosso amigo. Pode ser que exagere; a ideia da morte não corresponde, talvez, a nenhuma daquelas sensações. A verdade é que ele não pensou nada, não formulou um raciocínio, uma frase sequer, um retalho de frase; ficou a olhar estúpido. Estava tão longe do achado! Mordeu o beiço, deu um golpe no ar com a carta; depois tornou a olhar para ela, fixamente; afinal fechou os olhos, como quem quer ver melhor um quadro ou pessoa ausente. De fato, as flores e o resto desapareceram, mas só por um instante, porque ele abriu outra vez os olhos, espavorido. Caíram-lhe na carta. Oh! maldita carta!

Quis duvidar, mas não pôde; a letra era dela, tão só dela, era a mesma da outra; e o nome do sobrescrito estava claro e nítido; era o nome do diabo, Carlos Maria.


 

CXIV (i)



Qualquer pessoa que lê isto, a frio, acha naturalmente que a carta caiu do bolso ou da mão do portador, por descuido. Não aconteceu o mesmo ao espirito do Rubião; esse, sempre que buscava explicar a presença da carta, escorregava para a autora, para o destinatário, e finalmente para o conteúdo.

Oh! o conteúdo! Que iria ali escrito dentro daquele papel homicida? Pervertida de luxúria, toda a linguagem do mal e da demência, resumidas em duas ou três linhas... Não; mais, muito mais. Com esta ideia, Rubião levantou a carta, doente dos olhos, a ver se descobria alguma cousa. Não descobriu nada; o papel era grosso; não podia ver se todo ele estava escrito.

- Sim, foi isso, pensou ele ao cabo de vinte minutos; o portador da minha carta trouxe esta, e deixou-a cair. Viria na mão ou caiu-lhe do bolso, ao tirar o lenço? Tinha lenço; viu-o enxugar-se depois, andando...

De repente, salteou-o o receio de que o moleque, dando por falta da carta, em caminho, voltasse a procurá-la. Rubião meteu-a atrapalhadamente no bolso do chambre. Depois, com a ideia de não poder encobrir a perturbação, se o portador voltasse, retirou-se do jardim.


 

CXV (i)



Deve ser assim, quando um homem medita algum crime. Rubião, em casa, tirou a carta e mirou-a outra vez; as mãos tremiam-lhe, reproduzindo o estado da consciência. Se abrisse a carta, saberia tudo, tudo, tudo; ficava apto para recompor-se. Lida e queimada, ninguém mais conheceria o texto, ao passo que ele teria rompido por uma vez com essa terrível fascinação que o fazia penar ao pé daquele abismo de opróbrios... Não sou eu que o digo, é ele; ele é que junta todos esses nomes ruins, ele é que para no meio da sala, com os olhos no tapete, em cuja trama figura um turco indolente, com o chibuque nos lábios, olhando para o Bósforo... Devia ser o Bósforo.

Ilusões, ilusões. Bem podia ser que, aberta a carta, lido o texto, longe de fugir ao "abismo de opróbrios", Rubião corresse a lançar-se nele de uma vez, ou a quebrar a cabeça de encontro às bordas. Isto é que é meu, - e nosso, se o leitor vai acompanhando atento os movimentos íntimos daquele homem. Há de concordar que este resultado era bem possível, e talvez o único possível. O texto poderia ser um desafio a todas as suas forças; ele as enfeixaria contra essa mulher enigmática.

(Continua.)

Quincas Borba não foi publicado no número de 15 de janeiro de 1889, nº 01




31 de janeiro de 1889, nº 02


 

CXII (ii)



"Infernal carta!" rosnou surdamente Rubião, repetindo uma frase ouvida no teatro, algumas semanas antes; frase esquecida, que, por uma associação de ideias, vinha agora exprimir a analogia moral do espetáculo e do espectador.

Teve ímpetos de romper o invólucro; era só um gesto, um ato, e a verdade surgiria do poço fechado. Ninguém o via; os quadros da parede estavam quietos, indiferentes; o turco do tapete continuava a olhar o Bósforo. Misterioso turco! Em que estaria pensando? Em si mesmo? nas belas damas de Constantinopla, ou na guerra da Crimeia? Talvez na guerra; tem o seu título de paxá, comandou (misérrimo!) ao lado de cristãos... Onde iam os tempos de Omar, quando o alfanje e o Alcorão ditavam leis a Jerusalém? Agora o Evangelho e o Alcorão andam encadernados em um só tomo, obra da velha sultana diplomática; pode ser até que alguns capítulos de um livro fossem intercalados no outro, e vice-versa... Mas há aqui ideias demais para um turco de tapete.

Nem era dele que vinha a hesitação ao nosso amigo. Vinha de algum turco interior, que o puxava para trás, sempre que ele tentava dar um passo adiante, e abrir a carta. Em verdade, tinha escrúpulos; a carta, posto que achada no jardim, não lhe pertencia, mas ao outro. Era como se fosse um embrulho de dinheiro; não devolveria o dinheiro ao dono? Despeitado, atirou a carta ao aparador, e foi concluir a leitura dos jornais.

Concluir é um modo de dizer; lia seguidamente, mas não poderia explicar, no fim, o assunto do artigo ou da notícia, ainda que contivesse só a transferência de um soldado, ou o furto de um par de botas: menos ainda se tratava longamente da guerra. Um desses artigos vinha na Atalaia; e a natureza política da folha trouxe-lhe à lembrança que não respondera ainda à carta de um senador, recebida na véspera. Correu à secretária, procurou a carta, achou dous recibos da casa, e uma conta de alfaiate. Na conta, a palavra coletes fixou-lhe a atenção. Foi a primeira em que lhe caíram os olhos: coletes. Coletes de quê? Coletes. Fitou-a com grandes olhos apagados. Afinal arrolou a conta devagarinho, fez um canudo, e olhou por ele. Cansou-se, procurou a carta do senador, achou-a e respondeu logo... Desde as primeiras linhas, Rubião sentiu que não podia dar a resposta idônea que lhe cumpria, pela matéria e pela pessoa; mas foi escrevendo, escrevendo, como para esquecer a outra carta; acabou-a, fechou-a e pô-la de lado, para lançar-lhe depois o sobrescrito; mas com a intenção feita de a rasgar.


 

CXIII (ii)



Depois do almoço, tornou à maldita carta. Já então encarou friamente o sobrescrito, com ânimo, resoluto a abrir aquele papel do inferno; mas não abria nada. E achava-se ilógico.

- Que escrúpulos são estes em abrir uma carta alheia, quando os não tenho em cobiçar a mulher do próximo?

Está claro que estes pensamentos não saem assim formulados; são rápidos como relâmpagos. A pessoa não se demora em os mirar e examinar; eles é que, às vezes, se batem e se destroem, com a mesma brevidade de ação. Aquele voltou ainda, teimando em comparar o respeito da carta ao respeito da mulher; obstinação característica, dir-se-ia um modo de lhe dar forças para abrir finalmente o papel, que ali tinha na mão e o desafiava pelo mistério. Em verdade, parecia-lhe contradição e absurdo; não chegava a explicar o absurdo nem a conciliar a contradição; era um problema insolúvel.

(Continua.)



Quincas Borba não foi publicado no número de 15 de fevereiro de 1889, nº 03




28 de fevereiro de 1889, nº 04


 

CXII (iii)



Dentre muitos alvitres: abrir a carta e lê-la; - devolvê-la à dona, - mandá-la entregar ao destinatário, - dá-la ao próprio marido, - queimá-la, - guardá-la fechada consigo, - Rubião escolheu o último. Este continha todos os outros em si; não fazia mais que adiar a solução.

Era tarde. Descendo ao banho, esbarrou com um tal Sarmento que ia lá almoçar todos os dias, e entrava esbaforido, por causa da hora. Rubião, de chambre e chinelas, disse que acordara tarde, já vinha, era um instante, fosse lendo os jornais.

Sarmento entrou na sala da frente, desconsolado. Consultou o relógio, e, para passar o tempo, pegou em uma das folhas, leu-a por alto, notícia aqui, artigo ali, um emplastro, uma descompostura. Estava inquieto; tinha de ir à repartição, onde, desde trinta anos, não fazia nada. Consultou outra vez o relógio, ergueu-se, deu alguns passos, puxando a gola do fraque, para sacudir a impaciência. Depois, foi à janela, distraiu-se um pouco, e tornou a sentar-se com o jornal nas mãos.

- Se isto são horas de esperar...

Foi percorrendo o jornal à toa, calculando que o anfitrião não se podia demorar muito; mas, afinal atirou-o ao chão, irritado. Era demais; dir-se-ia propósito. Estendeu as pernas, e começou a evocar não sei que histórias antigas, mas a fome atalhava a memória. De repente, pôs-se à escuta; pareceu-lhe que era o Rubião que voltava; enganara-se; era o copeiro que punha a mesa.

- Se adivinho isto, ia a uma casa de pasto.

Entrou a amiudar os movimentos, andar, parar, ir à janela, mirar algumas das galanterias postas em cima dos dunquerques. Conhecia-as de cor; mas assim como algumas pessoas, quando padecem de insônia, recitam maquinalmente as letras do alfabeto, assim ele ia tirando e repondo uma a uma dessas cousas, que não diziam nada. Entre elas estava uma fotografia de Quincas Borba (o homem) e outra de Quincas Borba (o cão), pelas quais, Rubião mandara fazer um só painel, que tinha no gabinete, por cima da escrivaninha.

Não, nunca lhe acontecera cousa igual. De costume, chegava às nove horas, nove e um quarto; achava Rubião na sala, banhado, penteado, meio vestido, com um paletó de casa por cima, acabando de ler as folhas do dia. Nove e meia, almoço na mesa; às dez, estava livre. Não entrava cedo na repartição, é claro; mas havia considerações com ele, pelos longos anos, gravidade de pessoa, e velhas amizades, que o recomendavam. Hoje, nem ao meio dia daria entrada. A irritação, abafada, era dura de sofrer. Quando lhe acontecia dar um passo mais impaciente, moderava-se logo, sacudia fortemente as calças com o lenço, para simular que as estava limpando, se algum servo o escutasse. Todos os defeitos do Rubião apareceram-lhe de repente aos olhos; achava-o aborrecido, sem graça, com o sestro de louvar as comidas, e metê-las à cara dos hóspedes. Daqui a zombar dele foi uma pernada. Que estaria fazendo? Desbastando a caspa...

Nesta última parte, refreou o pensamento, ainda que a custo, envergonhado. Foi outra vez sentar-se, estendeu ainda as pernas e cerrou os olhos, à espera, até quando a fortuna quisesse. assim é que Rubião veio achá-lo daí a alguns segundos.

- Você parece que acordou hoje antes de dormir, disse-lhe da porta.

- Não, estava pensando, respondeu Sarmento abrindo os olhos.

Viu Rubião, metido no chambre, vindo do banho, e empalideceu. Vagamente, lembrou-lhe ir-se embora, alegando qualquer cousa, mas Rubião deu-se pressa em animá-lo: ia vestir-se, era um instante.

- Tudo são instantes hoje! pensou ele.

Jurou não voltar ali. Que diferença que era o trato do desembargador, com quem jantava todos os dias! - Quatro horas em ponto. Entrava às três e meia, era recebido nas palminhas pela mulher, pela filha e uma sobrinha. O desembargador, grave e cortês, deixava autos e livros para ir jogar com ele duas ou três partidas de damas. Vinha logo o jantar, sadio, abundante e quente. Sarmento não gostava de comidas frias. E depois as finezas. Ninguém era servido antes dele, por mais que teimasse e até se zangasse. Aqui não se passam pratos, dizia-lhe a dona da casa, servindo à esquerda do hóspede. Que diferença! Tudo a tempo e a horas; tudo delicado...

Os tacões do Rubião, caminhando para a sala, cortaram o fio às reflexões de Sarmento.

- Pronto! disse Rubião. É tarde; estou com fome. Aposto que também está com ela...

- Fome, não digo; vontade de comer, distinguiu Sarmento, esboçando um sorriso. Está fresco; vejo que está fresquíssimo, continuou levantando-se.

Foi uma aleluia, quando o criado apareceu à porta para dizer que o almoço estava na mesa. Sarmento falava pouco, por causa da fome, mas con amore. Antes de mais nada, engoliu um pedaço de pão; daí a pouco estava em paz com a natureza, como o homem de Rousseau; mas a conversa era rara e fria porque o anfitrião cuidava de outra cousa. Diante do criado, para disfarçar a situação, Sarmento rufava nos pratos ou dava pedaços de pão ao Quincas Borba.

Apareceu o correio, com uma carta do Camacho. Sem saber o que fosse, Rubião pô-la de lado; mas logo depois recebeu outra, não pelo correio, mas por um homem, que ficara no jardim, esperando.

- É o dia das cartas, disse ele ao hóspede.

- Teve muitas?

Rubião não lhe respondeu, abriu aquela; a mãe do Freitas, por mão de outra pessoa dava-lhe notícia da morte do filho. Apesar do estado em que o deixara, Rubião não contava que a morte fosse tão próxima.

- Morreu o Freitas, disse ele ao hóspede. Não sei se se lembra de ter visto aqui um Freitas, um rapaz muito engraçado, que jantava comigo, algumas vezes, e almoçava também.

- Lembra-me; morreu?

Era mentira; mas, qualquer explicação iria longe, e Sarmento queria acabar de almoçar. Faltava o café. Rubião, porém, levantou-se e saiu para falar ao portador que lhe contou a morte do Freitas; expirara das quatro para as cinco horas. A mãe, chorando muito, disse que queria mandar notícia ao Rubião, que se mostrara amigo do finado. Rubião tomou a si custear o enterro; deu o dinheiro preciso ao portador, e recomendou que o avisassem da hora.

- Pobre Freitas! suspirou ele ao tornar à mesa do almoço.

E, mexendo o café, com os olhos parados, lembrava-se daquela exclamação com que o finado saudara um presente de Sofia, quando ela ainda morava em Sta. Teresa: "Morangos adúlteros!" Nunca lhe esqueceu essa palavra, suposição de pecado que não existia, mas que o abasteceu então de esperanças. Morangos adúlteros! Tem ainda na memória o tom e o gesto do moço. Carlos Maria estava presente, lembra-se bem; a cesta das frutas veio com um bilhete, que ele não lhes leu. Daí a exclamação do outro: Morangos adúlteros! Rubião sentia, ao repetir esta palavra, um frêmito inexplicável, deleite misterioso, espreguiçamento da alma, e repetia consigo: morangos adúlteros!

Quando acabou o café, estava prestes a dar meio dia. Sarmento despediu-se às pressas. Rubião abriu então a carta de Camacho. Era confidencial; dava-lhe notícia da morte provável de certo deputado mineiro, que fora acometido de uma síncope cardíaca. Os amigos do enfermo ocultavam a ocorrência; mas, era certa, e o desfecho mortal probabilíssimo. Tratava-se agora de fazê-lo substituir por ele, - ele, Rubião. Recomendava-lhe silêncio absoluto. Voltaria brevemente; falariam então aos chefes do senado.

(Continua.)




15 de março de 1889, nº 05


 

CXIII (iii)



Em verdade, era demais essa nova comoção. Não faria descansar das outras, complicava-as. Um lugar na câmara! Ter de falar aos chefes do senado! Rubião releu a carta; não se lhe dizia quem era o deputado que estava à morte; fez miúdo escrutínio de todos eles; todos lhe pareciam vender saúde. Não deixou, porém, de advertir que as aparências, nos cardíacos, enganam muito; recordou-se de casos em que recebeu a um tempo notícia da morte e da moléstia. Quando menos se espera, adeus. A carta dizia que o desfecho mortal era probabilíssimo; e Camacho não era pessoa de impressões pânicas. Alguma certeza teria para falar assim.

De tarde, foi Rubião ao enterro do Freitas. Quando entrou na sala mortuária, todas as atenções voltaram-se do cadáver para ele. A velha mãe, erguendo-se a custo, beijou-lhe as mãos, por mais que ele as recusasse. Vendo que ia ajoelhar-se também, Rubião impediu-a a tempo, suspendendo-a e abraçando-a comovido. Esse ato do nosso amigo encheu de admiração aos convidados, sabedores todos da afeição que tinha ao defunto, e dos benefícios que fizera à mãe naqueles dias de miséria. Um deles ousou apertar-lhe a mão; depois a um canto, baixinho, contou-lhe a injustiça de demissão que recebera, dias antes; demissão acintosa, por causa de intrigas...

- Imagine V. Exa. que aquilo é (com perdão da palavra) um covil de bandalhos...

Chegou a hora de sair o enterro; as despedidas da mãe foram dolorosas; beijos, soluços, exclamações, tudo de mistura e lancinante. as mulheres não conseguiram arrancá-la dali; foram precisos dous homens e o emprego da força; ela gritava e forcejava por tornar ao cadáver: meu filho! meu pobre filho! Depois as amigas pegaram dela e a levaram para dentro. Soaram os martelos, surdamente, pregando o caixão: pan, pan, pan, pan, pan.

- Um escândalo! O próprio ministro dizem que não gostou do ato; mas V. Exa. sabe, para não desmoralizar o diretor...

Rubião acedeu ao pedido que lhe faziam de pegar em uma das argolas, e deixou o demitido. Fora, muita gente parada; os vizinhos às janelas, debruçavam-se uns sobre os outros, com os olhos cheios dessa curiosidade que a morte inspira aos vivos. Ao demais, havia o coupé do Rubião, que se destacava das caleças velhas. Já se falava muito daquele amigo do finado, e a presença confirmou a notícia. O defunto era agora apreciado com certa consideração.

Voltando do enterro, noite entrada, Rubião pensava no rapaz que lá ficara debaixo do chão. Não se contentou com deitar a pá de terra, ato em que foi primeiro, por solicitação de todos; esperou que os coveiros enchessem a cova com as suas grandes pás do ofício. Ouvira muito elogio, murmurado, ao pé dele, acerca do defunto; e caminha até à porta ladeado por todos, que lhe retribuíram compridamente as despedidas de chapéu.

Vinha assim, perdido em pensamentos vagos e tristes, quando viu passar um coupé acompanhado de ordenanças. Era um ministro que ia para o despacho imperial, em S. Cristóvão. Recordou os termos da carta do Camacho, e por alguns minutos não cuidou de outra cousa. Então a carta dirigida a Carlos Maria pôs outra vez a orelha de fora; veio a mulher do Palha, com os seus modos tão particulares, vieram o defunto, a mãe, a costureira, o marido da costureira, o cocheiro do tilbury, o portador das cartas, um turbilhão de cousas e pessoas que estupificaram.

Rubião sentiu que se perdia no abismo. Essa grande comoção, feita de todas, trouxe-lhe um estado singular. Não era vertigem, nem equilíbrio. Moralmente, não se podia ater a cousa nenhuma; cada lembrança em que pegava desfazia-se para dar lugar a outra, que operava do mesmo modo, até que todas se juntavam para aturdi-lo. Os pensamentos atropelavam-se-lhe; era tudo confusão, instabilidade, beirando o delírio. Aterrado buscou fixar em objetos próximos, inclinava-se para ver as lojas que corriam, ou então cantarolava algum trecho de cantiga mineira ou de ópera italiana. Teve medo de ir jantar em casa, e mandou guiar para um restaurant. Era uma distração; a ausência das cousas habituais podia restituir-lhe o equilíbrio. A mesma ideia o levou ao teatro, sem que um e outro remédio produzisse grande efeito. Quando tornou a casa, era meia noite; as sensações confusas e baralhadas pegaram dele novamente, e o retiveram no estado angustioso do princípio.

Dormiu tarde e mal. Acordou melhor, fatigado naturalmente da tontura moral da véspera, mas sossegado agora, e podendo refletir. Achara na história da noite anterior alguns interstícios escuros; - ou fatos de que absolutamente se esquecera, ou puras alucinações perdidas. Felizmente um dos elementos da tempestade da véspera ia longe; - eram as cenas da casa mortuária e do cemitério. O sol, astro de vivos, entrava-lhe pelas janelas. Como pensasse na carta de Carlos Maria, determinou entregá-la à própria mulher do Palha. Dar-lha-ia, com os olhos arredados, a fim de não ver o efeito; podia corar, podia empalidecer; não queria saber de nada.

(Continua.)




31 de março de 1889, nº 06


 

CXIV (iii)



Camacho voltou poucos dias depois, e confirmou a notícia. Disse-lhe que o deputado ficara mal; uns criam na morte próxima, outros admitiam que arribasse, mas era questão de poucas semanas; estava acabado. Depois, referiu miudamente o que fizera, o modo por que insinuou a candidatura do Rubião, carteando-se com as influências locais, e dizendo-lhes que era a melhor solução da divergência.

- Divergência?

- Sim o Dr. Hermenegildo, de Catas-Altas, e o coronel Romualdo; dizem que ambos, em caso de vaga, querem apresentar-se; é dividir os votos...

- Seguramente; mas teimam?

- Creio que não teimarão quando eu lhes mandar daqui a resposta dos chefes superiores; porque foi uma das cousas que alguns sujeitos me lançaram à cara, é que eu não tinha poderes; confessei que, para aquele caso imprevisto, não; mas que possuía a confiança dos superiores, os quais me aprovariam. Creia que está feito. Então que pensa? Pensa que trabalho aqui sacrificando tempo e dinheiro, e algum talento, para não valer a um amigo, que tantas provas tem dado de fidelidade aos princípios? Oh! isso não. Hão de ouvir-me, e adotar o que lhes proponho.

Rubião, comovido, fez ainda outras perguntas acerca da luta e da vitória, se eram precisas algumas despesas já, ou carta de recomendação e pedido, e como é que se havia de ter notícias frequentes do enfermo, etc. Camacho respondia a tudo; mas recomendava-lhe cautela. Em política, disse ele, uma cousa de nada desvia o curso da campanha e dá a vitória ao adversário. Contudo, ainda que não saísse vencedor, tinha Rubião a vantagem de ficar com o seu nome sufragado; e o precedente valia por um serviço, se ele já contasse outros de valia, e de valia rara.

- Firmeza e paciência, concluiu.

E logo em seguida:

- Eu próprio que sou, senão um exemplo de paciência e firmeza? A minha província está entregue a um grupo de bandidos; não há outro nome para a gente dos Pinheiros; e além disso (digo-lhe isto com dor e em particular) tenho amigos que me intrigam, uns ganhadores, que querem ver se o partido me repele e se me tomam o lugar... Não falemos disso! Ah! meu caro Rubião, isto de política pode ser comparado à paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo; não falta nada, nem o discípulo que nega, nem o discípulo que vende. Coroa de espinhos, bofetadas, madeiro, e afinal morre-se na cruz das ideias, pregado pelos cravos da inveja, da calúnia e da ingratidão...

Esta frase, caída no calor da conversa, pareceu-lhe digna de um artigo; reteve-a de memória; antes de dormir; escreveu-a em uma tira de papel. Mas, na ocasião da conversa, enquanto a repetia consigo para fixá-la, Rubião dizia que se animasse, que ele era homem para grandes campanhas. E não fugisse de caretas.

- De caretas? Seguramente que não. Nem de papões verdadeiros, se os há. Cá os espero! Que se acautelem no dia em que subirmos! Hão de pagar tudo. Ouça-me este conselho; em política, não se perdoa nem se esquece nada. Quem fez uma paga; creia que a vingança é um prazer, continuou sorrindo: há muita delícia... Enfim, contados os males e os bens da política, os bens ainda são superiores. Há ingratos, mas os ingratos demitem-se, prendem-se, perseguem-se...

Rubião ouvia subjugado. Camacho impunha; faiscavam-lhe os olhos. Os anátemas brotavam-lhe como da boca de Isaías; as palmas do triunfo verdejavam-lhe nas mãos. Cada gesto parecia um princípio. Quando falava com os braços abertos, ferindo o ar, era como se desdobrasse um programa inteiro. Ia-se embriagando de esperanças, e tinha o vinho alegre. De uma vez, parou diante de Rubião, estendeu-lhe as mãos nos ombros:

- Vamos lá, deputado; ensaie um discurso pedindo o encerramento da discussão: Sr. Presidente... Vamos, diga comigo: Sr. Presidente, peço a V. Exa...

Rubião interrompeu-o erguendo-se; teve uma espécie de vertigem. Saiu de lá alucinado. Via-se na câmara, entrando para prestar juramento, todos os deputados de pé; e teve um calefrio. O passo era difícil. Contudo, atravessou a sala, subiu à mesa da presidência, prestou o juramento de estilo... Talvez a voz lhe fraquejasse na ocasião...

(Continua.)



Quincas Borba não foi publicado no número de 15 de abril de 1889, nº 07.




30 de abril de 1889, nº 08


 

CXV (iii)



- Que bom e grande amigo! que homem superior! disse Rubião em voz baixa, andando.

- Que homem superior! repetiu uma voz.

Olhou, não viu ninguém. Hás de ter ouvido vozes dessas, leitor discreto, sem que te assustes mais que com um fenômeno comum; mas tu não és Rubião nem Pascal. Este via ao pé de si um abismo. A voz sem boca, ouvida por aquele, articulara as palavras de um modo claro e sonoro. Já um dia (está no capítulo LXXXII deste livro) ouviu Rubião uma pergunta no ar, e atribuíra-a à alma do Quincas Borba, que estaria metida no cão herdado. Agora não havia cão; traria ele a alma do outro em si mesmo? Seria ele dous? Eis aí um mistério psicológico, psicológico se não puramente patológico.


 

CXVI



É opinião de Schiller que a fome e o amor governam este mundo. Incluamos na fome a ambição, que não é outra cousa mais que a gula moral, social e política, e fica explicado o nosso Rubião.

Aberta a asa da ambição, agitou-se nele a do amor. Na noite seguinte foi à praia do Flamengo, aonde não ia desde alguns dias; protestos, juramentos, indignações, suspeitas cruéis e recentes, nada valeu para lhe empecer a resolução. Quis levar a carta, para dá-la a Sofia, conforme determinara; tirou-a, mirou-a, virou-a; sentiu outra vez a comichão de abri-la; resolveu guardá-la; deixou-a ficar no canapé, por distração.

- Deputado? perguntou Sofia com alvoroço, depois que ele, estando a sós, com ela, lhe contara os planos políticos do Camacho.

E estendeu-lhe a mão, que ele recebeu na sua, não ousando dar-lhe mais que a leve pressão do costume. Ocasião única! Estavam a sós, como digo. Palha não viera jantar, por motivo de uns impressos para a comissão de socorros às vítimas das Alagoas. Maria Benedita fora ao quarto buscar um retrato da mãe, que prometera a Rubião; mas, ao pegar nele, beijou-o ainda com lágrimas, e, para não descer assim, encostou-se à janela, olhando para o mar, apenas clareado por um retalho de lua fosca, e coberto por véu espesso.

Depois de soltar a mão de Sofia é que Rubião se lembrou de a reter; era tarde; a dona repetiu sorrindo:

- Deputado!

- Pelo amor de Deus, não repita isto a ninguém; é segredo, por ora; em política, uma cousa de nada desvia o curso da campanha (era a frase do Camacho, na véspera); não diga a ninguém... a ninguém...

Os olhos dele faiscaram de audácia.

- A ninguém, concluiu baixinho, nem mesmo a seu marido. Faz-me este favor?

- Nem a ele, afirmou Sofia.

Rubião, após alguns segundos:

- Entendi que a senhora devia ser a única pessoa confidente deste negócio particular. Peço-lhe perdão do atrevimento; mas, é verdade, e eu só digo a verdade. Creia que a respeito muito; mas a senhora sabe tudo, não ignora nada. Hei de respeitá-la sempre... Sabe que, desde aquele dia da estrada de ferro, quando viemos juntos, com seu marido no meio...

- Cale-se, vem gente.

Não vinha ninguém. Sofia levantou-se, abriu o piano e rufou sobre as teclas. Logo depois, rodando rapidamente no banquinho, voltou-se para ele, que ficara no meio da sala, em pé.

- O senhor não calcula o mal que me faz com isso, disse ela. Tenho-lhe muita amizade; não há ninguém, mulher nem homem, a quem eu estime tanto; por isso mesmo, ouvindo-lhe cousas dessas, creia que fico triste, triste como não pode imaginar.

Rubião ia a falar.

- Sabe por que é que o desculpo? interrompeu ela. É porque o senhor é bom e generoso; apesar de tudo o que haverá sentido.

- Diga: sofrido.

- Sofrido, vá.

- Oh! mas sofrido como não calcula. Rio-me, disfarço, mas só eu sei o que tenho cá dentro do coração. Nunca me esqueceu a noite de Sta. Teresa... Quer que lhe diga uma cousa? Juro por esta luz, juro por seus olhos: já fiz quarenta anos, e nunca, nunca tive uma paixão neste mundo, nem grande nem pequena; a primeira é a senhora. Minha vida de outro tempo não dava lugar a amores... É verdade, foi a primeira...

Sofia pedia-lhe com o gesto que se calasse, e olhava de quando em quando para a porta; mas Rubião, embriagado da própria audácia, dizia tudo o que até agora retivera. Provavelmente, não haveria medo de ninguém, nem de Maria Benedita, nem de algum escravo, nem do próprio marido. Não pleiteava esperanças; abria e despejava a alma. as vozes saíam-lhe impetuosas; Sofia, desatinada, levantou a mão e tapou-lhe a boca.


 

CXVII (i)



Ao contato daquela epiderme querida, Rubião perdeu a voz. Sofia retirou a mão, e dispôs-se a deixar a sala; mas, chegando à porta, parou. Rubião caminhara até à janela, para desabafar, para convalescer, tonto do que dissera, ouvira e sentira. Respirou largo, e apertou a cabeça entre as mãos.


 

CXVIII (i)



Então Sofia, depois de estar alguns segundos à escuta, tornou à sala, e foi sentar-se com grande rumor de saias, num divã de cetim azul, compra de poucos dias. Rubião voltou-se, e deu com ela, abanando repreensivamente a cabeça. Antes que ele falasse, Sofia pôs o dedo na boca, pedindo-lhe silêncio; depois chamou-o com a mão; Rubião obedeceu.

- Sente-se naquela poltrona, disse ela; e continuou, depois de o ver sentado: Tenho razão para zangar-me com o senhor; mas já lhe disse, o senhor é bom, e estou que sincero; arrependa-se do que me disse, e tudo lhe será perdoado.

Acabando de falar, Sofia bateu com o leque no lado direito do vestido para o abaixar e compor; depois levantou os braços para sacudir as pulseiras de prata, cheias de perendengues sacros e profanos; finalmente, pousou os braços sobre os joelhos, e, abrindo e fechando as varetas do leque, esperou a resposta.

Ao contrário do que esperara, Rubião abanou a cabeça negativamente.

- Não tenho de que me arrependa, disse ele; e prefiro que me não perdoe. A senhora ficará cá dentro, quer queiramos, quer não; podia mentir, mas que é que rende a mentira? Mineiro é assim; pecando mesmo, é sincero. A senhora é que não tem sido sincera comigo, porque me tem enganado...

Sofia retesou o busto.

- ... Não se zangue; não desejo ofendê-la; mas, deixe-me dizer que a senhora é que me tem enganado, e muito, e sem compaixão.

(Continua.)



Quincas Borba não foi publicado nos números de 15 e 31 de maio de 1889, 09 e 10.




15 de junho de 1889, nº 11


 

CXVII (ii)


Continuação)


Sofia ergueu-se, ele também; ela deu um passo para a porta, Rubião pôs-se-lhe diante. Estava nervoso, tinha os olhos desvairados, a voz continuava a brotar-lhe, apenas abafada pelo instinto da conveniência, mas em si mesma rude e franca. Repetiu que Sofia o enganara, não lhe cortando as esperanças, dando-lhes vida, quando era certo que não lhe tinha amor...

- Certo é, interrompeu Sofia com dignidade, para resgatar as condescendências anteriores; certo é, mas podia ser de outro modo? Não sabe quem sou?

Rubião susteve a ponto uma risada irônica, depois, flamejando-lhe os olhos, respondeu em voz sumida:

- Sei... Carlos Maria...

Pasmada e pálida, Sofia recuou um passo, e durante alguns segundos, não pôde descerrar os beiços: afinal, venceu-se e falou. Não o achando capaz de semelhante calúnia, perguntou quem é que lha tinha metido na cabeça? Havia de dizê-lo ali mesmo, já e já, ou ela contaria tudo ao marido. Rubião não atendeu à ameaça, que aliás devia destruir a suspeita; respondeu que ninguém lhe referira nada; não precisava das vistas alheias para conhecer o que era claro a todos; depois, possuía uma carta dela àquele homem.

- Carta minha?

- Carta sua.

Maria Benedita entrou na sala; descera as escadas sem estrépito, como era seu costume; e os dous estavam tão fora dali que só deram pela moça, quando ela disse ao Rubião:

- Aqui está o retrato de mamãe.

Rubião recebeu o retrato, sem agradecer; olhou para ele, e meteu-o no bolso. Maria Benedita notou a indiferença, mas tinha pensado em tanta cousa, que não se lhe deu de pequenos nadas. Foi dali à janela, depois entrou e abriu um álbum de paisagens, mirou algumas, deixou-as; erguendo os olhos, perguntou ao Rubião se não ia à comissão das Alagoas. Sofia saiu por poucos minutos.

Quando esta voltou à sala, trazia as feições tranquilas. A conversa dos dous cochilava, porque Rubião, pouco depois da saída de Sofia, ficara inquieto, não sabendo se ela tornaria ou não, se ele iria embora sem lhe falar, se perguntara por ela, etc. Respondia pouco às perguntas de Maria Benedita, que, de sua parte, não lhe achava grande interesse. O único assunto em que ele pegou mais longamente foi a origem do nome do cão. Rubião explicou que era o mesmo do antigo dono, um Quincas Borba, grande filósofo, e amigo seu. Desse homem herdou o que possuía, com a condição de lhe tratar do pobre animal. Era a primeira vez que confessava esta cláusula; verdade é que acrescentou:

- Não era preciso escrevê-la; eu a cumpriria por mim mesmo, porque considero o meu pobre cachorro acima de todas as criaturas humanas... A senhora desculpe este modo de falar, pode ser que não seja assim, mas é o que eu sinto. Não imagina; digo-lhe que parece gente no entendimento, tem cousas que espantam... E depois não é capaz de esganar ninguém, oh! não! nunca! Hei de trazê-lo um dia aqui; verá que pérola. Para mim vale tanto como a pessoa que o possuía, o outro Quincas Borba...

- Logo, interrompeu sorrindo a moça, não é tão superior o cachorro que não possa comparar-se a alguma criatura humana.

- Quincas Borba... Quincas Borba...

A conversa amoleceu outra vez; foi então que Sofia entrou na sala. A prima repetiu-lhe a opinião pouco antes ouvida acerca do cão; Sofia apenas sorriu. Rubião tinha os olhos nela, interrogativos, mas de tanta cousa diversa, que era bem difícil saber se a afeição dominante era amor, se era ódio, puro ciúme, arrependimento, ou qualquer outra menos esperada. Sofia, para romper o silêncio diante de Maria Benedita, e lembrando-se da pergunta que lhe ouvira ao sair da sala, perguntou ao Rubião se não ia à comissão das Alagoas.

- Pode ser; seu marido já me falou duas vezes. É sábado, não é?

- Sábado. Conhece a casa?

- Conheço.

Rubião começava a desconfiar de Maria Benedita, posto que ela nada tivesse ouvido nem imaginado da conversação anterior; mas a teima da moça em ficar ali só a explicava ele pelo interesse de os espreitar, de impedir que falassem; talvez fosse mandada pelo próprio marido de Sofia. Entretanto, nunca mais cândidos olhos tinham pousado nele. Maria Benedita atribuía a graduação que ele dava ao cachorro a algum velho amargor da vida, e achava na confissão da cláusula da herança tal prova de singeleza, tal ausência de vergonha convencional, que lhe lembrava o seu próprio espírito da roça.

- Este homem, dizia ela consigo, deve ser bom por força.

- Esta criaturinha, pensava de sua parte Rubião, foi naturalmente paga pelo diabo para não sair daqui.


 

CXVIII (ii)



- Toca alguma cousa, Maria Benedita, disse finalmente Sofia.

E enquanto a prima foi dali ao piano e começou as primeiras notas de um concerto qualquer, Sofia aproximou-se de Rubião; sentaram-se perto um do outro, falaram de música, de óperas, de polcas, mas à toa. No meio de duas escalas mais fortes, disse ela a Rubião:

- Essa carta é falsa, quero vê-la.

- Posso mandá-la.

- Não; traga em mão; mostrar-lhe-ei que é falsa.

Adiante, em ocasião oportuna, disse ainda a mulher do Palha:

- Venha amanhã mesmo, entre uma e três horas; Maria Benedita sai e janta fora; a mãe de uma amiga dela virá buscá-la.


 

CXIX



No dia seguinte, pouco mais de uma hora, estava Rubião à porta da casa. Não levava só a carta; tinha consigo um revólver de quatro tiros.

- Pode ser que ela, uma vez de posse da carta, a guarde consigo, e eu fico sem saber nada. Neste caso ameaço-a; se tentar correr, mato-a.

Para evitar esse extremo, bastava-lhe abrir a carta, e, ainda uma vez, tentou fazê-lo, pouco antes de sair de Botafogo; mas rejeitou a ideia, repugnava-lhe, achava-se pusilânime; afinal, considerou que o revólver dispensava a violação.

Sofia estava ansiosa que ele chegasse; nem por isso foi abrir a porta da saleta de entrada, quando ouviu o tímpano; o criado é que veio dizer-lhe que estava ali o sócio de seu amo.

- Você disse-lhe que seu amo não está cá?

- Disse, sim, senhora; mas ele respondeu que o que tem que entregar pode entregar a minha ama.

- Pois que entre.

Depois que ficaram a sós, nenhum deles soube por onde começasse. Venceu a curiosidade; Sofia pediu-lhe o papel, a famosa carta; que diria ela?

- Não sei o que diz, porque não a abri, explicou Rubião; tenho-a comigo desde muitos dias, mas não lhe toquei.

- Como sabe que é minha?

- A letra do sobrescrito é sua.

Rubião tirou a carta do bolso da sobrecasaca; antes de a entregar, verificou se trazia o revólver; a mão tremia-lhe.

(Continua.)




30 de junho de 1889, nº 12


 

CXIX


(Continuação)


- Aqui está.

Sofia pegou curiosa no papel; em verdade, a letra do sobrescrito era sua.

- A letra do sobrescrito é minha, disse ela sorrindo, mas posso jurar-lhe que não sei o que está aqui dentro. Conte-me como é que achou esta carta.

- Para quê? Melhor é abri-la, retorquiu Rubião; mas, insistindo a dama, relatou as circunstâncias e a ocasião do achado. Nem assim ela podia adivinhar o que escrevera.

- Melhor é abri-la.

- Pois então o senhor mesmo a abrirá, retorquiu ela dando-lhe a carta. Se houver alguma cousa ruim, é obra de falsário; abra e leia.

Rubião deixou-se estar quieto, sem poder vencer o acanho que lhe trazia a moça com aqueles seus modos tão seguros, tão frios, tão destemidos. Quis ser cavalheiro, entregar-lhe a carta, pedir-lhe desculpa, pegar em si e sair. Era o modo único de resgatar a suspeita. Mas esta ideia passou rápida, como palhinha que o vento leva; só ficou o vento roncando no cérebro. A hesitação de Sofia, ao parecer dele, podia ser um laço para chegar àquilo mesmo; toda ela era um composto de perfídias. Pois abriria a carta; e rasgou a sobrecarta. Sofia deu então um pequeno grito.

- Espere, disse ela. Agora me lembro; já sei o que é; leia, e verá. Há de ser o negócio da comissão das Alagoas. O ladrão do criado é que levou a circular. Já não está cá em casa; era um tonto, um pachola sem préstimo. Vá, leia a circular.

De fato, era a circular impressa, com as assinaturas manuscritas da baronesa, de Sofia, e de mais três senhoras. Rubião não pôde arrancar os olhos do papel durante alguns minutos. A vergonha superava a alegria; o gosto perdia-se na confusão. Quando afinal levantou os olhos, deu com os de Sofia que saboreavam a confusão e a vergonha, não risonhos, mas gloriosos. Rubião, não podendo achar palavra, estendeu a mão, como pedindo que lhe perdoasse.

- O senhor julgou-me muito mal, disse ela. Se eu contasse a meu marido, ele o poria fora desta casa, e com razão. Calarei tudo; quero ser generosa. E depois, sempre ganhei alguma cousa em todo este negócio; reconheci que a sua estima é nenhuma. Creio que basta; adeus.

Sofia levantou-se; ele agarrou-lhe as mãos, ajoelhou-se, falando, exclamando. Sofia deixou-se resvalar ao sofá. A mandado dela, Rubião levantou-se; mas não obedeceu à ordem de ir embora. Não, respondia ele; dir-lhe-ia ainda uma vez as cousas que o matavam; não lhe pedia perdão, nem desculpa, nem nada; tinha razão de dizer o que disse, pensar o que pensou, porque a adorava sobre todas as cousas do mundo; foi por causa dela que entrou de sócio com o marido; por ela, seria até caixeiro da casa, criado, varredor, carregador de fardos... Tudo isso era expresso com tal calor e tão desvairadamente, que ela, apesar do perigo de serem ouvidos, não o fazia calar. Não tardaram lágrimas; a princípio eram só os olhos rasos delas, mas a acumulação fê-las cair, quatro e quatro, sem soluços.

- Não seja criança!

E enquanto ele, dando-lhe as costas, enxugava os olhos e o rosto:

- Este homem adora-me, pensava Sofia.

Dizer que esta ideia a aborreceu seria desdizer da verdade do livro e desmentir outra página em que já se afirmou o contrário. Não, não a aborreceu; Sofia gostou até de o ver padecer, tresloucado, a ponto de lhe perder o respeito. Há desses agravos que consolam. Rubião, entretanto, não sei se vexado da fraqueza, compôs o rosto e dispôs-se a sair; foi então que ela se lembrou do motivo principal daquele prazo dado, em tal lugar e a tais horas; era saber se as suspeitas de Rubião eram indignas da alma dele, ou incutidas por outrem. Rubião já lhe havia negado a segunda hipótese, na véspera, mas em condições que ela não podia fasciná-lo bem. Agora, fez-se pomba e serpente, e pediu-lhe a verdade; não exigia nomes, queria só saber se era boato; podia ser um boato.

- Ninguém se livra de um boato falso, disse ela; o senhor mesmo, em boa fé, seria capaz de jurar que a carta continha outra cousa, se a tivesse perdido; e assim se faz a reputação de uma senhora. Vamos, diga com franqueza, ouviu isso a alguém?

- A ninguém.

- Pura impressão sua; mas, por que não desconfiou de si? Os seus sentimentos deviam naturalmente enganá-lo. Jura que me não está mentindo? Não se aflija com a palavra: a paixão pode mentir sem desdouro. Jura que é verdade não ter ouvido a alguém?

- Juro; mas que interesse...

- Que interesse tenho em teimar por isto? completou Sofia. O mais natural de todos: saber se sou caluniada por aí, ou se é só a sua ruim cabeça que me quer mal, concluiu ela estendendo-lhe a mão. Adeus. Esquecemos o tempo; até sábado.

Ouviu-se parar um carro à porta: Sofia foi à janela. Rubião teve uma sensação de raiva: era talvez, ele, Carlos Maria. Era a baronesa. Vinha pela primeira vez à casa de Sofia. Esta correu a fazer-lhe os seus recebimentos, tão grata, comovida, tão olvidada das outras cousas, que encantou a boa senhora, e mais lhe entrou no coração.

- Este senhor, disse Sofia, depois de apresentar o Rubião, é sócio de meu marido, e vai ser um dos melhores auxiliares na nossa obra de caridade. Até sábado, concluiu voltando-se para ele.

(Continua.)



Quincas Borba não foi publicado no número de 15 de julho de 1889, nº 13.




31 de julho de 1889, nº 14


 

CXX



A baronesa saiu pouco depois. O sabor da visita ficou por algum tempo na dona da casa, menos do que cumpria. Foi morrendo o eco das palavras doces e graves, que ela lhe ouvira, das saias, da carruagem, dos cavalos.

Uma revoada de memórias entrou na alma de Sofia. A imagem de Carlos Maria veio postar-se ante ela, com os seus grandes olhos de espectro querido e aborrecido. Sofia quis arredá-lo, mas não pôde. Entrou a agitar-se, ele acompanhava-a de um lado para outro, sem perder o tom esbelto e másculo, nem o ar de riso sublime. Às vezes, via-o inclinar-se, articulando as mesmas palavras de certa noite de baile, que lhe custaram a ela horas de insônia, dias de esperança, até que se perderam na irrealidade. Nunca Sofia compreendera o malogro daquela aventura. O homem parecia querer-lhe deveras, e ninguém o obrigava a declará-lo tão atrevidamente, nem a passar-lhe pelas janelas, alta noite, segundo lhe ouviu. Recordou ainda outros encontros, palavras furtadas, olhos cálidos e compridos, e não chegava a entender que toda essa paixão acabasse em nada. Provavelmente, não haveria nenhuma; puro galanteio; - quando muito, um modo de apurar as suas forças atrativas... Natureza de pelintra, de cínico, de fútil.

Que lhe importava o mistério? Era um sujeito fútil. Cresceu-lhe o nojo e o desdém. Chegou a rir-se dele; podia encará-lo sem remorsos. E foi andando por ali fora, vingando-se do bobo, - chamava-lhe bobo -, e fitando no ar os olhos de imaculada. Em verdade, era ocupar-se demais com tal assunto: entrou a maldizer do Rubião, que evocara semelhante homem do esquecimento, por causa daquela triste circular; aí estava outro que lhe queria também.

Eram dous a querê-la; dous, porque Carlos Maria não fez mais que deixá-la em caminho, se é que a deixara deveras. Riram-lhe muito os olhos, achou-se bem consigo, cuidou de suas glórias, antigas ou recentes, dos murmúrios que ia deixando, quando saía à rua, ou entrava em alguma sala de baile. Sentia-se muito bem feita; era a opinião do marido, eram as vozes anônimas. Carlos Maria devia pensar a mesma cousa; Sofia lembrava-se das admirações em que o apanhou muita vez, por mais que ele as dissimulasse logo em carinho próprio de um deus para uma deusa inferior. Esta comparação pagã não é de Sofia, que ignorava, mas é um modo de definir o melhor possível a atitude de um e a impressão da outra; impressão que a deprimia agora, que a humilhava... Talvez o tivesse a seus pés, se não se houvesse mostrado tão agradecida, tão rasteira...

De repente, a criada, que estava na outra sala, ouvindo rumor de alguma cousa que se quebrava, correu à de visitas, e viu a ama, sozinha, de pé.

- Não é nada, disse-lhe esta.

- Pareceu que ouvi...

- Foi aquele boneco que caiu; apanhe os cacos.

- O chinês! exclamou a criada.

De feito, era um mandarim de porcelana, pobre diabo que estava muito quieto, em cima de uma estante. Sofia achou-se com ele entre os dedos, sem saber como, nem desde quando; ao cuidar na sua voluntária humilhação, teve um impulso singular, - parece que raiva de si mesma, - e deu com o boneco em terra. Pobre mandarim! não lhe valeu ser de porcelana; não lhe valeu sequer ser dado pelo Palha. Dois anos antes iam, marido e mulher pela rua do Ouvidor, pararam ante o mostrador de uma loja, onde o mandarim pousava entre dois bonzos. Sofia riu muito do mandarim; Palha comprou-lhe logo os três, sendo que os outros eram de bronze puro. Não lhe valeu esta particularidade.

- Mas, minha ama, como é que o chinês...

- Vá-se embora!

A humilhação fez desaparecer o chim com os cacos, e atou a nossa dama a uma cadeira. Sofia recordou todas as suas atitudes diante de Carlos Maria, as aquiescências fáceis, os perdões antecipados, os olhos com que o buscava, os apertos de mão tão fortes... Era isso; tinha-se-lhe lançado aos pés. Depois, o sentimento foi mudando. Apesar de tudo, era natural que ele gostasse dela, e a conformidade moral de ambos não traria o abandono de um. Podia ser que a culpa fosse dela. De instinto, sabia que, assim como uma boa palavra paga cem frases ruins, uma só ruim corrompe cem orações deliciosas. Escavou algumas razões possíveis, - um gesto duro e frio, alguma falta de atenção, - e uma vez que, por medo de o receber sozinha, mandou dizer que não estava em casa. O ato foi de ciúme; corriam então alguns mexericos.

Sim, podia a culpa ser dela. Carlos Maria era orgulhoso; a menor desfeita pungia-o. Era dela a culpa, assim concluía, depois de muito apurar as reminiscências. Foi vestir-se e pentear-se, o marido veio achá-la absorvida, com o desastre do mandarim; não podia explicar como se dera o caso.

- A porcelana era forte, observou o Palha, principiando a sopa.

- Justamente, mas eu estava tão alegre, pancada, como você diz, - que comecei a brincar com ele, a atirá-lo ao ar, até que de uma das vezes, caiu nas costas de uma cadeira e daí ao chão, em cacos.

- Vamos a cousas sérias, interrompeu ele; está tudo pronto para a primeira sessão.


 

CXXI



A primeira sessão foi no sábado. Seguiram-se outras, a miúdo, com bastante animação. Sofia não entrou desde logo na intimidade das demais senhoras; recebia delas tão somente o aperto de mão necessário. Mas era hábil, vestia-se a primor, e a baronesa falava tão bem dela, que não tardaram os beijos e a familiaridade. as sessões eram longas, porque acabavam sempre em pura conversação, estranha ao objeto. A sala da baronesa tinha o luxo velho e fixado; e as comissárias achavam-se juntas, e aproveitavam o tempo tratando de cousas diversas. Sócios poucos. Rubião ia a todas as sessões, Palha também. Este tinha o trabalho externo, anúncios, impressões de circulares, depósito nos bancos, notícias para as folhas públicas; escrevia as atas. Em sessão excedia a linha, agitava-se demais, bracejava, e, quando ficava quedo, ninguém lhe tirava da boca um sorriso de enlevo, nem dos olhos um ar de vigilância.

- Você estraga a pintura, dizia-lhe a mulher, às vezes, em casa; não sossega nunca, parece até um criado.

Maria Benedita não pertencia à comissão, por mais que a prima a quisesse lá meter. D. Tonica, - ou o pai por ela, - tentou entrar. O major foi ter com o Rubião, disse-lhe que a filha precisava aparecer, sair daquela vida de bicho do mato e pediu-lhe que intercedesse com Sofia ou com o Palha.

Sofia não aceitou a proposta; para encobrir a si mesma o motivo secreto da recusa, declarou que, ainda se fosse só ela, podia entrar, mas o pai era insuportável, um grulha eterno, um metidiço...

Rubião lembrou-se do lance de Sta. Teresa, e concordou; chegou a crer que Sofia tinha em mente aquela noite em que o major os interrompera no jardim; fitou-a interrogativamente. Palha, entretanto, propôs que se admitisse só D. Tonica.

- Sem o pai? perguntou a mulher admirada.

- Sim, o pai não é preciso, atrapalha tudo.

- Sem o pai, é feio: deixemos este assunto. Peço-lhe, concluiu ela voltando-se para o Rubião, que não lhe diga nada, ou então que o número das senhoras está completo.

- E se forem admitidas outras? ponderou o marido.

- Que tem isso? Diga-lhe o que acabo de dizer, Sr. Rubião, o número está completo.


 

CXXII



Rubião prometeu e cumpriu. Encontrando o major no largo do Paço, foi com ele até o Carceller, e pediu café. Ao primeiro golo repetiu o recado. O major enfiou; depois com amargura:

- Histórias, meu caro! D. Sofia, admitida na alta roda, não quer dividir essa glória com outras pessoas, principalmente pessoas que a podem envergonhar. Conheço isto. Envergonhar é um modo de dizer; nós não envergonhamos ninguém; mas, não andamos de carro... Não vê que está na alta roda? Não divide a glória. Conheço, conheço isto. Não quer ser envergonhada... Pois faço-lhe a vontade. Quer ficar só, fique! Ora, a mulher do Palha!

Rubião ia defendê-la.

- Perdão, não diga nada; dispenso tudo. Da sua parte é natural; o senhor não é sócio do marido?

- Sou.

- Bem, confessa ...

- Naturalmente.

- Naturalmente? Faz muito bem; afinal é o melhor, entre amigos. E o padre Mendes como vai? Sabe que nunca acreditei na existência do padre?

Ora, a mulher do Palha! Enfim, cousas do mundo! Faz muito bem; o melhor é confessar a verdade. Envergonhamo-la! Já chegou a este ponto de se pejar em ver-nos ao pé de si. Em casa, pode ser; não há dous meses que lá jantamos; mas entre as grandes senhoras... É assim mesmo, conheço isso; os hóspedes novos dão pontapés nos que podem entrar em competência com eles... Pois fique-se lá; não a importunarei. Em casa dele, é que não ponho mais os pés; no dia em que lá me vir, escarre-me na cara... Ora, a Sofia! - Fósforos!

(Continua)



Quincas Borba não foi publicado, entre 31 de julho e 30 de novembro de 1889, do nº 15 ao 21.




30 de novembro de 1889, nº 22


 

CAPÍTULO CVI (nova numeração)



...ou, mais propriamente, capítulo em que o leitor, desorientado, não pode combinar as tristezas de Sofia com a anedota do cocheiro. E pergunta confuso: - Então a entrevista da rua da Harmonia, Sofia, Carlos Maria, esse chocalho de rimas sonoras e delinquentes é tudo calúnia? Calúnia do leitor e do Rubião, não do pobre cocheiro, que não proferiu nomes, não chegou sequer a contar uma anedota verdadeira... É o que terias visto, se lesses com pausa. Sim, desgraçado, adverte bem que era inverossímil que um homem, indo a uma aventura daquelas, fizesse parar o tilbury diante da casa pactuada. Seria pôr uma testemunha ao crime. Há entre o céu e a terra muitas mais ruas do que sonha a tua filosofia, - ruas transversas, onde o tilbury podia ficar esperando.

- Bem; o cocheiro não soube compor. Mas que interesse tinha em inventar a anedota?

Conduzira Rubião a uma casa, onde o nosso amigo ficou quase duas horas, sem o despedir; viu-o sair, entrar no tilbury, descer logo e vir a pé, ordenando-lhe que o acompanhasse. Concluiu que era ótimo freguês; mas, ainda assim não se lembrou de inventar nada. Passou, porém, uma senhora com um menino, - a da rua da Saúde, - e Rubião quedou-se a olhar para ela com vistas de amor e melancolia. Aqui é que o cocheiro o teve por lascivo, além de pródigo, e encomendou-lhe as suas prendas. Se falou em rua da Harmonia disse que foi por sugestão do bairro donde vinham; e, se disse que trouxera um moço da rua dos Inválidos, é que naturalmente transportara de lá algum, na véspera, - talvez o próprio Carlos Maria, - ou porque lá morasse, - ou porque lá tivesse a cocheira, - qualquer outra circunstância que lhe ajudou a invenção, como as reminiscências do dia servem de matéria aos sonhos da noite. Nem todos os cocheiros são imaginativos. Já é muito saber concertar farrapos da realidade.

Resta só a coincidência de morar na rua da Harmonia uma das costureiras do luto. Aqui, sim, parece um propósito do acaso. Mas a culpa é da costureira; não lhe faltaria casa mais para o centro da cidade, se quisesse deixar a agulha e o marido. Ao contrário disso, ama-os sobre todas as cousas deste mundo. Não era razão, para que eu cortasse o episódio, ou interrompesse o livro.


 

CAPÍTULO CVII



Das reflexões de Sofia é que não há que explicar. Todas tinham o pé na verdade. Era certo e certíssimo que Carlos Maria não correspondera às primeiras esperanças, - nem às segundas e terceiras, - porque as houve em quadras diversas, ainda que menos verdes e bastas. Quanto à causa disso, vimos que Sofia, à míngua de uma, atribuiu-lhe sucessivamente três. Não chegou a pensar em alguns amores que ele porventura trouxesse e lhe tornassem insípidos quaisquer outros. Seria uma quarta causa, e talvez a verdadeira.


 

CAPÍTULO CVIII



Durante alguns meses, Rubião deixou de ir ao Flamengo. Não foi resolução fácil de cumprir. Custou-lhe muita hesitação, muito arrependimento; mais de uma vez chegou a sair com o propósito de visitar Sofia e pedir-lhe perdão. De quê? Não sabia: mas queria ser perdoado. Em todas as tentativas desse gênero, a ideia de Carlos Maria fazia-o recuar. De certo ponto em diante, foi o próprio lapso de tempo que o tolheu; era esquisito aparecer lá um dia, como um triste filho pródigo, unicamente para suplicar o calor dos belos olhos da dona da casa. Ia ao armazém, falar ao Palha; este, ao fim de algumas semanas, reprochou-lhe a ausência; e, passados dous meses, perguntou-lhe se era formal propósito.

- Tenho tido muito que fazer, acudiu Rubião, estas cousas políticas tomam todo o tempo a uma pessoa. Vou lá domingo.

Sofia aparelhou-se para recebê-lo. Espiaria a ocasião de lhe dizer o que era a carta, jurando por todas as cousas santas, para que ele visse que a verdade não era contra ela. Planos perdidos; Rubião não compareceu. Veio outro domingo, vieram outros domingos... Não obstante, Sofia remeteu-lhe um dia a subscrição para as Alagoas; ele assinou cinco contos de réis.

- É muito, disse-lhe o sócio, no armazém, quando ele lhe foi levar o papel.

- Não dou menos.

- Mas olhe que pode dar muito, sem dar tanto. Parece-lhe então que esta subscrição é feita entre meia dúzia de pessoas? Anda nas mãos de muitas senhoras e de alguns homens; está nos mostradores das lojas, na praça do Comércio, etc. assine menos.

- Como, se está escrito?

- Deste 5 pode-se fazer muito bem um 3. Três contos já é uma boa assinatura. Há maiores, mas são de pessoas obrigadas pelo cargo ou pelos milhões; o Bonfim, por exemplo, assinou dez contos.

Rubião não pôde reter um risinho irônico; abanou a cabeça, e não saiu dos cinco contos. Só emendaria, escrevendo o algarismo 1 atrás, - quinze contos, mais que o Bonfim.

- Seguramente, que pode dar cinco, dez e quinze contos, tornou o Palha; mas o seu capital precisa cautelas, você está entrando muito por ele... Repare que já lhe rende menos.

Palha era agora o depositário dos títulos de Rubião (ações, apólices, escrituras) que estavam fechados na burra do armazém. Cobrava-lhe os juros, os dividendos e os aluguéis de três casas, que lhe fizera comprar algum tempo antes, a vil preço, e que lhe rendiam muito. Guardava também uma porção de moedas de ouro, porque Rubião tinha a mania de as colecionar, para a contemplação. Conhecia mais que o dono a soma total dos bens, e assistia aos rombos feitos na caravela, sem temporal, mar leite. Três contos bastavam, insistiu ele; e provou a sinceridade pelo fato de ser justamente marido da fundadora da comissão. Mas o Rubião não desistiu dos cinco; aproveitou a ocasião para pedir-lhe mais dez; precisava de dez contos. Palha coçou a cabeça.

- Você desculpe, disse-lhe ao cabo de alguns instantes, mas para que é que os quer? Não está certo que vai perdê-los, ou arriscá-los, ao menos?

Rubião riu da objeção.

- Se eu estivesse certo de que os perdia, não vinha buscá-los. Pode ser arriscado, mas não é sem arriscar que se ganha. Preciso deles para um negócio, - quero dizer, três negócios. Dous são empréstimos seguros, e não passam de um conto e quinhentos. Os oito contos e quinhentos são para uma empresa. Por que abana a cabeça, se não sabe de que se trata?

- Por isso mesmo. Se você me consultasse, se me dissesse que empresa e que pessoas eram, eu veria logo se podia arriscar-se; e receio muito que nada preste, a não ser o dinheiro que se perder. Lembra-se das ações daquela Companhia União dos Capitais Honestos? Disse-lhe logo que este título era enfático, um modo de embair a gente, e dar emprego a homens necessitados. Você não quis crer, e caiu. as ações estão por baixo, e já o ultimo semestre não deu dividendos.

- Pois venda justamente essas ações, ainda a resto de barato. Contento-me com o sólido. Ou então dê-me da caixa da nossa casa... Passo logo por aqui, se você quiser, - ou mande-me lá a Botafogo. Caucione umas apólices, se lhe parecer melhor...

- Não, não faço nada; não dou os dez contos, atalhou fogosamente o Palha. Basta de ceder a tudo, o meu dever é resistir. Empréstimos seguros? Que empréstimos são esses? Não vê que lhe levam o dinheiro, e não lhe pagam as dívidas? Alguns sujeitos vão ao ponto de jantar diariamente com o próprio credor, como um tal Carneiro que lá vi algumas vezes. Dos outros não sei se lhe devem também alguma cousa; é possível que sim. Vejo que é demais. Falo-lhe por ser amigo; não dirá algum dia que não foi avisado em tempo. De que há de viver, se estragar o que possui? A nossa casa pode cair.

- Não cai, acudiu o Rubião.

- Pode cair; tudo pode cair. Eu vi o banqueiro Souto, em 1864.

Rubião remoía os conselhos do sócio, não por serem bons nem prováveis, mas por achar neles uma intenção maviosa, revestida de forma crua. Agradeceu-os de coração, mas rejeitou-os; precisava dos dez contos. Podia ter mais tento, dali em diante, e afirmava-lhe que seria menos fácil. De resto, possuía de sobra, tinha dinheiro para dar e vender...

- Para vender só, emendou o Palha.

E, depois de um instante:

- Bem, agora é tarde, amanhã levo-lhe os dez contos. E por que os não há de ir buscar lá à nossa casa ao Flamengo? Que mal lhe fizemos nós? Ou que lhe fizeram elas? porque a zanga parece ser com elas, visto que o vejo aqui, algumas vezes. Que foi, para castigá-las? concluiu rindo.

Rubião desviou os olhos do sócio, cuja fala lhe parecia afiada de ironia, - como de pessoa que soubesse tudo, e risse dele. Quando lhos tornou, viu o mesmo semblante interrogativo, e respondeu:

- Não me fizeram nada; lá irei amanhã à noite.

- Vá jantar.

- Jantar, não posso, tenho uns amigos em casa; vou de noite - E querendo rir: Não as castigue, que não me fizeram nada.

- Alguém o possui, refletiu Palha logo que ele saiu: alguém, por inveja às nossas relações. Também pode ser que Sofia lhe fizesse alguma para arredá-lo de casa...

Rubião assomou outra vez à porta; não tivera tempo de chegar à esquina. Voltava para dizer que, precisando do dinheiro cedo, viria buscá-lo ao armazém; de noite iria então visitá-los. Precisava do dinheiro até às duas horas da tarde.


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CIX



Nessa noite, Rubião sonhou com Sofia e Maria Benedita. Viu-as num grande terreiro, apenas vestidas de saia, costas inteiramente despidas; o marido de Sofia, armado de um azorrague de cinco pontas de couro, rematando em bicos de ferro, castigava-as despiedadamente. Elas gritavam, pediam misericórdia, torciam-se, alagadas em sangue, as carnes caíam-lhes aos bocados. Agora, por que razão Sofia era a imperatriz Eugênia, e Maria Benedita uma aia sua, é o que não sei dizer com exatidão. "São sonhos, sonhos, Penseroso!" exclamava um personagem do nosso Álvares de Azevedo. Mas eu prefiro a reflexão do velho Polonius, acabando de ouvir uma fala tresloucada de Hamlet: "Desvario embora, lá tem seu método". Também há método aqui, nessa mistura de Sofia e Eugênia; e ainda há método no que se lhe seguia, e que parece mais extravagante.

Sim, Rubião, indignado, mandou logo cessar o castigo, enforcar o Palha e recolher as vítimas. Uma delas, Sofia, aceitou um lugar na carruagem aberta que esperava pelo Rubião, e lá foram a galope, ela garrida e sã, ele glorioso e dominador. Os cavalos, que eram dous à saída, eram daí a pouco, oito, quatro belas parelhas. Ruas e janelas cheias de gente, flores caindo em cima deles, aclamações... Rubião sentiu que era o imperador Luís Napoleão; o cachorro ia no carro aos pés de Sofia...

Tudo acabou sem fim, nem fracasso. Rubião abriu os olhos; talvez alguma pulga o mordeu; qualquer cousa: "Sonhos, sonhos, Penseroso!" Ainda agora prefiro o dito de Polonius: "Desvario embora, lá tem seu método!"

(Continua.)




15 de dezembro de 1889, nº 23


 

CX



Rubião fez os dous empréstimos e o negócio. O negócio era uma Empresa Melhoradora dos Embarques e Desembarques no porto do Rio de Janeiro. Um dos empréstimos tinha por fim pagar certa conta atrasada de papel da Atalaia, dívida urgente. A folha estava ameaçada de parar.

- Perfeitamente, disse Camacho, quando Rubião lhe foi levar o dinheiro à casa. Muito obrigado. Veja você como, por uma miséria desta ordem, podia emudecer o nosso órgão. São os espinhos naturais da carreira. O povo não está educado; não reconhece, não apoia os que trabalham por ele, os que descem à arena todos os dias em defesa das liberdades constitucionais. Imagine, que, de momento, não dispúnhamos deste dinheiro, tudo estava perdido, cada um ia para os seus negócios, e as sãs ideias ficavam sem o seu leal expositor.

- Nunca! protestou Rubião.

- Tem razão; redobraremos de esforços. A Atalaia será como o Anteu da fábula. De cada vez que cair, erguer-se-á com mais vida.

Dito isto, Camacho mirou o maço de notas. Um conto e duzentos, não? perguntou; e meteu-o no bolso do fraque. Continuou a dizer que estavam seguros agora, a folha ia de vento em popa. Tinha algumas reformas materiais em vista; foi ainda mais longe.

- Precisamos desenvolver o programa, adiantar as ideias, dar um empurrão aos correligionários, atacá-los, se for preciso...

- Como?

- Ora, como? atacando. Atacar é um modo de dizer: corrigir. É evidente que o órgão do partido está afrouxando. Chamo órgão do partido, porque a nossa folha é órgão das ideias do partido; compreende a diferença?

- Compreendo.

- Vai afrouxando, continuou Camacho apertando um charuto entre os dedos, antes de o acender; e nós precisamos de acentuar os princípios, mas francamente, nobremente, dizendo a verdade. Creia que os chefes precisam ouvi-la a seus próprios amigos e aderentes. Nunca rejeitei a conciliação dos partidos, pugnei por ela, e a ideia fundamental da Atalaia foi a princípio um terreno neutro. Mas conciliação não é jogo de empulha. Para lhe dar um exemplo, na minha província a gente dos Pinheiros tem o apoio do governo, unicamente para me deslocar; e os meus correligionários da Corte, em vez de a combater, visto que o Governo lhe dá força, que pensa que fazem? Dão também apoio aos Pinheiros.

- Têm ao menos alguma influência os Pinheiros?

- Nenhuma, respondeu Camacho fechando violentamente a caixa de fósforos que ia a abrir. Há um réu de polícia entre eles, e há outro que até foi aprendiz de barbeiro. Matriculou-se, é verdade, na Faculdade do Recife, creio que em 1855, por morte do padrinho que lhe deixou alguma cousa, mas tal é o escândalo da carreira desse homem que, logo depois de receber o diploma de bacharel, entrou na assembleia provincial. É uma besta; é tão bacharel como eu sou papa.

Entenderam-se sobre as modificações políticas da folha. Camacho lembrou ao Rubião que a candidatura deste naufragara por causa justamente da oposição dos chefes. De alguns, emendou logo. Rubião concordou; assim lho tinha dito o amigo em tempo, e a lembrança avivou o ressentimento do desastre.

Podia, devia estar na câmara. Os tais é que o não quiseram; mas haviam de ver, pensava Rubião; tinham de amargar o mal feito. Deputado, senador, ministro, vê-lo-iam tudo, com olhos tortos e espantados. A cabeça do nosso amigo, tanto que o outro lhe pôs a faísca, foi ardendo de si mesma, não por ódio, nem inveja, mas de ambição ingênua, de cordial certeza, visão antecipada e deslumbrante das cousas. Camacho estimou achá-lo de acordo.

- O nosso grupo é da mesma opinião, disse ele. Creio que não faz mal uma pequena ameaça aos próprios amigos.

Nessa mesma noite, leu-lhe o artigo em que advertia o partido da conveniência de não ceder às perfídias do poder, apoiando em algumas províncias certa gente corrupta e sem valor. Eis aqui a conclusão:

"Os partidos devem ser unidos e disciplinados. Há quem pretenda (mirabile dictu!) que essa disciplina e união não podem ir ao ponto de rejeitar os benefícios que caem das mãos dos adversários. Risum teneatis! Quem pode proferir tal blasfêmia sem que lhe tremam as carnes? Mas suponhamos que assim seja, que o partido da oposição possa, uma ou outra vez, fechar os olhos aos desmandos do governo, à postergação das leis, aos excessos da autoridade, à perversidade e aos sofismas. Quid inde? Tais casos, - aliás, raros, - só podiam ser admitidos quando favorecessem os elementos bons, não os maus. Cada partido tem os seus díscolos e sicofantas. É interesse dos nossos adversários ver-nos afrouxar, a troco da animação dada à parte corrupta do partido. Esta é a verdade; negá-lo é provocar-nos à guerra intestina, isto é (horresco referens!), à dilaceração da alma nacional... Mas, não, as ideias não morrem; elas são o lábaro da justiça. Os vendilhões serão expulsos do templo; ficarão os crentes e os puros, os que põem, acima dos interesses mesquinhos, locais e passageiros, a vitória indefectível dos princípios. Tudo que não for isto ter-nos-á contra si. Alea jacta est..."


 

CXI


N'A Estação, em evidente erro tipográfico, está CXL


Rubião aplaudiu o artigo; achava-o excelente. Talvez pouco enérgico. Vendilhões, por exemplo, era bem dito; mas ficava melhor vis vendilhões.

- Vis vendilhões? Há só um inconveniente, ponderou Camacho. É a repetição dos vv. Vis ven... Vis vendilhões; não sente que o som fica desagradável?

- Mas lá em cima há vis vis...

- Vis vis repelitur. Mas é uma frase latina. Podemos arranjar outra cousa: vis mercadores.

- Vis mercadores é bom.

- Contudo, mercadores não tem a força de vendilhões.

- Então, por que não deixa vendilhões? Vis vendilhões é forte; ninguém repara no som. Olhe, eu nunca dou por isso. Gosto de energia. Vis vendilhões.

- Vis vendilhões, vis vendilhões, repetiu Camacho à meia voz. Já estou achando melhor. Vis vendilhões. Aceito, concluiu emendando. E releu: "Os vis vendilhões serão expulsos do templo; ficarão os crentes e os puros, os que põem acima dos interesses mesquinhos, locais e passageiros a vitória indefectível dos princípios. Tudo que não for isto ter-nos-á contra si. Alea jacta est..."

- Muito bem! disse Rubião, sentindo-se algum tanto autor do artigo.

- Parece-lhe bem? perguntou Camacho, sorrindo. Há pessoas que ainda me acham no estilo a frescura do meu tempo de estudante. Não sei, não digo nada; a disposição, sim, é a mesma. Hei de castigá-los; havemos de castigá-los.


 

CXII



Aqui é que eu quisera ter dado a este livro o método de tantos outros, - velhos todos, - em que a matéria do capítulo era posta no sumário: "De como aconteceu isto assim, e mais assim". Aí está Bernardim Ribeiro; aí estão outros livros gloriosos. Das línguas estranhas, sem querer subir a Cervantes nem a Rabelais, bastavam-me Fielding e Smollet, muitos capítulos dos quais só pelo título estão lidos. Pegai em Tom Jones, livro IV, cap. 1, lede este título: Contendo cinco folhas de papel. É claro, é simples, não engana a ninguém; são cinco folhas, quem quer lê, quem não quer não lê, e é para os primeiros que o autor conclui: "E agora, sem mais prefácio, vamos ao seguinte capítulo". Conclusão que também imito, para também dizer o que quero.


 

CXIII



Se tal fosse o método deste livro, eis aqui um título que explicaria tudo: "De como Rubião, satisfeito da emenda feita no artigo, tantas frases compôs e ruminou, que acabou por escrever todos os livros que lera".

Lá haverá leitor a quem só isso não bastasse. Naturalmente, quereria toda a análise da operação mental do nosso homem, sem advertir que, para tanto, não chegariam as cinco folhas de papel de Fielding. Há um abismo entre a primeira frase de que Rubião era coautor até a autoria de todas as obras lidas por ele; é certo que o que mais lhe custou foi ir da frase ao primeiro livro; - deste em diante a carreira fez-se rápida. Não importa: a análise seria ainda assim longa e fastiosa. O melhor de tudo é deixar só isto: durante alguns minutos, Rubião se teve por autor de muitas obras alheias.

(Continua.)




31 de dezembro de 1889, nº 24


 

CXIV



Ao contrário, não sei se o capítulo que se segue poderia estar todo no título. Veja o leitor por si mesmo.


 

CXV



Rubião foi mantendo o propósito de não tornar a ver Sofia; pelo menos, não ia ao Flamengo. Viu-a um dia passar de carro, com uma das damas da comissão das Alagoas; ela inclinou-se risonha, dizendo-lhe adeus com a mão. Ele retribuiu o cumprimento, tirando o chapéu, com tal ou qual alvoroço, mas não ficou parado como lhe aconteceria dantes; apenas lançou um olhar ao carro que ia andando. Também ele foi andando, - e pensando no lance da carta, não compreendendo aquele gesto de mão, sem ódio nem vexame, - como se nada houvesse entre eles. Podia ser que o serviço da comissão e a companheira que levava explicassem a benevolência graciosa do gesto; mas Rubião não cogitou desta hipótese.

- Estará assim tão falta de brio? perguntava ele. Pois não se lembra da carta que achei, mandada por ela ao tal gamenho da rua dos Inválidos? É muito; é demais. Parece um desafio, um modo de dizer que não faz caso, que escreverá todas as cartas que quiser. Que as escreva, mas gaste algum dinheiro em registrá-las no correio; é barato...

Achou algum pico em si mesmo e riu-se. Isto, e um homem que passou rasgando-lhe uma cortesia, tiraram-lhe o amargor das saudades, e ele esqueceu o assunto, para cuidar de outro, que o levava ao Banco do Brasil.

Ao entrar no Banco esbarrou com o sócio, que saía.

- Creio que vi agora D. Sofia, disse-lhe Rubião.

- Onde?

- Na rua dos Ourives; ia de carro, com outra senhora, que não conheço. Como tem você passado?

- Viu-a, e não se lembrou de nada, observou Palha, sem responder à pergunta. Não se lembrou que ela faz anos, quarta-feira, depois de amanhã. Não lhe peço que vá jantar, não ouso tanto, seria convidá-lo a aborrecer-se; mas uma xícara de chá bebe-se depressa. Faz-me esse favor?

Rubião não respondeu logo.

- Vou até jantar, disse finalmente. Quarta-feira? Conte comigo. Tinha-me esquecido, confesso; mas ando com tanta cousa na cabeça... Espere por mim daqui a meia hora, no armazém.

Antes de meia hora estava lá, pedindo-lhe dous contos de reis. Palha já não resistia ao desmoronamento do capital; e, se uma ou outra vez, dizia alguma palavrinha frouxa, agora entregou-lhe o dinheiro com indiferença. Rubião não tornou a casa sem comprar um magnífico diamante, que, na quarta-feira, enviou a Sofia, acompanhado de um bilhete de visita, e duas palavras de felicitação.

Sofia estava só, no quarto de vestir, calçando os sapatos, quando a criada lhe entregou o pacote. Era o terceiro presente do dia; a criada esperou que ela o abrisse para ver também o que era. Sofia ficou deslumbrada, quando abriu a caixa e deu com a rica joia, - uma bela pedra, no centro de um colar. Esperava alguma cousa bonita; mas, depois dos últimos sucessos, mal podia crer que ele fosse tão generoso. Batia-lhe o coração.

- O portador está aí?

- Já foi. Que cousa rica, minha ama!

Sofia fechou a caixa, e acabou de calçar-se. Deteve-se algum tempo, sentada, sozinha, recordando cousas idas, e levantou-se pensando:

- Aquele homem adora-me.

Tratou de vestir-se; mas, ao passar por diante do espelho, deixou-se estar alguns instantes. Comprazia-se na contemplação de si mesma, das suas ricas formas, dos braços nus de cima a baixo, dos próprios olhos contempladores. Fazia vinte e nove anos, achava que era a mesma dos vinte e cinco, e não se enganava. Cingido e apertado o colete, diante do espelho, acomodou os seios com amor, e deixou espraiar-se o colo magnífico. Lembrou-se então de ver como lhe ficava o diamante; tirou o colar e pô-lo ao pescoço. Perfeito. Voltou-se da esquerda para a direita e vice-versa, aproximou-se, afastou-se, aumentou a luz do camarim; perfeito. Fechou a joia e guardou-a.

- Aquele homem adora-me, repetiu consigo.

- Provavelmente ele já estará, pensou Rubião indo jantar ao Flamengo; duvido que tenha dado melhor presente que eu.

Carlos Maria já estava, efetivamente, conversando, entre uma das comissárias das Alagoas e Maria Benedita. Poucos eram os convivas; houve propósito em escolher e limitar. Mas não estava ali o major Siqueira, nem a filha, nem as senhoras e os homens que Rubião conheceu naquele jantar de Sta. Teresa; ninguém. Da comissão das Alagoas viam-se algumas damas; via-se mais o diretor do banco, - o da visita ao ministro, - com a senhora e as filhas, - outro personagem bancário, - um comerciante inglês, um deputado, um desembargador, alguns capitalistas, e pouco mais.

Posto que evidentemente gloriosa, Sofia esqueceu por um instante os outros, quando viu Rubião entrar na sala e caminhar para ela. Ou mudança, ou descostume, achou-lhe outro ar, passo firme, cabeça levantada, o avesso, em suma, do antigo gesto encolhido e diminuto. Sofia apertou-lhe a mão com força e sussurrou um agradecimento. À mesa fê-lo sentar ao pé de si, tendo do outro lado a presidente da comissão.

Rubião olhava superiormente para tudo. A qualidade dos convivas não lhe produziu impressão. Hão de lembrar-se do capitulo LXII, quando ele cruzou com uma baronesa na escada do escritório do Camacho e foi descendo a custo, sorvendo o aroma que ela ia deixando, cativo do título, até chegar abaixo, onde ficou admirando a farda do cocheiro. Tempos idos; capítulos passados. Agora, desceria a escada tranquilo, tão tranquilo como se acha, a despeito da qualidade das pessoas, do ar cerimonioso, do luxo da mesa, da farda dos criados, barbeados de fresco, abotoados até à gravata branca, e trazendo nos botões estas duas letras C. P. Nada disso o deslumbrou.

O mesmo cuidado particular de Sofia, embora lhe fosse agradável, não o tonteava, como outrora. E da parte dela era mais apurada a atenção, e os olhos excepcionalmente meigos e serviçais. Rubião procurou Carlos Maria: lá estava entre as mesmas moças da sala, - Maria Benedita e a comissária das Alagoas. Verificou que só se ocupava com elas, não olhava para Sofia, nem esta para ele.

- Talvez disfarcem, pensou.

Pareceu-lhe, ao levantarem-se da mesa, que trocavam um olhar - mas o movimento geral da reunião podia iludi-lo, e Rubião não fez maior cabedal da observação. Sofia dera-se pressa em tomar-lhe o braço. De caminho, disse-lhe ela:

- Tenho esperado pelo senhor desde aquele dia, e nunca mais veio aqui. Era meu direito exigi-lo, para explicar-me. Logo falaremos.

Rubião foi daí a pouco para o gabinete dos fumantes, onde se falava de política e voltarete. Ouviu calado, com os olhos erradios. Quando os outros saíram, Rubião deixou-se estar só, meio reclinado em um sofá de couro, sem pensar. A imaginação é que fazia o seu ofício, um tanto pachorrenta, agora, - talvez porque ele tivesse comido muito. Lá fora iam entrando os convidados da noite; enchia-se a casa, crescia o burburinho da conversação, sem que o nosso amigo descesse dos seus belos sonhos. O próprio som do piano que fez calar todos os rumores, não o atraiu à terra. Mas um farfalhar de sedas, entrando no gabinete, fê-lo erguer-se de golpe, acordado.

- Aí está, disse Sofia, recolhe-se aqui para fugir ao aborrecimento; nem quer ouvir boa música. Pensei que tivesse ido embora. Vim ter com o senhor.

E sem mais demora, porque não podia perder um minuto, referiu-lhe o que o sabemos da carta achada no jardim de Botafogo; lembrou-lhe que, antes de a abrir, pedira-lhe que ele mesmo a abrisse e lesse. Que melhor prova de inocência? A palavra saía-lhe rápida, séria, digna e comovida. Ocasião houve em que os olhos se lhe tornaram úmidos; ela enxugou-os, e ficaram vermelhos. Rubião pegou-lhe na mão, e viu ainda uma lágrima, - uma pequena lágrima, - escorregar até o canto da boca. Jurou então que sim, acreditava em tudo. Que ideia aquela de chorar? Sofia enxugou ainda os olhos e estendeu-lhe a mão agradecida.

- Até já, disse ela.

O piano continuava: Rubião notou-lhe esta circunstância. Enquanto ouviam tocar, não viriam ter com eles.

- Mas eu é que não posso estar ausente tanto tempo, acudiu Sofia. Demais, tenho ordens que dar. Até já.

- Olhe, escute, insistia Rubião.

Sofia parou.

- Escute; deixe-me dizer-lhe, e não sei se pela última vez...

- Pela última vez?

- Quem sabe? Pode ser que última. Importa-me pouco que esse homem viva ou não, mas posso achá-lo aqui alguma vez, e não me sinto disposto a encará-lo.

- Há de encontrá-lo todos os dias. Cristiano ainda lhe não disse o que há? Vai casar com Maria Benedita.

Rubião deu um passo para trás.

- Casam-se, continuou ela. O fato é de admirar, porque surgiu quando menos contávamos com isto; - ou eram muito fingidos, - ou foi cousa que lhes deu de repente. Casam-se. Maria Benedita contou-me uma história, que me foi confirmada por outra pessoa; mas, afinal, a história é sempre a mesma. Gostaram um do outro, e adeus. Casam-se brevemente. Quando ele falou a Cristiano, Cristiano respondeu que dependia de mim... Como se fosse mãe dela! Consenti logo, e desejo que sejam felizes. Ele parece bom rapaz; ela é excelente criatura; hão de ser felizes, por força. E bom negócio, sabe? Ele está de posse de todos os bens do pai e da mãe. Maria Benedita, não tem nada, em dinheiro; mas tem a educação que lhe dei. Há de lembrar-se que, quando veio para minha companhia, era um bicho do mato; não sabia quase nada; fui eu que a eduquei. Minha tia merecia tudo, e ela também. Pois, é verdade, casam-se muito breve. Não os viu hoje sempre juntos? Não há ainda participação oficial; mas os íntimos da família podem saber. Casam-se, é verdade...

Para quem tinha tanta pressa, eis aí um discurso demasiado comprido. Sofia deu por isso um pouco tarde; repetiu a Rubião que até logo, que fosse para a sala. O piano acabara; ouvia-se um burburinho discreto de aplauso e conversação.

(Continua.)




15 de janeiro de 1890, nº 01


 

CXVI



Iam casar? Mas como é então que...? Maria Benedita, - era Maria Benedita que casava com Carlos Maria; mas então Carlos Maria... Compreendia agora; era tudo engano, confusão; o que parecia ser com uma pessoa era com outra, e aí está como a gente pode chegar à calúnia e ao crime.

assim reflexionava Rubião, saindo para a sala de jantar, onde os copeiros adereçavam a mesa da ceia. E continuou, andando ao comprido da sala: "- Ora vejam! E o Palha queria justamente casar-me com a prima, mal sabendo que o destino lhe guardava outro noivo. Não é feio rapaz; é muito mais bonito que ela. Ao pé de Sofia, Maria Benedita vale pouco ou nada; mas a simpatia é assim mesmo... Casam-se, e breve... Será de estrondo o casamento? Deve ser; o Palha vive agora um pouco melhor..." - e Rubião lançava os olhos aos móveis, porcelanas, cristais, reposteiros. "- Há de ser de estrondo. E depois o noivo é rico..." Rubião pensou na carruagem e nos cavalos que levaria; tinha visto uma parelha soberba, no Engenho Velho, dias antes, que estava mesmo ao pintar. Ia fazer a encomenda de outra assim, fosse por que preço fosse; tinha também de presentear a noiva. Ao pensar nela viu-a entrar na sala.

- Prima Sofia onde está? perguntou ela ao Rubião.

- Não sei; esteve aqui há pouco.

E, como a visse disposta a ir adiante, pediu-lhe uma palavra, e que se não zangasse. Maria Benedita esperou; ele, sem hesitação, deu-lhe os parabéns. Sabia que ia casar... Maria Benedita ficou muito vermelha, e murmurou alguma cousa parecida com um pedido de não divulgar nada. Não havia então nenhum criado ali; Rubião pegou-lhe na mão e fechou-a entre as suas.

- Eu sou da casa, disse; a senhora merece ser feliz, e espero que seja.

Um pouco assustada, Maria Benedita puxou a mão e libertou-a; mas, para o não aborrecer, sorriu. Não era preciso tanto; ele estava encantado. Sabemos que a moça não era bonita. Pois estava linda, à força de felicidade. A natureza parecia haver posto nela as suas mais finas ideias. Sorrindo igualmente, Rubião falou-lhe como se fosse seu pai:

- Foi sua prima que me disse; recomendou-me segredo. Não direi nada antes do tempo. Mas que tem que diga à senhora? A senhora é boa e merece tudo. Não é preciso esconder os olhos; casar não é vergonha. Vamos lá; levante a cabeça e ria.

Maria Benedita pôs nele os olhos radiantes.

- Isso! aplaudiu Rubião. Que mal há em confessar-se a um amigo? Deixe-me dizer-lhe a verdade; creio que a senhora será feliz, mas admito que ele ainda será mais feliz. Não? Verá se não falo verdade; ele mesmo lhe há de dizer o que sentir, e, se for sincero, a senhora reconhecerá que eu estou apenas profetizando. Bem sei que não tem balança para medir os sentimentos; enfim, o que eu quero dizer é que a senhora é uma linda e boa criatura... Vá, vá-se embora; se não, fico dizendo verdades, e a senhora está corando muito...

De fato, Maria Benedita corava de gosto ouvindo a linguagem de Rubião. Em casa, achara aquiescência, nada mais. O próprio Carlos Maria não era assim terno; gostava dela com circunspecção. Falava-lhe da felicidade conjugal, como de uma taxa que ia receber do destino, - pagamento devido, integral e certo. Também não era preciso que lhe falasse de outro modo, para que ela o adorasse sobre todas as cousas deste mundo. Rubião repetiu a despedida, e ficou a olhar para ela, como para uma filha. Viu-a ir assim, atravessar a sala, viva e satisfeita, - tão diversa do que a achara em outros tempos, e desaparecer por uma das portas. Não pôde reter esta palavra:

- Linda e boa criatura!


 

CXVII



A história do casamento de Maria Benedita é curta; e, posto Sofia a ache vulgar, vale a pena dizê-la. Bom é advertir que, se não fosse a epidemia das Alagoas, Maria Benedita não chegaria a casar jamais, pois a nenhum outro homem amaria; assim o pensava, ao menos. Não vamos, porém, tão longe; admitamos só que não casaria com ele, se não fosse a epidemia das Alagoas. Consequência: as catástrofes são úteis, e até necessárias. Os exemplos históricos são tais e tantos, que encheriam o resto do livro, sem proveito para o leitor, que os sabe de cor. Mas, caso ignore um contozinho que ouvi em criança, aqui lho dou em duas linhas. Ardia uma velha choupana na estrada; a dona, sentada, sobre uma pedra, chorava o desastre, sem forças para mais. Passa um homem ébrio, vê o incêndio, vê a mulher, pergunta-lhe se a casa era dela.

- É minha, sim, meu senhor; é tudo o que eu possuía neste mundo.

- Dá-me então licença que acenda ali o meu charuto?

O padre que me contou isto emendou o texto, com certeza, pois não é preciso estar embriagado, para acender um charuto nas misérias alheias. Bom padre Chagas! - Chamava-se Chagas. - Padre mais que bom, que assim me incutiste por muitos anos essa ideia consoladora, de que ninguém, em seu juízo, faz render o mal dos outros; não contando, esta outra: - o respeito que aquele bêbado tinha ao princípio da propriedade, - a ponto de não acender o charuto sem pedir licença à dona das ruínas. Tudo ideias consoladoras. Bom padre Chagas!


 

CXVIII



Mas vamos à história do casamento. Que Maria Benedita gostava de Carlos Maria, é cousa vista ou pressentida desde aquele baile da rua dos Arcos, em que ele e a prima valsaram tanto. Vimo-la na manhã seguinte prestes a ir para a roça; a prima apaziguou-a com a promessa de que lhe estava arranjando um noivo. Maria Benedita cuidou que era o valsista da véspera, e ficou esperando. Não lhe confessou nada, - por vergonha, a princípio, - e depois, por lhe não fazer perder o efeito da novidade, quando Sofia houvesse de descobrir o nome da pessoa. Se falasse desde logo, podia acontecer também que a outra afrouxasse na tarefa, e lá se perdia a causa. Não façamos caso disto; são pequenos cálculos de moça.

Ficou esperando. Carlos Maria não as visitava a miúdo; e, posto acabasse desmentindo as ilusões de Sofia, com esta é que despendia o melhor tempo. Falava pouco à outra, e de cousas mínimas e fúteis, não lhe supondo aptidão para mais; isso mesmo, porém, dito à sua maneira, trazia um cunho original. Tão certo é que a matéria vale menos que a arte daquele que a afeiçoa. Maria Benedita pouco dizia, raramente acabava as frases, aliás curtas; não travava diálogo. Trêmula e encantada, - deixava-se ir ao sabor da palavra dele, - sem alma para interrompê-la. Carlos Maria não percebeu o estado moral da moça. Concluiu até contra ela, porque a supôs insípida ou estúpida, Por fim, as visitas cessaram inteiramente.

(Continua.)




31 de janeiro de 1890, nº 02

CXVIII

(Continuação)

Sobreveio a epidemia das Alagoas. Sofia organizou a comissão, que trouxe novas relações à família Palha. Incluída entre as senhoras que formavam uma das subcomissões, Maria Benedita trabalhou com todas, mas granjeou em especial a estima de uma delas, D. Fernanda, esposa de um deputado. D. Fernanda tinha pouco mais de trinta anos, era jovial, expansiva, corada e robusta; nascera em Porto Alegre, casara com um bacharel das Alagoas, deputado agora por outra província, e, segundo corria, prestes a ser ministro de Estado. A naturalidade do marido foi o pretexto para metê-la na comissão; e bem acertado foi, porque ela pedia como quem manda, não tinha acanhamento nem admitia recusa. Maria Benedita era o contrário disso, acrescendo a tristeza que a abatia por esse tempo; mas foi justamente a disparidade que as prendeu. D. Fernanda possuía, em larga escala, a qualidade da simpatia; amava os fracos e os tristes, pela necessidade de os fazer ledos e corajosos. Contavam-se dela muitos atos de piedade com gentes e com bichos. Maria Benedita acolheu-se naturalmente às suas asas.

- A senhora que tem? perguntou-lhe um dia D. Fernanda. Quase nunca ri, anda sempre com os olhos espantados, pensando...

Maria Benedita respondeu que não tinha nada, que era o seu modo; e sorria dizendo isto, por simples condescendência. Falou também na perda da mãe, como uma das causas de suas melancolias. D. Fernanda entrou a levá-la a toda parte, a trazê-la para jantar, a dar-lhe lugar no camarote, se ia ao teatro; e graças a isso, e ao seu gênio galhofeiro, sacudiu da alma da moça os corvos aborrecidos que lá avoejavam. Costume e afeição depressa as fizeram íntimas. Não obstante, Maria Benedita continuou a calar o seu mistério.

Pouco antes dessas relações, logo ao chegar à capital, D. Fernanda recebeu a visita de Carlos Maria. Eram ainda parentes; não se viam desde dous ou três anos. Carlos Maria achou-a mais formosa ainda que dantes e talvez fosse verdade; concluiu que o ar do sul era feito para enrijar as pessoas, duplicar-lhe as graças, e prometeu ir lá acabar os seus dias.

- Vamos para lá, que lhe arranjarei casamento, disse ela. Conheço uma moça de Pelotas, que é um bijou, e só casa com moço da Corte.

- Comigo, naturalmente?

- Da Corte e de olhos grandes. Olhe que não estou brincando. É uma guasca de primeira ordem. Tenho aqui o retrato dela.

D. Fernanda abriu o álbum e mostrou o retrato da pessoa.

- Não é feia, concordou ele.

- Só?

- Sim, é bonita.

- Onde é que você bota os seus chinelos velhos, primo?

Carlos Maria sorriu sem responder; não gostou da expressão. Quis passar a outro assunto, mas D. Fernanda tornou ao casamento da amiga de Pelotas. Mirava o retrato, coloria-o de palavra, dizendo como eram os olhos, os cabelos, a tez: e depois fez uma pequena biografia de Sonora. Tinha este bonito nome. O padre que a batizou, hesitou em dar-lho, apesar do respeito e influência do pai da menina, rico estancieiro; mas, afinal cedeu, considerando que as virtudes da pessoa podiam levar o nome ao rol dos santos.

- Crê que ela vá ao rol dos santos? perguntou Carlos Maria.

- Se ela casar, com você, creio.

- Não me explica nada: casando com o diabo sucederá a mesma cousa, e com mais certeza, por causa do martírio. Santa Sonora, não é feio nome, responde bem ao sentido. Santa Sonora... Em todo caso, prima...

- Você tem raça de judeu; cale-se, interrompeu ela. Recusa então a minha guasca? continuou indo pôr o álbum no seu lugar.

- Não recuso; deixe-me ir indo com o meu celibato, que é meio caminho do céu.

D. Fernanda soltou uma gargalhada.

- Deus de misericórdia! Você acredita mesmo que vai para o céu?

- Já cá estou, há vinte minutos. Pois que é esta sala, tranquila, fresca, tão longe da gente que anda lá fora? Aqui conversamos os dous, sem ouvir blasfêmias, sem aturar espíritos aleijados, tísicos, escrofulosos, insuportáveis, o próprio inferno, em suma. Aqui é o céu, - ou um pedaço do céu; uma vez que nós cabemos nele, vale pelo infinito. Conversamos de Santa Sonora, de S. Carlos Maria e de Santa Fernanda, que, para contrastar com S. Gonçalo, fez-se casamenteira das moças. Onde é que há outro céu como este?

- Em Pelotas?

- Pelotas fica tão longe! suspirou ele estendendo as pernas e pondo os olhos no lustre da sala.

- Está bom, é só a primeira investida; darei outras, até você acabar de querer.

Carlos Maria sorriu e olhou para as borlas caídas do cordão de seda que ela trazia à cintura, atado por um laço frouxo; ou para ver as borlas, ou para notar a gentileza do corpo. Viu bem, ainda uma vez, que a prima era uma bela criatura. A plástica levou-lhe os olhos, - o respeito os desviou; mas, não foi só a amizade que o fez demorar ainda ali, e o trouxe novamente àquela casa. Carlos Maria amava a conversação das mulheres, tanto quanto, em geral, aborrecia a dos homens. Achava os homens declamadores, grosseiros, cansativos, pesados, frívolos, chulos, triviais. as mulheres, ao contrário, não eram grosseiras, nem declamadoras, nem pesadas. A vaidade nelas ficava bem, e alguns defeitos não lhes iam mal; tinham, ao demais, a graça e a meiguice do sexo. Das mais insignificantes, pensava ele, há sempre alguma cousa que extrair. Quando as achava insípidas, ou estúpidas, tinha para si que eram homens mal acabados.

Maria Benedita, que já lhe parecera aquelas duas cousas, não lhe deu outra impressão, quando a viu em casa de D. Fernanda. Entende-se, naturalmente, que ela, ao vê-lo, não ficou menos abalada nem menos encolhida... D. Fernanda conseguira modificá-la um pouco; mas não podia obstar a comoção que lhe dava a presença de Carlos Maria nem os seus motivos secretos. Um dia, acordou com a ideia de os casar. Era o modo, a seu ver, de tornar feliz a amiga.

- Você precisa casar, Maria Benedita, disse-lhe dali a dous dias, de manhã, na chácara, em Mata-cavalos; Maria Benedita tinha ido ao teatro com ela, e passara lá a noite. - Não quero estremecimentos; precisa casar e há de casar... Desde anteontem que estou para lhe dizer isto, mas estas cousas faladas em sala ou na rua, não têm poesia. Aqui na chácara é outra cousa. E se você tem ânimo de trepar comigo um pedaço do morro, então é que ficaremos bem. Vamos?

- Está fazendo calor...

- É mais poético, menina. Ah! carioca sem sangue! Vocês só têm água nas veias. Pois fiquemos aqui neste banco. Sente-se; assim, eu fico aqui ao pé, armada para tudo. Casa ou morre. Não me replique. Você não é feliz, - continuou mudando o tom; por mais que faça, eu vejo que você passa a vida sem gosto. Venha cá, diga-me com franqueza, tem inclinação a alguém? Se tem, confesse, que eu mando procurar a pessoa.

- Não tenho.

- Não? Pois é justamente o que nos serve. Não precisa pôr escritos no coração; conheço um bom inquilino.

Maria Benedita voltou-se de todo para ela, com os lábios entreabertos e os olhos escancarados. Parecia recear da proposta ou ansiar por ela. D. Fernanda, não atinando com o verdadeiro estado da amiga, pegou-lhe na mão primeiro, e pediu que lhe dissesse tudo. De força que amava a alguém, era claro, via-se-lhe nos olhos, cumpria confessar tudo, instava, rogava, - intimaria, se preciso fosse... A mão de Maria Benedita esfriara, os olhos cavavam o chão, e por alguns instantes, nem uma nem outra disse nada.

- Vamos, fale, repetia D. Fernanda.

- Não tenho que dizer, murmurava a outra.

D. Fernanda fazia gestos de incredulidade; apertava-a cada vez mais, passou-lhe a mão pela cintura, e ligou-a muito a si; disse-lhe baixinho, dentro do ouvido, que era como se fosse sua própria mãe. E beijava-a na face, na orelha, na nuca, encostava-lhe a cabeça ao ombro, acarinhava-a com a outra mão. Tudo, tudo, queria saber tudo. Se o namorado estava na lua, mandaria buscá-lo à lua, - fosse onde fosse, - exceto no cemitério; mas, se estivesse no cemitério, dar-lhe-ia outro muito melhor, que faria esquecer o primeiro em poucos dias. Maria Benedita ouvia agitada, palpitante, não sabendo por onde escapasse, - prestes a falar, e calando a tempo, como se defendesse o seu pudor. Não negava, não confessava, - mas, como também não sorria, e tremia de comoção, era fácil à outra adivinhar meia verdade, ao menos.

- Mas então não sou sua amiga, não tem confiança em mim? Faça de conta que sou sua mãe.

Maria Benedita pouco mais resistiu; gastara as forças e sentia a necessidade de revelar alguma cousa. D. Fernanda escutou-a comovida. O sol vinha já lambendo as cercanias do banco, não tardou que lhes trepasse aos sapatos, à barra dos vestidos e aos joelhos; mas nenhuma deu por ele. O amor as absorvia; a exposição de uma tinha para a outra um enlevo raro. Era uma paixão não sabida, não compartida, não adivinhada; paixão que ia perdendo de índole e de espécie para se converter em adoração pura. A princípio, quando ela via a pessoa amada, passava por dous estados mui diversos, - um que não podia definir, alvoroço, tonteira, pancadas no coração, quase um desmaio; o segundo era de contemplação. Agora era quase que só este. Tinha chorado muito, consigo, perdera noites e noites de saudades; pagou caro a ambição das suas esperanças. Mas não perderia nunca a certeza de que ele era superior a todos os demais homens, um ente divino, que, ainda não fazendo caso dela, mereceria sempre ser adorado.

(Continua.)




15 de fevereiro de 1890, nº 03

CXVIII

(Continuação)

- Bem, disse D. Fernanda, quando a outra se calou de todo. Vamos ao essencial, que é não ficar penando à toa. Não, queridinha, isto de adorar a um homem que não faz caso da gente, é poesia. Deixe-se de poesia. Olhe que só você perde no negócio, porque ele casa com outra, os anos passam, a paixão monta na garupa deles, e um dia, quando você menos pensar, acorda sem amor nem marido. E quem é esse bárbaro?

- Isso não digo, respondeu Maria Benedita, levantando-se do banco.

- Pois não diga, acudiu D. Fernanda, pegando-lhe nos pulsos e fazendo-a sentar nos seus joelhos. A questão principal é casar; não podendo ser com esse, será com outro.

- Não, não caso.

- Só com ele?

- Nem sei se com ele, respondeu Maria Benedita, depois de alguns instantes. Gosto dele, como gosto de Deus, que está no céu.

- Virgem Santíssima! Que blasfêmia! Duas blasfêmias, menina; a primeira é que não se deve amar a ninguém como a Deus, - a segunda é que um marido, ainda sendo mau, sempre é melhor que o melhor dos sonhos.


 

CXIX



"Um marido, ainda mau, é sempre melhor que o melhor dos sonhos."

A máxima não era idealista; a outra protestou contra ela. Pois não era melhor sonhar que chorar? Os sonhos acabam ou alteram-se, enquanto que os maus maridos podem viver muito. - "A senhora fala assim, concluiu Maria Benedita, porque Deus lhe destinou um anjo. Olhe, lá vem ele."

- Deixe estar que há de ter também o seu anjo; conheço um magnífico para você; todos os anjos me procuram.

Teófilo, marido de D. Fernanda, que as vira a distância, veio ter com elas; trazia na mão um diário amarrotado. Não saudou a hóspede; foi direito à mulher.

- Você quer saber o que me fizeram, Nanã? disse ele com os dentes cerrados. Saiu hoje o meu discurso do dia 5. Veja esta frase; eu tinha dito: Na dúvida abstém-te, é o conselho do sábio. E puseram: Na dívida abstém-te... É insuportável! Nota que tratava-se justamente de um crédito do ministério da Marinha, alegando-se no debate que muitas despesas estavam autorizadas. De modo que pode parecer chulice da minha parte; é como se aconselhasse o calote. Em todo caso, é disparate.

- Mas você não leu as provas?

- Li, mas o autor é o menos apto para as ler bem. Na dívida abstém-te, continuou ele com os olhos na folha. E bufando: - Isto só com...

Estava consternado. Era homem de talento, de gravidade e de trabalho; mas, naquele instante, todas as grandes obras, os mais temerosos problemas, as batalhas mais decisivas, as revoluções mais profundas, o sol e a lua, e todas as constelações, e todas as alimárias, e todas as gerações humanas, valiam menos que a troca de um u por um i. Maria Benedita olhava para ele sem entendê-lo. Cuidava padecer a maior tristura; mas ali estava outra tão grande como a sua, e muito mais aflitiva. assim, a melancolia roaz de uma pobre criatura era tanto como um erro tipográfico. Teófilo, que só então deu por ela, estendeu-lhe a mão; estava fria. Ninguém finge as mãos frias; devia padecer deveras. Instantes depois, atirou a folha ao chão, com um gesto violento, e foi-se embora.

- Mas, Teófilo, emenda-se amanhã, disse-lhe D. Fernanda, levantando-se.

Teófilo, sem voltar atrás, deu de ombros, desesperado. A mulher correu a ele; a outra seguiu-a espantada. Ficou só o banco, já agora livre delas, recebendo em cheio os raios do sol, que não ama nem faz discursos. D. Fernanda levou o marido para um gabinete, e, à força de beijos, consolou-o do erro tipográfico. Ao almoço, já ele sorria, ainda que de um sorriso pálido; a mulher, para desviá-lo da preocupação, falou do plano de casar Maria Benedita, e havia de ser com um deputado, se existia na câmara algum solteiro, qualquer que fosse a opinião. Podia ser governista, oposicionista, ambas as cousas, ou nada, - contanto que fosse marido. Sobre este tema fez algumas reflexões, vivas, lépidas, que encheram o tempo e destinavam-se a matar a lembrança do erro tipográfico. Pia criatura! Teófilo, entendendo a mulher, ia-se fazendo alegre, e falava também da conveniência de casar Maria Benedita.

- O pior, acudiu a mulher olhando para a amiga, é que ela ama a outro cujo nome não quer dizer.

- Nem é preciso, atalhou o marido enxugando os beiços; vê-se bem que ela gosta de teu primo.


 

CXX



No domingo seguinte, D. Fernanda foi à igreja de Santo Antônio dos Pobres, para ouvir missa. Acabada a missa, viu surgir do movimento dos fiéis que se cumprimentavam entre si, ou saudavam o altar, nada menos que o primo, ereto, risonho, estendendo-lhe a mão.

- Veio também à missa? perguntou espantada.

- Vim.

- Costuma ouvir missa?

- Nem sempre, mas ouço muitas vezes.

- Francamente, não esperava tanta devoção em você. Os homens são, em geral, uns ímpios. Teófilo não pisa na igreja, a não ser para batizar os filhos. Você então é religioso?

- Não posso responder com certeza; mas tenho horror à banalidade, que é dizer mal da religião. E basta; vim à missa, não vim confessar-me; agora vou conduzi-la à casa, e, se me oferecer almoço, almoçarei com vocês. Salvo se quiserem vir almoçar comigo; é nesta rua, como sabe.

- Iria eu só, se pudesse ser, para lhe dar uma notícia muito comprida.

- Vamos então devagar, disse Carlos Maria à porta da igreja, oferecendo-lhe o braço. E dous passos adiante. - Notícia importante?

- Importante e deliciosa.

- Querem ver que Deus, sempre misericordioso, vai levar para si o nosso querido Teófilo, deixando aqui ao desamparo a mais gentil de todas as viúvas... Não precisa fazer essa cara, prima; deixe estar o braço. Vamos à noticia. Chegou a moça de Pelotas, aposto?

- Não direi o que é, se você me não jurar ouvir seriamente.

- Seriamente.

D. Fernanda confessou-lhe que hesitava em casá-lo com a patrícia de Pelotas; não queria remorsos; descobrira aqui alguém que tinha ao primo um imenso amor. Carlos sorriu, iniciou um gracejo, mas a notícia esporeou-lhe o espírito. Imenso amor? Imenso amor, paixão violenta, confirmou a prima, acrescentando que talvez a definição já não coubesse bem ao atual sentimento da pessoa. Agora era uma adoração quieta e calada. Tinha chorado por ele noites e noites, enquanto as esperanças lhe duraram... E D. Fernanda foi assim repetindo a confidência de Maria Benedita. Restava só o nome; Carlos Maria quis sabê-lo, ela negou-lho. Não podia revelá-lo. Para que dar-lhe o gosto de saber quem era que o adorava, se não corria ao encontro da alma dela? Melhor era deixá-la no mistério. Já não chorava agora; modesta e desambiciosa, perdera as esperanças de ser amada, e, com o tempo ficou apenas uma devota, mas uma devota sem par, que nem sequer esperava ser ouvida ou agraciada um dia por um olhar benévolo do seu deus querido.

- Prima, você...

- Eu quê?...

Carlos Maria concluiu dizendo que a advogada era digna da causa. Realmente, se essa moça o adorava a tal ponto, era justo e natural que a prima se interessasse por ela com tanto calor. Mas por que não dizer o nome?

- Agora não digo; pode ser que algum dia... Mas, você compreende que me custaria muito casá-lo com a minha patrícia, sabendo que outra pessoa o ama tanto. E daí bem pode ser que esta de cá não padeça muito, se o vir casado. Sim, senhor, parece absurdo, mas é preciso conhecê-la; digo que, uma vez que você seja feliz, é capaz de abençoar a bela rival.

- Já não é romantismo, é misticismo, redarguiu Carlos Maria depois de alguns passos, com os olhos no chão. Não está nas cordas do nosso tempo. Tem alguma prova de semelhante estado de alma?

- Tenho... A sua casa é aquela, não? perguntou D. Fernanda parando.

- É.

- Bonito prédio, e sólido.

- Muito sólido.

- Uma, duas, três, quatro... Sete janelas. O salão vai de ponta a ponta? Bem bom para um baile.

E andando:

- Eu, se tivesse aqui uma casa maior que a minha, daria um grande baile, antes de voltar para o Rio Grande. Gosto de festas. Os meus dous filhos não me dão grande trabalho. A propósito, ando com ideia de meter o meu Lopo no colégio; onde acharei um bom colégio?

Carlos Maria pensava na devota incógnita. Estava longe, muito longe do ensino e seus estabelecimentos. Que bom que era sentir-se um deus adorado, e adorado à maneira evangélica, (S. MATEUS, VI, 6), metida a devota no aposento, fechada a porta, em secreto, não nas sinagogas, à vista de todos. "E teu pai que vê o que se passa em secreto te dará a paga." Oh! ele daria a paga se soubesse quem era. Casada, seria? Não, não podia ser, não iria confessá-lo a ninguém; viúva ou solteira, antes solteira. Cheirava-lhe a solteira. Em que aposento se fechava para rezar, para evocá-lo, chorá-lo e abençoá-lo? Já nem teimava pelo nome; mas o aposento, ao menos.

- Onde acharei um bom colégio? repetiu D. Fernanda.

- Colégio? Não sei; estou pensando na desconhecida. Compreende bem que uma pessoa que me adora, em silêncio, sem esperanças, é objeto de alguma atenção. Alta ou baixa?

- Maria Benedita.

Carlos Maria estacou o passo.

- Aquela moça...? Não é possível. Tenho-lhe falado muitas vezes, e nunca descobri nada. Achei-a sempre fria. Há de ser engano. Ouviu-lhe o meu nome?

- Não, por mais que lhe pedisse. Confessou o milagre, sem nomear o santo, mas que milagre! Gabe-se de ser adorado como ninguém... De quem é aquela casa?

- Você costuma exagerar as cousas, prima; pode não ser tanto. Adorado como ninguém? E de que modo soube que era eu?

- Teófilo foi o primeiro que descobriu; ela, dizendo-se-lhe isto, ficou como uma pitanga. Negou-o ainda depois, comigo; e desde esse dia não voltou lá a casa.

Tal foi o início dos amores. Carlos Maria folgou de se ver assim amado em silêncio, e toda a prevenção se converteu em simpatia. Começou a vê-la, saboreou a confusão da moça, os medos, a alegria, a modéstia, as atitudes quase implorativas, um composto de atos e sentimentos que eram a apoteose do homem amado. Tal foi o início, tal o desfecho. assim os vimos, naquela noite dos anos de D. Sofia, a quem ele dissera antes cousas tão doces. São assim os homens; as águas que passam, e os ventos que rugem não são outra cousa.

(Continua.)




28 de fevereiro de 1890, nº 04


 

CXXI



- Bem, vai casar, tanto melhor! pensou Rubião.

Entre aquela noite e o dia do casamento, Rubião apanhou o olhar de Sofia, cinco ou seis vezes, em flagrante delito de tentação, sendo que uma só vez lhe correspondeu Carlos Maria. Rubião examinou consigo o fato e achou-o fortuito; lembrava-se ainda da lágrima que Sofia vertera, na noite dos anos, quando lhe explicou a história da carta.

Oh! boa lágrima inesperada! Tu, que bastaste a persuadir um homem, podes não ser explicável a outros, e assim vai o mundo. Que importa que os olhos não fossem costumados ao choro, nem que a noite parecesse exaltar sentimentos mui diversos da melancolia? Rubião a viu cair; ainda agora a vê de memória. Mas a confiança de Rubião não vinha só da lágrima, vinha também da presente Sofia, que nunca fora tão solícita nem tão dada com ele. Parecia arrependida de todo o mal causado, prestes a saná-lo, ou por afeição tardia, ou pelo próprio malogro da primeira aventura. Há delitos virtuais, que dormem. Há óperas remissas na cabeça de um maestro, que só esperam os primeiros compassos da inspiração.


 

CXXII



- Ainda bem que se casa! repetiu o Rubião.

Não se demorou o casamento: três semanas. Na manhã do dia aprazado, Carlos Maria abriu os olhos com algum espanto. Era ele mesmo que ia casar? Não havia dúvida; mirou-se ao espelho, era ele. Relembrou os últimos dias, a marcha rápida dos sucessos, a realidade da afeição que tinha à noiva, e, enfim, a felicidade pura que lhe ia dar. Esta derradeira ideia enchia-o de grande e rara satisfação. Ia-as ruminando ainda, a cavalo, no passeio habitual da manhã; desta vez escolhera o bairro do Engenho Velho.

Posto se achasse costumado aos olhos admirativos, via agora em toda a gente alguma cousa parecida com a notícia de que ele ia casar. as casuarinas de uma chácara, quietas antes que ele passasse por elas, disseram-lhe cousas mui particulares, que os levianos atribuiriam à aragem que passava também, mas que os sapientes reconheceriam ser nada menos que a linguagem nupcial das casuarinas. Pássaros saltavam de um lado para outro, pipilando um madrigal. Um casal de borboletas, - que os japões têm por símbolo da fidelidade por observarem que, se pousam de flor em flor, andavam quase sempre aos pares, - um casal delas acompanhou por muito tempo o passo do cavalo, indo pela cerca de uma chácara que beirava o caminho, volteando aqui e ali, lépidas e amarelas. De envolta com isto, um ar fresco, céu azul, caras alegres de homens montados em burros, pescoços estendidos pela janela fora das diligências, para vê-lo e ao seu garbo de noivo. Certo, era difícil crer que todos aqueles gestos e atitudes dos homens e das cousas, exprimissem outro sentimento que não fosse a homenagem nupcial da natureza.

As borboletas perderam-se em uma das moitas mais densas da cerca. Seguiu-se outra chácara, despida de árvores, portão aberto, e ao fundo, fronteando com o portão, uma casa velha, que encarquilhava os olhos sob a forma de cinco janelas de peitoril, cansadas de chorar moradores. Também eles tinham visto bodas e festins; o século já os achou verdes de novidade e fortes de esperança.

Não cuideis que esse aspecto abalou a alma do cavaleiro. Ao contrário, ele possuía o dom particular de remoçar as ruínas e viver da vida primitiva das cousas. Gostou até de ver a casa velhusca, desbotada, em contraste com as borboletas tão vivas de há pouco. Parou o cavalo; evocou as mulheres que por ali entraram, outras galas, outros rostos, outras maneiras. Porventura as próprias sombras das pessoas felizes e extintas vinham agora cumprimentá-lo também, dizendo-lhe pela boca invisível todas as cousas sublimes que pensavam dele. Chegou a ouvi-las e sorrir. Mas uma voz estrídula veio mesclar-se ao concerto: - um papagaio, em gaiola pendente da parede externa da casa: "Papagaio real, para Portugal; quem passa? Curruspá, cupapá, Grrrr... Grrrrr..." as sombras fugiram, o cavalo foi andando. Carlos Maria aborrecia o papagaio, como aborrecia o macaco, duas contrafacções da pessoa humana, dizia ele.

- A felicidade que eu lhe der será assim também interrompida? reflexionou ele andando.

Cambaxirras voaram de um para outro lado da rua, e pousaram cantando a sua fala própria; foi uma reparação. Essa língua sem palavras era inteligível, dizia uma porção de cousas claras e belas. Carlos Maria chegou a ver naquilo um símbolo de si mesmo. Quando a mulher, aturdida dos papagaios do mundo, viesse caindo de fastio, ele a faria erguer aos trilos da passarada divina, que trazia em si, ideias de ouro ditas por uma voz de ouro. Oh! como a tornaria feliz! Já a antevia ajoelhada, com os braços postos nos seus joelhos, a cabeça nas mãos e os olhos nele, gratos, devotos, amorosos, toda implorativa, toda nada.


 

CXXIII



Ora bem, aquele quadro, na mesma hora em que aparecia aos olhos da imaginação do noivo, reproduzia-se no espírito da noiva, tal qual. Maria Benedita, posta à janela, fitando as ondas que se quebravam ao sopé da fortaleza de Villegagnon, via-se a si mesma, ajoelhada aos pés do marido, quieta, contrita, como à mesa da comunhão para receber a hóstia da felicidade. E dizia consigo: "Oh! como ele me fará feliz!" Frase e pensamento eram outros, mas a atitude e a hora eram as mesmas.


 

CXXIV



Casaram-se; três meses depois foram para a Europa. Ao despedir-se deles, D. Fernanda estava tão alegre como se viesse recebê-los de volta; não chorava. O prazer de os ver felizes era maior que o desgosto da separação.

- Você é feliz? perguntou a Maria Benedita, pela última vez, junto à amurada do paquete.

- Oh! muito!

A alma de D. Fernanda debruçou-se-lhe dos olhos, fresca, ingênua, cantando um trecho italiano, - porque a soberba guasca preferia a música italiana, - talvez esta ária da Lucia: O' bell'alma innamorata. Ou este pedaço do Barbeiro:


                       

Ecco ridente in cielo

Già spunta la bela aurora.



 

CXXV



Sofia não foi a bordo, adoeceu e mandou o marido. Não vão crer que era pesar nem dor; por ocasião do casamento, houve-se com grande discrição, cuidou do enxoval da noiva e despediu-se dela com muitos beijos chorados. Mas ir a bordo pareceu-lhe vergonha. Adoeceu; e, para não desmentir do pretexto, deixou-se estar no quarto. Pegou de um romance recente; fora-lhe dado pelo Rubião; era também dele o peignoir que trazia. Outras cousas ali lhe lembravam o mesmo homem, bibelots de toda a sorte, sem contar joias guardadas, e um castiçalzinho de bronze, posto no toucador para enfeite. Finalmente, uma singular palavra que lhe ouvira, na noite do casamento da prima, até essa veio ali para o inventário das recordações do nosso amigo.

- A senhora é já a rainha de todas, disse-lhe ele em voz baixa; espere que ainda a farei imperatriz.

Sofia não pôde entender esta frase enigmática. Quis supor que era uma aliciação de grandeza para torná-la sua amante; mas a vaidade que essa ideia trazia fê-la excluir desde logo. Rubião, posto não fosse agora o mesmo homem encolhido e tímido de outros tempos, não se mostrava tão cheio de si que lhe pudesse atribuir tão alta presunção. Mas que era então a frase? Talvez um modo incorreto de dizer que a amaria ainda mais, ou, quem sabe? que se sacrificaria por ela. Sofia acreditava possível tudo. Não lhe faltavam galanteios; chegou a ter aquela declaração positiva de Carlos Maria nos próprios e claros termos de amador resoluto. Todos esses bens, como simples folhas de antanho, foram-se com o seu trimestre de sazão, que era muita vez uma semana ou uma noite. Rubião ficara igual a si mesmo. Tinha pausas, filhas de suspeitas; mas as suspeitas iam como vinham.

"Il mérite d`être aimé" leu Sofia na página aberta do romance, quando ia continuar a leitura; fechou o livro, fechou os olhos, e perdeu-se em si mesma. A escrava que entrou daí a pouco, trazendo-lhe um caldo, supôs que a senhora dormia e retirou-se pé ante pé.

(Continua.)




15 de março de 1890, nº 05

Não há capítulo CXXVI, sem dúvida por erro.


 

CXXVII



Entretanto, Rubião e Palha desciam do paquete para a lancha e tornavam ao cais Pharoux. Vinham cuidosos e calados. Palha foi o primeiro que abriu a boca:

- Ando há tempos para dizer-lhe uma cousa importante, Rubião.


 

CXXVIII



Rubião acordou. Era a primeira vez que ia a um paquete. Voltava com a alma cheia dos rumores de bordo, a lufa-lufa das gentes que entravam e saíam, nacionais, estrangeiros, estes de vária casta, franceses, ingleses, alemães, argentinos, italianos, uma confusão de línguas, um cafarnaum de chapéus, de malas, cordoalha, sofás, binóculos a tiracolo, homens que desciam ou subiam por escadas para dentro do navio, mulheres chorosas, outras curiosas, outras cheias de riso, e muitas que traziam de terra flores ou frutas, - tudo aspectos novos. Ao longe, a barra por onde tinha de ir o paquete. Para lá da barra, o mar imenso, o céu fechado e a solidão. Rubião renovou os sonhos do mundo antigo, criou uma Atlântida, sem nada saber da tradição. Não tendo noções de geografia, formava uma ideia confusa dos outros países, e a imaginação rodeava-os de um nimbo misterioso. Como não lhe custava viajar assim, navegou de cor algum tempo, naquele vapor alto e comprido, sem enjoo, sem vagas, sem ventos, sem nuvens.


 

CXXIX



- A mim? perguntou Rubião de alguns segundos.

- A você, confirmou o Palha. Devia tê-la dito há mais tempo, mas estas histórias de casamento, de comissão das Alagoas, etc., atrapalharam-me, e não tive ocasião; agora, porém, antes do almoço... Você almoça comigo.

- Sim, mas que é?

- Uma cousa importante.

Dizendo isto, tirou um cigarro, abriu-o, desfiou o fumo com os dedos, enrolou a palha outra vez, e riscou um fósforo, mas o vento apagou o fósforo. Então pediu ao Rubião que lhe fizesse o favor de segurar o chapéu, para poder acender outro. Rubião obedeceu impaciente. Era isto mesmo que o sócio queria. Pelo tempo decorrido entre o anúncio e a notícia, metia-lhe susto, fá-lo-ia esperar uma revelação mui diversa da realidade, de jeito que a realidade seria um benefício. Puxadas duas fumaças:

- Estou com meu plano de liquidar o negócio; falaram-me aí para uma casa bancária, lugar de diretor, e creio que aceito.

- Pois sim; liquidar já?

- Não, lá para o fim do ano que vem.

- E é preciso liquidar?

- Cá para mim, é. Se a história do banco não fosse segura, não me animaria a perder o certo pelo duvidoso; mas é seguríssima.

- Então no fim do ano que vem soltamos os laços que nos prendem...

Palha tossiu.

- Não, antes, no fim deste ano.

Rubião não entendeu; mas o sócio explicou-lhe que era útil desligarem já a sociedade, afim de que ele sozinho liquidasse a casa. O banco podia organizar-se mais cedo ou mais tarde; e para que sujeitar o outro às exigências da ocasião? Demais, o Dr. Camacho afirmava que, em breve, Rubião estaria na câmara, e que a queda do Itaboraí era certa.

- Seja o que for, concluiu; é sempre melhor desligarmos a sociedade com tempo. Você não vive do comércio; entrou com o capital necessário ao negócio, - como podia dá-lo a outro ou guardá-lo.

- Pois sim, não tenho dúvida, concordou o Rubião.

E depois de alguns instantes:

- Mas diga-me uma cousa, essa proposta traz algum motivo oculto? é rompimento de pessoas, de amizade... Seja franco, diga tudo...

- Que caraminhola é essa? redarguiu o Palha. Separação de amizade, de pessoas... Mas você está tonto. Isto é do balanço do mar. Pois eu, que tenho trabalhado tanto por você, eu que o faço amigo dos meus amigos, que o trato como um parente, como um irmão, havia de brigar à toa? Aquele mesmo casamento de Maria Benedita com o Carlos Maria devia ser com você, bem sabe, se não fosse a sua recusa. A gente pode romper um laço sem romper os outros. O contrário seria despropósito. Então todos os amigos de sociedade ou de família são sócios de comércio? E os que não forem comerciantes?

Rubião achou excelente a razão, e quis abraçar o Palha. Este apertou-lhe a mão satisfeitíssimo; ia ver-se livre de um sócio, cuja prodigalidade crescente podia trazer-lhe algum perigo. A casa estava sólida; era fácil entregar ao Rubião a parte que lhe pertencesse, menos as dívidas pessoais e anteriores. Restavam ainda algumas daquelas que o Palha confessou à mulher, na noite de Sta. Teresa, cap. L. Pouco tinha pago; geralmente era o Rubião que abanava as orelhas ao assunto. Um dia, o Palha, querendo dar-lhe à força algum dinheiro, repetiu o velho provérbio: "Paga o que deves, vê o que te fica". Mas o Rubião, gracejando:

- Pois não pagues, e vê se te não fica ainda mais.

- É boa! redarguiu o Palha rindo e guardando o dinheiro no bolso.


 

CXXX



Não havia banco, nem lugar de diretor, nem liquidação; mas, como justificaria o Palha a proposta de separação, dizendo a pura verdade? Daí a invenção, tanto mais pronta, quanto o Palha tinha amor aos bancos, e morria por um. A carreira daquele homem era agora, mais do que nunca, próspera e vistosa. O negócio corria-lhe largo; um dos motivos da separação era justamente não ter que dividir com outro os lucros futuros. Palha, além do mais, possuía ações de toda a parte, apólices de ouro do empréstimo Itaboraí, e fizera uns dous fornecimentos para a guerra, de sociedade com um poderoso, nos quais ganhou muito. Já trazia apalavrado um arquiteto para lhe construir um palacete. Vagamente pensava em baronato.


 

CXXXI



- Quem diria que a gente do Palha nos trataria deste modo? Já não valemos nada. Escusa de os defender...

- Mas não defendo, explico; há de ter havido confusão.

- Fazer anos, casar a prima, e nem um triste convite ao major, ao grande major, ao impagável major, ao velho amigo major. Eram os nomes que me davam; eu era impagável, amigo velho, grande e outros nomes. Agora, nada, nem um triste convite, um recado de boca, ao menos, por um moleque: "Nhanhã faz anos, ou casa a prima, diz que a casa está às suas ordens, e que vão com luxo." Não iríamos: luxo não é para nós. Mas era alguma cousa, era recado, um moleque, ao impagável major...

- Papai!

Rubião, vendo a intervenção de D. Tonica, animou-se a defender longamente a família Palha. Era em casa do major, não já na rua Dous de Dezembro, mas na dos Barbonos, modesto sobradinho. Rubião passava, ele estava à janela, e chamou-o. D. Tonica não teve tempo de sair da sala, para dar, ao menos, uma vista d`olhos ao espelho; mal pôde passar a mão pelo cabelo, compor o lenço ao pescoço e descer o vestido para cobrir os sapatos, que não eram novos.

- Digo-lhe que pode ter havido confusão, insistiu Rubião; tudo anda por lá muito atrapalhado com esta comissão das Alagoas.

- Lembra bem, interrompeu o major Siqueira; por que não meter a minha filha na comissão das Alagoas? Qual! Há muito que reparo nisto; antigamente não se fazia festa sem nós. Nós éramos a alma de tudo. De certo tempo para cá começou a mudança; entraram a receber-nos friamente, e o marido, se pode esquivar-se, não me fala na rua. Isto começou há tempos; mas antes disso sem nós é que não se fazia nada. Que está o senhor a falar de confusão? Pois se na véspera dos anos dela, já desconfiando que não nos convidariam, fui ter com ele ao armazém. Poucas palavras, por mais que lhe perguntasse por D. Sofia; disfarçava. Afinal disse-lhe assim: "Ontem, lá em casa, eu e Tonica estivemos discutindo sobre a data dos anos de D. Sofia: ela dizia que tinha passado, eu disse que não, que era hoje ou amanhã." Não me respondeu, fingiu que estava absorvido em uma conta, chamou o guarda-livros, e pediu explicações. Eu entendi o bicho, e repeti a história; fez a mesma cousa. Saí. Ora o Palha, um pé-rapado! Já o envergonho. Antigamente: major, um brinde. Eu fazia muitos brindes, tinha certo desembaraço. Jogávamos o voltarete. Agora está nas grandezas; anda com gente fina. Ah! vaidades deste mundo! Pois não vi outro dia a mulher dele, num coupé, com outra? A Sofia de coupé! Fingiu que me não via, mas arranjou os olhos de modo que percebesse se eu a via, se a admirava. Vaidades desta vida! Quem nunca comeu azeite, quando come se lambuza.

- Perdão, mas os trabalhos da comissão exigem certo aparato.

- Sim, acudiu Siqueira, é por isso que minha filha não entrou na comissão; é para não estragar as carruagens...

- Demais, o coupé podia ser da outra senhora que ia com ela.

O major deu dous passos, com as mãos atrás e parou diante de Rubião.

- Da outra... ou do padre Mendes. Como vai o padre? Boa vida, naturalmente.

- Mas, papai, pode não haver nada, interrompeu D. Tonica. Ela sempre me trata bem, e quando estive doente no mês passado, mandou saber pelo moleque, duas vezes...

- Pelo moleque! bradou o pai. Pelo moleque. Grande favor! "Moleque, vai ali à casa daquele reformado e pergunta-lhe se a filha tem passado melhor; não vou, porque estou lustrando as unhas!" Grande favor! Tu não lustras as unhas! tu trabalhas! Tu és digna filha minha! pobre, mas honesta!

Aqui o major chorou, mas suspendeu de repente as lágrimas. A filha, comovida, sentiu-se também vexada. Certo, a casa dizia a pobreza da família, poucas cadeiras, uma mesa redonda velha, um canapé gasto; nas paredes duas litografias encaixilhadas em pinho pintado de preto, um era o retrato do major em 1857, a outra representava o Veronês em Veneza, comprado na rua do Senhor dos Passos. Mas o trabalho da filha transparecia em tudo; os móveis reluziam de asseio, a mesa tinha um pano de crivo, feito por ela, o canapé, uma almofada. E era falso que D. Tonica não lustrasse as unhas; não teria o pó nem a escova, mas acudia-lhes com um retalho de pano todas as manhãs.

(Continua.)




31 de março de 1890, nº 06


 

CXXXII (i)



Rubião tratou-os com simpatia. Não continuou a defender a gente Palha, para não desesperar o major, e falou do exército. Pouco depois, despediu-se, prometendo, sem convite, que lá iria jantar "um dia destes".

- Jantar de pobre, acudiu o major; se puder avisar, avise.

- Não quero banquetes; virei quando me der na cabeça.

Despediu-se. D. Tonica, depois de ir até o patamar, sem chegar à frente por causa dos sapatos, foi à janela para vê-lo sair, e acompanhá-lo com os olhos.


 

CXXXII (ii)



Logo que Rubião dobrou a esquina da rua das Mangueiras, D. Tonica entrou e foi ao pai, que se estendera no canapé, para reler o velho Saint-Clair das ilhas ou os desterrados da ilha da Barra. Foi o primeiro romance que conheceu; o exemplar tinha mais de vinte anos; era toda a biblioteca do pai e da filha. Siqueira abriu o primeiro volume, e deitou os olhos ao começo do cap. II, que já trazia de cor. Achava-lhe agora um sabor particular, por motivo dos seus recentes desgostos: "Enchei bem os vossos copos, exclamou Saint-Clair, e bebamos de uma vez; eis o brinde que vos proponho. À saúde dos bons e valentes oprimidos, e ao castigo dos seus opressores. Todos acompanharam Saint-Clair, e foi de roda a saúde."

- Sabe de uma cousa, papai? Papai compra amanhã latas de conserva, petit-pois, peixe, etc. e ficam guardadas. No dia em que ele aparecer para jantar, põe-se no fogo, aquilo cozinha depressa, e daremos um jantarzinho melhor.

- Mas eu só tenho o dinheiro do teu vestido.

- O meu vestido? Compra-se no mês que vem, ou no outro. Eu espero.

- Mas não ficou ajustado?

- Desajusta-se; eu espero.

- E se não houver outro do mesmo preço?

- Há de haver; eu espero, papai.


 

CXXXIII



Ainda não disse, - porque os capítulos atropelam-se debaixo da pena, - mas aqui está um para dizer que, por aquele tempo, as relações de Rubião tinham crescido em número. Camacho pusera-o em contato com alguns homens políticos, a comissão das Alagoas com várias senhoras, os bancos e companhias com pessoas do comércio e da praça, os teatros com muitos frequentadores e a rua do Ouvidor com toda a gente. Já então era um nome repetido. Conhecia-se o homem. Quando apareciam as barbas e o par de bigodes longos, uma sobrecasaca bem justa, um peito largo, bengala de unicórnio, e um andar firme e senhor, dizia-se logo que era o Rubião, - um ricaço de Minas.

Tinham-lhe feito uma lenda. Diziam-no discípulo de um grande filósofo, que lhe legara imensos bens, - um, três, cinco mil contos. Estranhavam alguns que ele não falasse nunca de filosofia, mas a lenda explicava esse silêncio pelo próprio método filosófico do mestre, que consistia em estudar e ensinar aos homens de boa vontade. Onde estavam esses discípulos? Iam à casa dele, todos os dias, - alguns duas vezes, de manhã e de tarde; e assim ficavam definidos os comensais. Não seriam discípulos, mas eram de boa vontade. Roíam fome, à espera, e ouviam calados e risonhos os discursos do anfitrião. Entre os antigos e os novos (cresciam em número), houve tal ou qual rivalidade, que os antigos acentuaram bem, mostrando maior intimidade, dando ordens aos criados, pedindo charutos, indo ao interior, assobiando, etc. Mas o costume os fez suportáveis entre si, e todos acabaram na doce e comum confissão das qualidades do dono da casa. Ao cabo de algum tempo, também os novos lhe deviam dinheiro, ou em espécie, - ou em fiança no alfaiate, ou endosso de letras, que ele pagava às escondidas, para não vexar os devedores.

Quincas Borba andava ao colo de todos. Davam estalinhos, para vê-lo saltar, alguns iam até a beijar-lhe a testa; um deles, mais hábil, achou modo de o ter à mesa, ao jantar ou almoço, sobre as pernas, para lhe dar migalhas de pão.

- Ah! isso não! protestou Rubião à primeira vez.

- Que tem? retorquiu o comensal. Não há pessoas estranhas.

Rubião refletiu um instante.

- Verdade é que está aí dentro um grande homem, disse ele.

- O filósofo, o outro Quincas Borba, continuou o conviva, circulando o olhar pelos novatos, para mostrar a antiguidade das relações entre ele e Rubião; mas, não logrou sozinho a vantagem, porque os outros amigos da mesma era, repetiram, em coro:

- É verdade, o filósofo.

E Rubião explicou aos novatos a alusão ao filósofo, e a razão do nome do cão, que todos lhe atribuíam. Quincas Borba (o defunto) foi descrito e narrado como um dos maiores homens do tempo, - superior aos seus patrícios. Grande filósofo, grande alma, grande amigo. E no fim, depois de algum silêncio, batendo com os dedos do rebordo da mesa, Rubião exclamou:

- Eu o faria ministro de Estado!

Um dos convivas exclamou, sem convicção, por simples ofício:

- Oh! sem dúvida!

Nenhum daqueles homens sabia, entretanto, o sacrifício que lhes fazia o Rubião. Recusava jantares, passeios, interrompia conversações aprazíveis, só para correr a casa e jantar com eles. Um dia achou meio de conciliar tudo. Não estando ele em casa às seis horas em ponto, os criados deviam pôr o jantar para os amigos. Houve protestos; não, senhor, esperariam até sete ou oito horas. Um jantar sem ele não tinha graça.

- Mas é que posso não vir, explicou Rubião.

Assim se cumpriu. Os convivas ajustaram bem os relógios pelos da casa de Botafogo. Davam seis horas, todos à mesa. Nos dous primeiros dias houve tal ou qual hesitação; mas os criados tinham ordens severas. Às vezes, Rubião chegava pouco depois. Eram então risos, ditos, intrigas alegres. Um queria esperar, mas os outros... Os outros desmentiam o primeiro; ao contrário foi este que os arrastou, tal fome trazia, - a ponto que, se alguma cousa restava, eram os pratos. E Rubião ria com todos.


 

CXXXIV



Fazer um capítulo só para dizer que, a princípio, os convivas, ausente o Rubião, fumavam os próprios charutos, depois do jantar, - parecerá frívolo aos frívolos; mas os considerados dirão que algum interesse haverá nesta circunstância em aparência mínima.

De feito, uma noite, um dos mais antigos lembrou-se de ir ao gabinete de Rubião; lá fora algumas vezes, ali se guardavam as caixas de charutos, não quatro nem cinco, mas vinte e trinta de várias fábricas e tamanhos, muitas abertas. Um criado (o espanhol) acendeu o gás. Os outros convivas seguiram o primeiro, escolheram charutos e os que ainda não conheciam o gabinete admiraram os móveis bem feitos e bem dispostos. A secretária captou as admirações gerais; era de ébano, um primor de talha, obra severa e forte. Uma novidade os esperava: dous bustos de mármore, postos sobre ela, os dous Napoleões, o primeiro e o terceiro.

- Quando veio isto?

- Hoje ao meio dia, respondeu o criado.

Dois bustos magníficos. Ao pé do olhar aquilino do tio, perdia-se no vago o olhar cismático do sobrinho. Contou o criado que o amo, apenas recebidos e colocados os bustos, deixara-se estar grande espaço em admiração, tão deslembrado do mais, que ele pôde mirá-los também, sem admirá-los. - No me dicen nada estos dos pícaros, concluiu o criado fazendo um gesto largo e nobre.


 

CXXXV



Rubião fazia empréstimos anônimos. Livros que lhe eram dedicados, entravam para o prelo com a garantia de duzentos e trezentos exemplares, porque o nosso amigo, senão sabia a arte, não a desestimava. Tinha diplomas e diplomas de sociedades literárias, coreográficas, pias, e era juntamente sócio de uma Congregação Católica e de um Grêmio Protestante, sem se lembrar de um quando lhe falaram do outro; o que fazia era pagar regularmente as mensalidades de ambos. assinava jornais sem os ler. Um dia, ao pagar o semestre de um, que lhe haviam mandado, é que soube, pelo cobrador, que a folha defendia o governo; mandou o cobrador ao diabo.


 

CXXXVI



O cobrador não foi ao diabo; recebeu o preço do semestre, e, como possuía a observação natural dos cobradores, resmungou na rua:

- Ora aqui está um homem que detesta a folha e paga. Quantos a adoram e não pagam!

(Continua.)




15 de abril de 1890, nº 07


 

CXXXVII



Mas - ó lance da fortuna! ó equidade da natureza! - os desperdícios do nosso amigo, se não tinham remédio, tinham compensação. Já o tempo não passava por ele como por um vadio sem ideias. Rubião, à falta de ideias, tinha agora imaginação. Outrora vivia mais dos outros que de si, não achava equilíbrio interior, e o ócio esticava as horas, que não acabavam mais. Tudo ia mudando; agora a imaginação, que, a relâmpagos, lhe aparecia ultimamente, tendia a pousar um pouco. Sentado na loja do Bernardo, gastava toda uma manhã, sem que o tempo lhe trouxesse fadiga, nem a estreiteza da rua do Ouvidor lhe tapasse o espaço. Repetiam-se as visões deliciosas, como as das bodas (Cap. LXXXI) em termos a que a grandeza não tirava a graça. Houve quem o visse, mais de uma vez, saltar da cadeira e ir até à porta ver bem pelas costas alguma pessoa que passava. Conhecê-la-ia? Ou seria alguém que, casualmente, tinha as feições da criatura imaginária que ele estivera mirando? São perguntas demais para um só capítulo; basta dizer que uma dessas vezes nem passou ninguém, ele próprio reconheceu a ilusão, voltou para dentro, comprou uma teteia de bronze para dar à filha do Camacho, que fazia anos, e ia casar em breve, e saiu.


 

CXXXVIII



E Sofia? interroga impaciente a leitora, tal qual Orgon: Et Tartuffe? Ai, amiga minha, a resposta é naturalmente a mesma, - também ela comia bem, dormia largo e fofo, - cousas que, aliás, não impedem que uma pessoa ame, quando quer amar. Se esta última reflexão é o motivo secreto da vossa pergunta, deixai que vos diga que sois muito indiscreta, e que eu não me quero senão com dissimulados.

Repito, comia bem, dormia largo e fofo. Chegara ao fim da comissão das Alagoas, com elogios da imprensa; a Atalaia chamou-lhe "o anjo da consolação". E não se pense que este nome a alegrou, posto que a lisonjeasse; ao contrário, resumindo em Sofia toda a ação da caridade, podia mortificar as novas amigas, e fazer-lhe perder em um dia o trabalho de longos meses. assim se explica o artigo que a mesma folha trouxe no número seguinte, nomeando, particularmente e glorificando as outras comissárias - "estrelas de primeira grandeza".

Nem todas as relações subsistiram, mas a maior parte delas estavam atadas, e não faltava à nossa dona o talento de as tornar definitivas. O marido é que pecava por turbulento, excessivo, derramado, dando bem a ver que o cumulavam de favores, que recebia finezas inesperadas e quase imerecidas. Sofia, para emendá-lo, vexava-o com censuras e conselhos, rindo:

- "Você esteve hoje insuportável; parecia um criado".

- "Cristiano, fique mais senhor de si, quando tivermos gente de fora, não se ponha com os olhos fora da cara, saltando de um lado para outro, assim com ar de criança que recebe doce..."

Ele negava, explicava ou justificava-se; afinal, concluía que sim, que era preciso não parecer estar abaixo dos obséquios; cortesia, afabilidade, mais nada...

- Justo, mas não ias cair no extremo oposto, acudiu Sofia; não vás ficar casmurro...

Palha era então as duas cousas; casmurro, a princípio, frio, quase desdenhoso, falando pouco, apenas respondendo. Mas, ou a reflexão, ou o impulso inconsciente, restituía ao nosso homem a animação habitual, e com ela, segundo o momento, a demasia e o estrépito. Sofia é que, em verdade, corrigia tudo. Observava, imitava. Necessidade e vocação fizeram-lhe adquirir, aos poucos, o que não trouxera do nascimento nem da fortuna. E tanto assimilava como atraía. Ao demais, estava naquela idade média em que as mulheres inspiram igual confiança às sinhazinhas de vinte e às sinhás de quarenta. Algumas morriam por ela; muitas a cumulavam de louvores.

Foi assim que a nossa amiga, pouco a pouco, trocou de atmosfera. Cortou as relações antigas, familiares, algumas tão íntimas que dificilmente se poderiam dissolver; mas a arte de receber sem calor, ouvir sem interesse e despedir-se sem saudade, não era das suas menores prendas; e uma por uma, se foram indo as pobres criaturas modestas, sem maneiras, nem vestidos, amizades de pequena monta, de pagodes caseiros, de hábitos singelos e sem elevação. Com os homens das velhas relações, fazia exatamente o que o major contara, quando eles a viam passar de carruagem, - que era sua, - entre parêntesis. A diferença é que já nem os espreitava para descobrir se a viam e se a invejavam. Passara a lua de mel da grandeza; agora torcia os olhos duramente para outro lado, conjurando, de um gesto definitivo, o perigo de alguma hesitação. Punha assim os velhos amigos na obrigação de lhe não tirarem o chapéu. Como eram poucos, foi breve a empresa.

(Continua.)



Quincas Borba não foi publicado no número de 30 de abril de 1890, nº 08.




15 de maio de 1890, nº 09


 

CXXXIX



Rubião ainda quis valer ao major, mas o ar de fastio com que Sofia o interrompeu foi tal, que o nosso amigo preferiu perguntar-lhe se, não chovendo na seguinte manhã, iriam sempre passear à Tijuca.

- Já falei a Cristiano; disse-me que tem um negócio, que fique para domingo que vem.

Rubião, depois de um instante:

- Vamos nós dous. Saímos cedo, passeamos, almoçamos lá; às três ou quatro horas estamos de volta...

Sofia olhou para ele, com tamanha vontade de aceitar o convite, que Rubião não esperou resposta verbal.

- Está assentado, vamos, disse ele.

- Não.

- Como não?

E repetiu a pergunta, porque Sofia não lhe quis explicar a negativa, aliás, tão óbvia. Obrigada a fazê-la, ponderou que o marido ficaria com inveja, e era capaz de adiar o negócio só para ir também. Não queria atrapalhar os negócios dele, e podiam esperar oito dias. O olhar de Sofia acompanhava essa explicação, como um clarim acompanharia um padre-nosso. Vontade tinha, oh! se tinha vontade de ir na manhã seguinte, com Rubião, estrada acima, bem posta no cavalo, não cismando à toa, nem poética, mas valente, fogo na cara, toda deste mundo, galopando, trotando, parando. Lá no alto, desmontaria algum tempo; tudo só, a cidade ao longe e o céu por cima. Encostada ao cavalo, penteando-lhe as crinas com os dedos, ouviria Rubião louvar-lhe a afoiteza e o garbo... Chegou a sentir um beijo na nuca... Estremeceu; tinha as faces encarnadas.


 

CXL



Pois que se trata de cavalos, não fica mal dizer que a imaginação de Sofia era agora um corcel brioso e petulante, capaz de galgar morros e desbravar matos. Outra seria a comparação, se a ocasião fosse diferente; mas corcel é o que vai melhor. Traz a ideia do ímpeto, do sangue, da disparada, ao mesmo tempo que a da serenidade com que torna ao caminho reto, e por fim à cavalariça.


 

CXLI



- Está dito, vamos amanhã, repetiu Rubião, que espreitava o rosto aceso de Sofia.

Mas o corcel tornara fatigado da carreira, e deixou-se estar sonolento na cavalariça. Sofia era já outra; passara a vertigem da corrida, o ardor sonhado, o imaginado gesto de galgar com ele a estrada da Tijuca. Dizendo-lhe Rubião que falaria ao marido para que a deixasse ir ao passeio, redarguiu sem alma:

- Está tonto! Fica para o domingo que vem.

E fixou os olhos no trabalho de linha que fazia, - frioleira é o nome, - enquanto Rubião voltava os seus para um trechozinho de jardim mofino, ao pé da saleta de trabalho onde estavam. Sofia, sentada no ângulo da janela, trancou-se em si mesma. Rubião viu em duas rosas vulgares uma festa imperial, e esqueceu a sala, a mulher e a si. Não se pode dizer, ao certo, que tempo estiveram assim calados, alheios e remotos um do outro. Foi uma criada que os acordou, trazendo-lhes café; eram duas horas da tarde. Bebido o café, Rubião concertou as barbas, tirou o relógio e despediu-se. Sofia, que cogitava no modo de vê-lo sair, ficou satisfeita, mas encobriu o gosto com o espanto.

- Já!

- Preciso de falar a um sujeito antes das três horas, explicou Rubião. Estamos entendidos; passeio de amanhã gorado. Vou mandar desavisar os cavalos. Mas será certo no domingo que vem?

- Certo, certo, não posso afirmar; mas resolvendo-se em tempo o Cristiano, creio que sim. Sabe que meu marido é o homem dos impedimentos.

Sofia acompanhou-o até à porta; estendeu-lhe a mão indiferente, respondeu sorrindo alguma cousa chocha, tornou à salinha em que trabalhava, - ao mesmo ângulo, - da mesma janela. Não continuou logo o trabalho, pôs uma perna sobre outra, fazendo descer, por hábito, a saia do vestido, e lançou uma olhada ao jardim, onde as duas rosas tinham dado ao nosso amigo uma visão imperial. Sofia não viu mais que duas rosas mudas. Fitou-as não obstante, algum tempo; em seguida, pegou da frioleira, trabalhou um pouco, deteve-se outro pouco, deixando as mãos no regaço; e voltou à obra, outra vez, para tornar a deixá-la. De repente, levantou-se e atirou linhas e agulhas à cestinha de junco, onde guardava outros pretextos de trabalho. A cesta era ainda uma lembrança de Rubião!

- Que homem aborrecido!

Dali foi encostar-se à janela, que dava para o jardim mofino, onde iam murchando as duas rosas vulgares. Rosas, quando recentes, importam-se pouco ou nada com as cóleras dos outros; mas se definham, tudo lhes serve para vexar a alma humana. Quero crer que este costume nasce da brevidade da vida. "Para as rosas, escreveu Fontenelle, o jardineiro é eterno." E que melhor maneira de ferir o eterno que mofar das suas iras? Eu passo, tu ficas; mas eu não fiz mais que florir e aromar, servi a donas e a donzelas, fui letra de amor, ornei a botoeira dos homens, ou expiro no próprio arbusto, e todas as mãos, e todos os olhos me trataram e me viram com admiração e afeto. Tu não, ó eterno; tu zangas-te, tu padeces, tu choras, tu afliges-te; a tua eternidade não vale um só dos meus minutos.

Assim quando Sofia chegou à janela que dava para o jardim, ambas as rosas riram-se a pétalas despregadas. Uma delas disse que era bem feito! bem feito! bem feito!

- Tens razão em te zangares, formosa criatura, acrescentou, mas há de ser contigo, não com ele. Ele que vale? Um triste homem sem encantos, pode ser que bom amigo, e talvez generoso, mas repugnante, não? E tu, requestada de outros, que demônio te leva a dar ouvidos a esse intruso da vida? Humilha-te, ó soberba criatura, porque és tu mesma a causa do teu mal. Tu juras esquecê-lo, e não o esqueces. E é preciso esquecê-lo? Não te basta fitá-lo, escutá-lo, para desprezá-lo? Esse homem não diz cousa nenhuma, ó singular criatura, e tu...

- Não é tanto assim, interrompeu a outra rosa, com a voz irônica e descansada; ele diz alguma cousa, e di-la desde muito, sem desaprendê-la, nem trocá-la; é firme, esquece a dor, crê na esperança. Toda a sua vida amorosa é como o passeio à Tijuca, de que vocês falavam há pouco: "Fica para o domingo que vem!" Eia, piedade ao menos; sê piedosa, ó boníssima Sofia! Se hás de amar a alguém, fora do matrimônio, ama-o a ele, que te ama e é discreto. Anda, arrepende-te do gesto de há pouco. Que mal te fez ele, e que culpa lhe cabe se és bonita? E quando haja culpa, a cesta é que a não tem, só porque ele a comprou, e menos ainda as linhas e as agulhas que tu mesma mandaste comprar pela criada. Tu és má, Sofia, és injusta. Carlos Maria...

(Continua.)




31 de maio de 1890, nº 10


 

CXLII



Sofia estremeceu. Mas então as rosas falavam alto? Não, senhor; ela é que ia fazendo de si para si os mesmos discursos das duas flores pálidas. Há desses acertos maravilhosos. Quem conhece o solo e o subsolo da vida, sabe muito bem que um trecho de muro, um banco, um tapete, um guarda-chuva, são ricos de ideias ou de sentimentos, quando nós também o somos, e que as reflexões de parceria entre os homens e as cousas compõem um dos mais belos fenômenos da terra. A expressão: "Conversar com os seus botões", parecendo simples metáfora, é frase de sentido real e direto. Os botões operam sincronicamente conosco, e, sendo numerosos, formam uma espécie de senado, cômodo e barato, que vota sempre as nossas moções.

assim se combina, meu rico senhor, a inveja senil das rosas e o eco da alma de Sofia. Coincidência de conceitos.


 

CXLIII



Durante a seguinte semana, Rubião deixou de ir ao Flamengo, Sofia resolveu tratá-lo mal, como nos piores dias, - ou para vencer-se a si própria, e acabar de uma vez com tal preocupação, - ou para castigá-lo da ausência. Os dous motivos destroem-se, mas por isso mesmo é que são dela e da situação.


 

CXLIV



Tempo houve em que, sem aceitar o homem, não o cedia a Maria Benedita; agora a prima e ela faziam uma só criatura. Já cedia, já recuava. Tal hora havia de pecado; batia depois a da virtude, ou da abstenção, ou da repugnância, - e a mulher mudava com ela. Se chegava a fazer parar o ponteiro na hora da virtude, vinha o diabo e punha a andar a pêndula. Que havia naquele homem que assim a aturdia? Não era mais atraente que outros que a requestavam, não tinha a família de uns, nem as maneiras de outros, nem o renome, nem a idade de muitos. Tinha o passado, a intimidade, o amor constante e discreto; eram algumas partes de caminho andadas. O caminho é que parecia eterno.


 

CXLV



A hora do domingo próximo devia ser de abstenção, de secura, senão de desprezo. Rubião, que nem pensava nisso, apeou-se do cavalo, entregou-o ao escravo que segurava os outros dous, defronte da casa do Palha, e caminhou para a porta, onde estava Sofia, sozinha, calçando as luvas de camurça. Estendeu-lhe a mão e sentiu quebrarem-se-lhe os dedos; levantou os olhos para os de Sofia, como a pedir-lhes misericórdia, achou-os fitos nele, sérios e escancarados. Estava mais linda que nunca. Desde muitos anos não cavalgava; ficava-lhe bem o vestido de cavaleira, mormente o corpinho, tentador de justeza - o chapéu alto e másculo, e o chicote. Otelo exclamaria: "Oh! minha bela guerreira!" Rubião, menos mouro, menos general, menos Shakespeare, limitou-se a isto: "A senhora é um anjo!"

- Que tal acha a cavaleira? perguntou de repente o Palha, vindo de dentro.

- Por ora não digo nada, respondeu Rubião, mas se corresponder ao que parece, deve ser magnífica.

- Bravo! retorquiu o outro; eis o que se chama combinar a consciência com o elogio prévio. Pois digo-lhe que vai ver como se domina um cavalo. Referia-me, entretanto, à figura. Creio que não lhe fica mal a amazona.

- Ao contrário!

- Excelente é a minha opinião, continuou o Palha. Desde a copa do chapéu até a ponta da bota; por que escondes os pés, Sofia? Veja toda esta figura. Dá vontade de aclamá-la rainha ou imperatriz.

Rubião mudou inteiramente de rosto. Porta, cavalos, praia, o amigo, a amiga, os criados, os vizinhos que espiavam das janelas a saída dos cavaleiros, tudo desapareceu repentinamente para dar lugar a um espetáculo suntuoso e diverso, mal definido. Se ficou algum cavalo não era para ir à Tijuca, nem para receber uma simples plebeia. Rainha ou imperatriz? Imperatriz é o que lhe cabia. E Rubião deu-lhe logo o nome; - Não podia ser senão Eugênia; imperatriz Eugênia.

- Justo, disse o Palha.

E voltando-se para a mulher:

- Estou às ordens de Vossa Majestade.

- Vamos, é tarde, ordenou Sofia.

Quando a realidade tornou ao seu primeiro aspecto, Rubião esquecera o incidente da praia do Flamengo; cavalgavam ainda perto, rua dos Arcos, Sofia adiante, porque o seu cavalo saíra da linha, a meio galope. A dama conseguiu sofreá-lo, e pô-lo a passo curto, à espera que os outros se lhe chegassem. A culpa foi naturalmente do cavalo; mas trouxe duas vantagens à cavaleira, mostrar o meneio do corpo, a distância, durante alguns minutos, - e a arte de equitação que possuía. Rubião não ocultou o seu entusiasmo ao marido:

- É uma perfeição!

- Monta muito bem, assentiu o Palha. E depois veja aquela linha do corpo; repare no movimento gracioso com que vai jogando...

(Continua.)




15 de junho de 1890, nº 11


 

CXLVI (i)



Rubião ouviu sem alvoroço as palavras do marido de Sofia, que não foram só aquelas, mas muitas outras, todas crescendo em admiração e vaidade. Também ele contemplava a cavaleira, mas espiritualmente. Não lhe lembrava a terra nem os seus deleites; não tinha aquele furor com que um dia lhe beijara a palma da mão. Sofia era agora uma figura de sonho, diáfana, feita de luz elétrica, não dessa eletricidade grosseira e inferior, que serve para lampiões e outros misteres, mas de uma muito mais fina e branca, puríssima e inaplicável, que a ciência não achará tão cedo, e pode ser que não ache nunca. Não cuideis que isto seja poesia. Crede antes que, achando-se muito acima dos homens, Rubião tinha o olhar espiritual das estrelas.


 

CXLVII (i)



Quando Sofia se deixou alcançar por eles, o marido quis imitá-la, largou a rédea, e picou o cavalo, que deitou a correr. Sofia e Rubião foram seguindo a passo; mas a primeira sentia-se mal, quase não ouvia os louvores que o outro fazia aos seus talentos equestres. Recordava-se da palavra de Rubião à porta de casa: "A senhora é um anjo" e temia que ele a repetisse ou comentasse. Que faria então? Repreendê-lo? Absolvê-lo? Uma cousa que pudesse valer por ambas, - ou nada, que era melhor; fingiria não ouvir, como podia dizer que nada ouvira na praia do Flamengo.

Todas essas ideias gastaram três minutos em nascer, viver e morrer. Sofia, vendo que ele se calara, deu-se pressa em falar de assunto alheio e remoto.

- Conhece o noivo da filha do Dr. Camacho?

- É um engenheiro, Tobias Carlos Ramalho, moço distinto.

- Recebemos o convite ontem; o Dr. Camacho disse a meu marido de manhã, que ia casar Nicota, e à noite recebemos o convite oficial.

Meu marido em lugar de Cristiano, que era a referência habitual, devia causar algum espanto ao Rubião, se ele não estivesse pensando justamente no noivado.

- Sabe que estive para casar com ela?

- O senhor?

- É verdade. O Dr. Camacho, confessou-me que casava a filha contra a vontade, porque o seu gosto e o seu plano era que eu fosse seu genro. Não falou mal do noivo; ao contrário, disse-me que era pessoa muito de bem, mas preferia-me. Quando menos esperava, surgiu a candidatura do engenheiro. Ele ainda quis dissuadir a filha, mas a menina teve um ataque.

Sofia lembrou-se de Maria Benedita e dos projetos do marido para casá-la com Rubião. Teria tido o Dr. Camacho igual projeto, agora que os bens de Rubião se iam consumindo todos os dias? Não pôde explicar este ponto. A recordação da prima trouxe-lhe a de Carlos Maria, e fê-la estremecer toda. Amor não era nem ciúmes; mas sempre que lhe acontecia pensar nele, sentia um singular abalo, - como se disséssemos os movimentos de um feto no útero do pecado, ou por outros termos naturais, uma simples e forte curiosidade do mal, fosse ele judeu ou gentio, Pedro ou Paulo. Estremeceu e olhou para o Rubião.

- A senhora sabe, continuou ele, depois de afagar o pescoço do cavalo, que aquele homem é meu amigo, grande amigo, grande sábio, e grande orador. Canta um pouco quando faz discurso, - já o ouvi em brindes de jantar, - mas é um cantar engraçado, e depois tem uma doçura na voz que parece mel. Quando me contou o negócio, e o ataque da filha, disse-lhe que não consentia em estar acabrunhando a pobre moça por causa de uma ideia, que eu agradecia, - mas que podia ser dispensada. Antes de tudo, o amor, não acha?

Sofia respondeu que sim. Durante esse tempo, o marido, sempre a trote largo, tinha dobrado a esquina da primeira rua, e Sofia achou-se sozinha com o Rubião. A princípio, teve ideia de convidá-lo a galopar, até alcançarem o Palha; mas a voz morreu-lhe na garganta. Não fazia mal, pensava ela; e deixou ir o cavalo a passo. Um cavalo! um cavalo! meu reino por um cavalo! A diferença entre Ricardo III e a Virtude é que esta não daria nunca o reino por um cavalo, - ou não seria a Virtude; e foi o cavalo que lhe salvou o reino. Minutos depois, Sofia tornava à paz interior, e perguntava sem interesse ao Rubião!

- Parece-lhe então que esse Dr. Camacho é um grande homem?

Rubião refletiu um instante.

- Há maiores, respondeu; mas é sempre um grande homem.

- A filha é que não me parece lá muito bonita.

- Não, de certo; mas é engraçada. Afinal, todas se casam, bonitas ou feias. Questão de simpatia. Veja que o próprio engenheiro, embora seja moço de talento, não é um Adônis... Creio que é Adônis que se diz, quando se quer falar de um moço de talento? E por que é que se diz este nome?

Sofia, não sabendo a origem do nome, chicoteou o cavalo, que deu três pulos adiante. Depois tornando ao passo:

- O cavalo ia cochilando, disse ela; era preciso espertá-lo. Mas é bom como ouro. Onde é que descobriu essa prenda?

- Não lhe digo; mas gosta dele?

Sofia viu a iminência de uma oferta, e quis arredá-la. Em verdade, o cavalo era bom. Sentia-o debaixo de si, cheio de calor, repleto de força, mimoso de graça...

- Beleza não lhe falta, disse ela alto ao Rubião. E logo, apressadamente: mas tem grandes defeitos.

Que defeitos? ia dizer Rubião, mas já a cavaleira espertava o animal e chegava ao marido, que, a pequena distância, os esperava. Rubião ainda uma vez admirou o garbo da figura, rija, ereta, dominadora e bem falante. Um cavalo! um cavalo! meu reino por um cavalo!


 

CXLVIII (i)



Para que ensanguentar esta página? Não, deixemo-la assim, alva, com algumas linhas de tinta, para dizer apenas que na subida da Tijuca, Sofia deu uma queda. Não se sabe como aquilo foi. Iam ouvindo as reminiscências do Palha, que contava os passeios dados ali, em solteiro, quando o cavalo de Sofia empinou; ela quis sofreá-lo, depois castigá-lo, para mostrar que não tinha medo; foi pior. O animal deu quatro ou cinco saltos; Palha, sabendo que a mulher montava bem, deteve-se ante o espetáculo, mas Rubião, receando algum desastre, apeou-se rapidamente.

- Deixe, não seja medroso, bradou o Palha; ela é valente como trinta diabos.

Rubião chegou a lançar a mão ao freio, mas já então o cavalo enraivecido, cuspira de si a cavaleira. Correu a ela. Não lhe deu a mão, para ajudá-la a erguer-se; ajoelhou-se, abarcou-a com o braço, roçou-lhe quase as barbas pelo rosto, enquanto Sofia, com uma das mãos em terra, buscava sentar-se. Sentou-se; mas, quando viu a cara do Rubião, recuou e empurrou-o. Já então o Palha estava ali; agarrou-se-lhe ao braço, pôs-se em pé.

- Machucaste-te?

- No joelho, disse ela baixo ao marido; não sei se o esfolei; está-me doendo. Mas vamos; onde está o cavalo?

(Continua.)



Quincas Borba não foi publicado no número de 30 de junho de 1890, nº 12.




15 de julho de 1890, nº 13


 

CXLVI (ii)



- Fiquei com o joelho dorido, disse ela entrando e coxeando.

- Deixe ver.

No quarto de vestir, Sofia levantou o pé sobre um banquinho e mostrou ao marido o joelho pisado; inchara um pouco, muito pouco, mas tocando-lhe, fazia-a gemer. Palha, não querendo machucá-la, chegou-lhe a pontinha dos beiços apenas.

- Fiquei descomposta quando caí?

- Não. Pois com um vestido tão comprido... Mal se pôde ver o bico do pé. Não houve nada, acredita; que diabo de receio, à toa, quando te digo a verdade?

- Jura que não?

- Que desconfiada que você é, Sofia! Juro por tudo o que há mais sagrado, pela luz que me alumia, por Deus Nosso Senhor. Estás satisfeita?

Sofia ia cobrindo o joelho.

- Deixa ver outra vez. Creio que não será nada de maior; bota um pouco de qualquer cousa. Manda perguntar à botica.

- Está bom, deixa-me ir despir, disse ela forcejando por descer o vestido.

Mas o Palha baixara os olhos do joelho até ao resto da perna, onde pegava com o cano da bota. De feito, era belo trecho da natureza. Palha, com uma das mãos, impedia que a mulher se compusesse. Jurou, ainda uma vez, que ela caíra perfeitamente composta; mas, acrescentou que, se a queda fosse tal que descobrisse aquele pedacinho da perna, as árvores e o céu ficariam assombrados; não havia estrelas nem flores que se pudessem dizer mais belas. Sofia conseguiu tirar o pé do banco, e abanou a cabeça, rindo:

- Estrelas e flores, é possível, já que você anda sempre com essas poesias na boca, mas os olhos do Rubião?

- Ora, o Rubião! É verdade; ele nunca mais teve aquelas ideias de Sta. Teresa?

- Nunca; mas, enfim, é um homem, e não me agradaria... Jura de verdade, Cristiano?

- Que maçada! O que você quer é que eu vá subindo de sagrado em sagrado, até à cousa mais sagrada. Jurei por Deus; não bastou. Juro por você; esta satisfeita?

Pieguices de lascivo. Saiu finalmente do quarto da mulher e foi para o seu. Aquele pudor piedoso e incrédulo de Sofia fazia-lhe bem. Mostrava que ela era sua, totalmente sua; mas, por isso mesmo que ele a possuía, considerava que era de grande senhor não se afligir com a vista casual e instantânea de um pedaço oculto do seu reino. E sentia que o casual tivesse parado na ponta da bota. Era apenas a fronteira; as primeiras vilas do território, antes da cidade machucada pela queda, dariam ideia de uma civilização sublime e perfeita. E ensaboando-se, esfregando a cara, o colo e a cabeça na vasta bacia de prata, escovando-se, enxugando-se, aromando-se, Palha imaginava o pasmo e a inveja da única testemunha do desastre, que seriam profundos, se este fosse menos incompleto. Perna de ninfa, perna do diabo.


 

CXLVII (ii)



Foi por esse tempo que Rubião pôs em espanto a todos os seus amigos. Na terça-feira seguinte ao domingo do passeio (era então janeiro de 1870) avisou a um barbeiro e cabeleireiro da rua do Ouvidor que o mandasse barbear a casa, no outro dia, às nove horas da manhã. Lá foi um oficial francês, - chamado Lucien, creio eu - que entrou para o gabinete de Rubião, segundo as ordens dadas ao criado.

- Uhm!... rosnou Quincas Borba, de cima dos joelhos de Rubião.

Lucien parou à porta do gabinete, e cumprimentou o dono da casa; este, porém, não viu a cortesia, como não ouvira o sinal do Quincas Borba. Estava em uma longa cadeira de extensão, ermo do espírito, que rompera o teto e se perdera no ar. A quantas léguas iria? Nem condor nem águia o poderia dizer. Em marcha para a lua, - não via cá embaixo mais que as felicidades perenes, chovidas sobre ele, desde o berço, onde o embalaram fadas, até à praia de Botafogo, aonde eles o trouxerem, por um chão de rosas e bogaris. Nenhum revés, nenhum malogro, nenhuma pobreza; - vida plácida, cosida de gozo, com rendas de supérfluo. Em marcha para a lua!

Lucien relançou os olhos pelo gabinete, onde fazia principal figura a secretária, e sobre ela os dous bustos de Napoleão e Luís Napoleão. Relativamente a este último, havia ainda, pendentes da parede, uma gravura ou litografia representando a Batalha de Solferino, e um retrato da imperatriz Eugênea.

- Adeus, Eugênia!

Rubião tinha nos pés um par de chinelas de damasco, bordadas de ouro, - já usadas, mas ouro. Na cabeça, um gorro com borla de seda preta. Na boca, um riso azul claro.


 

CXLVIII (ii)



- Monsieur...

- Uhm! repetiu Quincas Borba, pondo-se em pé nos joelhos do senhor.

Rubião voltou a si e deu com o barbeiro. Conhecia-o por tê-lo visto ultimamente na loja; ergueu-se da cadeira. Quincas Borba latia, como a defendê-lo contra o intruso.

- Sossega! cala a boca! disse-lhe Rubião, e o cachorro foi, de orelha baixa, meter-se por trás da cesta de papéis. Durante esse tempo, Lucien desembrulhava os seus aparelhos.

- Monsieur veut se faire raser, n'est-ce pas? Pourquoi donc a-t-il laissé croître cette belle barbe? Apparemment que c'est un voeu d'amour? J'en connais qui ont fait de pareils sacrifices: j'ai même été confident de quelques personnes aimables...

- Justamente! interrompeu Rubião.

Não entendera nada: posto soubesse algum francês, mal o compreendia lido - como sabemos, - e não o entendia falado. Mas, fenômeno curioso, não respondeu por impostura: se não percebeu o sentido das palavras, ouviu-as como se fossem um cumprimento ou uma reclamação; e, ainda mais curioso fenômeno, respondendo-lhe em português, cuidava falar francês.

- Justamente! repetiu. Quero restituir a cara ao tipo anterior; é o mais conhecido, assim comecei, assim acabo.

E, como apontasse para o busto de Napoleão III, respondeu-lhe o barbeiro pela nossa língua:

- Ah! o imperador! Bonito busto, em verdade. Obra fina. O senhor comprou isto aqui ou mandou vir de Paris? São magníficos. Lá está o primeiro, o grande; este era um gênio. Se não fosse a traição, oh! os traidores, vê o senhor? os traidores são piores que as bombas de Orsini.

- Orsini! um coitado!

- Pagou caro.

- Pagou o que devia. Mas não há bombas nem Orsini contra o destino de um grande homem, continuou Rubião. Quando a fortuna de uma nação põe na cabeça de um grande homem a coroa imperial, não há maldades que valham ... Orsini! um bobo!

Em poucos minutos, começou o barbeiro a deitar abaixo as barbas do Rubião, para lhe deixar somente a pera e os bigodes de Napoleão III; encarecia-lhe o trabalho; afirmava que era difícil compor exatamente uma cousa como a outra. O barbeiro, - dizia ele, tesourando o freguês, - precisava de liberdade para dar à obra da navalha o cunho da inspiração. Nem todos sentiriam isso; a caterva dos raspadores de barba era indiferente aos grandes pensamentos. Mas há barbeiro e barbeiro, como há poeta e poeta. E depois, a questão de estilo. Conhece-se a mão de um oficial pela unidade do estilo; o bom oficial fará muitas caras e diversas, mas o estilo há de ser o mesmo. Ao vulgo parece que a diferença entre as suíças do defunto príncipe Alberto, por exemplo, e as do rei Guilherme da Prússia está no tamanho, que era curto no primeiro, e é longo no segundo; mas para os que conhecem a estética do ofício e a filosofia do rosto humano, a diferença resulta do pensamento incutido pela navalha na cara de um e de outro. Percebe-se nos retratos do príncipe Alberto o constitucionalismo, como se sente o absolutismo nos do rei Guilherme...

- Seu barbeiro, você é pernóstico, interrompeu Rubião. Já lhe disse o que quero; ponha-me a cara como estava. Ali tem o busto para guiá-lo.

- Sim, senhor, cumprirei as suas ordens, e verá que semelhança que vai sair. Mas, quando eu pedia a liberdade, era para dar o cunho formal da inspiração. Façamos esta cópia.

E zás, zás, deu os últimos golpes às barbas de Rubião, e começou a rapar-lhe as faces e os queixos. Durou longo tempo a operação, interrompida a miúdo, porque o freguês tinha um pequenino espelho na mão para ver como ia andando o serviço. O barbeiro, em certo ponto, disse que era melhor esperar a obra feita; posto se tratasse de uma simples cópia, as interrupções fariam mal ao trabalho. No fim, veria espantado a semelhança. Rubião concordou, e o oficial foi adiante, rapando, comparando, dividindo os olhos entre o busto e o homem. Às vezes, para melhor cotejá-los, recuava dpus passos, olhava-os alternadamente, inclinava-se, pedia ao homem que se virasse de um lado ou de outro, e ia ver o lado correspondente do busto.

- Vai bem? perguntava Rubião.

Lucien pedia-lhe com um gesto que se calasse, e prosseguia. Recortou a pera, deixou os bigodes, e escanhoou à vontade, lentamente, amigamente, aborrecidamente, adivinhando com os dedos alguma pontinha imperceptível de cabelo no queixo ou na face para não o consentir, nem por suspeita. Às vezes Rubião, cansado de estar a olhar para o teto, enquanto o outro lhe aperfeiçoava os queixos, pedia para descansar. Descansando, apalpava o rosto e sentia pelo tato a mudança.

- Os bigodes é que não estão muito compridos, observava.

- Falta arranjar-lhe as guias; aqui trago os ferrinhos para encurvá-los bem sobre o lábio, e depois faremos as guias. Ah! eu prefiro compor dez trabalhos originais a uma só cópia. Custa muito mais, e que satisfação pode deixar à consciência? O senhor tem o rosto muito apropriado a certa ideia que anda comigo há algumas semanas. Prometa-me que, se mudar de gosto, e abandonar esse aspecto, dar-me-á a liberdade de o compor, sim? Se o fizer, não aplicarei a ideia a outro freguês.

- Não, isso não, não pode ser.

Volveram ainda dez minutos, antes que os bigodes e a pera fossem bem retocados. Enfim, pronto. Rubião deu um salto, e pegou do espelhinho; era ele, era o outro, eram ambos, era ele mesmo, em suma. Foi ao quarto de vestir, que ficava ao pé, mirou-se no espelho grande; tal qual.


 

CXLIX



- Perfeitamente! exclamou Rubião, tornando ao gabinete onde o barbeiro, tendo arrecadado os aparelhos, fazia festas ao Quincas Borba.

E indo à secretária, abriu uma gaveta, tirou uma nota de vinte mil réis, e deu-lha.

- Não tenho troco, disse o outro.

- Não precisa dar troco, acudiu Rubião com um gesto soberano; tire o que houver de pagar à casa, e o resto é seu.

(Continua.)




31 de julho de 1890, nº 14

CXLIX

(Continuação)

- Oh! senhor! exclamou o barbeiro pasmado e agradecido.

Antes de guardar o dinheiro, deitou uma vista de olhos no rosto de Rubião, e novamente o comparou ao busto.

- Perfeito!

Na rua, contemplando a nota, e advertindo na teima de Rubião em ser copiado de Napoleão III, não pôde ter-se que não exclamasse:

- Voilà un homme très original.


 

CL



Ficando só, Rubião atirou-se a uma poltrona, e, sem fechar os olhos, sem dormir, sem sonhar, viu passar diante de si e em si muitas cousas esplêndidas. Estava em Biarritz ou Compiègne, não se sabe bem; Compiègne, parece. Governou um grande Estado, ouviu ministros e embaixadores, dançou, sorriu, passou revista às tropas, - e assim outras ações narradas em correspondências de jornais, que ele lera e lhe ficaram de memória. Nem os ganidos de Quincas Borba lograram espertá-lo. Estava longe e alto. Compiègne era no caminho da lua. Em marcha para a lua!


 

CLI



Desceu rápido. Gastou um instante de Compiègne a Botafogo. Ouviu então os ganidos do cachorro, viu os trastes, achou-se. Rubião recordou o barbeiro, apalpou a cara, em que sentiu frio. Teve receio de haver ficado esquisito, e correu ao espelho, onde reconheceu que a diferença era grande entre si mesmo e si, como diria Camões; mas não estava mal. Os comensais chegaram a mesma conclusão.

- Está perfeitamente bem! Há muito que devia ter feito isso. Não é que as barbas grandes lhe tirassem a nobreza do rosto; ao contrário, davam-lhe nobreza e grande; mas assim como está agora, tem o que tinha, e mais um tom moderno.

- Moderno, repetiu o anfitrião.

Fora, igual espanto. Mas, como acontece a todas as cousas deste mundo, o costume matou a novidade, e ninguém mais se lembrou das antigas barbas do Rubião. Todos achavam sinceramente que este outro aspecto lhe ia melhor que o anterior. Uma só pessoa, o Dr. Camacho, posto julgasse que os bigodes e a pera ficavam muito bem no amigo, ponderou que era de bom aviso não alterar o rosto, verdadeiro espelho da alma, cuja firmeza e constância devia reproduzir.

- Não é por lhe falar de mim, concluiu; mas, nunca me há de ver a cara de outro modo. É uma necessidade moral da minha pessoa. Minha vida, sacrificada aos princípios, - porque eu nunca tentei conciliar princípios, mas homens, e daí vem o esforço com que ajudei o grande Paraná, - minha vida, digo, é uma imagem fiel da minha cara, e vice-versa.

Rubião ouvia com seriedade; dentro de si ria à larga, pela razão de que naquele instante sentia-se incógnito, de passeio pela América, enquanto Eugênia sustinha as rédeas do governo. Ria da confusão do Camacho; mas tão sério e tão crédulo, que este julgou dever pedir-lhe emprestados dous contos de réis; pagar-lhos-ia no fim do mês, quando recebesse os honorários de um banco e os de certa casa inglesa. Nunca pensara, que as bodas de uma filha custassem tanto dinheiro; tinha gasto todas as suas economias; - aliás, sem pena, porque a menina era um anjo e o noivo um dos moços de grande futuro; era engenheiro civil, e fizera brilhante figura na Escola.

De repente:

- E sabe que, talvez, vá bater à sua porta para ser padrinho dela?

- Estou às ordens.

- É verdade. Se o conselheiro Borges ainda estiver de cama, o padrinho há de ser o senhor. Ela quis o conselheiro por motivos de família; uma filha dele e ela andaram juntas no colégio, e são duas amigas, como não há. Cedi; mas as circunstâncias podem fazer vingar a minha ideia. Nossas relações permitem-me considerá-lo de casa.


 

CLII (i)



Rubião prometeu mandar-lhe um cheque de dous contos, - ou trazer-lho em pessoa. Já então não se sentia imperador incógnito, mas o próprio e lídimo Rubião. Não me perguntem por quê. São milagres secretos. Dante, que viu tantas cousas extraordinárias, afirma ter assistido no inferno ao castigo de um espírito florentino, ladrão que foi, e que uma serpente de seis pés abraçou de tal modo, e com tal igualdade, se foram confundindo, que afinal já se não podia distinguir bem se era um ente único, se dous. Rubião era ainda dous. Não se misturavam nele a própria pessoa com o imperador dos franceses. Revezavam-se; chegavam a esquecer-se um do outro. Quando era só Rubião, não passava do suntuoso homem do costume; faltava-lhe a coroa e o destino napoleônico. Quando subia a imperador, não era outra pessoa, e muito menos o antigo enfermeiro de Barbacena. Assim é que se equilibravam os dous, - um sem outro, ambos integrais.

Algumas vezes o imperador não se manifestava por atos externos, vivia em si mesmo, calado, ruminando a grandeza. A realidade exterior trocava a máscara, e não havia carroça nem loja de charutos que não parecesse coche ou salão. Cores sombrias e desmaiadas faziam-se vivas e alegres. Caso houve em que os chapéus, sem se deslocarem, tinham o jeito de descobrir as cabeças, para cumprimentá-lo. Ele tocava então com a ponta dos dedos no seu. Ouvia falar francês em torno de si. E não sei que voz enorme, como de multidão, - mas ao longe, muito longe, bradava: Imperador! viva! imperador! Napoleão!


 

CLIII (i)



- Que mudança é essa? perguntou Sofia, quando ele lhe apareceu no fim da semana.

- Vim saber do seu joelho; está bom?

- Obrigada, respondeu ela, estendendo-lhe os dedos.

Os dedos, apenas. Mas ele deu-lhe a mão espalmada, e ambas as mãos se apertaram com vigor. Eram duas horas da tarde. Sofia acabava de vestir-se para sair, quando a criada lhe fora dizer que estava ali Rubião, - tão mudado de cara que parecia outro. Desceu a vê-lo curiosa; achara-o na sala, de pé, lendo os cartões de visita.

- Mas que mudança é essa? repetiu ela.

Rubião, sem nenhuma ideia imperial, respondeu que supunha ficarem-lhe melhor os bigodes e a pera.

- Ou estou mais feio? concluiu.

- Está melhor, muito melhor.

E Sofia disse consigo que a causa da mudança podia ser ela mesma. Reclinou-se toda no sofá, e começou a enfiar os dedos nas luvas.

- Vai sair?

- Vou, mas o carro ainda não veio.

Calaram-se. Os olhos de Rubião tiveram então uma ideia que não se pode dizer nova nem gasta. Estavam fitos na boca risonha de Sofia, e empreenderam uma viagem desde ali até o tapete. Era quase um despenhadeiro. Ao passarem pelos joelhos dela não se lembraram de parar um instante e investigar qual deles tinha sido o molesto. Pararam no tapete; depois, tratando de regressar, um obstáculo os deteve. Era um dos pés de Sofia. Não puderam explicar como é que, tão depressa pousaram no pé, este começou a mover-se brincando, nem por que razão se esgueirou de súbito. Eles dispararam então pela encosta acima, até pousar no ponto de partida, onde os lábios ridentes de há pouco lhe diziam:

- A carruagem chegou.


 

CLIV (i)



Teso, descoberto, o lacaio abriu a portinhola do coupé, quando Sofia assomou à porta. A senhora ia a despedir-se do nosso amigo, mas, como ele lhe oferecesse a mão para ajudá-la a entrar, aceitou o obséquio e entrou.

- Agora, até...

Não pôde acabar a frase; Rubião entrara após ela e sentara-se-lhe ao lado; o lacaio fechou a portinhola, trepou à almofada, e o carro partiu.

(Continua.)




15 de agosto de 1890 nº 15


 

CLII (ii)



Tão rápido foi tudo, que Sofia perdeu a voz e o movimento; mas, ao cabo de alguns segundos:

- Que é isto?... Senhor Rubião, mande parar o carro.

- Parar o carro? Mas a senhora não me disse que ia sair e esperava por ele?

- Não ia sair com o senhor... Não vê que... Mande parar o carro...

Desatinada ia a erguer-se para dar ordem ao cocheiro; mas a ideia de um possível escândalo fê-la deter-se a meio caminho. O coupé entrara na rua Bela da Princesa. Sofia novamente pediu a Rubião que reparasse na inconveniência de irem assim de carro, à vista de Deus e de todo mundo. Rubião respeitou o escrúpulo, e acabou propondo que descessem as cortinas.

- Eu acho que não faz mal que nos vejam, explicou Rubião; mas, fechando as cortinas, ninguém nos vê. Se quer?

Sem aguardar resposta, desceu as cortinas de um e outro lado, e ficaram os dous a sós, porque, se de dentro podiam ver uma ou outra pessoa que passasse, de fora ninguém os via. Estavam sós. Sofia recordou-se de repente, daquele dia em que às mesmas duas horas da tarde, em casa dela, ausente a prima, Rubião lhe lançou em rosto os seus desesperos. Lá, ao menos, estava livre; aqui dentro do carro fechado, não podia calcular as consequências. Certamente, este ia dizer as mesmas cousas; mas a audácia e a violência seriam maiores.

Rubião, entretanto, acomodara as pernas e não dizia nada.


 

CLIII (ii)



Sofia encolhera-se muito ao canto. Podia ser estranheza da situação, podia ser medo; mas era principalmente repugnância. Nunca esse homem lhe fez sentir tanta aversão, asco, ou outra cousa menos dura, se querem, mas que se reduzia à incompatibilidade, - como direi que não agrave os ouvidos? - à incompatibilidade da epiderme. Onde iam os sonhos de há poucos dias? Ao simples convite de um passeio, a sós, à Tijuca, subiu com ele a montanha, a galope, desmontou, ouviu palavras de adoração, e sentiu um beijo na nuca. Onde iam essas imaginações? Onde iam os olhos fixos e grandes, as mãos amigas e longas, os pés inquietos, as palavras meigas e os ouvidos cheios de misericórdia? Tudo esqueceu, tudo desapareceu, agora que ambos se achavam deveras sós, ilhados pelo carro e pelo escândalo.

E os cavalos seguiam, sacudindo as patas, arrastando lentamente o carro, pelas pedras da rua Bela da Princesa. Que faria ela chegando no Catete? iria à cidade com ele? Pensou em seguir para a casa de alguma amiga; deixá-lo-ia no carro, diria ao cocheiro que se fosse embora. Contaria tudo... Tudo o quê? Pensou naturalmente no marido; e vieram assim de assalto uma porção de ideias, nem todas oportunas, como a notícia de um roubo de joias, dada pelas folhas do dia, o vento da véspera, um relógio, Carlos Maria... Esta reminiscência veio duas vezes, e passou como os rótulos das casas iam passando pela fresta da cortina, - vagarosamente.

Afinal fixou-se em um só cuidado. Que lhe ia dizer o Rubião? Olhou para ele de esguelha, viu que continuava a olhar para frente, calado, com o castão da bengala no queixo. Não lhe ficara mal a atitude, tranquila, séria, quase indiferente; mas então para que se meteu no carro? Sofia quis romper o silêncio; por duas vezes moveu nervosamente as mãos; quase que a irritou a quietação do homem, cuja ação só podia ser explicada pela paixão antiga e violenta. Depois, imaginou que ele próprio estaria arrependido, e disse-lho em bons termos.

- Não vejo que me possa arrepender de cousa nenhuma, acudiu ele, voltando-se para ela. Quando a senhora disse que era mau irmos assim, à vista do público, abaixei as cortinas. Não concordei, mas obedeci.

- Chegamos ao Catete, atalhou ela; quer que o leve a casa? Não podemos ir juntos para a cidade.

- Podemos andar à toa.

- Como?

- À toa, o carro vai andando e nós vamos conversando, sem que nos ouçam nem adivinhem...

- Pelo amor de Deus! não me fale assim, deixe-me, saia do carro, ou eu saio aqui mesmo, e o senhor toma conta dele. Que é que quer dizer? Bastam poucos minutos... Olhe o carro já voltou para o lado da cidade; mande ir para Botafogo, vou deixá-lo à porta de casa...

- Mas se eu saí há pouco de casa, vou para a cidade. Que mal há em levar-me até lá? Se é para que não nos vejam, como foi com as cortinas, apeio-me, em qualquer lugar, do caminho, - na praia de Santa Luzia, por exemplo, - do lado do mar... Mas é ainda pior; apeando-me na praia, - na praia deserta...

Na praia deserta que a lua branqueia,
Que mimo! que rosa! que filha de Deus!

Conhece estes versos? São de um poeta da Corte, que morreu moço. Eu, logo depois de nosso conhecimento, li muitos versos. E mesmo gosto de poesia; lá em Minas temos os nossos poetas, - o Bernardo, não sei se conhece, Bernardo Guimarães, o padre Correia...

Sofia mal o escutava.

- O melhor é descer aqui mesmo disse.

- Mas por que não iremos até a cidade?

- Não, não pode ser. Peço-lhe por tudo que lhe for mais sagrado! Não faça escândalo, vamos, diga-me o que é preciso para obter uma cousa tão simples? Quer que me ajoelhe aqui mesmo?

Apesar da estreiteza do espaço, ia dobrando os joelhos; mas Rubião deu-se pressa em fazê-la sentar-se outra vez.

- Não é preciso que se ajoelhe, disse com brandura.

- Obrigada; peço-lhe então por Deus, por sua mãe, que está no céu...

- Deve estar no céu, confirmou Rubião. Era uma santa mineira! as mães são sempre boas; mas daquela ninguém que a conheceu poderá dizer outra cousa senão que era um anjo. E prendada, como poucas. Que dona de casa! Hóspedes, para ela tanto fazia cinco como cinquenta, era a mesma cousa, cuidava de tudo a tempo e a hora, e criou fama. Os escravos davam-lhe o nome de Sinhá Mãe, porque era, realmente, mãe para todos. Deve estar no céu!

- Bem, bem, atalhou Sofia. Pois faça-me isto por amor de sua mãe; faz?

- Isto quê?

- Apear-se aqui mesmo?

- E ir a pé para a cidade? Não posso. É cisma sua; ninguém nos vê. E depois estes seus cavalos são magníficos. Já reparou como atiram as patas, lentamente, plás... plás... plás... plás...

Cansada de pedir, Sofia calou-se, cruzou os braços e coseu-se ainda mais, se era possível, ao cantinho do carro, espreitando os gestos do Rubião e disposta ao escândalo.

- É melhor o escândalo, pensava. Agora me lembro, mando parar à porta do armazém do Cristiano; digo-lhe o modo por que este homem se introduziu no coupé, os pedidos que lhe fiz e as respostas que me deu. Antes isso que fazê-lo apear misteriosamente em qualquer rua.

A resolução deu-lhe ânimo, e restituiu-lhe a paz interior. Paz ou armistício, porque a cabeça trabalhou um pouco, e a hipótese de alguma violência, em que Rubião lhe roubasse um beijo... Sofia teve aqui um gesto de asco. Segunda vez a ideia do contato daquele homem vinha fazer-lhe sentir que entre um e outro não havia espaço para amor. Já lhe beijara a mão um dia, quando ela lhe tapava a boca para que não gritasse; mas não era o caso da mão homicida de lady Macbeth. A boca, sim, é que nenhum aroma da Arábia podia lavá-la da corrupção, se ele pousasse nela os seus lábios.

Entretanto, Rubião prosseguia quieto, volvendo no dedo o anel de brilhante, - um solitário esplêndido; depois, consultou o relógio, sacudiu com a unha um pouco de pó da manga, e voltou-se para Sofia.

- Poeira é cousa insuportável, disse.

Nada mais; nem se lhe chegava, nem a fitava com os olhos compridos de outros dias, não tentava pegar-lhe na mão, não pedia, não intimava. Iam como um casal de aborrecidos. Sofia não chegava a entender que razão o teria levado a entrar no carro. Não podia ser a necessidade de transporte. Vaidade, porque o vissem com ela, também não; fechara as cortinas, à sua primeira queixa de publicidade; e não o fez senão por isso, uma vez que não lhe dizia a mínima palavra amorosa, - uma alusão remota que fosse, a medo, cheia de veneração e súplica. Era um inexplicável, um monstro.

(Continua.)




31 de agosto de 1890, nº 16


 

CLII (iii)




Esta numeração está "errada", pois sendo continuação do capítulo CLIII do número anterior, devia levar o mesmo número. Não sabemos se se trata de um erro, ou se foi feito de propósito, para reduzir o número de capítulos, e aproximar-se ao que devia ser a versão final, como fica exposto na "Guia do texto" a esta edição.

(Continuação)



- Sofia... disse de repente Rubião; e continuou com pausa: - Sofia, os dias passam, mas nenhum homem esquece a mulher que verdadeiramente o amou, ou então não merece o nome de homem. Os nossos amores não serão esquecidos nunca, - por mim, está claro, mas estou certo que nem por ti. Tudo me deste, Sofia; a tua própria vida correu perigo. Verdade é que eu te vingaria, minha bela. Se a vingança pode alegrar os mortos, terias o maior prazer possível. Felizmente, o meu destino protegeu-nos, e pudemos amar sem peias nem sangue...

A moça olhava espantada.

- Não te espantes, continuou ele; não nos vamos separar; não, não te falo de separação. Não me digas que morrerias; sei que havias de verter muitas lágrimas. Eu não, - que não vim ao mundo para chorar, - mas nem por isso a dor seria menor; ao contrário, as dores guardadas no coração doem mais que as outras. Lágrimas são boas porque a pessoa desabafa. Querida amiga, falo-te assim, porque é preciso termos cautela; a nossa insaciável paixão pode esquecer esta necessidade. Não a esquecemos a princípio: o medo fazia de sentinela. Mas, temos facilitado muito, Sofia; como nascemos um para o outro, parece-nos que estamos casados perante o mundo, e facilitamos. Ouve, querida, ouve, alma da minha alma... A vida é bela! a vida é grande! a vida é sublime! Contigo, porém, que nome haverá que lhe possa dar? Lembras-te da nossa primeira entrevista?

Rubião disse esta última palavra, querendo pegar-lhe na mão. Sofia recuou a tempo; estava desorientada, não entendia e tinha medo. A voz dele crescia, o cocheiro podia ouvir alguma cousa... E aqui uma ideia terrível a abalou: talvez o intento de Rubião fosse justamente fazer-se ouvir, para obrigá-la pelo terror, - ou então para que a abocanhassem. Teve ímpeto de atirar-se a ele, gritar que lhe acudissem, e salvar-se pelo escândalo.

- Que peste! pensou ela.

Ele, baixinho, depois de certa pausa:

- A mim lembra-me, como se fosse ontem. Tu chegaste de carro, não era este; era um carro de praça, uma caleça. Desceste medrosa, com o véu pela cara; tremias como varas verdes... Mas os meus braços te ampararam... Sol daquele dia, tu devias ter parado, como quando obedeceste a Josué. E contudo, minha flor, aquelas horas foram longas, longas, longas, não sei por que; a rigor, deviam ser curtas. Era talvez porque tínhamos em nós uma paixão que não acabava mais, que não acabou, que não há de acabar nunca... Em compensação, sol sem amores, não te vimos mais; ias caindo para o outro lado das montanhas, quando a minha Sofia, ainda medrosa, saiu para a rua, e pegou de outro carro. Outro ou o mesmo? Creio que foi o mesmo. Não imaginas como fiquei; parecia tonto, beijei tudo em que havias tocado; cheguei a beijar a soleira da porta. Creio que já te contei isto. A soleira da porta. E estive quase, quase a ir de rastos, beijar os degraus da escada... Não o fiz, recolhi-me, fechei-me para que se não perdesse o teu cheiro; violeta, se bem me recordo...

Não, não era possível que o intuito de Rubião fosse fazer crer ao cocheiro uma aventura mentirosa. A voz era tão sumida que Sofia mal podia escutá-la; mas, se lhe custava a entender as palavras, não chegava a compreender a sentido delas. A que vinha aquela história não sucedida? Quem quer que a ouvisse, aceitaria tudo por verdade, tal era a nota sincera, a meiguice dos termos e a verossimilhança dos pormenores. E ele continuou suspirando as belas reminiscências...

- Mas que caçoada é essa? atalhou finalmente Sofia.

Não lhe respondeu o nosso amigo; - tinha a imagem diante dos olhos, não ouviu a pergunta, e foi andando. Citou-lhe um lance medonho, em um dos concertos de Gottschalk. O divino pianista melodiava ao piano; eles ouviam, mas o demônio da música levou os olhos de um para outro, e ambos esqueceram-se do resto. Quando a música cessou, as palmas romperam, e eles acordaram. Ai tristes! acordaram com a alma do Palha em cima deles, uma alma de onça brava, uns olhos capazes de os engolir a ambos. Nessa noite cuidou que ele a matasse.

- Senhor Rubião...

- Napoleão, não; chama-me Luís. Sou o teu Luís, não é verdade, galante criatura? Teu, teu... Chama-me teu: - o teu Luís, o teu querido Luís. Ai, se tu soubesses o gosto que me dás quando te ouço essas duas palavras: "Meu Luís!" Tu és a minha Sofia, - a doce, a mimosa Sofia da minha alma. Não percamos estes momentos: digamos os nomes ternos; mas, baixo, baixinho, que nos não ouçam os malandros da almofada do carro. Para que há de haver cocheiros neste mundo? Se o carro andasse por si, falaríamos à vontade, e iríamos ao fim da terra...

Já então o carro ia costeando o Passeio Público; Sofia não deu por isso. Olhava fixamente para Rubião; não podia ser cálculo de perverso, nem lhe atribuía mofa... Delírio, sim, é o que era; tinha a sinceridade da palavra, como pessoa que vê ou viu realmente as cousas que relata. Esta hipótese trouxe à alma da moça outra espécie de terror, a de ser esganada por ele, quando menos cuidasse; e, mistério interessante, a ideia de um beijo furtado, passando-lhe segunda vez pelo espírito, não lhe deixou o asco da primeira, não obstante ser o mesmo gesto e o mesmo homem.

- É preciso pô-lo fora do carro, pensou a moça. E, aparelhando-se de coragem: - Onde estaremos nós? perguntou-lhe. É ocasião de separar-nos. Veja do lado de lá; onde estamos? Parece que é o convento; estamos no largo da Ajuda. Diga ao cocheiro que pare; ou, se quer, pode apear-se no largo da Carioca. Meu marido...

- Vou nomeá-lo embaixador, disse Rubião. Ou senador, se quiser. Senador é melhor; ficam os dous aqui. Embaixador que fosse, não consentiria que tu o acompanhasses, e as más línguas... Tu sabes a oposição que sofro, as calúnias... Ah! ruim gente! convento da Ajuda, disseste? Que tens tu com ele? Queres ser freira?

- Não; digo que já passamos o convento da Ajuda. Vou deixá-lo no largo da Carioca. Ou vamos até o armazém de meu marido?

Sofia tornou a apegar-se ao segundo alvitre; não se faria suspeita ao cocheiro, provaria melhor a sua inocência ao Palha, narrando-lhe tudo, desde a entrada inesperada no carro até o delírio. E que delírio era esse? Sofia pensou que o motivo podia ser ela mesma, e esta ideia fê-la sorrir de piedade.

- Para quê? disse Rubião. Vou apear-me aqui mesmo, é mais seguro. Para que há de ele desconfiar de nós e maltratar-te? Posso castigá-lo, mas sempre me ficaria o remorso do mal que ele te causaria. Não, linda flor amiga; o vento que ousasse tocar-te, crê que eu o faria expelir do espaço, como um vento indigno. Tu ainda não conheces bem o meu poder, Sofia; tanto melhor para mim, é prova que o teu amor não tem outro motivo, além de si mesmo. Confessa.

(Continua.)



Quincas Borba não foi publicado no número de 15 de setembro de 1890, nº 17




30 de setembro de 1890, nº 18

CLII (iii)

(Continuação)

Como Sofia não confessasse nada, Rubião chamou-lhe de bonita, e ofereceu-lhe o solitário que tinha ao dedo; ela, porém, conquanto amasse as joias e tivesse a intuição dos solitários, recusou medrosamente a oferta.

- Compreendo o escrúpulo, disse ele; mas não perdes por isso, porque hás de receber outra pedra ainda mais bela, e por mão de teu marido. Far-te-ei duquesa. Ouviste? O titulo é dado a ele, mas tu é que és a causa. Duque... Duque de quê? Vou ver um título bonito; ou então escolhe tu mesma, porque é para ti, não é para ele, é para ti, minha mimosa. Não precisas escolher já, vai para casa e pensa. Não te vexes; manda-me dizer o que achares mais bonito, e faço lavrar imediatamente o decreto. Também podes fazer outra cousa: escolhe, e leva-o na cabeça ao nosso primeiro encontro no lugar do costume. Quero ser o primeiro a chamar-te duquesa. Querida duquesa... O decreto virá depois. Duquesa da minha alma!

- Sim, sim, disse ela desvairadamente, mas avisemos o cocheiro que nos leve até a casa de Cristiano.

- Não, apeio-me aqui... Para! para!

Rubião ergueu as cortinas, e o lacaio veio abrir a portinhola. Sofia, para tirar toda a suspeita ao lacaio, pediu novamente ao Rubião que fosse com ela à casa do marido; disse-lhe que este precisava falar-lhe, com urgência. Rubião olhou um pouco espantado para ela, para o lacaio e para a rua; e respondeu que não, que iria depois. Ela estendeu-lhe familiarmente a mão esquerda, que ele aceitou sem ternura nem cerimônia.


 

CLIII (iii)



Apenas separados, deu-se em ambos um curioso fenômeno.

Rubião, na rua, voltou a cabeça para todos os lados, a realidade apossava-se dele e o delírio esvaía-se. Entrou a andar, a parar diante das lojas, a atravessar a rua para ir saudar alguém, pedindo-lhe notícias e opiniões; esforço inconsciente para sacudir de si a personalidade emprestada.

Ao contrário, Sofia, passado o susto e o espanto, mergulhou no devaneio; todas as referências e histórias mentirosas de Rubião como que lhe davam saudades, - saudades de quê? - "saudades do céu", que é o que dizia o padre Bernardes do sentimento de um bom cristão. Nomes diversos relampejavam pelo azul daquela possibilidade. Quanto pormenor interessante! Sofia reconstruiu a caleça velha, onde entrou rápida, donde desceu trêmula, para esgueirar-se pelo corredor dentro, subir a escada, e achar um homem, - que lhe disse as cousas mais apetitosas deste mundo, e as repetiu agora, ao pé dela, no carro, mas não era, não podia ser o Rubião. Quem então? Nomes diversos relampejavam pelo azul daquela possibilidade. Tudo sonhos!

Sonhos não eram, entretanto, as palavras ouvidas por ela, mais de uma vez, entre uma polca e uma quadrilha, ao canto da janela ou passeando; palavras finas e belas, aladas de ouro, que entravam agora pela carruagem, vindas de diversos pontos do tempo e do espaço. Lépidas muitas, outras melancólicas, outras nervosas ou sanguíneas, e cada uma com o próprio som da boca que a proferiu. Leitora da minh`alma, perdoa-lhe se até vieram palavras de Carlos Maria, - que lá andava longe, por terras europeias, com a esposa ao lado. E com as ouvidas, chegaram também as palavras lidas, as de novela, que espertam o temperamento, formando todas um coro vibrante, um coro que não acabava mais.


 

CLIV (ii)



Enquanto ela escutava todas aquelas vozes sonoras e amigas, Rubião tomava pé na realidade, e ia ter com o Palha, a quem disse meia dúzia de cousas justas. assim que, quando Sofia à tarde, contou o lance da carruagem ao marido, este ouviu-a incrédulo e desconfiado.

- Rubião esteve hoje comigo, disse ele fincando os olhos na mulher e achei-o em seu perfeito juízo. Conversamos pouco, mas falou bem. Palavras, modos, nada fazia suspeitar a menor turvação de cabeça.

- A que horas?

- Quase três.

- Não sei; comigo foi assim.

O Palha deixou-se estar com os olhos nela. Pegava-se-lhe a suspeita de que eram amantes, e que a mulher, vista por alguém na carruagem com o outro, explicava daquele modo a aventura. Quando a ideia se lhe pegou de todo, teve um ímpeto: saltar à mulher, fazê-la ajoelhar e obrigá-la a confessar tudo. Ajoelhar era demais. Uma senhora pode confessar os seus erros, sentada ou de pé; mas a imaginação daquele homem tinha particular amor às cousas aparatosas, e bem pode ser que lhe houvesse ficado de memória algum lance teatral. Sim, a paixão não destrói o caráter, nem a dor impede que uma reminiscência colabore com ela.

Afinal, não a fez ajoelhar, nem lhe pediu confissão. Jantou calado e mal; à noite disse que tinha de ir a Botafogo falar a alguém sobre um negócio. Sofia quis detê-lo, rindo, mas um gesto dele fê-la recuar. Não lhe ocorreu que o Palha podia ir à casa do pobre Rubião, a desafrontar-se; e deixou-o sair.


 

CLV (i)



Não foi a Botafogo o Palha; foi para o lado da cidade, até a rua Sete de Setembro. Desceu a rua da assembleia, subiu pela de S. José e enfiou pela de Uruguaiana até o Alcazar Lírico.

Naquele trajeto, levou sempre ante os olhos os dous supostos culpados. Não os insultava, não tinha um nome ruim para os enxovalhar, à meia voz ou de cabeça. Todo ele era pouco para imaginar. Ouvia os carinhos de ambos, inventava os quadros, coloria-os, dava-lhes vida, e a raiva crescia e a dor ficava mais lancinante. Tinha estremeções, vertigens, à medida que a probabilidade da posse ia-se-lhe enterrando no cérebro, e a imaginação a tornava real. Vinham-lhe desejos de pegar de um ferro, e correr a matá-lo; - a ela, não, porque o adultério não lhe trazia incompatibilidade moral. Talvez não o matasse, se a condição fosse perdê-la. Toda a sua paixão era física, e nem por isso menos cruel.

Às vezes, duvidava. O Rubião? Que diabo de extravagância! O Rubião? Que feitiço acharia ela naquele homem sem graça? Recordava-se que, mais de uma vez, havia mofado dele a sós; e que ela notava sempre algum dito ou gesto, que movia ao riso de ambos, posto que a lembrança dos mimos e larguezas do amigo prontamente os fizesse emendar a mão.

- Seja como for, tem-se mostrado nosso amigo.

- Isso é verdade.

- Nunca o achamos em falta, etc.

Mas essa mesma recordação agravava a suspeita; a mulher falaria para adormecer a vigilância do marido, e as dádivas do homem podiam ter por objeto íntimo captar a gratidão deste. Já a bonomia do Rubião lhe parecia simulada; achava-lhe agora um olhar empanado e fraudulento. Que importa que lhe faltasse graça?

Deu consigo no Alcazar Lírico. Precisava de ver outras cousas, para arredar os quadros que a imaginação lhe trazia vivos e animados. Representava-se uma peça qualquer; alegre, de certo, e toda gente ria. No fim do ato, viu dous comensais da casa do Rubião e foi ter com eles. Pediu-lhes notícias do amigo; confiou-lhes o receio que alguém lhe comunicara de estar meio doente da cabeça. Um dos comensais, alto e magro - Magalhães por nome - confirmou prontamente o receio; mas o outro negou tal cousa.

- Perdão, Sr. Gama, tornou o primeiro, há de lembrar-se que outro dia, à sobremesa...

- Que foi, à sobremesa? perguntou o Gama, olhando de cima, fulminante.

- Quando ele nos disse que era imperador, - não se lembra? - por sinal que chamou ao Pimentel marechal...

- Sim? Que tem isso? disse o Gama.

E virando-se para o Palha:

- Foi um gracejo dele - porque ele comprou há pouco um busto de Napoleão III e como é grande entusiasta falou assim, dizendo que o imperador era ele. Faça-me favor de dizer em que é que há nisto sinal de loucura?

- Eu não disse loucura, atalhou Magalhães.

- Também não me falaram em loucura propriamente dita, obtemperou o Palha.

- Nem própria nem imprópria. Meio doente da cabeça é que lhe disseram, não foi? Pois não há nada disto.

Magalhães puxava os bigodes, sem achar meio de desmentir-se; assim estivesse arrependido dos seus pecados como de haver lembrado o episódio. Afinal, concordou que podia ser engano...

- Ainda pode ser engano, acentuou o Gama, sorrindo e olhando para o marido de Sofia.

- Foi efetivamente engano.

- Mas então por que afirmou? Sabe que este senhor foi sócio dele, é amigo, naturalmente havia de receber um golpe grande com tal notícia. Às vezes é de uma impressão errada, como esta do Sr. Magalhães, que nascem os boatos.

- Isso é verdade, acudiu Magalhães para não parecer que dava pela insinuação; e continuou, dirigindo-se ao Palha: - Ainda não viu os bustos? Vá ver, que são lindos. Napoleão III até se parece com o nosso amigo...

- E foi também por isso que ele disse ser o imperador dos franceses, afirmou o Gama. Um gracejo, sabe?


 

CLVI (i)



Quando ouviu o sinal de levantar o pano, o Palha despediu-se e saiu. Não sabia a quem desse crédito, e a possibilidade do pior é que o afrontava. O pior era a sanidade mental do Rubião. Entretanto a versão de Magalhães, coincidindo com a de Sofia, dava-lhe força e probabilidade.

- Se fosse verdade! suspirou ele interiormente.

Resolveu ir de manhã à casa do Rubião, e voltou tarde para o Flamengo. A mulher dormia profundamente. Tinha atitudes elegantes e como que afetadas, quando dormia; naquela ocasião parecia estar de propósito, à espera dele, com os braços voltados para cima, cruzando os dedos sobre a cabeça. Os cabelos, mal atados, achavam-se desfeitos em parte. Mas essa mesma atitude, e o desalinho natural do sono, em noite de verão, ainda mais o afligiram e irritaram. A visão fez-se outra vez intensa; o sono chegou tarde e curto. Antes do sol, estava o Palha de pé; e o sol, que se deu pressa em vir, o espetáculo do mar e do céu, a promessa de um belo dia, a vida usual, e as lembranças do escritório até certo ponto o aquietaram. A cabeça, afeita ao meneio do negócio, cuidou em algumas cousas daquela data, umas letras do Banco do Brasil, faturas, contas, descargas.

Quando o Palha tornou ao caso da véspera, não estava inteiramente desassombrado; mas a hipótese do transtorno mental do Rubião fez-se-lhe mais verossímil. Só então lhe ocorreu que a mulher não atribuiria ao Rubião uma doença daquela, que se desmentiria desde logo. Podia inventar outra cousa que explicasse a aventura da carruagem, a audácia dele, ou um impulso leviano seu, - qualquerousa c, menos o delírio. Não obstante, foi à casa do Rubião, eram oito horas da manhã; a mulher levantava-se às nove.

(Continua.)




15 de outubro de 1890, nº 19


 

CLV (ii)



Palha reconheceu, poucas horas depois, a veracidade da mulher. Na manhã seguinte foi a Botafogo, achou Rubião, que a primeira cousa que lhe perguntou foi se já tinha visto o seu busto; e, sabendo que não, correu a mostrar-lho: era o de Napoleão III.

- Que tal?

- Está bom.

- Parecido?

- Sim, parecido.

Rubião fitou por alguns instantes o Palha; depois, bateu-lhe no ombro com entusiasmo:

- Cristiano Palha, estás nomeado duque.

Na alma do Palha houve um minuto em que a pena e o gosto se misturavam de tal maneira, que era difícil distinguir qual dos dous sentimentos prevaleceria; mas os outros minutos vieram trazendo a solução. Desde que a certeza do delírio restituía ao espírito do Palha a paz e a felicidade, o gosto cedeu o passo à pena, que ficou só, diante do nosso homem. Pobre Rubião! murmurava ele. Sim, era verdade que, na véspera, esse enfermo andara de carro com Sofia, e, acordada a paixão antiga, proferira aquelas palavras desatentas.

Na volta, em vez de seguir para a cidade, Palha correu ao Flamengo. A mulher acabara de levantar-se, e lia as folhas do dia, sentada à janela, defronte do mar. Palha chegou-se a ela, inclinou-se e deu-lhe um beijo.

- Perdoa-me, disse, venho de Botafogo; achei-o delirando. Fui um grosseirão ontem...

- Não, senhor, apenas um ingrato, respondeu ela sorrindo.

- Mas, perdoas-me?

Sofia, sem se levantar, esticou os beiços e perdoou-lhe.

- O mesmo delírio? perguntou ela.

- Nomeou-me duque. Crê-se imperador, Napoleão III. Coitado! Fez-me pena! Quando ia a sair encontrei dous sujeitos que costumam almoçar e jantar com ele; falei-lhes do Rubião; um disse que nunca vira nada, mas o outro confessou que havia alguma cousa. Já notara certas palavras enigmáticas; e tinha visto o busto de Napoleão III, que ele apresentava como seu. Acrescentou, porém, que não era nada, um pequeno transtorno de ideias...

Sofia acompanhou o marido até à porta, fez-lhe umas encomendas, e tornou aos jornais. Ia justamente em meio de um folhetim, traduzido do francês, cuja ação era passada grande parte em um castelo. Não gostava de outros romances; trazia a cabeça cheia de marquesas, condessas e duquesas...

- Duquesa! rutilou-lhe agora uma grande mosca de ouro pelo cérebro, ou zumbiu-lhe ao ouvido; não se sabe bem. Mas não se demorou muito, calou-se ou desapareceu. Alas, poor Yorick! pobre Rubião! um doudo, um simples doudo!


 

CLVI (ii)



Mal acabara de sair, tornou o Palha à sala, com uma carta do correio, que recebera à porta, e quis entregar a Sofia por sua mão, quando podia mandar pelo criado; o remorso é obsequioso. A carta era de Maria Luísa, anunciando à prima que interrompiam a viagem, porque o marido, Carlos Maria, tinha de acudir em pessoa a um negócio de bens, que estavam em perigo. Cá estariam em abril. Datava de Paris.

Sofia leu a carta com fastio, deu-a ao marido, que também a leu, e despediram-se outra vez. Ela reflexionou um instante, tentou reler a carta, mas limitou-se a amarrotá-la. Depois continuou o folhetim:

"...Quando Henrique de Thouars entrou no salão, já ali estava a marquesa de Larochette, que lhe disse:

"- Conde, vindes muito tarde.

"- A culpa não é minha, senhora marquesa, retorquiu o mancebo; estive muito tempo com o Sr. de Fervacques...

"- Ah! e os papéis?

"- Trago-os aqui...

"- Todos?

"- Não; falta a carta de 12 de outubro.

"Ai, conde! é o principal documento..."


 

CLVII (i)



Espalhou-se a nova da mania de Rubião. Alguns, não o encontrando nas horas do delírio, faziam experiências, a ver se era verdadeiro o boato; encaminhavam a conversação para os negócios de França e do imperador. Rubião resvalava ao abismo, e convencia-os. Podemos compará-lo a um piano mágico, donde uma sonata saía inteira, só com tirar-lhe a primeira nota. Um dedo bastava, um dedo e uma tecla. O resto vinha da alma do instrumento, - por ventura, um aranha.

Ocasião houve, por esse tempo, em que Rubião teve uma crise que lhe durou mais que de costume. Foi em março, quando aqui chegou o primeiro batalhão, de volta da campanha do Paraguai. Rubião assistiu à passagem dos soldados, na rua, entre dous corredores, no meio da multidão. Súbito, imaginou que eram as tropas francesas que tornavam da campanha da Itália; posto que com os pés no chão, cuidou tê-los nos estribos, ele a cavalo, e os chapéus das mulheres e dos homens, que o rodeavam, deram-lhe a imagem dos penachos do seu estado-maior. Oh! com que alma aplaudiu a bizarria dos soldados, - não em grita, mas grave e solene! Esse único batalhão eram cem brigadas, tudo se multiplicava, e a consciência de empréstimo ocupou por longo tempo o lugar da própria.

Entretanto, conhecidos e amigos continuavam a recebê-lo. Camacho, quando casou a filha, não deixou de o convidar, nem ele de comparecer. Ao jantar, fez Rubião um brinde bem deduzido e curto, que foi aplaudido, principalmente por não haver discrepado um instante do assunto e da razão. Camacho agradeceu comovido. "as alegrias da amizade e da família, - concluiu o pai da noiva, - consolam do ostracismo, e das injúrias do poder".

(Continua.)



Quincas Borba não foi publicado no número de 31 de outubro de 1890, nº 20




15 de novembro de 1890, nº 21


 

CLVI (ii)



Passaram-se alguns meses, veio a guerra franco-prussiana, e as crises de Rubião tornaram-se mais intensas e menos espaçadas. Quando as malas da Europa chegavam cedo, Rubião saía de Botafogo, antes do almoço, e corria a esperar os jornais; comprava a Correspondência de Portugal, e ia lê-la no Carceller. Quaisquer que fossem as notícias, dava-lhes o sentido da vitória. Fazia a conta dos mortos e feridos, e achava sempre um grande saldo a seu favor. A queda de Napoleão III foi para ele a captura do rei Guilherme, a revolução de 4 de setembro um banquete de bonapartistas. Nada o entusiasmou tanto como a proclamação do império germânico, em Versalhes.

- Estou satisfeito com os príncipes alemães, disse ele em casa, quando aquela notícia chegou ao Rio de Janeiro; fizeram-me hoje uma apoteose, e entregaram-me a Alemanha. Agradeci, mas vou dá-la ao rei Guilherme. Para que quero eu outro império? Já dei Veneza aos italianos.

Em casa, os amigos do jantar não se metiam a dissuadi-lo. Também não confirmavam nada, por vergonha uns dos outros; sorriam e desconversavam. Todos, entretanto, tinham as suas patentes militares, o marechal Torres, o marechal Pio, o marechal Ribeiro, e acudiam pelo título. Rubião via-os fardados; ordenava um reconhecimento, um ataque, e não era necessário que eles saíssem a obedecer; o cérebro do anfitrião cumpria tudo. Quando Rubião deixava o campo de batalha para tornar à mesa, esta era outra. Já sem prataria, quase sem porcelana nem cristais, ainda assim aparecia aos olhos de Rubião regiamente esplêndida. E a comida tinha o mesmo caráter. Pobres galinhas magras eram graduadas em faisões; picados triviais, assados de má morte traziam o sabor das mais finas iguarias da terra. Lá os comensais faziam algum reparo, entre si, - ou ao cozinheiro, - mas Luculo ceava sempre com Luculo. Toda a mais casa, gasta pelo tempo e pela incúria, tapetes desbotados, mobílias truncadas e descompostas, álbuns rotos, cortinas enxovalhadas, nada tinha o seu atual aspecto, mas outro, lustroso e magnífico. E a linguagem era também diversa, rotunda e copiosa, e assim, as ideias, algumas extraordinárias, como as do finado amigo Quincas Borba, - teorias que ele não entendera, quando lhas ouvira outrora, em Barbacena, e que ora repetia com lucidez, com alma, - às vezes, empregando as mesmas frases do filósofo. Como explicar essa repetição do obscuro, esse conhecimento do inextricável, quando as ideias e as palavras pareciam ter ido com os ventos de outros dias? E por que todas essas reminiscências desapareciam com a volta da razão?


 

CLVII (ii)



A compaixão de Sofia, - explicado o mal de Rubião pelo amor que ele lhe tinha, - era um sentimento médio, não simpatia pura nem egoísmo ferrenho, mas participando de ambos. Uma vez que evitasse alguma situação idêntica à do coupé, tudo ia bem. Nas horas em que Rubião estava lúcido, escutava-o e falava-lhe com interesse, - até porque a doença, dando-lhe audácia nos momentos de crise, dobrava-lhe a timidez nas horas normais. Não sorria, como o Palha, quando Rubião subia ao trono ou comandava um exército. Crendo-se autora do mal, perdoava-lho; a ideia de ter sido amada até à loucura, sagrava-lhe o homem.


 

CLVIII



- Por que não o tratam? perguntou uma noite D. Fernanda, que ali o conhecera no ano anterior; pode ser que se cure.

- Parece que não é cousa grave, acudiu o Palha; tem desses acessos, mas assim mansos, como viu, ideias de grandeza, que passam logo; e repare que, fora daquilo, conversa perfeitamente. Contudo, pode ser... Que acha V. Exa.?

Teófilo, o marido de D. Fernanda, respondeu que sim, que era possível.

- Que fazia ele, ou que faz agora? continuou o deputado.

- Nada, nem agora nem antes. Era rico, - mas gastador. Conhecemo-lo quando veio de Minas, e fomos, por assim dizer, o seu guia no Rio de Janeiro, aonde não voltara desde longos anos. Bom homem. Sempre com luxo, lembra-se? Mas, não há riqueza inesgotável, quando se entra pelo capital; foi o que ele fez. Hoje creio que tenha pouco...

- Podia salvar-lhe esse pouco, fazendo-se nomear curador, enquanto ele se trata. Não sou médico, mas pode ser que esse seu amigo fique bom.

- Não digo que não. Realmente, é pena... Dá-se com todos e presta seus serviços. Sabe que esteve para ser nosso parente? Pois não? Andou com ideias de casar com Maria Benedita.

- A propósito de Maria Benedita, interrompeu D. Fernanda, ia me esquecendo que trago uma carta dela para mostrar à senhora; recebi-a ontem. Já há de saber que em breve estão de volta? Está aqui.

Entregou a carta a Sofia, que a abriu sem entusiasmo, e a leu com tédio. Era mais que uma vulgar carta transatlântica, era um depósito moral, uma confissão íntima e completa de pessoa feliz e agradecida. Contava os mais recentes episódios da viagem, desordenadamente, porque os viajantes eram sobrepostos a tudo, e as mais belas obras do homem ou da natureza valiam menos que os olhos que as miravam. Valiam ainda menos; às vezes, um incidente de hospedaria ou de rua comia mais papel e trazia mais interesse que outros, pela razão de pôr em relevo as qualidades do marido. Maria Benedita amava tanto ou ainda mais que no primeiro dia. No fim, a medo, em post-scriptum, pedindo que o não dissesse a ninguém, confessava que era mãe.

Sofia dobrou o papel, não já com tédio, senão com azedume, e por dous motivos que se contradizem; mas a contradição é deste mundo. A expansão da prima com uma estranha era o primeiro. Cotejada aquela carta com as que recebera de Maria Benedita, dir-se-ia que ela era apenas uma conhecida, sem outro laço de sangue ou de afeto; e, principalmente, não havia na última, chegada na véspera, a confissão final daquela, agravada pela recomendação de não a transmitir a ninguém. O segundo motivo era essa felicidade cochichada do outro lado do oceano, cheia de minúcias, de adjetivos, de exclamações, era o atropelo com que interrompia uma história para falar de Carlos Maria, do olhar de Carlos Maria, de um dito de Carlos Maria, dos passeios longos e solitários com Carlos Maria, e finalmente do filho de Carlos Maria. Parecia acinte, e quase fazia crer na cumplicidade de D. Fernanda.

Hábil, sabendo domar-se a tempo, Sofia dissimulou o azedume, e restituiu sorrindo a carta da prima. Quis dizer que, pelo texto, a felicidade de Maria Benedita devia estar intacta como a levara daqui, mas a voz não lhe passou da garganta. D. Fernanda é que se incumbiu de conclusão:

- Vê-se bem que é feliz!

- Parece que sim.

- Creia que eu teria remorsos, se acontecesse o contrário; mas, alcançando o que alcancei, sinto-me ainda mais feliz que ela, se é possível. A verdade é que sua prima merece tudo: é um anjo. Nós, ainda que não tivéssemos de ficar no Rio de Janeiro, este ano, por outros motivos, ficaríamos para recebê-la e ouvi-la, para que eu lhe desse muitos beijos, muitos...

Sofia concordou que a prima tinha jus à afeição da amiga; e já agora pôs algum calor na palavra, para não desmerecer de D. Fernanda, personagem alta, brevemente (quem sabe?) esposa de ministro. Igual cuidado animava o marido, que falava ao deputado em matérias econômicas, - a pretexto de um discurso de Teófilo, na câmara, - "um discurso que o indicava para substituir o ministro da fazenda."

(Continua.)




30 de novembro de 1890, nº 22


 

CLIX



Se a manhã seguinte não fosse chuvosa, Sofia, que dormira mal a noite, poderia ter tido outra ordem de ideias. O sol nem sempre é oficial de boas ideias; mas, ao menos, - que é o nosso ponto, - permite sair de casa. A chuva caía grossa e contínua, e o céu e o mar era tudo um, tão baixas estavam as nuvens e tão espessa era a cerração, que não consentia ver nem suspeitar as montanhas do outro lado da baía.

Tudo aborrecido fora, tudo aborrecido dentro. Não havia horizonte em que espraiasse a vista e descansasse a alma. Chuva, chuva, chuva, nada mais que chuva, e um nevoeiro de todos os diabos. Sofia meteu a alma em um caixão de cedro, o qual ficou dentro do caixão de chumbo do dia, - metáfora fúnebre, mas não há outra que melhor quadre à situação moral da nossa amiga. Dir-se-á que, além de fúnebre, a metáfora é mal ajustada, porque, se ela meteu a alma no féretro, aconteceu a esta o que acontece aos defuntos, que não pensam. Esse é o erro dos séculos. Todo defunto, por estar encerrado no féretro, não deixa de pensar alguma cousa, - um resto de ideias, - as últimas notas do banco intelectual. Que ele é inútil levar dinheiro para o outro mundo, meu caro senhor: lá, como no Eldorado de Voltaire, todas as despesas de hospedagens são pagas pelo governo.

As ideias da alma de Sofia não eram últimas, - eis a diferença entre ela e os defuntos de verdade. Nem últimas, nem claras, e tantas que não caberiam em um capítulo, mas tão irmãs que poderiam formar uma só, e talvez fosse isso mesmo, - uma única, cintilando no fundo da consciência, em tal maneira que pareciam muitas, e até contrárias. Convenho que entramos no mistério. E tudo nasceu da maldita carta da véspera, e das recordações que lhe trouxe de Carlos Maria, um homem que era agora seu primo. Sinceramente, cuidara ter arrancado de si a erva ruim que ali brotara, em certa noite fatídica. Verificava que não; ainda lá estavam raízes, que deram de si mesma erva do demônio, tomando o espaço às belas açucenas, às rosas puras, cândidas e cheirosas. Tudo mato, agora, e da pior espécie. E foi ele que deitou ali a semente fecunda e daninha. Foi esse vadio enfatuado e egoísta que a convidou um dia ao passo do adultério, e a deixou sozinha no meio do salão.

Depois, visto que o pão do ódio pode ser pão de família, Sofia partiu aquele com a prima, dissimulada e pérfida criatura, um caco de gente, que ela foi buscar à roça para lhe dar lustre de cidade, e que esqueceu o benefício um dia, para só se lembrar das suas ambições. Neste ponto estava tão desvairada que chegou a profanar, - imaginação, - a maternidade da prima; mas recuou logo, - ou retida pelo respeito, ou animada de outro sentimento menos puro. Que sentimento? Cosei o gosto da vingança ao impulso da curiosidade, e tereis alguma solução explicativa. Sim, podia levar-lhe o desespero à alma, - ou, pelo menos, a desilusão de uma felicidade que devia parecer-lhe eterna e única.

Como pensasse em D. Fernanda, a propósito da felicidade dos dous, atribuiu a comunicação da carta de Maria Benedita ao gosto gratuito e perverso de lhe fazer ler o post-scriptum, confidência íntima e exclusiva. Não advertiu que o prazer da felicidade da amiga bastava a explicar o esquecimento da parte reservada da carta; menos ainda indagou se a natureza moral de D. Fernanda comportava essa suposição. Achou-a possível; e, não querendo lançar-lha em rosto, porque a mulher do deputado fazia parte da sociedade que lhe abrira as portas, entender-se-á a amargura que tal suposição trouxe à nossa dama. Entretanto, o despeito acordou-lhe na alma uma recordação da véspera, por ocasião da visita de D. Fernanda, a saber, o longo olhar de admiração em que o marido desta a envolveu. Em verdade, estava nos seus melhores dias; o vestido que trazia sublinhava admiravelmente a gentileza do busto, o estreito da cintura e o relevo delicado das cadeiras; - era foulard, cor de palha.

- Cor de palha, acentuou Sofia rindo, quando D. Fernanda o elogiou, pouco depois de entrar. Cor de palha, como uma lembrança deste senhor.

Não é fácil dissimular o prazer da lisonja; o marido sorriu cheio de agradecimento, procurando ler nos olhos dos outros o efeito daquela prova minuciosa de amor. Teófilo elogiou também o vestido, mas era ainda menos fácil contemplá-lo sem contemplar também o corpo da dona; dali os olhos compridos que lhe deitou, sem concupiscência, é certo, e quase sem reincidência. Pois esse incidente da véspera, um gesto sem convite, uma admiração sem desejo, veio meter-se de permeio agora, quando Sofia cuidava na maldade da outra.

Carlos Maria, Teófilo... Outros nomes relampejavam no céu daquela possibilidade, como ficou expresso no cap. CLIV. E vieram todos agora, porque a chuva continuava a cair e o céu e o mar estavam ainda unidos pela mesma cerração. Vieram todos esses nomes, com os próprios sujeitos correspondentes, e até vieram sujeitos sem nomes, - os adventícios e ignorados, - que uma só vez passaram por ela, cantaram o hino da admiração e receberam o óbolo da boa vontade. Por que não reteve algum de tantos, para ouvi-lo cantar e enriquecê-lo? Não é que os óbolos enriqueçam a ninguém, mas há outras moedas de maior valia; há dracmas, há talentos. Por que não reteve um de tantos nomes elegantes, e até egrégios? Essa pergunta sem palavras correu-lhe assim muitas vezes, pelas veias, pelos nervos, pelo cérebro, sem outra resposta mais que a agitação e a curiosidade. A disposição latente, - nativa ou adquirida, - era agora vontade imperiosa. A imaginação dourava tudo.


 

CLX



Nisto, a chuva cessou um pouco, e um raio de sol logrou romper o nevoeiro, - um desses raios úmidos que parecem vir de olhos que choraram. Sofia cuidou que ainda podia sair, estava inquieta por ver, por andar, por sacudir aquele torpor, e esperou que o sol varresse a chuva e tomasse conta do céu e da terra; mas o grande astro percebeu que a intenção dela era constituí-lo lanterna de Diógenes, para achar um homem, e disse ao raio úmido: "Volta, volta ao meu seio, raio casto e virtuoso; não vás tu conduzi-la aonde o seu desejo a quer levar. Que ame, se lhe parece; que responda aos bilhetes namorados, - se os recebe e não queima, - não lhe sirvas tu de archote, luz do meu seio, raio, irmão dos meus raios..."

E o raio obedeceu, recolhendo-se ao foco central, um pouco espantado do temor do sol, que tem visto tantas cousas ordinárias e extraordinárias. Então o véu de nuvens fez-se outra vez espesso, e mais escuro, e a chuva tornou a cair em grandes bátegas.


 

CLXI



Sofia resignou-se à reclusão. Sentou-se à janela para fartar-se de enfado com o espetáculo do tempo; mas esse espetáculo ia já agora com a situação moral da moça, e não tardou que ela esquecesse o tédio e a rua. De fato, a cerração, não permitindo distinguir nada, navio ou montanha, reproduziu-se dentro dela, relativamente aos homens. Tendo recordado muitos deles, e os seus nomes e as suas figuras, perdia-os a todos para ver somente uma grande massa confusa, incoercível. Não tinha agora mais que um desejo sem eleição, uma curiosidade sem designada pessoa. Queria amar, amar, amar. Tanto melhor se fosse ao melhor dos homens; mas, o mais insignificante deles, o mais banal ou vão, era ainda assim um homem, - tão legítimo como outro qualquer, uma vez que lhe viesse dar a mão no meio da sala, onde Carlos Maria a deixara sem parceiro.

(Continua.)




15 de dezembro de 1890, nº 23

CLXI

(Continuação)

Naturalmente, não refletia essas cousas, - sentia-as apenas, - e tais estados de consciência, vagos e obscuros, não deixavam memória integral, nem clara. assim, quando ela tornava à realidade local e presente, mal podia restaurar as sensações anteriores; ficava-lhe, porém, o bastante para reconhecê-las e tentar fugir-lhes. Baldado esforço; não tardava a escorregar de um estado em outro, como os olhos sonolentos se fecham de cada vez que espertam, e tornam a espertar para se fecharem outra vez. Afinal, Sofia deixou a vista da chuva e do nevoeiro; estava cansada, e para repousar, foi abrir as folhas do último número da Revista dos Dous Mundos. Um dia, no melhor dos trabalhos da comissão das Alagoas, perguntara-lhe uma das elegantes do tempo, casada com um senador.

- Está lendo o romance de Feuillet, na Revista dos Dous Mundos?

- Estou, acudiu Sofia; é muito interessante.

Não estava lendo, nem conhecia a Revista; mas, no dia seguinte, pediu ao marido que a assinasse; leu o romance, leu os que saíram depois, e falava de todos os que lera ou ia lendo. Abertas as folhas daquele número, e acabada uma novela, Sofia recolheu-se ao quarto e atirou-se à cama. Passara mal a noite, não lhe custou pegar no sono, - profundo, largo e sem sonhos, - exceto para o fim, em que teve um pesadelo. Estava diante da mesma parede de cerração daquele dia, mas no mar, à proa de uma lancha, deitada de bruços, escrevendo com o dedo na água um nome - Carlos Maria. E as letras ficavam gravadas, e para maior nitidez, tinham os sulcos de espuma. Até aqui nada havia que espantasse, a não ser o mistério; mas é sabido que os mistérios dos sonhos parecem fatos naturais. Eis que a parede da cerração se rasga, e nada menos que o próprio dono do nome aparece aos olhos de Sofia. Caminha para ela, entra na lancha, toma-a nos braços e diz-lhe muitas palavras de ternura, análogas às que ela, pouco tempo antes, ouvira ao Rubião. E não a afligiram, como as deste; ao contrário, escutou-as com ternura, meia caída para trás, como se desmaiasse. Já não era lancha, mas carruagem, onde ela se ia com o primo, mãos presas, namorada de uma linguagem de ouro e sândalo. Também aqui não há que aterre. O terror veio quando a carruagem parou, muitos vultos mascarados a cercaram; um deles matou o cocheiro, dous arrancaram as portinholas, apunhalaram Carlos Maria e deitaram o cadáver ao chão. Depois, um deles, que parecia ser o cabo de todos, tomou o lugar do defunto, tirou a máscara e disse a Sofia que se não assustasse, que ele a amava cem mil vezes mais que o outro. Logo em seguida, pegou-lhe nos pulsos e deu-lhe um beijo, mas um beijo úmido de sangue, cheio de sangue, inteiramente sangue. Sofia soltou um grito de horror e acordou. Tinha ao pé do leito o marido.

- Que foi? perguntou ele.

- Ah! respirou Sofia. Gritei, não gritei?

Palha não respondeu nada; olhava à toa, pensava em negócios. Então um receio assaltou a mulher, o de haver efetivamente falado, murmurado alguma palavra, um nome qualquer, - o mesmo que escrevera na água. E logo, espreguiçando os braços para o ar, fê-los cair sobre os ombros do marido, cruzou as pontas dos dedos na nuca, e murmurou meio alegre, meio triste:

- Sonhei que estavam matando você.

Palha ficou enternecido. Havê-la feito padecer por ele, ainda que em sonhos, encheu-o de piedade, mas de uma piedade gostosa, um sentimento particular, íntimo, profundo, - que o faria desejar outros pesadelos, para que o assassinassem aos olhos dela, e para que ela gritasse angustiada, convulsa, cheia de dor e de pavor.


 

CLXII



No dia seguinte, o sol apareceu claro e quente, o céu límpido, e o ar fresco. Sofia meteu-se no carro e saiu a visitas e a passeio para desforrar-se da reclusão. Já o próprio dia lhe fez bem. Vestiu-se cantarolando. O trato das senhoras que a receberam em suas casas, - e das que achou na rua do Ouvidor, a agitação externa, as notícias da sociedade, a boa feição de tanta gente fina e amiga, bastaram a espancar-lhe da alma os cuidados da véspera.


 

CLXIII



Assim, pois, o que parecia vontade imperiosa reduzia-se a veleidade pura, e, com algumas horas de intervalo, todos os maus pensamentos se recolheram às suas alcovas. Saíram mais tarde naturalmente, - ao menos, por higiene, - mas nenhum aparelhou para deixar a hospedaria e vir cá fora guerrear os pensamentos contrários. Se me perguntardes por algum remorso de Sofia, não sei que vos diga. Há uma escala de ressentimento e de reprovação. Não é só nas ações que a consciência passa lentamente da novidade ao costume, e do temor à indiferença. Os simples pecados de pensamento, oferecem essa mesma alteração, e o uso de pensar nas cousas afeiçoa tanto o espírito a elas, - que este, afinal, não as estranha, nem as repele. Há sempre um refúgio moral na isenção exterior, que é, por outros termos mais explicativos, o corpo sem mácula.


 

CLXIV



Um só incidente afligiu Sofia naquele dia puro e brilhante, - foi um encontro com Rubião. Tinha entrado em uma livraria da rua do Ouvidor para comprar um romance; enquanto esperava o troco, viu entrar o amigo. Rapidamente voltou o rosto e percorreu com os olhos os livros da prateleira, - uns livros de anatomia e de estatística; - recebeu o dinheiro, guardou-o e, de cabeça baixa, rápido como uma flecha, saiu à rua, e enfiou para cima. O sangue só lhe sossegou, quando a rua dos Ourives ficou para trás. Não podia adivinhar que ele a não tinha visto sequer; nem podia saber que, não a vendo embora, não saísse logo, não a conhecesse, não corresse a agarrá-la, a dizer-lhe algum desvario.

E novamente a assaltou igual receio dias depois, entrando na sala de D. Fernanda, e achando ali Rubião, - eram três horas da tarde. Rubião não a viu chegar; estava metido numa poltrona, no ângulo da sala, perto da janela, inclinado sobre um álbum de retratos, que ia folheando. Não ouviu também as palavras de recepção entre as duas senhoras. Mas, ao fechar o álbum, ergueu a cabeça e viu Sofia; deu-se pressa em ir ter com ela, apertar-lhe a mão, pedir-lhe que a desculpasse, não a vira entrar; e perguntou-lhe pelo marido.

- Está bom.

- Dê-lhe lembranças. Agora as senhoras hão de querer conversar sozinhas, dispensem-me. D. Fernanda, amanhã mando-lhe o meu retrato.

- Pois sim; sem falta.

- Sem falta.

D. Fernanda levantou-se para acompanhá-lo até a porta da sala.

- Ele vem aqui muitas vezes? perguntou Sofia, quando a outra tornou a sentar-se.

- Esta é a quarta vez, quarta ou quinta; mas só da segunda vez apareceu com o delírio. Das outras é como viu agora, sossegado, e até conversador. Há nele sempre alguma cousa que mostra não estar completamente bem. Não reparou nos olhos, um pouco vagos? É isso; no mais, conversa bem. Creia, D. Sofia; aquele homem pode sarar. O nosso médico já me disse que ainda é tempo. Por que não faz com que seu marido tome isto a peito?

- Cristiano tem ideia de o mandar examinar e tratar; mas, deixe estar que eu o apresso.

- Sim, fale-lhe. Ele parece ser muito amigo da senhora e do Sr. Palha.

- Ter-lhe-á dito alguma inconveniência no delírio, a meu respeito? pensou Sofia. Convirá revelar-lhe a verdade?

Concluiu que não; o próprio mal do Rubião explicaria as inconveniências. Prometeu que apressaria o marido, e, nessa mesma tarde expôs o negócio ao Palha, aprovando a ideia de tentar a cura. "Era uma grande amolação," redarguiu ele. E perguntou que interesse tinha D. Fernanda em tornar àquele negócio. Que o tratasse ela mesma! Era uma atrapalhação ter de cuidar do outro, de o acompanhar, e, provavelmente, de recolher e gerir algum resto de dinheiro que ainda houvesse, fazendo-se curador, como dissera o Dr. Teófilo. Um aborrecimento de todos os diabos.

- Já ando com grande carga sobre mim, Sofia. E depois como há de ser? Havemos de trazê-lo para casa? Parece que não. Metê-lo onde? Em alguma casa de saúde... Sim, mas se não quiserem aceitá-lo? Não hei de mandá-lo para a Praia Vermelha... E as responsabilidades? Você prometeu que me falaria?

- Prometi, e afirmei que você faria isto, respondeu Sofia sorrindo. Talvez não custe tanto como parece.

Sofia insistiu ainda, naquele e nos outros dias, mas com grande tento para não enfadá-lo. A compaixão de D. Fernanda tinha-a impressionado muito; achou-lhe um quê distinto e nobre, e advertiu que se a outra, sem relações estreitas nem antigas com Rubião, tinha aquele sentimento desinteressado, era de bom gosto não ser menos generosa.

(Continua.)



Quincas Borba não foi publicado no número de 31 de dezembro de 1890, nº 24.




15 de janeiro de 1891, nº 01


 

CLXV



Tudo se fez sossegadamente. Palha arranjou uma casinha na rua do Príncipe, cerca do mar, onde meteu o nosso Rubião, alguns trastes, e o cachorro amigo. Rubião aceitou a mudança sem desgosto, e, desde que lhe tornou o delírio, com entusiasmo. Estava nos seus paços de S. Cloud.

Não sucedeu assim aos amigos da casa, que receberam a notícia da mudança como um decreto de exílio. Tudo na antiga habitação fazia parte deles, o jardim, a grade, os canteiros, os degraus de pedra, a sala, a enseada. Traziam tudo de cor; eram capazes de transpor o portão com os olhos fechados, e ir direitinhos, sem encontrões, sem desvio de uma linha, até a cadeira de costume, à mesa do jantar, e estender a mão ao vinho, à fruta, à compota, aos palitos. E não falo da diferença entre as duas habitações, posto ninguém ignore ser mais aprazível entrar em casa grande que em casa pequena, - não só por dar mais na vista, como por elevar muito mais o próprio espírito e a consideração de si mesmo. Acrescente-se o sentimento de domínio, espertado e fortalecido pelo costume de entrar ali todos os dias, sem bater, porque o portão vivia escancarado, e a porta da casa abria-se, dando volta à maçaneta. Era entrar, pendurar o chapéu, e ir esperar na sala. Tinham perdido a noção da cousa alheia e do obséquio recebido; tudo era de todos e de cada um. Depois, a vizinhança. Cada um daqueles amigos do Rubião estava afeito a ver as pessoas do lugar, as caras da manhã e as da tarde, alguns chegavam a cumprimentá-las, como aos seus próprios vizinhos.

Não obstante, iriam todos para Babilônia, como os desterrados de Sião. Onde quer que estivesse o Eufrates, achariam salgueiros em que pendurassem as harpas saudosas, - ou mais propriamente, cabides em que pusessem os chapéus. A diferença entre eles e os profetas é que, ao cabo de uma semana, pegariam outra vez dos instrumentos, e os tangeriam com a mesma graça e força; cantariam os velhos hinos, tão novos como no primeiro dia, e Babel acabaria por ser a mesma Sião, perdida e resgatada.

- O nosso amigo precisa de repouso por algum tempo, disse-lhes o Palha, em Botafogo, na véspera da mudança. Hão de ter reparado que não anda bom; tem suas horas de esquecimento, de transtorno, de confusão, vai tratar-se, há de ficar bom; mas, por enquanto é preciso que descanse. Arranjei-lhe uma casa pequena, mas pode ser que, ainda assim, passe para um estabelecimento de saúde.

Ouviram atônitos. Um deles, o Pio, voltando a si mais depressa que os outros, respondeu que há mais tempo se devia ter feito aquilo; mas, para fazê-lo, era preciso ter influência decisiva no ânimo de Rubião.

- Muitas vezes lhe disse, por boas maneiras, que era indispensável consultar um médico, por me parecer que tinha alguma cousa no estômago... Era um modo de desviar o sentido, compreende? Mas ele respondia sempre que não tinha nada, digeria bem... - "Mas come menos, dizia-lhe eu; há dias em que não come quase nada; está mais magro, um pouco amarelo..." Compreende que não podia dizer-lhe a verdade. Cheguei a falar a um médico, meu amigo; mas o nosso bom Rubião não o quis receber.

Os outros quatro iam confirmando de cabeça toda aquela invenção; era o mais que se lhes podia pedir e tudo o que lhes consentia o atordoamento do golpe. Acabaram perguntando o número da nova casa, para irem saber dele. Pobre amigo! Quando se arrancaram dali, e se despediram uns dos outros, deu-se um fenômeno com que não contavam; é que eles mesmos mal podiam separar-se. Não que os ligasse amizade nem estima; o próprio interesse os fazia antipáticos. Mas o costume de se verem todos os dias, ao almoço e ao jantar, - à mesma mesa, como que os tinha fundido uns nos outros; a necessidade os fez suportáveis, o tempo os tornou mutuamente precisos. Em resumo, eram os olhos de cada um que iam padecer com a ausência das caras de uso, do gesto conhecido, das suíças, dos bigodes, dos olhos, da calva, dos sestros particulares, do modo de comer, de falar e de estar dos companheiros. Reciprocamente, valiam a fruteira costumada, o saleiro, a quina do aparador; cousas e pessoas já incrustadas no cérebro de cada um deles. Era mais que separação, era desarticulação.


 

CLXVI



Rubião notou que eles não o acompanharam à casa nova, e mandou-os chamar; nenhum veio, e a ausência encheu de tristeza o nosso amigo, - durante as primeiras semanas. Era a família que o abandonava. Rubião procurou recordar se lhes fizera algum mal, por obra ou por palavra, e não achou nada.

Da antiga casa vieram só um criado e o cão. Este não sentiu a mudança, e entrou pela habitação nova como se fosse a mesma anterior, sem estranheza nem diminuição. A casa era o amigo. Não deu pela falta do jardim, nem pela escassez de luz. Vivia ao pé de Rubião, diante dele, em volta dele. Nos primeiros dias do delírio, o cão espantara-se de o ouvir falar só, algumas vezes, olhava, não via ninguém; acabou persuadindo-se que o discurso era para ele, e quedava-se a escutá-lo. De quando em quando, erguia-se, dava dous pulos, corria em volta, agitando a cauda, para mostrar que entendia. Vendo que o amigo continuava a falar, tornava à primeira posição, sentado sobre as patas traseiras, com os olhos fitos e atentos. Se Rubião andava de um lado para outro, ele acompanhava-o com os olhos, - e se o via parar diante da parede, falando sempre, ia farejá-la a ver se era uma pessoa.

- ... E ali está Morny, que me não deixa mentir, disse um dia Rubião apontando para o cachorro.

Quincas Borba, ao ver-se designado, remexeu-se todo de contente, correu ao amigo, trepou-lhe aos joelhos, lançou-lhe as patas sobre os ombros, e lambeu-lhe o queixo; depois, enrolou-se-lhe sobre as pernas para dormir. Não dormiu cinco minutos: Rubião ergueu-se subitamente para ir falar a uma sombra, deixou-o cair, pisou-lhe uma das pernas, e não ouviu os gemidos do pobre diabo. Também não duraram muito; a dor morreu discretamente para que o cão continuasse a fitar o dono e amá-lo.


 

CLXVII



- Conversei com o homem; achei-lhe ideias delirantes. Conquanto não seja alienista, acho que pode ficar bom... Mas quer saber uma ideia interessante?

- Crê que fique bom? disse D. Fernanda, sem atender à pergunta do Dr. Falcão.

Era deputado o Dr. Falcão, deputado e médico, amigo da casa, varão sabedor, céptico e frio. D. Fernanda tinha-lhe pedido o favor de examinar o Rubião, pouco depois que este se transportou para a casa da rua do Príncipe.

- Sim, creio que fique bom, desde que seja regularmente tratado. Pode ser que a doença não tenha antecedentes na família. Mande ver um especialista. Mas não quer saber a minha interessante descoberta?

- Qual é?

- Talvez tenha parte na moléstia uma pessoa sua conhecida, respondeu ele sorrindo.

- Quem?

- D. Sofia.

- Como assim?

- Ele falou-me dela com entusiasmo, disse-me que era a mais esplêndida mulher do mundo, e que a nomeara duquesa, por não poder nomeá-la imperatriz; mas que não brincassem com ele que era capaz de fazer como o tio, divorciar-se e casar com ela. Concluí que terá tido paixão pela moça; mas pode ser alguma cousa mais. Fala dela com tal intimidade, Sofia para aqui, Sofia para ali... Desculpe-me, mas eu creio que os dois se amaram...

- Oh! não!

- D. Fernanda, creio que se amaram. Que admira? Eu mal a conheço; a senhora mesmo parece que não a conhece há muito tempo, nem viveu na intimidade dela. Pode ser que se tivessem amado, e que alguma paixão violenta... Suponhamos que ela o mandasse pôr fora de casa... É verdade que tem a mania das grandezas; mas tudo se pode juntar...

D. Fernanda não olhava para o outro, vexada de lhe ouvir aquela suposição; evitava discuti-la pelo melindre do assunto. Achava a suspeita sem fundamento, absurda, inverossímil; não chegaria a crer naquele amor espúrio, ainda que o ouvisse ao próprio Rubião. Um desvairado, em suma. Quando o não fosse, é ainda provável que lhe não desse fé. Sim, não lhe daria fé. Não podia crer que Sofia houvesse amado aquele homem, não por ele, mas por ela, tão correta e pura. Era impossível. Quis defendê-la; mas apesar da intimidade do Dr. Falcão, recuou segunda vez do assunto, e repetiu a pergunta de há pouco:

- Parece-lhe então que ele pode ficar bom?

- Pode, mas não basta o meu exame. A senhora sabe que, nestas cousas, é melhor um especialista.

Pouco depois, saindo à rua, Falcão sorria da resistência de D. Fernanda em aceitar a sua hipótese. "Com certeza, houve alguma cousa, dizia ele consigo; sujeito rico, e se não é um petimetre, é apessoado, e tem fogo nos olhos. Com certeza..." E repetia algumas frases de Rubião, evocava o gesto e a modulação terna da voz com que falava de Sofia, e cada vez mais se lhe ia agravando a suspeita. "Com certeza..." Era já impossível que se não tivessem amado; a oposição de D. Fernanda parecia-lhe ingênua, - se não era antes um recurso para desconversar e não tocar na matéria. Havia de ser isso, não queria opinar de boca...

Neste ponto, sem querer, o deputado estacou o passo. Uma suspeita nova assaltara-lhe o espírito. Após alguns instantes rápidos, deu de ombros, voluntariamente, como a desmentir-se, como a achar-se absurdo, e foi andando. Mas a suspeita era teimosa, e a que ocupa deveras o interior do homem, não faz caso de ombros nem dos seus gestos. "Quem sabe se D. Fernanda não suspirou também por aquele doente? E essa dedicação não era um prolongamento de amor, etc.?" E assim se foi desfiando um rosário de perguntas, que achavam no íntimo do Dr. Falcão resposta afirmativa. Ele ainda resistiu, era amigo da casa, tinha respeito a D. Fernanda, conhecia-a honesta; mas, ia ele pensando, bem podia ser que um sentimento oculto, recatado, - quem sabe até se provocado pela mesma paixão da outra...? Há dessas tentações. O contágio da lepra corrompe o mais puro sangue; um triste bacilo destrói o mais robusto organismo.

Pouco a pouco, as veleidades de resistência foram cedendo à noção da possibilidade, da probabilidade e da certeza. Em verdade, tinha notícia de algumas obras de caridade de D. Fernanda; mas aquele caso era novo. Essa dedicação especial a um homem que não era familiar da casa, nem velho amigo, nem parente, aderente, colega do marido, qualquer cousa que o fizesse partícipe da vida doméstica, pelas relações pelo sangue ou pelo costume não era explicável sem algum motivo secreto. Amor, seguramente; curiosidade de mulher honesta, que pode descambar no vício e no remorso. Aquela teria recuado a tempo; ficou-lhe a simpatia mórbida... E daí, quem sabe?


(Continua.)




31 de janeiro de 1891, nº 02


 

CLXVIII



E daí, quem sabe? repetiu o Dr. Falcão na manhã seguinte. A noite não apagara a desconfiança do homem. E daí quem sabe? Sim, não seria só simpatia mórbida. Sem conhecer Shakespeare, ele emendou Hamlet: "Há entre o céu e a terra, Horácio, muitas cousas mais do que sonha a vossa vã filantropia". Ali andou dedo de amor. E não chasqueava nem lastimava nada. Já disse que era céptico; mas, como era também discreto, não transmitiu a ninguém a sua conclusão.


 

CLXIX



A volta de Carlos Maria e da mulher interrompeu as preocupações de D. Fernanda, relativamente a Rubião. Esta foi a bordo recebê-los, conduziu-os à Tijuca, onde um velho amigo da família de Carlos Maria alugara e trastejara uma casa, por ordem dele. Sofia não foi a bordo; mandou o coupé esperá-los no cais Pharoux, mas D. Fernanda já ali tinha uma caleça, que os levou, e mais a ela e ao Palha. De tarde, Sofia foi visitar os recém-chegados.

D. Fernanda não cabia em si de contente. as cartas de Maria Benedita os davam por felizes; ela não pôde ler desde logo nos olhos e nas maneiras do casal a confirmação do escrito. Pareciam satisfeitos. Maria Benedita não reteve as lágrimas, quando abraçou a amiga, nem esta as suas, e ambas se apertaram como duas irmãs de sangue. Na Tijuca, quando puderam falar a sós, D. Fernanda perguntou a Maria Benedita se ela e o marido eram felizes, e, sabendo que sim, pegou-lhe nas mãos e fitou-a longamente sem achar palavra. Não logrou mais que repetir a pergunta:

- Vocês são felizes?

- Somos, respondia Maria Benedita.

- Não sabe que bem me faz a sua resposta. Não é só porque eu teria remorsos, se vocês não tivessem a felicidade que eu imaginei dar-lhes, mas também porque é bem bom ver os outros felizes. Ele gosta de você como no primeiro dia?

- Creio que mais, porque eu o adoro.

D. Fernanda não entendeu esta palavra. Creio que mais, porque eu o adoro! Em verdade, a conclusão não parecia estar nas premissas; mas era o caso de emendar Hamlet: "Há entre o céu e a terra, Horácio, muitas cousas mais do que sonha a vossa vã dialética". Pobre D. Fernanda! Não conhecia o poeta, e provavelmente não se conhecia a si, - que era ainda o meio mais seguro de decifrar a palavra obscura de Maria Benedita. Esta começou a contar-lhe a viagem, a desfiar as suas impressões e reminiscências; e, como o marido viesse ter com elas, pouco depois, recorria à memória dele para preencher as lacunas.

- Como foi, Carlos Maria?

Carlos Maria lembrava, explicava, ou retificava, mas sem interesse, quase impaciente. Adivinhara que Maria Benedita acabava de confiar à outra as suas venturas, e mal podia encobrir o efeito desagradável que isto lhe trazia. Era um Deus, mas à maneira do sermão da montanha: "Quando quiseres orar não faças como os fariseus que vão orar em pé nas sinagogas e nos cantos das ruas, para que os vejam; mas entra no teu aposento, fecha a porta, e ora a teu pai em secreto; e teu pai, que está no céu, te dará a paga". Ele não estava no céu, mas ali mesmo, presente, visível, palpável, adorável, cheio de recompensa e de favor. Para que dizer que era feliz com ele, se não podia ser outra cousa? E por que divulgar os seus carinhos e palavras, as suas misericórdias de Deus meigo e amigo?

A volta ao Rio de Janeiro foi uma condescendência sua. Maria Benedita queria ter aqui o filho; o marido cedeu, - a custo, mas cedeu. A custo, por quê? É difícil explicá-lo, não menos que entendê-lo. Relativamente à maternidade, Carlos Maria tinha ideias pessoais e singulares, recônditas, não confiadas a ninguém. Achava impudica a natureza em fazer da gestação humana um fenômeno público, franco às vistas, crescente até ao aleijão, sugestivo até ao desrespeito. Daí vinha o desejo da solidão, do mistério e da ausência. Viveria de boa mente os últimos tempos no interior de uma casa única, posta no alto de um morro, vedada ao mundo, donde a mulher baixasse um dia com o filho nos braços e a divindade nos olhos.

Não fez sobre isto nenhuma proposta à mulher. Teria de discutir, e ele não gostava de discutir; preferia ceder. Maria Benedita tinha naturalmente o sentimento contrário: considerava-se a si mesma um templo divino e recatado, em que vivia um Deus, filho de outro Deus. A gestação ia cheia de tédios, de dores, de incômodos que ela ocultava o mais que podia ao marido; mas tudo isso dava maior preço à criaturinha futura. Acolhia o mal com resignação, - se não é que o agasalhava com alegria, - uma vez que era a condição da vinda do fruto. Fazia cordialmente o ofício da espécie. E repetia sem palavras a resposta de Maria de Nazaré: "Eu sou a serva do senhor; faça-se em mim a sua vontade".


 

CLXX



- Você que tem? perguntou Maria Benedita ao marido, logo que ficaram sós.

- Eu? Nada. Por quê?

- Parecia estar aborrecido.

- Não, não estava aborrecido.

- Estava, sim, insistiu ela.

Carlos Maria sorriu, sem responder. Maria Benedita já lhe conhecia esse sorriso especial, inexpressivo, sem ternura nem censura, superficial e pálido. Não teimou em querer saber, mordeu os beiços e retirou-se.

No quarto, durante algum tempo, não cuidou de outra cousa que não fosse aquele sorriso descorado e mudo, sinal de algum aborrecimento, cuja culpa não podia ser senão ela. E percorria toda a conversação, todos os gestos que fizera, e não achava nada que explicasse a frieza, ou o que quer que era de Carlos Maria. Talvez ela se mostrasse excessiva nas palavras; era seu costume, se estava contente, pôr o coração nas mãos e distribuí-lo a amigos e a estranhos. Carlos Maria reprovava essa generosidade, porque dava um ar de sorte grande no seu estado moral e doméstico, e porque lhe parecia banal e inferior. Maria Benedita recordava-se que, em Paris, na colônia brasileira, sentira mais de uma vez esse efeito de suas expansões, e reprimira-se. Mas D. Fernanda estaria no mesmo caso? Não era a autora da felicidade de ambos? Rejeitou essa hipótese, e tratou de ver outra. Não a achando, - voltou à primeira, e, segundo lhe sucedia sempre, deu razão ao marido. Em verdade, por mais íntima e grata que fosse, não devia contar à boa amiga as minúcias da vida; era leviandade sua, ele tinha muita razão...

Náuseas vieram interrompê-la neste ponto das reflexões. A natureza lembrava-lhe uma razão de Estado - a razão da espécie, - mais instante e superior aos tédios do marido. Ela cedeu à necessidade; mas, poucos minutos depois, estava ao pé de Carlos Maria, contornando-lhe o pescoço com o braço direito. Ele, sentado, lia uma revista inglesa; pegou-lhe na mão direita, pendente sobre o peito, e acabou a página.

- Você me perdoa? perguntou a mulher, quando o viu fechar o folheto. Daqui em diante vou ser menos tagarela.

Carlos Maria pegou-lhe nas duas mãos, sorrindo e respondeu com a cabeça que sim. Foi como se lançasse uma onda de luz sobre ela; a alegria penetrou-lhe a alma. Dir-se-ia que o próprio feto repercutiu a sensação e abençoou o pai.

(Continua.)




15 de fevereiro de 1890, nº 03


 

CLXXI



- Perfeitamente! assim é que eu os quero ver! bradou uma voz do lado da varanda.

Maria Benedita afastou-se rapidamente do marido. A varanda, que comunicava para a sala, por três portas, tinha uma destas aberta. Dali viera a voz; dali espiava e ria a cabeça de Rubião. Era a primeira vez que o viam. Carlos Maria, sem se levantar, olhava para ele, sério, esperando. E a cabeça ria, com os seus fartos bigodes de ponta de agulha, mirando um e outro, e repetindo:

- Perfeitamente! Assim é que eu os quero ver!

Rubião entrou, estendeu-lhes a mão, que eles aceitaram sem carinho, disse muitas frases de admiração e louvor a Maria Benedita, ela tão galante, ele tão galhardo; notou que ambos tivessem o nome de Maria, espécie de predestinação, e acabou noticiando a queda do ministério.

- Caiu o ministério? perguntou involuntariamente Carlos Maria.

- Não se fala em outra cousa na cidade. Vou abancar-me, sem pedir licença, já que não me oferecem cadeira, continuou ele, sentando-se, tirando a bengala que trazia debaixo do braço e firmando as mãos sobre ela. Pois é verdade, o ministério pediu demissão. Vou organizar outro. Há de entrar o Palha, o nosso Palha, - seu primo Palha, - e o senhor também, se lhe dá gosto, será ministro. Preciso de um bom gabinete, todo gente amiga e forte, capaz de dar a vida por mim. Hei de chamar o Morny, o Pio, o Camacho, o Rouher, o major Siqueira. A senhora lembra-se do major? Creio que fica com a guerra; não conheço homem mais apto para os negócios militares.

Maria Benedita, aborrecida e impaciente, andava pela sala, à espera que o marido mandasse alguma cousa; este disse-lhe com os olhos que se fosse embora; ela não aguardou outro gesto, pediu licença ao hóspede e retirou-se. Rubião, depois que ela saiu, elogiou-a novamente, - uma flor, disse ele; e emendou-se rindo: duas flores, creio que há ali duas flores. Nosso Senhor as abençoe! Carlos Maria estendeu-lhe a mão em ar de despedida.

- Meu caro senhor...

- Posso incluí-lo no ministério? perguntou Rubião.

Não ouvindo resposta, entendeu que sim e prometeu-lhe uma boa pasta. O major iria para a guerra, e o Camacho para a justiça. Não os conhecia acaso? "Dous grandes homens, Camacho ainda maior que o outro". E obedecendo a Carlos Maria, que ia andando na direção da porta, Rubião retirava-se sem se sentir; mas não saiu tão pronto. Na varanda, antes de descer os degraus, referiu vários fatos da guerra. Por exemplo, tinha restituído a Alemanha aos alemães; era bonito e político. Já havia dado Veneza aos italianos. Não precisava mais território; as províncias do Reno, sim, mas havia tempo de as ir buscar.

- Meu caro senhor... insistiu Carlos Maria estendendo-lhe a mão.

Despediu-o e fechou a porta; Rubião proferiu ainda algumas palavras e desceu os degraus. Maria Benedita, que os espreitava do fundo, veio ter com o marido, reteve-o pela mão, e ficou a ver o Rubião que atravessava o jardim... Não ia direito nem apressado, nem calado; detinha-se, gesticulava, apanhava um galho seco, vendo mil cousas no ar, mais galantes que a dona da casa, mais galhardas que o dono. Da vidraça miravam o nosso amigo, e, em certo lance grotesco, Maria Benedita não pôde suster o riso; Carlos Maria olhava plácido.

- Mas se a queda do ministério é verdadeira, disse ela, sabe você quem está ministro?

- Quem? perguntou Carlos Maria com os olhos.

- Seu primo Teófilo. A prima contou-me que ele andava com suas esperanças, e foi por isso que ficou este ano na Corte. Desconfiou, ou já se falava na saída do ministério; talvez desconfiasse. Não me lembra bem o que ela me disse; mas parece que entra.

- Pode ser.

- Prima Fernanda diz que ele continua a almoçar, jantar e cear política. Eu bem via lá em casa deles, antes de nos casarmos. Reuniões de deputados, à noite, falando e fumando muito... olha, lá saiu Rubião, continuou Maria Benedita; mas não, parou, está olhando para cima, espera talvez a diligência ou o carro. Ele tinha carro. Lá vai andando...

- Com quê, o Teófilo está ministro! exclamou Carlos Maria.

E, depois de um instante:

- Creio que dará um bom ministro. Você queria ver-me também ministro?

- Se você gostasse, que remédio?

- De maneira que por teu voto, não o era? perguntou Carlos Maria.

- Que hei de responder? pensou ela, escrutando o rosto do marido.

Ele, rindo:

- Confessa que me adorarias, ainda que eu fosse uma simples ordenança de ministro.

- Justamente! exclamou a moça, lançando-lhe os braços aos ombros.

Carlos Maria afagou-lhe os cabelos, e murmurou sério: - Bernadotte foi rei, e Bonaparte imperador. Você queria ser a rainha mãe da Suécia?

Maria Benedita não entendeu a pergunta nem ele a explicou. Para explicá-la seria mister dizer que possivelmente trazia ela no seio um Bernadotte; mas esta suposição significava um desejo, e o desejo uma confissão de inferioridade. Carlos Maria espalmou outra vez as mãos sobre a cabeça da mulher, com um gesto que parecia dizer: "Maria, tu escolheste a melhor parte..." E ela pareceu entender o sentido daquele gesto.

- Sim! sim!

O marido sorriu e tornou à revista inglesa. Ela, encostada à poltrona, passava-lhe os dedos pelos cabelos, muito ao de leve e caladinha para não perturbá-lo. Ele ia lendo, lendo, lendo. Maria Benedita foi atenuando a carícia, retirando os dedos aos poucos, e pé ante pé, saiu da sala, onde Carlos Maria continuou a ler um estudo de Sir Charles Little, M.P., sobre a famosa estatueta de Narciso.

(Continua.)




28 de fevereiro de 1891, nº 04


 

CLXXII



Quando Rubião foi à casa de D. Fernanda, à tardinha ouviu do criado que não podia subir. A senhora estava incomodada; o senhor estava com ela; parece que esperavam o médico. O nosso amigo não teimou, e saiu.

Era o contrário; era o senhor que estava doente, e a senhora que o acompanhava; mas o criado não podia trocar o recado que lhe deram. Outro criado desconfiou, é certo, que o doente fosse ele e não ela, porque o vira entrar abatido. Em cima, no quarto deles, havia algum rumor de vozes, ora alto, ora baixo, com intervalos de silêncio. Uma criadinha, que subira pé ante pé, desceu dizendo que ouvira lastimar-se o amo; provavelmente a senhora estava perdida. Embaixo, um palavrear surdo, ouvidos compridos, conjecturas; notavam que de cima não pedissem água, qualquer remédio, um caldo, ao menos. A mesa posta, o criado engravatado, o cozinheiro orgulhoso e ansioso... Justamente, um dos melhores jantares!

Que era? Teófilo tinha o gesto abatido com que entrou; estava sentado em um canapé, sem colete, olhos fixos. Ao pé dele, sentada também, segurando-lhe uma das mãos, D. Fernanda pedia-lhe que sossegasse, que não valia a pena. E inclinava-se para ver-lhe o rosto, chamava-o para si, queria que ele encostasse a cabeça ao ombro dela...

- Deixa, deixa, murmurava o marido.

- Não vale a pena, Teófilo! Pois agora um ministério...? Valerá tanto um cargo de pouco tempo, cheio de desgostos, insultos, trabalhos, para quê? Não é melhor a vida tranquila? Vá que haja injustiça; creio que sim, você tem serviços; mas será tamanha perda assim? Anda, querido, sossega; vamos jantar.

Teófilo mordia o beiço, olhando para o cisne do tapete, e puxando uma das suíças. Não ouvira nada do que a mulher dissera, nem exortações nem consolações. Ouvira as conversas da noite anterior e daquela manhã, as combinações políticas, os nomes lembrados, os recusados e os aceitos. Nenhuma combinação o incluiu, posto que ele falasse com muita gente acerca do verdadeiro aspecto da situação. Era ouvido com atenção por uns, com impaciência por outros. Uma vez, os óculos do organizador pareceram interrogá-lo, - mas foi rápido o gesto e ilusório. Teófilo recompunha agora a agitação de tantas horas e lugares, - lembrava os que o olhavam de esguelha, os que sorriam, os que trariam a mesma cara que ele. Para o fim já não falava; as últimas esperanças estalavam-lhe nos olhos como lamparina de madrugada. Ouvira os nomes dos ministros, fora obrigado a achá-los bons; mas que força não lhe era precisa para articular alguma palavra! Receava que lhe descobrissem o abatimento ou despeito, e todos os seus esforços concluíam por acentuá-los ainda mais. Empalidecia, tremiam-lhe os dedos.

- O Teófilo está danado, dizia um rindo.

- Com razão, acudia outro que sabia estar condenado a nunca ser ministro; não se pode negar que ele tem mais direito que outros; trabalha há bastantes anos, e é orador de pulso.

- Orador de estatísticas, de algarismos, interveio desdenhosamente um terceiro, não se pode dizer que seja orador de pulso.

Este era um velho deputado, feito para receber ministérios e interpelá-los. Não conhecia de política senão o que trouxe dos tempos de estudante de direito, um pouco de Tocqueville, outro pouco de Guizot, e, não sei por que afeição particular, algumas páginas de Donoso Cortés, que citava a miúdo pela suspeita de que ninguém na câmara o tinha lido. Supria, porém, todas as lacunas com a voz potente, com o asco, a ironia, a indignação simulada. Suas imagens, posto que velhas e insípidas, produziam extraordinário efeito, tal era a arte de as recompor e colorir. Era também anedótico e alegre. Fisicamente, podia subir, baixar, atirar-se pela balaustrada fora ou recuar até às costas da cadeira, cruzando os braços, interrogando, calando, esperando que o senhor ministro explicasse se era capaz, que dissesse ao país, à opinião, à nação ansiosa...

- Mas Thiers também sabe manejar algarismos e é grande orador, ponderou o outro.

- Mas Thiers!... Ora essa, Thiers! Que comparação! Vocês ouviram? continuou parando, porque iam em grupo pela rua; - o Pacheco compara o Teófilo ao Thiers! Pacheco, você é capaz de comparar um boi com uma pulga...

- Não comparei nada! Você é que embrulha tudo. Pois alguém acredita que eu ache no Teófilo nada que se pareça com Thiers?

- Então para que falou em Thiers?

Teófilo jamais soube que havia sido objeto daquela conversação. Se soubesse, não podia consolá-lo a ideia de haver exercido o mesmo ofício crítico a respeito de terceiro, e particularmente daquele deputado que apenas o julgava apto para menear algarismos. Não gostava da oratória dele, e não hesitava em confessá-lo aos amigos; mas, como era afável, e fiel aos costumes, não foi jamais dos últimos em cumprimentá-lo depois de uma oração. Quando a fúria ou a conveniência da ocasião aconselhava o abraço, ele o abraçava. Também o outro o abraçava a ele, nos grandes discursos, e dizia-lhe regularmente que nunca estivera mais demonstrativo.


 

CLXXIII



- Anda, vamos jantar, repetia D. Fernanda.

Teófilo acordou daquelas reminiscências tristes; mas, não acordou senão para enfurecer-se. Deu um golpe no joelho, com a mão aberta, e levantou-se, dizendo palavras soltas e raivosas, que não teriam sentido para quem não soubesse das circunstâncias ou não conhecesse o temperamento da pessoa. D. Fernanda conhecia-o, e o leitor também, se não esqueceu aquele lance de dor e desespero, quando um erro tipográfico lhe desfigurou uma citação. Calcule agora a distância que vai da frase incorreta à ambição malograda, e não se admire de o ver andar de um lado para outro, indignado, batendo o pé, ameaçando.

D. Fernanda não pôde vencer a violência daquele novo acesso, esperou que fosse curto, e foi curto; Teófilo chegou-se a uma poltrona, sacudiu a cabeça e caiu outra vez prostrado. D. Fernanda pegou de uma cadeira e sentou-se ao pé dele. Os olhos com que lhe falou não tinham a doçura cativa e dependente de Maria Benedita, para quem o marido era tudo debaixo do sol. Não era bem a esposa que falava, mas uma criatura humana que via padecer outra.

- Tens razão, Teófilo; mas é preciso ser homem. És moço e forte, tens ainda futuro, e talvez grande futuro. Quem sabe se, entrando agora no ministério, não perderias mais tarde? Entrarás em outro. Às vezes, o que parece desgraça é felicidade.

Teófilo apertou-lhe a mão agradecido.

- É perfídia, é intriga, murmurava ele, olhando para ela, eu conheço toda essa canalha. Se eu contasse a você tudo, tudo... Mas para quê? Prefiro esquecer... Não é por causa de uma miserável pasta que estou aborrecido, continuou ele depois de alguns instantes. Pastas não valem nada. Quem sabe trabalhar e tem talento pode zombar das pastas, e mostrar que é superior a elas. A maior parte dessa gente, Nanã, não me chega aos calcanhares. Disso estou certo e eles também. Súcia de intrigantes! Onde acharão mais sinceridade, mais fidelidade, mais ardor para a luta? Quem trabalhou mais na imprensa, no tempo do ostracismo? Desculpam-se; dizem que os gabinetes já vêm organizados de S. Cristóvão... Ah! eu quisera falar ao Imperador!

- Teófilo!

- Eu diria ao Imperador: "Senhor, Vossa Majestade não sabe o que é essa política de corredores, esses arranjos de camarilha. Vossa Majestade quer que os melhores trabalhem nos seus conselhos, mas os medíocres é que se arranjam... O merecimento fica para o lado." É o que lhe hei de dizer um dia; pode ser até que amanhã...

(Continua.)




15 de março de 1891, nº 05

CLXXIII

(Continuação)

Calou-se, tornou a falar e a calar-se. Depois de longa pausa, ergueu-se e foi ao gabinete de trabalho, que ficava ao pé do quarto e aonde a mulher acompanhou-o.

Era já escuro, acendeu o bico de gás, e circulou pelo gabinete os olhos velados de melancolia. Havia ali quatro largas estantes cheias de livros, de relatórios, de orçamentos, de balanços do Tesouro. A secretária estava em ordem. Três étagères altos guardavam os manuscritos, notas, lembranças, cálculos, apontamentos, tudo empilhado e rotulado metodicamente; - créditos extraordinários, - créditos suplementares, - créditos de guerra - créditos de marinha, - empréstimo de 1868, - estradas de ferro, - dívida interna, - exercício de 61 - 62, - de 62 - 63, - de 63 - 64, etc. Era ali que trabalhava de manhã e de noite, somando, calculando, recolhendo os elementos dos seus discursos e pareceres, porque era membro de três comissões parlamentares, e trabalhava geralmente por si e pelos seis colegas; estes ouviam e assinavam. Um deles, quando os pareceres eram extensos, assinava-os sem ouvir.

- Homem, você é mestre e basta, dizia-lhe, dê cá a pena.

Tudo ali respirava atenção, cuidado, trabalho assíduo, meticuloso e útil. Da parede, em ganchos, pendiam os jornais da semana, que eram depois tirados, guardados e finalmente encadernados semestralmente, para consultas. Os discursos do deputado, impressos e brochados em-4.°, enfileiravam-se em uma estante. Nenhum quadro ou busto, adereço, nada para recrear, nada para admirar; - tudo seco, exato, administrativo.

- De que vale tudo isto? perguntou Teófilo à mulher, após alguns instantes de contemplação triste. Horas cansadas, longas horas da noite até madrugada, às vezes... Não se dirá que este gabinete é de homem vadio; aqui trabalha-se. Você é testemunha que eu trabalho. Tudo para quê?

- Consola-te trabalhando, murmurou ela.

Ele, acerbo:

- Ruim consolação! Não, não, acabo com isto. Trabalhar para o bispo? Não; passo agora a ignorar tudo. Olha, na câmara, todos me consultam, até os ministros - porque sabem que eu aplico-me deveras às cousas da administração. Que prêmio? Vir para cá, em maio, aplaudir os novos senhores?

- Pois não aplaudas nada, disse-lhe mansamente a mulher. Queres fazer-me um obséquio? Vamos à Europa, em março ou abril, e voltemos daqui a um ano. Pede licença à câmara, donde quer que estejamos, - de Varsóvia, por exemplo; tenho muita vontade de ir a Varsóvia, continuou sorrindo e fechando-lhe graciosamente a cara entre as mãos. Diga que sim; responda que é para eu escrever hoje mesmo para o Rio Grande, o vapor sai amanhã. Está dito; vamos a Varsóvia?

- Não brinques, Nanã, que isto não é objeto de brincadeira.

- Falo seriamente. Já há muito tempo que ando para propor a você uma viagem a ver se descansa desta papelada infernal. É demais, Teófilo! Você mal se pode arrumar depois para uma visita. Passeio, é raro. Quase não conversa. Os nossos filhos mal veem seu pai, porque aqui não se entra quando você trabalha... É preciso descansar; peço-lhe um ano de repouso. Olhe que é sério. Vamos para a Europa em março.

- Não pode ser, balbuciou ele.

- Por que não?

Não podia ser. Era convidá-lo a sair do próprio corpo. Política valia tudo. Que também houvesse política lá fora, sim; mas que tinha ele com ela? Teófilo não sabia nada do que ia por fora, exceto a nossa dívida em Londres, e meia dúzia de economistas. Contudo, agradeceu à mulher a intenção da proposta, agora com palavras:

- Tu és boa.

E um sentimento vago de esperança restituía à voz do deputado a brandura que perdera naquela grande crise moral. Os papéis sopravam-lhe ânimo. Toda aquela massa de estudos aparecia-lhe como a terra adubada e semeada aos olhos do lavrador. Não tardaria a grelar; o trabalho teria a recompensa; um dia mais tarde ou mais cedo, o grelo seria árvore, e a árvore daria frutos. Era justamente o que a mulher havia dito por outras palavras diretas e próprias; mas só agora é que ele via a possibilidade da colheita. Ao tempo em que esta consolação levantava a alma do homem, o vexame o abatia. Lembrou-se das explosões de cólera, de indignação, de desespero, das queixas de há pouco, e sentiu-se inferior ou fraco. Teve vergonha da mulher. Quis rir, quis mofar de si mesmo, e fê-lo mal. Aquietou-se, procurou esquecer falando de outros assuntos alheios e diversos, ao jantar, ao café, com os filhos, que naquela noite estiveram com ele até mais tarde. Nuno, que já andava no colégio, onde ouvira falar da mudança de gabinete, disse ao pai que queria ser ministro.

Teófilo ficou sério.

- Meu filho, disse ele, escolhe outra cousa, menos ministro.

- Diz que é bonito, papai; diz que anda de carro com soldado atrás.

- Pois eu te dou um carro.

- Papai já foi ministro?

Teófilo tentou sorrir e olhou para a mulher, que aproveitou a ocasião para mandar deitar os filhos.

- Já, já fui ministro, respondeu o pai beijando a testa ao Nuno; mas não quero mais, é muito feio, dá trabalho. Tu hás de ser capelão.

- Que é capelão?

- Capelão é cama, respondeu D. Fernanda; vai dormir, Nuno.


 

CLXXIV



Ao almoço, no dia seguinte, Teófilo recebeu uma carta por uma ordenança.

- Ordenança?

- Sim, senhor, diz que vem da parte do Sr. presidente do conselho.

Teófilo abriu a carta, com a mão trêmula. Que podia ser? Tinha lido nos jornais a relação dos novos ministros: o gabinete estava completo. Não havia divergência de nomes. Que podia ser? D. Fernanda, defronte do marido, procurava ler-lhe no rosto o texto da carta. Via uma claridade; percebeu que a boca sofreava um sorriso de satisfação, - de esperança, ao menos.

- Diga que espere, ordenou Teófilo ao criado.

Foi ao gabinete, e tornou minutos depois com a resposta. Sentou-se à mesa, calado, dando tempo a que o criado entregasse a carta à ordenança. Desta vez, como estava prevenido, ouviu as patas do cavalo, e logo depois o galope, rua fora, e sentiu-se bem.

- Lê, disse ele à mulher.

D. Fernanda leu a carta do presidente do conselho; era um pedido para ir falar-lhe às duas horas da tarde, se fosse possível.

- Mas então o ministério...?

- Está completo, deu-se pressa em dizer o deputado; os ministros estão nomeados.

Não acreditava de todo o que dizia. Imaginava alguma vaga da última hora, e a necessidade urgente de a preencher, mas não o disse à mulher.

- Há de ser alguma conferência política ou talvez queira conversar sobre o orçamento, - ou incumbir-me algum estudo.

Dizendo isto, para iludir a mulher, sentiu a probabilidade das hipóteses, e outra vez se abateu; mas, três minutos depois, as borboletas da esperança vieram novamente bailar diante dele, não duas, nem quatro, mas um turbilhão, que cegava o ar.


 

CLXXV



D. Fernanda esperou, esperou, esperou, cheia de ânsias, como se o ministério fosse para ela, e lhe viesse dar qualquer gosto, que não fosse amargo e complicado. Uma vez, porém, que satisfizesse o marido, tudo iria pelo melhor. Teófilo tornou às cinco horas e meia. Pelo aspecto reconheceu que vinha satisfeito. Correu a apertar-lhe as mãos.

- Que há?

- Pobre Nanã! Aí vamos com a trouxa às costas. O marquês pediu-me instantemente que aceitasse uma presidência de primeira ordem. Não podendo meter-me no gabinete, onde tinha lugar marcado, desejava, queria e pedia que eu partilhasse a responsabilidade política e administrativa do governo, assumindo uma presidência. Não podia, em nenhum caso, dispensar o meu prestígio (são palavras dele), e espera que na câmara aceite o lugar de chefe de maioria. Que dizes?

- Que arranjemos a trouxa, respondeu D. Fernanda.

- Achas que podia recusar?

- Não.

- Não podia. Você sabe, não se podem negar serviços destes a um governo; ou então deixa-se a política. Tratou-me muito bem o marquês; eu já sabia que era homem superior; mas que risonho e afável! não imaginas. Quer também que compareça a uma reunião íntima, os ministros e alguns amigos, meia dúzia. Confiou-me já o programa do gabinete em conversa...

- Quando saímos?

- Não sei; hei de estar com ele amanhã, à noite. A reunião é amanhã às oito horas... Mas não te parece que fiz bem, aceitando?

- Decerto.

- Sim, se recusasse censurar-me-iam, e com razão. Em política, a primeira cousa que se perde é a liberdade. Agora você é que se quisesse, podia ficar; daqui a cinco meses, - ou quatro, - abrem-se as câmaras; mal terei tempo de chegar e olhar.

(Continua.)




31 de março de 1891, nº 06


 

CLXXVI



D. Fernanda aceitou a proposta; não interrompia a educação do filho; era uma separação de quatro meses. Teófilo partiu daí a dias, um dos ministros foi a bordo despedir-se dele, em nome de todos.

- Adeus, disse-lhe no fim. Olhe que nós temos que empreender grandes cousas. O governo conta com o senhor.

- Não faltarei à confiança do governo.

D. Fernanda não chorava; ao dar, porém, o ultimo abraço, sentiu os olhos molhados e o coração bater-lhe muito. Palha, que eles não esperavam a bordo do paquete, louvava o presidente com palavras de entusiasmo, as mesmas que lhe dissera quando lhe fora dar os parabéns em casa, a pedido de Sofia.


 

CLXXVII



- Você é um esquecido, dissera Sofia ao Palha; deixe escrever no livro de lembranças. Vá, tome, não se esqueça. Se se esquecer de ir dar os parabéns ao Dr. Teófilo não acha jantar. Eu já lá fui ontem.

Palha cumprira à risca a promessa; visitou o novo presidente, que o recebeu com aquela cordialidade derramada e igual para todos que distingue uma alma satisfeita. "Por que não ia com ele ao norte?" Palha confessou que tinha grande desejo de ir ao norte; mas, infelizmente, não podia fazê-lo desde já, os negócios o prendiam, e cuidava da casa nova...

- Sabem que estou fazendo um palacete?

- Não, disse D. Fernanda.

- Em Botafogo. Digo palacete, porque assim lhe chama o arquiteto na planta que me deu. Realmente, é obra bonita. Havemos de inaugurá-lo, quando o nosso presidente vier para a câmara, e se quiser inaugurar o palacete de um barão, é só arranjar-me o título; não me nego ao título, concluiu rindo.

- Pode ser muito bem; Teófilo agora é todo-poderoso.

D. Fernanda satisfazia assim ao hóspede e ao marido; ambos sorriram, e o Palha acrescentou com seriedade que era mais pela mulher que por ele. No dia em que visse Sofia baronesa, teria imenso gosto, já porque ela o merecia, já porque estava certo de que o desejava. Era a sua única ambição.

- Não digo única, emendou-se; mas com certeza a maior. E olhe que não lhe ficava mal. Sempre teve assim um ar de nobreza... Não lhe direi o que se passou agora entre nós; V. Exa. há de surpreender-nos; eu prometo ficar surpreendido, continuou rindo muito. Quando vir o decreto... É decreto? Seja o que for. Quando vir o papel, ou a notícia nos jornais, prometo dar um pulo: "Sofia, Sofia, lê aqui uma cousa." - "Que é?" - "Lê, vê o teu nome..."

- Mas não será o nome dela, interrompeu Teófilo, é o seu. O título é dado ao marido.

- Ah! é verdade... Mas eu digo assim para chamar a atenção. Creia que há de ficar contente.


 

CLXXVIII



Não era o único pedido. Desde a nomeação, recebera Teófilo uma chuva deles, - verdade é que de política provincial, e recomendações de funcionários ou pretendentes pelos amigos daqui, não contando as outras cartas de parabéns, os bilhetes, as visitas em pessoa. Teófilo rejubilava. Por mais que se queixasse de fastio e cansaço em receber e abrir tanto papel, a mulher não acreditava, porque a inquietação que havia nele quando era grande o intervalo entre duas cartas, denunciava a alegria da recepção delas. Entretanto, ela propôs-se a abri-las e lê-las.

- Aqui está mais uma...

- Que é? perguntava ele.

D. Fernanda lia-lhe a carta em voz alta; ele ouvia e lia depois. Tinha já uma centena delas. as visitas eram todas graciosas, diziam-lhe as mesmas palavras, que ele escutava satisfeito e benévolo. Cria em tudo o que lhe anunciavam. Não era ministro, mas era alguma cousa grande, que chamava a atenção dos outros, que o fazia por algum tempo centro da consideração, do aplauso, e não sei se diga da inveja. De feito, não faltavam candidatos a presidências, - muitos sem esperança, mas desejosos de se apegarem a alguém. Relações de família, parentes, aí estavam também, para abraçá-lo até à volta.


 

CLXXIX



A tristeza começou na manhã do embarque, logo cedo, quando Teófilo se foi despedir do gabinete de trabalho. Deitou os últimos olhos aos livros, aos relatórios, aos orçamentos, aos manuscritos, a toda essa parte da família, que só tinha língua e interesse para ele. Havia amarrado os papéis e os folhetos para evitar extravio pelo vento, pelos meninos ou pelos criados, embora fizesse à mulher grandes recomendações. Via tudo; parado no centro, circulou os olhos pelas estantes, e dispersou a alma por todas elas. Trazia os lugares de cor. Sabia onde estava Capefigue, onde Guizot. Despedia-se assim dos seus santos e amigos, com saudades. D. Fernanda, que estava ao pé dele, não viveu ali mais que os dez minutos da despedida. Teófilo viveu um, dous, três anos.


 

CLXXX



- Deixa estar, eu cuidarei deles, eu mesma os espanarei todos os dias.

Teófilo deu-lhe um beijo... Outra mulher recebê-lo-ia, meia triste, por ver que ele amava tanto os livros que parecia amá-los mais que a ela. Mas D. Fernanda sentiu-se feliz. Uma vez que a separação dos livros lhe doía, e que a promessa o consolava, a consolação vinha reflexivamente a ela, e daí o beijo com que replicou ao do marido. Este segundo beijo há de ser menos entendido que o primeiro, porque há ações humanas que parecem extra-humanas à maior parte dos espíritos. Também pode acontecer que a maior parte dos espíritos implique ambos os beijos pela frigidez do amor do casal; explicação errônea, porque eles amavam-se, e muito.


 

CLXXXI (i)



- Bem, obrigado, obrigado. E, assim uma vez olhando para os livros, saiu arrastado do gabinete. Francisco Manoel do Nascimento despediu-se dos seus com lágrimas. Cito este homem, supondo que o conhece, - ao menos, pelo nome arcádico, que era Filinto Elísio. Despediu-se dos livros, como o nosso presidente de província, com uma diferença, e até com duas. A primeira é que, tendo de ir para Haia, mandou-os adiante: encaixotou-os para ir logo atrás deles, e a ausência foi curta. Assim mesmo curta, escreveu-lhes uns versos, que são os mais sentidos de toda a bagagem do poeta: é a segunda diferença, porque Teófilo não fez versos nenhuns, salvo o beijo, que só indiretamente aludiu aos livros e, ainda assim, é preciso que o aceites como um verso, - ou como um poema, se quiseres emendar Boileau:

Un baiser sans défaut vaut seul un long poème.

Filinto Elísio beijou diretamente os livros, os próprios livros, - velhos e poucos, - poucos e pobres, - mas com tais ósculos que sobressaem de todos os milheiros de versos que escreveu, no sentimento e na saudade.


(Continua.)




15 de abril de 1891, nº 07


 

CLXXXI (ii)



A separação custou naturalmente a D. Fernanda. Aos filhos custou menos ou nada; ela disse-lhes que papai tinha ido buscar um brinquedo, a França, que voltaria dali a poucas semanas, e eles esperavam tranquilamente.

- Brinquedo grande?

- Um grande e outro pequeno.

Eles bateram palmas: ela sorria de prazer. Em substância, não prometia aos filhos mais do que o marido aos eleitores, com a diferença de que o marido, provavelmente, traria os dous brinquedos e novos impostos.

Maria Benedita foi ter com ela, e pediu-lhe que, durante a ausência de Teófilo, fosse residir na Tijuca; já tinha falado ao marido. D. Fernanda agradeceu e recusou; precisava cuidar dos filhos, um estava no colégio, e acrescentou rindo que não era criança, não tinha medo de dormir só. Pode ser que Carlos Maria contasse já com essa resposta. Quando Maria Benedita lhe narrou a oferta e a recusa, ouviu-as sem interesse.

- Iremos visitá-la a miúdo, concluiu a mulher.

- A miúdo?

- Sim, para distraí-la.

- Até quando?

Maria Benedita compreendeu o sentido da pergunta, o obstáculo, a sua gravidez; propôs que fossem à noite. Mas Carlos Maria ponderou que era longe, o carro far-lhe-ia mal. Já não era tempo de visitas nem de noitadas.

- Não quero que meu filho nasça coxo, concluiu.

Maria Benedita estremeceu de alegria.

- Pois não saio mais de casa.

Carlos Maria arrependera-se, não da expressão da vontade, mas da forma que lhe deu; pareceu-lhe chula. A aquiescência da mulher depressa lhe desfez a impressão. Ela contou-lhe o que achara em D. Fernanda; nunca imaginou que, separada do marido, pudesse estar tão senhora de si, tão sem lágrimas. Como é que alguém podia ver partir o marido e não morrer?

- Morrer é muito, observou Carlos Maria sorrindo.

- Não digo morrer de verdade, explicou a mulher; mas padecer tanto que valha, mais ou menos, a morte. Não pense que falo assim para que você nunca se separe de mim; estou certa de que não nos separaremos nunca. Mas prima Fernanda! Realmente, está tão dona de casa como sempre a vi, dava ordens, recebia recados, não esquecia cousa nenhuma. Não se lembrava, ao menos, que o marido podia estar naufragando... Oh! concluiu tapando os olhos com a mão.

Carlos Maria advertiu à mulher que os presidentes não naufragam; pelo menos não se conhecia um só caso na história naval do Brasil. Contou, a propósito, o lance de César e sua fortuna. Entretanto, não negava que o mar tinha suas perfídias, e narrou o naufrágio de Ulisses, e o de Sepúlveda; falou em Scila e Caribdes; e, como estava no estreito:

- Passemos à ilha, disse ele. Vamos a ver se tens memória. Lembras-te daquela nossa ceia de figos, na Sicília, com vinho da Toscana?

Maria Benedita franziu um pouco a testa, para lembrar-se, e lembrou-se.

- Você estava com um barrete de veludo azul, disse ela: aquele de borla de ouro...

- Sim? perguntou ele vagamente.

Não sabia nada mais do barrete nem da borla; mas, estas duas palavras, - Toscana e Sicília - ressoavam-lhe no cérebro com a bela harmonia de suas sílabas italianas. Elas é que lhe traziam à boca o sabor dos figos e do vinho. Maria Benedita deixou a sala; ele, depois de alguns instantes, passou à varanda e desceu ao jardim. O céu não lembrava o da Itália, estava brusco; fazia calor, eram três horas da tarde. Antes de dez minutos, apareceu Maria Benedita, e, desceu as escadas às pressas; trazia na mão um barrete de veludo.

- Está aqui, disse ela; era este; as borlas perderam o brilho, mas ainda estão boas; o veludo parece novo. Você estava assim. Abaixa a cabeça.

Carlos Maria obedeceu complacente. Maria Benedita enfiou-lhe o barrete na cabeça, com a borla para a direita.

- Era assim, disse ela, afastando-se um pouco.

Nisto parou um carro, e uma cabeça de mulher saiu pela portinhola, olhando para o jardim.


 

CLXXXII



Era Sofia. A prima foi recebê-la ao portão; abraçaram-se e beijaram-se. Carlos Maria que viera a passo mais lento, estendeu-lhe a mão, inclinando-se.

- Estávamos longe de esperar esta boa fortuna, disse ele. Como vai o nosso amigo Palha?

- Bem, respondeu Sofia, levantando apenas os olhos para ele, e tornando a Sofia para lhe dizer que ainda de manhã não sabia se viria visitá-la ou não. Resolvi de repente e vim. Você como tem passado? Parece que bem. Um bocadinho pálida...

Foram para dentro; detiveram-se um instante na varanda, para que Sofia gozasse o espetáculo do jardim e da montanha; depois passaram à sala. Maria Benedita mostrava-se obsequiosa; queria que a prima jantasse com eles.

- Não posso; virei outro dia.

- Tire, ao menos, o chapéu; ainda é cedo.

Sofia descalçava as luvas, enquanto Carlos Maria lho pedia negligentemente notícias da cidade. Ela respondia o que sabia. A prima insistia que tirasse o chapéu e tirou-lho ela mesma, gabando a forma e a cor. Sofia arranjou os cabelos com um gesto rápido das mãos, e abriu o leque.

- Está quente, disse.

- Não jantará conosco, acudiu Carlos Maria; mas fará conosco o seu luncheon.

Como ficassem sós os dous, por alguns instantes, Sofia correu os olhos pela sala, acabando por dizer que a achava agora mais completa. Carlos Maria respondeu que sim. E faltava ainda alguma cousa. Nem tudo o que ali havia era do seu gosto; preferia maior severidade e pouca modernidade...

- Queria então uma casa de antigalhas? perguntou ela rindo.

- Também não; é difícil explicar-me. Não gosto das cousas da moda, que vêm e vão com o dia. Tudo é mais ou menos caduco, é verdade; mas entre a antigalha e a moda, há um meio termo, que persiste por mais tempo... Não sei se me entende?

- Perfeitamente, respondeu Sofia erguendo-se e indo ver umas teteias japonesas.

Sentia-se lisonjeada com a confidência de Carlos Maria, mas o fato de ir ver aqueles adornos pareceria um protesto, quando não era mais que mostrar-lhe a gentileza do corpo. Deixou depressa os japoneses para fitar uma aquarela.

- Que é isto?

- Porto Vecchio, na Córsega.

Sofia não ficou mais esclarecida com a resposta, mas fez um gesto de haver entendido, e sentou-se outra vez. Falaram então do sol e da chuva, da cidade e dos arrabaldes, do Cassino, do Teatro Lírico, de Petrópolis. Sofia acentuava bem todos os pontos dessa outra geografia, que trazia de cor. Porque não iam passar a estação com ela em Petrópolis, este ano? Carlos Maria abanou a cabeça, e disse que este ano não podia ser. Em geral, mostrou-se indiferente aos entusiasmos elegantes de Sofia. Por que não ia à Europa? perguntou-lhe no meio da descrição de um baile?

- Este ano não; depois que inaugurarmos a casa nova.

E referiu-lhe que o marido estava construindo uma casa em Botafogo. Maria Benedita, que voltava à sala, ouviu o resto da conversação e a promessa de um grande baile, em honra do primo vindouro. A prima disse-lhe isto batendo com as luvas na mão esquerda, tão naturalmente que parecia adorar a felicidade dos dous.

- Olhe, está chovendo; jante conosco, disse Maria Benedita.

- Não posso; um dia destes. Chovia com efeito, ainda que miúdo. Pouco depois foram ao luncheon. Sofia estava cada vez mais expansiva, e agora quase que só ela falava. Carlos Maria mirava aquela bela pessoa, que parecia vender saúde, ao lado da mulher abatida, magra e pálida, e achava a mulher mais bonita.

(Continua.)




30 de abril de 1891, nº 08


 

CLXXXIII



Rubião, desde o dia da crise ministerial, não tornou à casa de D. Fernanda; nada soube, nem da presidência, nem do embarque de Teófilo. Vivia entre o cão e um criado, sem grandes crises, nem longos repousos.

Não queria outro amo o criado; fazia-lhe o serviço irregularmente, comia gratificações, e recebia, a miúdo, o título de marquês. Ao demais, divertia-se. Quando lhe dava ao amo para conversar com as paredes, o criado corria a espiá-lo; assistia ao diálogo, porque o Rubião incumbia-se das palavras delas, respondendo como se houvessem feito alguma pergunta. De noite, ia à palestra com os amigos da vizinhança.

- Como vai o gira?

- O gira vai bem. Hoje convidou o cachorro para cantar; o cachorro ladrou muito, e ele gostou que se pelou, mas assim um gosto de figurão. Ele, quando está de pancada, parece que é como quem governa o mundo. Ainda ontem, almoçando, falou para mim: "Marquês Raimundo quero que tu..." e embrulhou o resto, que não entendi nada. No fim deu-me dez tostões.

- Você guardou logo...

- Ora!

Quando Rubião voltava do delírio, toda aquela fantasmagoria palavrosa tornava-se, por instantes, uma tristeza calada. A consciência, onde ficavam rastos do estado anterior, forcejava por despegá-los de si. Era como a ascensão dolorosa que um homem fizesse do abismo, trepando pelas paredes, arrancando a pele, deixando as unhas, para chegar acima, para não cair outra vez e perder-se. Ia então à visita dos amigos, uns novos, outros velhos, como a gente do major e a do Fialho, por exemplo.

Este, desde algum tempo, era menos conversado. A mesma política não lhe dava matéria aos discursos de outrora. No escritório, quando via Rubião assomar à porta, fazia um gesto de impaciência, que sofreava logo; o outro notava essa mudança, e perdia-se em conjecturas, se lhe fizera alguma ofensa, por descuido - ou se começava a aborrecê-lo. E para desfazer o tédio, se o era, ou o ressentimento, se o havia, falava brando, risonho, suportava calado as pausas. Em vão apelava para o marquês de Paraná, cujo retrato continuava a pender da parede; repetia os nomes que lhe ouvira, - o grande marquês! o estadista consumado! Camacho ia apoiando de cabeça, e escrevendo sem parar, consultando os autos e os praxistas, Lobão, Coelho da Rocha, citando, riscando, pedindo-lhe desculpa. Tinha um libelo que dar naquele dia. Interrompia-se para ir à estante.

- Com licença...

Rubião arredava as pernas para deixá-lo passar; ele tirava um volume das Ordenações do Reino, e folheava, folheava, pulando adiante, voltando atrás, à toa, sem buscar nada, unicamente para o fim de despedir o importuno; mas o importuno ia ficando, por isso mesmo, e entreolhavam-se disfarçados. Camacho tornava ao libelo. Para ler, sentado, inclinava-se muito à esquerda, donde lhe vinha a luz, dando as costas ao Rubião.

- Aqui é escuro, aventurou Rubião um dia.

E não ouviu resposta, tão atento parecia o advogado na leitura dos autos. Realmente, pode ser importunação, pensou o nosso homem. Espreitava-lhe o rosto duro e sério, o gesto com que pegava da pena para continuar o interminável libelo. Vinte minutos mais de silêncio absoluto. No fim desse prazo, Rubião viu-o deixar a pena, retesar o busto, esticar os braços e passar as mãos pelos olhos. Disse-lhe com interesse:

- Cansado, não?

Camacho fez um gesto afirmativo, e preparou-se para continuar; então o nosso homem levantou-se e aproveitou o intervalo para dizer adeus.

- Voltarei, quando estiver menos atarefado.

Estendeu-lhe a mão; Camacho segurou-lha ao de leve, e tornou ao papel. Rubião desceu a escada, aturdido, magoado com a frieza do seu ilustre amigo. Que lhe teria feito?


 

CLXXXIV



Daquela vez, teve a fortuna de encontrar o major Siqueira.

- Ia agora mesmo à sua casa, disse-lhe; vai para lá?

- Vou; mas já não estamos na mesma casa: mudamo-nos para os Cajueiros, rua da Princesa...

- Seja onde for, vamos.

Rubião precisava de um pedaço de corda que o atasse à realidade, porque o espírito sentia-se outra vez presa da vertigem. Entretanto, falou com tanto acerto e propriedade, que o major o achou em pleno juízo, e disse-lhe:

- Sabe que tenho uma grande notícia que lhe dar?

- Vamos a ela.

- Há de ser quando chegarmos.

Chegaram. Era uma casa assobradada; D. Tonica veio abrir-lhes a cancela. Trazia um vestido novo, colete, brincos.

- Olhe bem para ela, disse o major pegando na filha pelo queixo.

D. Tonica recuou envergonhada.

- Estou olhando, respondeu Rubião.

- Não se vê logo que é uma pessoa que vai casar?

- Ah! parabéns!

- É verdade, vai casar. Custou, mas acertou. Achou por aí um noivo, que a adora, como todos eles; quando fui novo, adorei a minha defunta, que foi uma cousa nunca vista... Vai casar. Arranjou um noivo. Custou, mas acertou. Pessoa séria, meia idade; vem aqui passar as noites. De manhã, quando passa para a repartição, creio que bate na janela, ou ela já o espera; eu finjo que não percebo...

D. Tonica dizia com a cabeça que não, mas sorrindo de modo que parecia dizer que sim. Estava tão buliçosa! Nem se lembrava já que requestara o Rubião, que este fora uma das últimas, e por fim a última das suas esperanças. Tinham entrado na sala; D. Tonica foi à janela, entrou, de cabeça alta, andando à toa, reconciliada com a vida.

- Boa pessoa, repetiu o major, boa criatura... Tonica, vai buscar o retrato... anda, vai buscar o teu noivo...

D. Tonica foi buscar o retrato. Era uma fotografia; representava um homem de meia idade, cabelo curto, raro, olhando espantado para a gente, cara chupada, pescoço fino e paletot abotoado.

- Que lhe parece?

- Muito bem.

D. Tonica recebeu o retrato e fitou-o alguns instantes; mas, tirou logo os olhos, e deixou-se estar sentada, enquanto a imaginação saiu a esperar o Rodrigues. Chamava-se Rodrigues. Era mais baixo que ela, - cousa que o retrato não dava, - e empregado em uma repartição do ministério da guerra. Viúvo, com dous filhos, um que estava no batalhão dos menores, outro que era tuberculoso, - doze anos, - condenado à morte. Que importa? Era o noivo; todas as noites, ao recolher-se, D. Tonica ajoelhava-se ante a imagem de Nossa Senhora, sua madrinha, agradecia-lhe o favor e pedia-lhe que a fizesse feliz. Sonhava já com um filho; havia de chamar-se Álvaro.

(Continua.)




15 de maio de 1891, nº 09


 

CLXXXV



Rubião escutou calado um discurso do major relativamente ao noivo e ao casamento. Tinham de esperar mês e meio, contra a vontade da filha, que achava bastante duas semanas; mas o noivo tinha que perfazer os arranjos da casa, não era capitalista, vivia do ordenado e recorria a empréstimos. A casa era a mesma e não exigia trastes novos nem ricos; mas, há sempre algumas necessidades... Em suma, dali a mês e meio, ou pelo menos, cinco semanas, estariam unidos pelos santos laços do matrimônio.

- E fico eu livre do trambolho, concluiu o major.

- Oh! protestou Rubião.

A filha ria-se; estava acostumada às graças do pai, e tão disposta à alegria que nada a vexava; ainda mesmo que o pai se referisse aos seus quarenta anos passados não lhe daria grande golpe. Toda a noiva tem quinze anos.

- Verá como ele há de procurá-la depois, com saudades, disse Rubião a D. Tonica.

- Qual! Talvez eu me case também!

Rubião levantou-se repentino, e deu alguns passos; o major não viu a expressão do rosto, não percebeu que o espírito do homem ia talvez descarrilhar, e que ele mesmo o pressentia. Disse-lhe que se sentasse, e contou-lhe os seus tempos de casado e de campanha. Quando chegou à narração da batalha de Monte Caseros, com as marchas e contramarchas próprias do seu discurso, tinha diante de si Napoleão III. Calado a princípio, Rubião proferiu algumas palavras de aplauso, falou de Solferino, de Magenta, prometeu ao Siqueira uma condecoração. Pai e filha entreolharam-se: o major disse que vinha muita chuva. Com efeito, escurecera um pouco. Era melhor que Rubião fosse, antes de cair água; não trouxera guarda-chuva, o dele era velho e único...

- Aí vem o meu coche, redarguiu Rubião tranquilamente.

- Não vem, foi esperá-lo no Campo. Não vês daí o coche, Tonica?

D. Tonica fez um gesto vago e sem vontade. Não queria mentir, mas tinha medo, e desejava que Rubião saísse. Da casa era impossível ver o Campo da Aclamação. Já então o pai pegava no Rubião pelo braço e o encaminhava para a porta.

- Volte amanhã, depois, quando quiser.

- Mas por que não hei de esperar aqui até que venha o coche? perguntou Rubião. A imperatriz não pode apanhar chuva...

- A imperatriz já foi.

- Fez mal. Eugênia fez muito mal. General... Para que há de o senhor ficar sempre em major? General, vi o retrato do seu genro; quero dar-lhe o meu. Mande às Tulherias. Onde está o coche?

- Está no Campo, esperando.

- Mande chamá-lo.

D. Tonica, que estava à janela, disse para dentro:

- Lá vem Rodrigues.

E tornou a olhar para a rua, inclinando-se, sorrindo, enquanto na sala o pai continuava a guiar o Rubião para a porta, sem violência, mas tenaz. Este parava, repreendia:

- General, sou seu imperador!

- Decerto, mas acompanhe-me Vossa Majestade...

Tinham chegado à porta; o major abriu a cancela, justamente quando o Rodrigues punha o pé na soleira. D. Tonica saiu da janela para receber o noivo, mas a porta estava atravancada com o pai e Rubião. Rodrigues tirou o chapéu, era exatamente o retrato, menos o acabado do retrato. O cabelo, com as duas marcas fundas que lhe deixara o chapéu, era áspero e tirava a grisalho; tinha nas faces chupadas umas pintinhas de sarda, mas o riso era bom e humilde, - mais humilde ainda que bom, - e, não obstante a trivialidade do gesto e da pessoa, era agradável. Os olhos não mostravam o espanto da fotografia; este efeito do retrato provinha da ênfase que ele pôs em todo o corpo a fim de que o retrato saísse bonito.

- Este senhor é o meu futuro genro, disse o major a Rubião. Não é verdade que viu no Campo um coche e um esquadrão de cavalaria? perguntou ao Rodrigues, piscando um olho.

- Parece que sim, senhor.

- Pois então? continuou Siqueira, voltando-se para Rubião. Vá, vá, dobre a rua de S. Lourenço, e caminhe direito para o Campo. Adeus, até amanhã.

Rubião desceu três degraus, - eram cinco, - e parou diante do recém-chegado, fitou-o alguns instantes e declarou que estimava muito conhecê-lo, que fosse bom esposo e bom genro. Como se chamava?

- Rodrigues.

- Rodrigues. Hei de mandar-lhe uma fitinha aqui para a casaca. É o meu presente de núpcias. Lembre-me, Siqueira.

Siqueira pegou-lhe no braço para fazê-lo descer os dous últimos degraus, e pô-lo na rua.

- No Campo, dizes tu?

- No Campo.

- Adeus.

Da rua, ainda Rubião olhou para cima, com os dedos no chapéu, a fim de despedir-se de D. Tonica; mas D. Tonica estava na sala, onde Rodrigues acabava de entrar, fresco e delicioso, como a primeira rosa de verão.


 

CLXXXVI



Rubião não cuidou mais do coche nem do esquadrão de cavalaria. Foi dar consigo abaixo, andou por várias ruas, até que subiu pela de S. José. Desde o paço imperial, vinha gesticulando e falando a alguém que supunha trazer pelo braço, e era a imperatriz. Eugênia ou Sofia? Ambas em uma só criatura, - ou antes a segunda com o nome da primeira. Pessoas que iam andando, paravam alguns instantes; do interior das lojas vinha gente às portas. Uns riam-se, outros ficavam indiferentes; alguns, depois de verem o que era, desviavam os olhos para poupá-los à aflição que lhes dava o espetáculo do delírio. Uma turba de moleques acompanhava o Rubião, alguns tão próximos, que lhe ouviam as palavras. Crianças de toda a sorte vinham juntar-se ao grupo. Quando eles viram a curiosidade geral, entenderam dar voz à multidão, e começou a surriada:

- Ó gira! ó gira!

Esse vozear chamou a atenção de outras pessoas; muitas janelas dos sobrados começaram a abrir-se, viram-se aparecer curiosos de ambos os sexos e todas as idades, um fotógrafo, um estofador, três e quatro figuras juntas, cabeças por cima de outras, todas inclinadas, espiando, acompanhando o homem, que falava à parede, com o seu gesto cheio de grandeza e de obséquio.

- Ó gira! ó gira! berravam os pequenos.

Um deles, muito menor que todos, apegava-se às calças de outro, taludo. Era já na parte em que a rua se chamou do Parto. Rubião continuava a não ouvir nada; mas, de uma vez que ouviu, supôs que eram aclamações, e fez uma cortesia de agradecimento. A surriada aumentava, crescia o rumor, um cão latia; uma mulher chegou à porta da loja, bradando para fora:

- Deolindo! vem para casa, Deolindo!

Deolindo, a criança, que se agarrava às calças da outra mais velha, não obedeceu; pode ser que nem ouvisse, tamanha era a grita, e tal a alegria do pequerrucho clamando com a vozinha miúda: - Ó gira! ó gira!

- Deolindo!

Deolindo tratou de esconder-se entre os outros, para escapar às vistas da mulher que o chamava; esta, porém, correu ao grupo, e arrancou-o de lá. Em verdade, era pequeno demais para andar em tumultos de rua.

- Mamãe, deixa eu ver...

- Qual ver! anda!

Meteu-o em casa, e ficou à porta, olhando para cena da rua. Rubião estacara o passo; ela pôde vê-lo bem, com os seus gestos e falares, o peito alto, e uma barretada que deu em volta.

- Os malucos têm graça, às vezes, disse ela sorrindo a um vizinha, que chegava à janela da rótula.

Os rapazes continuavam a bradar e a rir, e Rubião foi andando, com o mesmo coro atrás de si. Deolindo, à porta da loja, vendo o grupo alongar-se para o lado da Carioca, pedia chorosamente à mãe que o deixasse ir também, ou então que o levasse. O pequerrucho esticava o pescocinho, pesaroso de não ver da porta. Quando perdeu as esperanças, enfeixou todas as energias em um só gritozinho esganiçado:

- Ó gira!

- Menino, sossega, vai para dentro, anda, disse-lhe a mãe.


 

CLXXXVII



Quando tornou à porta, achou a vizinha a rir-se, e riu-se também com ela. Confessou que era uma pestezinha o filho, um endiabrado, que não sossegava; não podia perdê-lo de vista. Qualquer distração, estava na rua. E isto desde pequenino; tinha ainda dous anos, quando escapou de morrer embaixo de um carro, que passava ali mesmo; esteve por um fio. Se não fosse um homem que passava, um senhor bem vestido, que acudiu depressa, até com perigo de vida, estaria morto e bem morto. Nisto o marido, que vinha pela calçada oposta, atravessou a rua, e interrompeu a conversação. Trazia o cenho carregado, mal cumprimentou a vizinha, e entrou; a mulher foi ter com ele. Que era? O marido contou-lhe a surriada.

- Passou por aqui, disse ela.

- Não conheceste o homem?

- Olhei para ele. Não me lembra quem possa ser.

O marido cruzou os braços e ficou a olhar, fixo, calado. A mulher perguntou-lhe quem era.

- É aquele homem que nos salvou o Deolindo da morte.

A mulher teve um calefrio.

- Viste bem?

- Perfeitamente. Se eu já o tinha encontrado outras vezes, mas então não estava assim. Coitado! E a molecada berrava atrás dele. Qual! não há polícia nesta terra.

O que lhe doía à mulher não era tanto o mal do homem, nem ainda a surriada; mas a parte que teve nesta o filho, - a mesma criança que o homem salvara da morte. Realmente, como podia o menino reconhecê-lo, nem saber que lhe devia a vida? Doía-lhe o encontro, a coincidência. Afinal, contentou-se de pôr todas as culpas em si. Se tivesse tido mais cuidado, o pequeno não haveria saído, e não entraria na troça. Tremia de quando em quando, e estava inquieta. O marido pegou na cabeça do filho, e deu-lhe dous beijos.

- Você viu a cena toda? perguntou à mulher.

- Vi.

- Eu ainda quis dar o braço ao homem, e trazê-lo para aqui; mas, tive vergonha; os moleques eram capazes de dar-me uma vaia. Desviei o rosto, porque ele podia conhecer-me. Coitado! Nota que não parecia ouvir nada, e seguia satisfeito, creio que até ria... Que triste cousa que é perder o juízo!

A mulher pensava no caso do filho; não o referia ao marido, pediu à vizinha que não aludisse a ele, e, de noite, só pregou olho depois das duas horas. Sonhou que, anos depois, o filho era castigado pela troça, ficando doudo também, e que ela cuspia para o céu, indignada, blasfemando.



Quincas Borba não foi publicado no número de 31 de maio de 1891, nº. 10.




15 de junho de 1891, nº 11


 

CLXXXVIII



Duas horas depois da cena da rua da Ajuda chegou Rubião à casa de D. Fernanda. Já não levava a garotada atrás de si. Os vadios foram-se dispersando, a pouco e pouco, e os claros não se preenchiam; os três últimos juntaram os seus adeuses em um berro único e formidável. Rubião continuou sozinho, mal percebido pelos moradores das casas, porque a gesticulação diminuía ou mudava de feitio. Não falava para o lado da parede, à suposta imperatriz; mas era ainda imperador. Caminhava, parava, murmurava, sem grandes gestos, sonhando sempre, sempre, sempre, envolvido naquele véu, através do qual todas as cousas eram outras, contrárias e melhores; cada lampião tinha um aspecto de camarista, cada esquina uma feição de reposteiro. Rubião seguia direito à sala do trono, para receber um embaixador qualquer, mas o paço era interminável, tinha de atravessar muitas salas e galerias, verdade é que sobre tapetes, - e por entre alabardeiros, altos e robustos.

Das gentes que o viam, e paravam na rua, ou se debruçavam das janelas, muitas suspendiam por instantes os seus pensamentos tristes ou enfastiados, as preocupações do dia, os tédios, os ressentimentos, este uma dívida, outro a fome, desprezos de amor, vilanias de amigo. Cada miséria esquecia-se, o que era melhor que consolar-se; mas o esquecimento durava um relâmpago. Passado o enfermo, a realidade empolgava-os outra vez, as ruas eram ruas, porque os paços suntuosos iam com Rubião. E mais de um tinha pena do pobre diabo; comparando as duas fortunas, mais de um agradecia ao céu a parte que lhe coube, - amarga, mas consciente. Preferiam o seu casebre real ao alcáçar fantasmagórico. Era de outro sentir o doutor Falcão.


 

CLXXXIX



- Quer que lhe dê a minha opinião em confiança? disser ele a D. Fernanda, dous dias depois dos três capítulos anteriores, quando ela lhe escreveu, pedindo o favor de lhe falar a casa.

- Quero.

- A mania do Rubião não é das que devam ser curadas... Não se espante; ouça-me. Ele pensa ser imperador, crê que dispõe de uma nação, de um exército, e, por quebra, de uma esposa bonita. Que benefício lhe quer a senhora dar, arrancando-lhe essa ilusão? O pobre homem, tornado ao que era, sentir-se-á desgraçado. Quem sabe se ele não terá padecido a sério, por simples ilusões? Agora é feliz, por outra ilusão. Tudo se compensa neste mundo. Ao meu ver, o melhor é deixá-lo Bonaparte. A personalidade alheia vai consumindo a própria, até substituí-la de todo.

- Consumindo? interrompeu D. Fernanda. Então não há remédio?

- Pode haver; mas que lucra ele com isso?

- O senhor é cruel, disse ela sorrindo.

E contou-lhe, ainda uma vez, a impressão que teve, quando viu o Rubião entrar delirante, na antevéspera. Apareceu à porta da sala, perguntando pela imperatriz. Onde está a imperatriz? Ao ver D. Fernanda, titubeou um pouco; pareceu que ia ficar bom. Mas não: deu com uma poltrona, disse que era o trono, e sentou-se, respirando como cansado de andar; referiu depois uma porção de incidentes confusos, com palavras mal articuladas. D. Fernanda confessou que ficara atônita, por supô-lo recolhido a uma casa de saúde; a notícia que lhe dera Sofia, desde muito, era que o marido cuidava dos últimos arranjos. Escrevera-lhe na véspera; ela prometeu que, dentro de dous dias, o negócio estaria concluído.

- Bem; que quer a senhora de mim? perguntou Falcão.

- Que intervenha como médico, recomendando, e, se for preciso, acompanhando o doente à casa de saúde. Ele tem ainda recursos, em poder do Palha; mas, se faltar algum dinheiro, respondo pelo resto.

- Estou pronto a servi-la; mas, não me dirá que lhe merece aquele pobre diabo para tamanha tristeza?

- Tenho pena dele.

- É natural, mas por que não tem pena de si?

E, com palavras discretas, cosidas laboriosamente, a ponto de reticência e de atenuação, ponderou-lhe que os seus desvelos podiam ser mal interpretados. A bela guasca ouviu as primeiras frases, quase sem as entender bem; quando as penetrou de todo, soltou uma risada.

- Cruel e poltrão! exclamou. É muita cousa junta. Quem é que lhe ensinou esses terrores para impedir que eu cuide de uma criatura de Deus? Ah! meu caro doutor, se, a cada passo que a gente dá, tivesse de consultar a opinião, acabava ficando no mesmo lugar; e, para não ir mais longe, que estaria o senhor fazendo aqui? Não, doutor, nem toda a gente é suspeitosa; há alguns maus, naturalmente, mas a maior parte tem boa índole e espírito justo. Isto que eu faço, qualquer pessoa o faria, sem bulha nem matinada. De mais a mais, Rubião é um bom homem, liberal, afável; adoeceu tristemente, e de moléstia que o senhor mesmo acha curável. Tratemos de curá-lo; façamos, ao menos, o possível. Se não quiser acompanhá-lo, acompanhá-lo-ei eu, e apresentá-lo-ei à administração e aos médicos... Que mal nos virá disto?

- A mim nenhum. Vamos arrancar-lhe a coroa e fazê-lo súdito.

- Poltrão e cruel! exclamou D. Fernanda sorrindo.

(Continua.)




30 de junho de 1891, nº 12


 

CXC



Dous dias depois, foi Rubião recolhido a uma casa de saúde. Palha esquecera a obrigação que Sofia lhe impôs, e Sofia não se lembrou mais da promessa feita à rio-grandense. Cuidavam ambos de outra casa, um palacete em Botafogo, cuja reconstrução estava prestes a acabar, e que eles queriam inaugurar, no inverno, quando as câmaras trabalhassem, e toda a gente houvesse descido de Petrópolis. Mas a nova promessa foi cumprida: Rubião deu entrada no estabelecimento, onde ficou ocupando uma sala e um quarto especiais, recomendado pelo Dr. Falcão e pelo Palha. Não resistiu a nada; acompanhou-os com satisfação, e entrou nos seus aposentos, como se os conhecesse desde muito... Quando eles se despediram, dizendo que já voltavam, Rubião convidou-os para uma revista militar, no sábado.

- Pois sim, sábado, assentiu Falcão.

- Sábado é bom dia, continuou Rubião; a lua cheia, quando cai em sábado é mais cheia que nos outros dias da semana; naturalmente por ser o dia usual dos casamentos. A lua ama os noivos; e, em paga, os noivos amam a lua. Viva a lua e vivam os noivos. Tu já foste noivo, duque de Palha?

- Vamos embora, disse Palha baixinho, ao Dr. Falcão.

- Já foste. Pergunta à duquesa, tua mulher, se não é verdade que me ama, e que eu a amo, e que ela será imperatriz, pelo meu divórcio e pela tua morte. Adeus, até sábado; mandar-te-ei um dos meus coches... Aquele que chegou ontem, disse a um criado do estabelecimento, que ali estava; e continuou, tornando ao Palha: É novo, nunca foi usado, porque é preciso que tua mulher pouse o seu lindo corpo, onde ninguém ainda ousou sentar-se. Almofadas de damasco e veludo, arreios de prata e rodas de ouro; os cavalos descendem do próprio cavalo que meu tio montava em Marengo, e sabem falar, - apenas o bastante para dizer: "Glória a Sofia! Glória à bem amada do nosso magnífico imperador!". Magnífico, ouviste? Adeus, duque de Palha.


 

CXCI



- Para mim, é claro, saiu pensando o Dr. Falcão, aquele homem foi amante da mulher deste sujeito.


 

CXCII (i)



Lá ficou o homem. Quincas Borba tentara entrar na carruagem que levou o amigo, e porfiou em acompanhá-la, correndo; foi necessária toda a força do criado para agarrá-lo, contê-lo e trancá-lo em casa. Era a mesma situação de Barbacena; mas a vida, meu rico senhor, compõe-se rigorosamente de quatro ou cinco situações, que as circunstâncias variam e multiplicam aos olhos. Aqui, por exemplo, faltava ao cão o trato que Rubião lhe deu, quando o primeiro amigo e senhor desceu de Barbacena. Outra diferença: Rubião, dali a dias, pediu instantemente que lho mandassem. D. Fernanda, alcançado o consentimento do diretor, cuidou de satisfazer o desejo do doente. Quis escrever a Sofia, mas foi ela própria ao Flamengo e convidou a outra a irem à casa do Rubião para ver o estado do animal; podia ter morrido.

- Mando ver, é aqui perto, propôs Sofia.

- Vamos nós mesmas. Que tem? Já pensei em uma cousa. Valerá a pena conservar a casa pronta e alugada, quando a cura pode prolongar-se? Melhor é deixá-la, vender os trastes e apurar o que houver.

Foram a pé do Flamengo à rua do Príncipe; três a quatro minutos. Raimundo estava na rua, mas viu gente à porta e veio abri-la. O interior da casa tinha a feição do abandono, sem a fixidez e regularidade das cousas, que parecem conservar um resto da vida interrompida; era o abandono do desmazelo. Mas, por outro lado, o transtorno dos móveis da sala, exprimia bem o delírio do morador, suas ideias tortas e confusas.

- Ele foi muito rico? perguntou D. Fernanda a Sofia.

- Tinha alguma cousa, respondeu esta, quando chegou de Minas; mas parece que estragou tudo. Olhe, levante o vestido que o chão parece que não se varre há um século.

Não era só o chão; os trastes tinham a crosta da incúria. Nem por isso o criado explicava nada: olhava, escutava, e, baixinho, assobiava uma polca do dia. Sofia não lhe perguntou pelo asseio; estava morta por sair "daquela imundície", dizia a si mesma, e tinha vontade de falar no cão, que era o principal motivo da visita; mas, não queria mostrar interesse por ele nem pelo resto. A trivialidade daquilo tudo não lhe dizia nada ao espírito nem ao coração; a lembrança do alienado não a ajudava a suportar o tempo. De si para si achava a companheira singularmente romântica ou afetada. "Que bobagem!" ia pensando, sem desconcertar o sorriso aprovador com que acudia a todas as observações de D. Fernanda.

- Abra aquela janela, disse esta ao criado; tudo cheira a mofo.

- Oh! insuportável! acudiu Sofia. Mas, apesar da exclamação, D. Fernanda não se resolveu a sair. Sem que nenhuma recordação pessoal lhe viesse daquela miserável estância, sentia-se presa de uma sensação particular e profunda, - talvez a que dá a ruína das cousas e a versatilidade da fortuna, - talvez a que recebe uma grande natureza simpática a toda a natureza. Vamos por esta segunda hipótese; a primeira supõe certa disposição moral, uma feição de espírito, tal resignação e tal inércia, que inteiramente faltavam a esta senhora. Aquele espetáculo não lhe trazia um tema de reflexões gerais, não lhe ensinava a fragilidade dos tempos, nem a tristeza do mundo; dizia-lhe tão somente a história de um homem. Sofia não ousava articular nada, com receio de ser desagradável a tão conspícua dama. Tinham ambas os vestidos apanhados, para evitar a mácula da poeira; mas Sofia acrescentou a essa precaução a agitação viva, contínua e impaciente da ventarola, como pessoa que sufocasse naquela atmosfera. Chegou a tossir algumas vezes, poucas.

- E o cachorro? perguntou D. Fernanda ao criado.

- Está preso no quarto, lá dentro.

- Vá buscá-lo.

Quincas Borba apareceu. Magro, abatido, parou à porta da sala, estranhando as duas senhoras, mas sem latir; mal erguia os olhos apagados. Chegou a dar meia volta ao corpo na direção do interior da casa, quando D. Fernanda fez uns estalinhos com os dedos; ele parou, agitando a cauda.

- Como é mesmo que se chama? perguntou D. Fernanda.

- Quincas Borba, respondeu o criado, rindo com a voz arrastada. Tem nome de gente. Eh! Quincas Borba! vai lá! a senhora está chamando.

- Quincas Borba! vem cá! Quincas Borba! repetiu D. Fernanda.

Quincas Borba acudiu ao chamado, não pulando, nem alegre; lento, sim, e agitando a cauda. D. Fernanda inclinou-se, falou-lhe, perguntou-lhe pelo amigo, se estava longe, se queria ir vê-lo. assim mesmo inclinada, interrogava o criado, sobre o trato do cão.

- Agora come, sim, senhora; logo que meu amo saiu, não queria comer nem beber; - eu até pensei que estivesse danado.

- Come bem?

- Come pouco.

- Procura pelo senhor?

- Parece que procura, respondeu Raimundo tapando o riso com a mão; mas eu tranquei ele no quarto, para não fugir. Já não chora; a princípio chorava muito, que até me acordava... Era preciso eu bater com um cacete na porta e gritar, para ele sossegar...

D. Fernanda coçava a cabeça do animal, cujos olhos, de mortos que eram tornaram-se lânguidos. Era o primeiro afago depois de longos dias de solidão e desprezo. Quando D. Fernanda cessou de acariciá-lo, e levantou o corpo, ele ficou a olhar para ela, e ela para ele, tão fixos e tão profundos, que pareciam penetrar no íntimo um do outro. A simpatia universal, que era a alma desta senhora, esquecia toda a consideração humana diante daquela miséria obscura e prosaica, e estendia ao animal uma parte de si mesma, que o envolvia, que o fascinava, que o atava aos pés dela. assim, a pena que lhe dava o delírio do senhor, dava-lhe agora o próprio cão, como se ambos representassem a mesma espécie. E sentindo que a sua presença levava ao animal uma sensação boa, não queria privá-lo de benefício .

A senhora está-se enchendo de pulgas, observou Sofia.

D. Fernanda não a ouviu. Continuou a mirar os olhos meigos e bons do animal, até que este deixou cair a cabeça e entrou a farejar a sala. Sentira o cheiro do senhor. A porta da rua estava aberta: ele teria fugido por ela se Raimundo não acudisse a prendê-lo. D. Fernanda deu algum dinheiro ao criado para que o fosse lavar e conduzir à casa de saúde, recomendando-lhe o maior cuidado, que o levasse ao colo, ou preso por um cordão. Nesta parte acudiu também Sofia, e, ordenando que a procurasse antes, em casa.


 

CXCIII (i)



Saíram. Sofia, antes de pôr o pé na rua, olhou para um e outro lado, verificando se vinha alguém, ou com receio de ser vista sair da habitação de um homem, ou com receio de sair de uma casa tão pequena. São mistérios íntimos. Vexame e receio parecem-se muito. Vestido bonito também tem o seu pudor. Felizmente, a rua estava deserta. Ao ver-se livre da pocilga, Sofia readquiriu o uso das boas palavras, a arte maviosa e delicada de captar os outros, e enfiou amorosamente o braço no de D. Fernanda. Falou-lhe de Rubião e da grande desgraça da loucura; assim também do palacete de Botafogo. Por que não ia com ela ver as obras? Era só lanchar um pouco, e partiriam imediatamente. O coupé já devia estar à porta.


 

CXCIV (i)



Chegaram à casa. Sofia recebeu uma carta que acabavam de trazer da Tijuca. Para que negar que a abriu, com grande curiosidade, quando vira que a letra era de Carlos Maria? Abriu-a; era uma comunicação de nascimento.

- Minha prima teve ontem, à noite, uma filhinha, disse ela dando a carta a D. Fernanda.

D. Fernanda ficou alvoroçadamente, e cuidou logo de ir à Tijuca. Convidou a outra, e foram. A carta dizia que tudo ia bem; mas, em poucas horas, podiam vir transtornos, pensava a rio-grandense, e a ânsia de chegar quase que lhe não dava disposição para ouvir e responder o que a outra lhe dizia.

- Mas por que é que ele não nos avisou ontem? perguntou ela depois de um grande silêncio.

- Não esperavam, talvez.

- Sim, é verdade.

Podiam ter sido avisadas; mas o pai mandaria antes destruir todas as conduções. Não teve em casa mais que o pessoal do ofício. Ele mesmo veio recebê-las ao pé da varanda, à descida do carro; confirmou os termos da comunicação, com respostas breves, e conduziu-as ao quarto da recente mãe. A criança estava ao pé, em um berçozinho forrado de seda e de cambraia. Era um nada de gente, mas já Maria Benedita lhe achava os olhos superiores. D. Fernanda compreendeu tudo, e concordou com tudo; beijou a menina, uma e muitas vezes; dir-se-ia que a filha era dela, ou que ela era mãe da mãe. Interrogava, e logo pedia a Maria Benedita que não falasse muito, nem pouco; ouvisse apenas. E pedia informações a Carlos Maria; este dava apenas notícias gerais e arrancadas.

- Tudo correu bem?

- Muito bem.

- as dores começaram cedo?

- Não.

- A que horas nasceu?

- Oito.

Sofia fazia as mesmas perguntas à prima, baixinho, apertando-lhe a mão entre as suas. Não teria grande interesse, mas também não era hipocrisia, nem meio termo, um costume de momento, um persignar distraído de dama, que entra na igreja pensando em outra cousa. Os dedos vão por si mesmos fazendo as cruzes. Maria Benedita estava tão satisfeita de a ver assim! D. Fernanda acabou dizendo que ficava com ela; mas Carlos Maria agradeceu e recusou o obséquio.

- Quer ficar só com a sua felicidade, redarguiu ela sorrindo. Eterno egoísta!

E beijou a criança e a mãe despedindo-se até breve. A Carlos Maria, que as esperava à porta do quarto, deu a mão a beijar, em castigo da recusa; ele agradeceu galantemente, e conduziu-as ao carro.

(Continua.)



Quincas Borba não foi publicado nos números 15 de julho, 31 de julho e 15 de agosto de 1891, nos 13, 14 e 15.




31 de agosto de 1891, nº 16


 

CXCII (ii)



"Conto restituí-lo à razão no fim de seis ou oito meses. Vai muito bem."

D. Fernanda mandou a Sofia esta resposta do diretor da casa de saúde, e convidou-a a irem ver o enfermo, se achasse que não lhes ficava mal. "Que mal pode haver? respondeu Sofia em um bilhete. Mas eu é que não teria ânimo de vê-lo; foi tão nosso amigo, que não sei se poderia suportar a vista e a conversação do pobre homem. Mostrei a carta a Cristiano, que me declarou ter liquidado os bens do Sr. Rubião: apurou três contos e duzentos."


 

CXCIII (ii)



- Seis meses, oito meses passam depressa, reflexionou D. Fernanda.

E eles vieram vindo, com os sucessos às costas, - a queda do ministério, a subida de outro em março, a volta do marido, a discussão da lei dos ingênuos, a morte do noivo de D. Tonica, três dias antes de casar. D. Tonica chorou todas as lágrimas, - umas de afeição, outras de desesperança, - e ficou com os olhos tão vermelhos, que o sol, no dia seguinte, ao vê-la no quintal, não pôde distinguir se era efeito da angústia ou conjuntivite.

Teófilo, que merecera do novo gabinete a mesma confiança do antigo, teve parte copiosa nos debates da sessão parlamentar. Camacho declarou pela sua folha que a lei dos ingênuos absolvia a esterilidade e os crimes da situação. Em outubro, Sofia inaugurou os seus salões de Botafogo, com um baile, que foi o mais célebre do tempo. Estava deslumbrante. Ostentava, sem orgulho, todos os seus braços e espáduas. Ricas joias; o colar era ainda um dos primeiros presentes do Rubião, tão certo é que, neste gênero de atavios, as modas conservam-se mais. Toda a gente admirava a gentileza daquela trintona fresca e robusta; os homens falavam das suas virtudes domésticas, da adoração que ela tinha ao marido.


 

CXCIV (ii)



No dia seguinte ao baile, D. Fernanda acordou tarde. Foi ao gabinete do marido, que já devorara cinco ou seis jornais, escrevera dez cartas e retificava a posição de alguns livros nas estantes.

- Recebi esta carta, há pouco, disse ele.

D. Fernanda leu-a; era do diretor da casa de saúde; notificava que Rubião, desde três dias, desaparecera, não tendo podido ser encontrado por mais esforços que tivessem empregado a polícia e ele. "Tanto mais me espanta esta fuga, concluía a carta, quanto que as melhoras eram grandes, e podia contar que, em dous meses, o poria inteiramente bom."

D. Fernanda ficou consternada; alcançou do marido que escrevesse ao chefe de polícia e ao ministro da justiça, pedindo-lhes que ordenassem as mais severas pesquisas. Teófilo não tinha o menor interesse no achado nem na cura de Rubião; mas quis servir à mulher, cuja bondade conhecia, e, porventura, gostava de cartear-se com os homens da alta administração.


 

CXCV



Como achar, porém, o nosso Rubião nem o cachorro, se ambos haviam partido para Barbacena? Rubião escrevera ao Palha que lhe fosse falar; este acudiu à casa de saúde, viu que ele raciocinava claramente, corretamente, sem a menor sombra de delírio.

Tive uma crise mental, disse-lhe Rubião; agora estou bom, perfeitamente bom. Peço-lhe que me ponha fora daqui. Creio que o diretor não se oporá. Entretanto, como quero deixar algumas lembranças à gente que me tem servido, e servido também ao Quincas Borba, veja se me pode adiantar cem mil réis.

Palha abriu a carteira sem hesitação, e deu-lhe o dinheiro.

- Vou tratar de o fazer sair, disse ele; mas, provavelmente são precisos alguns dias (estava em vésperas do baile); não se aflija por isso; daqui a uma semana está na rua.

Antes de sair, falou ao diretor, que lhe deu boas notícias do enfermo. Uma semana é pouco, disse ele; para pô-lo bom, bom, preciso ainda uns dous meses. Palha confessou que o achara são; em todo caso, mandava quem sabia, e se fossem necessários seis ou sete meses mais, não precipitasse a cura.

Dada a fuga, o diretor não participou logo aos amigos do enfermo; foi só depois que a polícia desistiu de o capturar, que o Palha e o marido de D. Fernanda receberam comunicação do fato. Palha deu-se pressa em saldar as contas da casa de saúde, e depositou o resto do dinheiro. Das novas investigações nada se podia colher; cão e homem estavam em Barbacena, como ficou dito.


 

CXCVI



Rubião, logo que chegou a Barbacena e começou a subir a rua que ora se chama de Tiradentes, exclamou parando:

- Ao vencedor, as batatas!

Tinha-as esquecido de todo, a fórmula e a alegoria. De repente, como se as sílabas houvessem ficado no ar, intactas, aguardando alguém que as pudesse entender, uniu-as, recompôs a fórmula, e proferiu-a com a mesma ênfase daquele dia em que a tomou por lei da vida e da verdade. Integralmente, não se lembrava da alegoria; mas, a palavra deu-lhe o sentido vago da luta e da vitória.

Subiu, acompanhado do cão, e foi parar defronte da igreja. Ninguém lhe abriu a porta; não viu sombra de gente. Quincas Borba, que não comia desde muitas horas, colava-se-lhe às pernas, cabisbaixo, esperando. Rubião voltou-se, e do alto da rua estendeu os olhos abaixo e ao longe. Era ela, era Barbacena; a velha cidade natal ia-se-lhe desentranhando das profundas camadas da memória. Era ela; aqui estava a igreja, ali a cadeia, acolá a farmácia, donde vinham os medicamentos para o outro Quincas Borba. Sabia que era ela, quando chegou; mas, à medida que os olhos se derramavam, as reminiscências vinham vindo, escassas, mais numerosas, em bando, cousas e pessoas. Não via ninguém; uma janela, à esquerda, parecia ter alguém que espiava. Tudo o mais deserto.

- Talvez não saibam que cheguei, pensou Rubião.


 

CXCVII



Súbito, relampejou; as nuvens amontoavam-se às pressas. Relampejou mais forte, e estalou um trovão. Começou a chuviscar grosso, mais grosso, até que desabou a tempestade. Rubião, que, aos primeiros pingos, deixara a igreja, picou o passo, rua abaixo, seguido sempre do cão, faminto e fiel, ambos tontos, debaixo do aguaceiro, sem destino, sem esperança de pouso ou de comida... A chuva batia-lhes sem misericórdia. Não podiam correr, porque Rubião temia escorregar e cair, e o cão não queria perdê-lo. A meia rua, acudiu à memória do Rubião a farmácia, voltou para trás, subindo contra o vento, que lhe dava de cara; mas ao fim de vinte passos, varreu-se-lhe a ideia da cabeça; adeus, farmácia! adeus, pouso! Já se não lembrava do motivo que o fizera mudar de rumo, e desceu outra vez, e o cão atrás, sem entender nem fugir, um e outro alagados, confusos, ao som da trovoada rija e contínua.


 

CXCVIII



Vagaram sem destino. O estômago de Rubião interrogava, exclamava, intimava; por fortuna, o delírio vinha enganar a necessidade com os seus banquetes das Tulherias. Quincas Borba é que não tinha igual recurso. E toca a andar acima e abaixo. Rubião, de quando em quando, sentava-se no lajedo, e o cão trepava-lhe às pernas, para dormir a fome; achava as calças molhadas, e descia; mas tornava logo a subir, tão frio era o ar da noite, já noite alta, já noite morta. Rubião passava-lhe as mãos por cima, resmungando, discursando, algumas vezes, rindo.

Se, apesar de tudo, Quincas Borba conseguia adormecer, acordava logo, porque Rubião levantava-se e punha-se outra vez a descer e subir ladeiras. Soprava um triste vento, que parecia faca, e dava arrepios aos dois vagabundos. Rubião andava devagar; o próprio cansaço não lhe permitia as grandes pernadas do princípio, quando a chuva caía em bátegas. as paradas eram agora mais frequentes. O cão, morto de fome e de fadiga, não entendia aquela odisseia, ignorava o motivo, esquecera o lugar, não ouvia nada, senão as vozes surdas do senhor. Não podia ver as estrelas, que já então rutilavam, livres de nuvens. Rubião descobriu-as; chegara à porta da igreja, como quando entrou na cidade; acabava de sentar-se e deu com elas. Estavam tão bonitas, reconheceu que eram os lustres do grande salão e ordenou que os apagassem. Não pôde ver a execução da ordem; adormeceu ali mesmo, com o cão ao pé de si. Quando acordaram de manhã, estavam tão juntinhos que pareciam pegados.


 

CXCIX



- Ao vencedor, as batatas! exclamou Rubião enfaticamente, quando deu com os olhos na rua, sem noite, sem água, beijada do sol.

(Continua.)




15 de setembro de 1891, nº 17


 

CC


(Conclusão)


Foi a comadre do Rubião que o agasalhou e mais ao cachorro, vendo-os passar defronte da porta, mal dormidos, tiritando. Rubião conheceu-a, aceitou o abrigo e o almoço.

- Mas que é isso, seu compadre? Como foi que chegou assim? Sua roupa está toda molhada. Vou dar-lhe umas calças de meu sobrinho.

Rubião tinha febre. Comeu pouco e sem vontade. A comadre pediu-lhe contas da vida que tivera na Corte, ao que ele respondeu que levaria muito tempo, e só a posteridade a acabaria. Os sobrinhos de seu sobrinho, concluiu ele magnificamente, é que hão de ver-me em toda a minha glória. Começou, porém, um resumo. No fim de dez minutos, a comadre não entendia nada, tão desconcertados eram os fatos e os conceitos; mais cinco minutos, entrou a sentir medo. Quando os minutos chegaram a vinte, pediu licença e foi a uma vizinha dizer que Rubião parecia ter virado o juízo. Voltou com ela e um irmão, que se demorou pouco tempo e saiu a espalhar a nova. Vieram vindo outras pessoas, às duas e às quatro, e, antes de uma hora, muita gente espiava da rua, para dentro da casa.

- Ao vencedor, as batatas! bradava Rubião para os curiosos. Aqui estou imperador! Ao vencedor, as batatas!

Esta palavra obscura e incompleta era repetida na rua, examinada, sem que lhe dessem com o sentido. Alguns antigos desafetos do Rubião iam entrando, sem cerimônia, para gozá-lo melhor; e diziam à comadre que não lhe convinha ficar com um doudo em casa, era perigoso; devia mandá-lo para a cadeia, até que a autoridade o remetesse para outra parte. Pessoa mais compassiva lembrou a conveniência de chamar o doutor.

- Doutor para quê? acudiu um dos primeiros. Este homem está maluco.

- Talvez seja delírio de febre; já viu como está quente?

Angélica, animada por tantas pessoas, tomou-lhe o pulso, e achou-o febril. Mandou vir o médico, - o mesmo que tratara o finado Quincas Borba. Rubião conheceu-o também; respondeu-lhe que não era nada. Vinha da última batalha, capturara o rei da Prússia, não sabendo ainda se o mandaria fuzilar ou não; era certo, porém, que exigiria uma indenização pecuniária enorme, - cinco bilhões de francos.

- Ao vencedor, as batatas! concluiu rindo.


 

CCI



Poucos dias depois morreu... Não morreu súdito nem vencido. Antes de principiar a agonia, que foi curta, pôs a coroa na cabeça, - uma coroa que não era, ao menos, um chapéu velho ou uma bacia, onde os espectadores palpassem a ilusão. Não, senhor; ele pegou em nada, levantou nada e cingiu nada; só ele via a insígnia imperial, pesada de ouro, rútila de brilhantes e outras pedras preciosas. O esforço que fizera para erguer meio corpo não durou muito; o corpo caiu outra vez; o rosto conservou porventura uma expressão gloriosa.

- Guardem a minha coroa, murmurou. Ao vencedor...

A cara ficou séria, porque a morte é séria; dous minutos de agonia, um trejeito horrível, e estava assinada a eterna abdicação.


 

CCII



Queria dizer aqui o fim do Quincas Borba, que adoeceu também, ganiu infinitamente, fugiu desvairado em busca do dono, e amanheceu morto na rua, três dias depois. Mas vendo a morte do cão narrada em capítulo especial, é provável que me perguntes se ele, se o seu defunto homônimo é que dá o título ao livro, e por que antes um que outro, - questão prenhe de questões, que nos levariam longe... Eia, chora os dous recentes mortos, se tens lágrimas! Se só tens risos, ri-te! É a mesma cousa. O Cruzeiro, que a bela Sofia não quis fitar, como lhe pedia Rubião, está assaz alto para não discernir os risos e as lágrimas dos homens: alto e quase eterno.

FIM



******************









 

Tabela das equivalências entre os capítulos da versão-folhetim e da versão-livro de Quincas Borba





Esta tabela mostra as equivalências, ao nível dos capítulos, entre as versões A e C (o folhetim e o romance). Como foi dito no "Guia do texto", porém, deve ser lembrado que essas equivalências variam muito, desde capítulos inteiros que são idênticos, a outros em que apenas duas ou três palavras são repetidas.

Para facilitar a consulta, agrupamos os capítulos (e partes deles) publicados juntos, num número de A Estação, em grupos indicados por uma só cor. Vão pela ordem: , , , . Se essa ordem se rompe (ou seja, nos casos em que o romance não se publica num dado número, ou, num único caso, no 15 de janeiro de 1887, quando o número falta), essa ordem também se interrompe - isto é, para dar um exemplo concreto, faltando dois números, um virá seguido por um . No fim de cada agrupamento (de cada fascículo), vem o número de palavras nesse fascículo - esta cifra pode ter a sua importância, sobretudo quando é pequena, podendo ser evidência das dificuldades do autor para cumprir o seu dever quinzenal. A média por fascículo é mil palavras, ou um pouco mais. Quando há vácuos, e o romance não se publica, indica-se em .




A

C

A: data e tamanho da entrega

Comentários à numeração etc.

I

4 e 5

15.6.1886

 

II

5 e 8

15.6.1886 

1039

 

III

1 e 4

30.6.1886

 

IV

5

30.6.1886

 

 

6 e 7 não constam de A

 

 

V

8

30.6.1886  

1238

 

VI  (não consta de C)

 

15.7.1886

 

VII

9

15.7.1886

 

VIII

9

15.7.1886  

1379

 

IX

10

31.7.1886

 

X

10

31.7.1886

 

XI

11

31.7.1886

 

XII

12

31.7.1886

 

XIII

13

31.7.1886  

 

XIV

XIV (cont.)

14

31.7.1886, 

1055

15.8.1886

 

XV

15

15.8.1886

 

XVI

16

15.8.1886

 

XVII  (não consta de C)

 

15.8.1886

 

XVIII

17

15.8.1886

1388

 

XIX  (não consta de C)

 

31.8.1886

 

XX

1

31.8.1886

 

XXI

2

31.8.1886

 

XXII

XXII (cont.)

3

31.8.1886

856

15.9.1886

 

XXIII

3

15.9.1886

 

XXIV

21 e 22

15.9.1886

 

XXV

23 e 24

15.9.1886

1200

 

XXVI

25 e 26

30.9.1886

 

XXVII

27

30.9.1886

 

XXVIII

XXVIII (cont.)

28

30.9.1886

571

15.10.1886

 

XXIX

29

15.10.1886 

1144

 

XXX   (não consta de C)

 

31.10.1886

 

XXXI (i)

31

31.10.1886

 

XXXII (i)

32

31.10.1886 

1406

 

XXXI (ii)

33

15.11.1886

Erro de numeração. Engano?

XXXII (ii)

34

15.11.1886

 

XXXIII

35

15.11.1886

 

XXXIV

35

15.11.1886

 

XXXV

36

15.11.1886

1370

 

XXXVI

37

30.11.1886

 

XXXVII

38

30.11.1886

 

XXXVIII

39

30.11.1886

1089

 

XXXIX

40

15.12.1886 

 

XL

41

15.12.1886

 

XLI

XLI (cont.)

42

15.12.1886,

802

31.12.1886

 

XLII

43

31.12.1886    1329

 

(XLIII-XLVII)

 

(44-47)

Falta o número 1, de 15.1. 1887

O número 1 certamente continha os capítulos XLIII- XLVII

XLVIII

48

31.1.1887

 

XLIX

49

31.1.1887

 

L

L (cont.)

L (cont.)

50

31.1.1887

1151

15.2.1887

1335

28.2.1887

 

LI

51

28.2.1887

 

LII

52

28.2.1887

1351

 

Não há LIII

 

 

Erro de numeração. Engano?

LIV

53

15.3.1887

 

LV

54

15.3.1887

 

LVI (i)

55

15.3.1887

 

LVII(i) e LVI (ii) (cont.)

56

15.3.1887,

1030

31.3.1887

Erro de numeração. Engano?

LVII (ii)

57

31.3.1887

817

 

LVIII

58

15.4.1887

 

LIX

59

15.4.1887

 

LX

60

15.4.1887

 

LXI

 

60

15.4.1887

 

LXII

 

60

15.4.1887

1888

30.4.1887

 

LXIII

61 e 62

30.4.1887

 

LXIV

LXIV (cont.)

63 e 64

30.4.1887

851

15.5.1887

 

LXV

65

15.5.1887

958

 

LXVI

66

31.5.1887 15.6.1887

O número de 31.5.1887 não foi encontrado, mas é quase certo que o romance não foi publicado nessa data.

LXVII

67

15.6.1887

 

LXVIII

LXVIII (cont.)

68

15.6.1887

1271

30.6.1887

624

 

LXIX

LXIX (cont.)

69

15.7.1887

852

31.7.1887

 

LXX

70

31.7.1887

 

LXXI

71

31.7.1887

1361