CONTOS AVULSOS - FASE 10 (1893-1907)

Machado de Assis


NOTA DESTA EDIÇÃO ELETRÔNICA


Esta que se denominou aqui "décima fase" dos contos avulsos de Machado de Assis reúne quatorze peças, publicadas entre 1892 e 1907. Trata-se dos últimos contos estampados pelo autor na imprensa.

Já há algum tempo, por iniciativa de editoras como a Jackson e a Nova Aguilar, e de indivíduos como Raimundo Magalhães Jr. (que nos anos 1950 publicou cinco volumes reunindo contos machadianos ), o leitor dos séculos XX e XXI teve acesso a muitas dessas histórias. Nas edições anteriores à de 2008, a Nova Aguilar reuniu, sob o título de "Outros contos", 46 títulos. Os contos "completos" de Machado de Assis, no entanto, eram (e são) acessíveis eletronicamente, desde 2002, em www2.uol.com.br/machadodeassis?, graças a uma iniciativa pioneira de Cláudio Abramo.

Em 2008, como parte das comemorações do primeiro centenário da morte do escritor, a Nova Aguilar reuniu a obra completa de Machado de Assis em quatro volumes e ofereceu ao leitor, em suporte material, todos os contos machadianos. Aqueles que não foram selecionados pelo autor para figurarem nos sete volumes de contos que publicou durante sua vida compõem o segundo e o terceiro volume dessa edição, num total de mais de mil páginas, sob o título de Contos avulsos. São 114 contos ao todo, na grande maioria, bastante extensos.

A imensidão e as dificuldades do corpus exigiram da nossa equipe uma espécie de reinvenção metodológica: distribuímos os contos por períodos, mais ou menos curtos, de modo que, a cada etapa, lidássemos com, no máximo, 15 contos. O que se publica aqui é o que chamamos "Contos avulsos - fase 10", reunindo peças publicadas em A Estação (sete), no Almanaque da Gazeta de Notícias (três), no Almanaque Brasileiro Garnier (três) e na Revista Brasileira (um). Todos os quatorze contos são assinados por Machado de Assis, que por essa altura já era autor mais que consagrado. Vale notar que, como assinala J. Galante de Sousa, do conto "A inglesinha Barcelos" só se preservou um fragmento (publicações de A Estação de 31 de maio, 15 e 30 de junho de 1894): "Este conto prossegue sua publicação além do número de 30 de junho. Não sabemos, porém, até onde, porque faltam na coleção da B. N. os nos de 15 e 31 de julho e 15 de agosto desse ano."

A crítica machadiana chama a atenção para o caráter orgânico da obra do autor, em que motivos, temas, expressões, alusões são frequentemente retomados e se desdobram em crescente grau de complexidade. Neste conjunto de contos, destacamos a sombria constatação do narrador diante da gravidez interrompida de Genoveva: "Nenhum filho. Um que lhe devia nascer foi absorvido pelo nada: tinha cinco meses de gestação". A passagem parece ecoar o capítulo XCV de Memórias póstumas de Brás Cubas em que Brás reflete sobre a também interrompida gravidez de Virgília, "naquele ponto em que se não distingue Laplace de uma tartaruga".

A expressão "cosido à parede" que surge aqui no conto "Uma noite", de 1895 ("Eu, cosido à parede, fiquei a olhar para ela"), seria retomada duas vezes, poucos anos mais tarde, em Dom Casmurro (1899): uma, com ligeira modificação, no capítulo IV, "Um dever amaríssimo", no qual Bentinho, depois de ouvir atrás da porta a conversa de José Dias com D. Glória, esconde-se para que o agregado não o surpreenda: "Cosi-me muito à parede"; outra, exatamente igual, no capítulo XVI, referindo-se ao estado de ânimo abatido de Pádua depois de ter perdido a administração interina da repartição pública em que trabalhava: "Nos dias seguintes, continuou a entrar e sair de casa, cosido à parede, cara no chão".

Quanto a alusões recorrentes, registre-se a presença, sem maiores implicações, da Pia de 'Tolomei no conto "Uma por outra" (1897). A mesma personagem seria explorada com rara sutileza no último romance do autor, Memorial de Aires (1908).

Outra característica do melhor Machado que existe desde as primeiras produções é a autoconsciência narrativa, traço peculiar a autores caros ao Bruxo do Cosme Velho, de Luciano de Samósata a Sterne, de Cervantes a Camilo Castelo Branco. O narrador ora dela se vale para reforçar a verossimilhança, afirmando que sua história é "verdadeira", embora admita que há, sempre, um trabalho artístico sobre a matéria que se narra: "Tudo isto vai parecendo simétrico; mas eu não tenho modo de contar diferentemente cousas que se passaram assim, ainda que reconheça a conveniência de as compor algo. Quando menos, falta-me tempo"; ou para simular certo distanciamento, certa isenção, como em: "mas eu não faço aqui psicologia, narro apenas."

O conjunto de contos aqui reunidos revela ao leitor contemporâneo um autor já no pleno domínio de seu meio de expressão, algumas das peças alcançando o mesmo nível de qualidade das melhores produções do escritor.


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Para estabelecer o texto da presente edição eletrônica, utilizaram-se como fonte edições disponíveis na internet, cotejadas, sempre que possível, com as edições digitalizadas dos periódicos em que os contos foram publicados, disponíveis no acervo da hemeroteca digital da Fundação Biblioteca Nacional.

Tal cotejo se revelou fundamental, na medida em que as edições existentes apresentam problemas seriíssimos: substituição inexplicável de palavras, como em "Você está já com as manhas das moças da Corte", transformado em "Você está já com as manchas das moças da Corte"; ou "iria à China, com ele, a uma ilha deserta e inóspita...", transformado em "iria à China, com ele, a uma ilha deserta e inabitada..."; ou ainda como o que ocorre com o verbo "concertar" ("harmonizar", "ajeitar"), frequentemente modificado para "consertar" ("reparar algo quebrado, rasgado, danificado"). Disto procurou-se dar conta em links, que, nesta edição - o leitor notará - não se restringem às citações e alusões histórico-literárias e à toponímia, tratando de casos mais propriamente linguístico-filológicos.

Anotaram-se também palavras cujo sentido no texto machadiano é diferente do usual no português brasileiro do início do século XXI. Por exemplo: "espiga", no sentido hoje pouco usual de "logro, tapeação"; "cópia", referindo-se a "abundância", "grande quantidade"; "lavatório", designando "móvel com bacia e jarro de água para lavar o rosto e as mãos", ou ainda "recipiente de louça ou ferro esmaltado, usado com a mesma finalidade".

Expressões hoje em desuso foram igualmente anotadas: "das dúzias" ("de pouco valor", "medíocre"), "ficar a olhar ao sinal" ("ficar a ver navios", ou seja, "ficar em nada", "ficar passivo e impotente diante de uma situação"), "deitar o hábito às urtigas" ("deixar sua posição social"; "libertar-se de amarras").

Usos hoje considerados incorretos foram mantidos, como certas "violências" sintáticas: "fez-lhe perder todo o gosto da profissão", quando o correto seria "fê-lo perder todo o gosto da profissão"; "Custava-me a crer que fosse propósito", quando o correto seria "Custava-me crer que fosse propósito". Exemplo interessante de "erro" machadiano comumente corrigido em edições posteriores, a flexão nominal do advérbio foi aqui mantida: "olhos meios cerrados", "meia delirante". Manteve-se o verbo no modo indicativo em expressões que atualmente demandam subjuntivo: "quem quer que era", "onde quer que estava", "o que quer que era".

Outra peculiaridade da escrita machadiana que foi mantida é o emprego do artigo em "Toda a criança faz versos"; "Toda a gente a conhecia na rua"; "toda a espécie [de pretendentes]" - uso ainda frequente em Portugal, mas evitado no Brasil.

Buscou-se sempre a maior proximidade possível com a publicação original, o que nem sempre tem sido a política de edições posteriores, que tendem a "padronizar" o texto machadiano. Aqui, respeitaram-se todas as oscilações como entre "até o" e "até ao"; "cousa" e "coisa"; "dous" e "dois". Mantiveram-se com a grafia registrada no original palavras que, embora hoje se escrevam de modo diferente, ainda admitem a grafia habitual no século XIX, como "douda".

Foi feita uma atualização ortográfica. Usaram-se iniciais maiúsculas para instituições: "Guarda Nacional", "Escola Politécnica", "Assembleia Legislativa". Quanto às palavras estrangeiras, manteve-se a forma usada nas publicações originais: "filet", "pouf", "club", "boulevard".

Talvez o maior problema no estabelecimento de textos escritos no século XIX seja o da pontuação. Ao preparar esta edição, optou-se por uma política a meio caminho entre uma atualização radical, de acordo com as normas presentemente vigentes, e o respeito à pontuação de Machado de Assis, a qual, aliás, era comum aos seus contemporâneos, no Brasil e em Portugal. Manteve-se a vírgula antes de "e" que introduz sujeito idêntico ao da oração anterior: "Trocaram ainda algumas palavras, e despediram-se". Preservou-se a oscilação entre uso e não uso de vírgula antes de "e" que introduz sujeito diferente do da oração anterior: "Fiquei contente com a carta, e continuamos a correspondência"; mas: "Maria Leocádia tomou a peito o casamento da amiga e José Augusto também". Manteve-se igualmente a alternância entre o emprego e o não emprego de vírgula antes de oração subordinada consecutiva: "mas tão sem persistência, que era fácil desacertar"; mas "A flor estava tão velha que se desfazia se não houvesse cuidado em lhe tocar".

Nos casos em que se considerou que a vírgula (ou a ausência dela) comprometia o melhor entendimento do texto, não se hesitou em intervir, como ocorreu com vírgulas precedendo orações adjetivas restritivas (que foram suprimidas) e com falta de vírgulas precedendo orações adjetivas explicativas (que foram inseridas). Introduziu-se vírgula para indicar a elipse do verbo, o que o autor raramente faz (mas às vezes faz, como em "A pergunta em si era uma confissão; o tom em que a fiz, outra"). Procedeu-se de igual modo nos casos de orações subordinadas reduzidas de gerúndio, e, ainda, nas orações em que há uma inversão na ordem sintática habitual da frase. Foram mantidas todas as vírgulas que, embora incorretas do ponto de vista das regras contemporâneas de pontuação, parecem ser deliberadas marcas de oralidade: "Quarenta e três, quarenta e dous, fazem tão pouca diferença..."; "Mas, por que motivo fez o que fez, e aceitou o jantar de mamãe?".

Optou-se por recorrer às aspas sempre que a "fala" de uma personagem é, na verdade, a expressão verbal de um pensamento que não chega a ser exteriorizado. Nos diálogos, foi usado parágrafo e travessão, salvo quando o autor insere a fala de personagens no meio do discurso do narrador, como no conto "O caso Barreto":


                                                                                                           

Tinha vinte e oito anos, era tempo. O quadro era fascinador; aquele salão, com tantas ilustrações, aquela pompa, aquela vida, as alegrias da família, dos amigos, a satisfação dos simples convidados, e os elogios ouvidos a cada momento, às portas, nas salas: - "Magnífica festa!" - "A noiva é linda!" - "Casamento feliz!" - "Que me diz a este baile?" - "Oh! esplêndido!" - Todas essas vistas, pessoas e palavras eram de animar o nosso amanuense, cuja imaginação batia as asas pelo estreito âmbito da alcova, isto é, pelo universo.


Esta não pretende ser uma edição crítica. O objetivo foi produzir uma edição fidedigna do texto machadiano que, através dos hiperlinks, oferece ao leitor do século XXI uma ferramenta de fácil utilização e encurta a distância entre ele, leitor, e o enorme universo de referências de Machado de Assis.

Os textos dos hiperlinks que constituem referências histórico-literárias e de caráter simbólico foram retirados do banco de dados "Citações e alusões na ficção de Machado de Assis", acessível neste portal. Na pesquisa dos links que não constituem referências da natureza descrita acima, como é o caso de nomes de ruas e cidades, de estabelecimentos comerciais etc., registre-se aqui a colaboração de Alice Ewbank e Camila Abreu, ex-bolsistas de Iniciação Científica na Fundação Casa de Rui Barbosa; no estabelecimento do texto e em sua revisão, bem como na elaboração de algumas notas, a de Laíza Verçosa do Nascimento e Maira Moreira de Moura, atuais bolsistas de Iniciação Científica. Na construção do texto digital e do software que possibilita a visualização dos links, o crédito é de Eduardo Pinheiro da Costa, técnico em informática da Fundação Casa de Rui Barbosa.


Marta de Senna, pesquisadora
Laíza Verçosa do Nascimento e
Maira Moreira de Moura, bolsistas de Iniciação Científica
Fundação Casa de Rui Barbosa/CNPq
julho de 2014





 

O caso Barreto *

- Sr. Barreto, não falte amanhã - disse o chefe de seção -; olhe que temos de dar essa cópia ao ministro.

- Não falto, venho cedo.

- Mas, se vai ao baile, acorda tarde.

- Não, senhor, acordo cedo.

- Promete?

- Acordo cedo, deixe estar, a cópia fica pronta. Até amanhã.

Qualquer pessoa, menos advertida, afirma logo que o amanuense Barreto acordou tarde no dia seguinte, e engana-se. Mal tinham batido seis horas, abriu os olhos e não os fechou mais. Costumava acordar às oito e meia ou nove horas, sempre que se recolhia às dez ou onze da noite; mas, andando em teatros, bailes, ceias e expedições noturnas, acordava geralmente às onze horas da manhã. Em tais casos, almoçava e ia passar o resto do dia na charutaria do Brás, rua dos Ourives. A reputação de vadio, preguiçoso, relaxado foi o primeiro fruto desse método de vida; o segundo foi não andar para diante. Havia já oito anos que era amanuense; alguns chamavam-lhe o marca-passo. Acrescente-se que, além de falhar muitas vezes, saía cedo da repartição, ou com licença ou sem ela, às escondidas. Como é que lhe davam trabalhos e trabalhos longos? Porque tinha bonita letra e era expedito; era também inteligente e de compreensão fácil. O pai podia tê-lo feito bacharel e deputado; mas era tão estroina o rapaz, e de tal modo fugia a quaisquer estudos sérios, que um dia acordou amanuense. Não pôde dar crédito aos olhos; foi preciso que o pai confirmasse a notícia.

- Entras de amanuense, porque houve reforma na Secretaria, com aumento de pessoal. Se houvesse concurso, é provável que fugisses. Agora a carreira depende de ti. Sabes que perdi o que possuía; tua mãe está por pouco, eu não vou longe, os outros parentes conservam a posição que tinham, mas não creio que estejam dispostos a sustentar malandros. Aguenta-te.

Morreu a mãe, morreu o pai, o Barreto ficou só; ainda assim achou uma tia que lhe dava dinheiro e jantar. Mas as tias também morrem; a dele desapareceu deste mundo dez meses antes daquela cópia que o chefe de seção lhe confiou, e que ele ficou de concluir no dia seguinte, cedo.

Cedo acordou, e não foi pequena façanha, porque o baile acabou às duas horas, e ele chegou à casa perto das três. Era um baile nupcial; casara-se um companheiro de colégio, que era agora advogado principiante, mas ativo e de futuro. A noiva era rica, neta de um inglês, que meteu em casa cabeças louras e suíças ruivas; a maioria, porém, compunha-se de brasileiros e de alta classe, senadores, conselheiros, capitalistas, titulares, fardas, veneras, ricas joias, belas espáduas, caudas, sedas, e cheiros que entonteciam. Barreto valsou como um pião, fartou os olhos com todas aquelas cousas formosas e opulentas, e principalmente a noiva, que estava linda como as mais lindas. Ajuntai a isso os vinhos da noite, e dizei se não era caso de despertar ao meio-dia.

A preocupação da cópia podia explicar esse madrugar do amanuense. É certo, porém, que a excitação dos nervos, o tumulto das sensações da noite foi a causa originária da interrupção do sono. Sim, ele não acordou, propriamente falando; interrompeu o sono, e nunca mais pôde reatá-lo. Perdendo a esperança, consultou o relógio, faltavam vinte minutos para as sete. Lembrou-se da cópia.

- É verdade, tenho de acabar a cópia...

E assim deitado, pôs os olhos na parede, fincou ali os pés do espírito, se me permitem a expressão, e deu um salto no baile. Todas as figuras, danças, contradanças, falas, risos, olhos e o resto obedeceram à evocação do jovem Barreto. Tal foi a reprodução da noite, que ele chegou a ouvir a mesma música, as vozes e o rumor dos passos. Reviveu as gratas horas tão velozmente passadas, tão próximas e já tão remotas.

Mas, se esse rapaz ia a outros bailes, e divertia-se, e, pela própria roda em que nascera, costumava ter daquelas festas, que razão havia para a excitação particular em que ora o vemos? Havia uma longa cauda de seda, com um bonito penteado por cima, duas pérolas sobre a testa, e dous olhos embaixo da testa. Beleza não era; mas tinha graça e elegância de sobra. Perdei a ideia de paixão, se a tendes; pegai na de um simples encontro de salão, um desses que deixam algum sulco, por dias, às vezes por horas, e se desvanecem sem grandes saudades. Barreto dançou com ela, disse-lhe algumas palavras, ouviu outras, e trocou meia dúzia de olhares mais ou menos longos.

Entretanto, não era ela a única pessoa que se destacava no quadro; vinham outras, começando pela noiva, cuja influência no espírito do amanuense foi profunda, porque lhe deu a ideia de casar.

- Se eu me casasse? - perguntou ele com os olhos na parede.

Tinha vinte e oito anos, era tempo. O quadro era fascinador; aquele salão, com tantas ilustrações, aquela pompa, aquela vida, as alegrias da família, dos amigos, a satisfação dos simples convidados, e os elogios ouvidos a cada momento, às portas, nas salas: - "Magnífica festa!" - "A noiva é linda!" - "Casamento feliz!" - "Que me diz a este baile?" - "Oh! esplêndido!" - Todas essas vistas, pessoas e palavras eram de animar o nosso amanuense, cuja imaginação batia as asas pelo estreito âmbito da alcova, isto é, pelo universo.

De barriga para o ar, as pernas dobradas, e os braços cruzados sobre a cabeça, Barreto formulava, pela primeira vez, um programa de vida, olhava para as cousas com seriedade, e chamava a postos as forças todas que pudesse ter em si para lutar e vencer. Oscilava entre a recordação e o raciocínio. Ora via as galas da véspera, ora cuidava nos meios de as possuir também. A felicidade não era um fruto que fosse preciso ir buscar à lua, pensava ele; e a imaginação provava que o raciocínio era verdadeiro, mostrando-lhe o noivo da véspera, e na cara deste, a sua própria.

"Sim", dizia Barreto consigo, "basta um pouco de boa vontade, e eu posso ter muita. Há de ser aquela. Parece que o pai é rico; ao menos terá alguma cousa para os primeiros tempos. O resto é comigo. Um mulherão! O nome é que não é grande cousa: Ermelinda. O nome da noiva é que é realmente delicioso: Cecília! Manganão! Ah! Manganão! Achou noiva para o seu pé..."

"Noiva para o seu pé!" fê-lo rir e mudar de posição. Voltou-se para o lado, e olhou para os sapatos, a certa distância da cama. Lembrou-se que podiam ter sido roídos das baratas, esticou o pescoço, viu o verniz intacto, e ficou tranquilo. Mirou os sapatos com amor; não só eram bonitos, bem feitos, mas ainda acusavam um pé pequeno, cousa que lhe enchia a alma. Tinha horror aos pés grandes - "pés de carroceiro", dizia, "pés do diabo". Chegou a tirar um dos seus, de baixo do lençol, e contemplá-lo por alguns segundos. Depois encolheu-o novamente, coçou-o com a unha de um dos dedos do outro pé, gesto que lhe trouxe à memória o adágio popular - uma mão lava a outra -, e naturalmente sorriu. "Um pé coça outro", pensou. E, sem advertir que uma ideia traz outra, pensou também nos pés das cadeiras e nos pés dos versos. Que eram pés de verso? Dizia-se verso de pé quebrado. Pé de flor, pé de couve, pé de altar, pé de vento, pé de cantiga. Pé de cantiga seria o mesmo que pé de verso? A memória neste ponto cantarolou uma copla ouvida em não sei que opereta, copla realmente picante e música mui graciosa.

- Tem muita graça a Geni! - disse ele, concertando o lençol nos ombros.

A cantora fez-lhe lembrar um sujeito grisalho que a ouvia uma noute, com tais derretimentos de olhos que fez rir alguns rapazes. Barreto riu também, e mais que os outros, e o sujeito grisalho avançou para ele, furioso, e agarrou-o pela gola. Ia dar-lhe um murro; mas o nosso Barreto deu-lhe dous, com tal ímpeto que o obrigou a recuar três passos. Gente no meio, gritos, curiosos, polícia, apito, e foram ter ao corpo da guarda. Aí soube-se que o sujeito grisalho não avançara para o moço com o fim de se despicar do riso, por imaginar que se risse dele, mas por supor que estava mofando da cantora.

- Eu, senhor?

- Sim, senhor.

- Mas se até a aprecio muito! Para mim é a melhor que temos atualmente nos nossos teatros.

O sujeito grisalho acabou convencido da veracidade do Barreto, e a polícia mandou-os em paz.

"Um homem casado!", pensava agora o rapaz, recordando o episódio. "Eu, quando casar, hei de ser cousa muito diferente."

Tornou a pensar na cauda e nas pérolas do baile.

- Realmente, um bom casamento. Não conhecia outra mais elegante... Mais bonitas, havia no baile; uma das Amarais, por exemplo, a Julinha, com os seus grandes olhos verdes - uns olhos que faziam lembrar os versos de Gonçalves Dias... Como eram mesmo? "Uns olhos cor de esperança..."
Que, ai, nem sei qual fiquei sendo
Depois que os vi!

Não se lembrando do princípio da estrofe, teimou por achá-lo, e acabou vencendo. Repetiu a estrofe, uma, duas, três vezes, até decorá-la inteiramente, para não esquecê-la mais. Bonitos versos! Ah! Era um grande poeta! Tinha composições que haviam de ficar perpétuas na nossa língua, como o "Ainda uma vez, adeus!" E Barreto, em voz alta, recitou este começo:

*************************

Enfim te vejo! Enfim, posso,
Curvado a teus pés, dizer-te
Que não cessei de querer-te
Pesar de quanto sofri!
Muito penei! Cruas ânsias,
De teus olhos apartado,
Houveram-me acabrunhado
A não lembrar-me de ti.

********************************

- Realmente, é bonito! - exclamou outra vez de barriga para o ar -. E aquela outra estrofe - como é? -, aquela que acaba:

Quis viver mais, e vivi!

Dessa vez, trabalhou em vão; a memória não lhe acudiu com os versos do poeta; em compensação, trouxe-lhe uns do próprio Barreto, versos que ele sinceramente rejeitou do espírito, vexado da comparação. Para consolar o amor-próprio, disse que era tempo de tratar de negócios sérios. Versos de criança. Toda a criança faz versos. Vinte e oito anos; era tempo de seriedade. E o casamento voltou, como um parafuso, a penetrar no coração e na vontade do nosso rapaz. A Julinha Amaral não era grande negócio, e demais já andava meio presa ao filho do conselheiro Barros, que advogava com o pai, e diziam que ia longe. Todas as filhas do barão de Meireles eram bonitas, menos a mais moça, que tinha cara de pau. Verdade é que dançava como um anjo.

- Mas a Ermelinda... Sim, a Ermelinda não é tão bonita, mas também não se pode dizer que seja feia; tem só os olhos miudinhos demais e o nariz curto, mas é simpática. A voz é deliciosa. E tem graça o ladrão, quando fala. Ainda ontem...

Barreto recordou, salvo algumas palavras, um diálogo que tivera com ela, no fim da segunda valsa. Passeavam; ele, não sabendo bem que dissesse, falou do calor.

- Calor? - disse ela admirada.

- Não digo que esteja quente, mas a valsa agitou-me um pouco.

- Justamente - acudiu a moça -; em mim produziu efeito contrário; estou com frio.

- Então, constipou-se.

- Não, é costume antigo. Sempre que valso, tenho frio. Mamãe acha que eu vim ao mundo para contrariar todas as ideias. O senhor espanta-se?

- Seguramente. Pois a agitação da valsa...

- Aqui temos um assunto - interrompeu Ermelinda -; era o único modo de tirar alguma cousa do calor. Se concordássemos, estava esgotada a matéria. Assim, não; teimo em dizer que valsar faz frio.

- Não é má ideia. Então, se eu lhe disser que valsa muito mal...

- Eu acredito o contrário, e provo... - concluiu ela, estendendo-lhe a mão.

Barreto cingiu-a ao turbilhão da valsa. De fato, a moça valsava bem; o que mais impressionou o nosso amanuense, além da elegância, foi o desembaraço e a graça da conversação. "As outras moças não são assim", disse ele consigo, depois que a conduziu a uma cadeira. E ainda agora repetia a mesma cousa. Realmente, era espirituosa. Não podia achar melhor noiva - de momento, ao menos; o pai era bom homem; não o recusaria por ser amanuense. A questão era aproximar-se dela, ir à casa, frequentá-la; parece que eles tinham assinatura no Teatro Lírico. Vagamente lembrava-se de lhe haver ouvido isso, na véspera; e pode ser até que com intenção. Foi, foi intencional. Os olhares que ela lhe lançou traziam muita vida. Ermelinda! Bem pensado, o nome não era feio. Ermelinda! Ermelinda! Não podia ser feio um nome que acabava pela palavra linda. Ermelinda! Barreto deu por si a dizer alto:

- Ermelinda!

Assustou-se, riu-se, repetiu:

- Ermelinda! Ermelinda!

A ideia de casar fincou-se-lhe de vez no cérebro. De envolta com ela vinha a de figurar na sociedade por seus próprios méritos. Era preciso deixar a crisálida de amanuense, abrir as asas de chefe. Que é que lhe faltava? Tinha inteligência, prática, era limpo, não nascera das ervas. Bastava energia e disposição. Pois ia tê-las. Ah! Por que não obedecera aos desejos do pai, formando-se, entrando na Câmara dos Deputados? Talvez fosse agora ministro. Não era de admirar a idade, vinte e oito anos; não seria o primeiro. Podia muito bem ser ministro, ordenanças atrás. E o Barreto lembrava-se da entrada do ministro na Secretaria, e imaginava-se a si mesmo naquela situação, com farda, chapéu, bordados... Logo depois, compreendia que estava longe, agora não - não podia ser. Mas era tempo de ganhar posição. Quando fosse chefe, casado em boa família, com uma das primeiras elegantes do Rio de Janeiro, e um bom dote - acharia compensação aos erros passados...

"Tenho de acabar a cópia" pensou Barreto repentinamente.

E achou que o melhor modo de crescer era trabalhar. Pegou no relógio que ficara sobre a mesa, ao pé da cabeceira da cama: estava parado. Mas não andava quando acordou? Pôs-lhe o ouvido, agitou-o, estava parado de vez. Deu-lhe corda, ele andou um pouco, mas parou logo.

- É uma espiga do tal relojoeiro das dúzias - murmurou o Barreto.

Sentou-se na cama um tanto reclinado, e cruzou as mãos sobre o estômago. Notou que não tinha fome, mas também comera bem no baile. Ah! Os bailes que ele havia de dar, com ceia, mas que ceias! Aqui lembrou-se que ia pôr água na boca aos companheiros da Secretaria, contando-lhes a festa e as suas fortunas; mas não as contaria com ar de pessoa que nunca viu luxo. Falaria naturalmente, aos pedaços, quase sem interesse. E compôs alguns trechos de notícias, ensaiou de memória as atitudes, os movimentos. Talvez algum o achasse com olheiras. - "Foi pândega, não?" - "Não", responderia ele, "fui ao baile" . - "Ah! você foi sempre ao baile? Que tal esteve?" - "O baile?" diria com fastio; "esteve magnífico". E continuou assim o provável diálogo, compondo, emendando, riscando palavras, mas de maneira que acabasse contando tudo sem parecer que dizia nada. Diria o nome de Ermelinda ou não? Este problema gastou-lhe mais de dez minutos; concluiu que, se lho perguntassem, não havia mal em dizê-lo, mas não lho perguntando, que interesse havia nisso? Evidentemente nenhum.

Ficou ainda outros dez minutos, pensando à toa, até que deu um salto, e pôs as pernas fora da cama.

- Meu Deus! Há de ser tarde.

Calçou as chinelas e tratou de ir às abluções; mas logo aos primeiros passos, sentiu que as danças o tinham fatigado deveras. A primeira ideia foi descansar; tinha para isso uma excelente poltrona, ao pé do lavatório; achou, porém, que o descanso podia levar longe e não queria chegar tarde à Secretaria. Iria até mais cedo; às dez e meia, no máximo, estaria lá. Banhou-se, ensaboou-se, deu-se todo aos cuidados pessoais, gastando o tempo do costume, e mirando-se ao espelho, vinte e trinta vezes. Também era costume. Gostava de ver-se bem, não só para retificar uma cousa ou outra, mas para contemplar a própria figura. Afinal começou a vestir-se, e não foi pequeno trabalho, porque era meticuloso em escolher meias. Mal tirava umas, preferia outras; e já estas lhe não serviam, ia a outras, tornava às primeiras, comparava-as, deixava-as, trocava-as; afinal, escolheu um par cor de canela, e calçou-as; continuou a vestir-se. Tirou camisa, meteu-lhe os botões e enfiou-a; fechou bem o colarinho e o peito, e só então foi à escolha das gravatas, tarefa mais demorada que a das meias. Costumava fazê-lo antes, mas desta vez estivera pensando no discurso que dispararia ao diretor, quando este lhe dissesse:

- Ora viva! Muito bem! Hoje madrugou! Vamos à cópia.

A resposta seria esta:

- Agradeço os cumprimentos; mas pode o Sr. diretor estar certo que eu, comprometendo-me a uma cousa, faço-a, ainda que o céu venha abaixo.

Naturalmente, não gostou do final, porque torceu o nariz, e emendou:

- ... comprometendo-me a uma cousa, hei de cumpri-la fielmente.

Isto é que o distraiu, a ponto de vestir a camisa sem ter escolhido a gravata. Foi às gravatas e escolheu uma, depois de pegar, deixar, tornar a pegar e a deixar umas dez ou onze. Adotou uma de seda, cor das meias, e deu o laço. Reviu-se então longamente no espelho, e foi às botas, que eram de verniz e novas. Já lhes tinha passado um pano; era só calçá-las. Antes de as calçar, viu no chão, atirada por baixo da porta, a Gazeta de Notícias. Era uso do criado da casa. Levantou a Gazeta e ia pô-la na mesa, ao pé do chapéu, para lê-la ao almoço, como de costume, quando deu com uma notícia do baile. Ficou pasmado! Mas como é que podia a folha de manhã noticiar um baile, que acabou tão tarde? A notícia era curta, e podia ter sido escrita antes de terminar a festa, à uma hora da noite. Viu que era entusiástica, e reconheceu que o autor havia estado presente. Gostou dos adjetivos, do respeito ao dono da casa, e advertiu que entre as pessoas citadas figurava o pai de Ermelinda. Insensivelmente sentara-se na poltrona, e indo dobrar a folha, deu com estas palavras em letras grandes: "Horrível! Sete mortes!" A narração era longa, interlinhada; começou a ver o que seria, e, em verdade, achou que era gravíssimo. Um homem da rua das Flores matara a mulher, três filhos, um padeiro e dous policiais, e ferira a mais três pessoas. Correndo pela rua fora, ameaçava a toda a gente, e toda a gente fugia, até que dous mais animosos puseram-se-lhe em frente, um com um pau, que lhe quebrou a cabeça. Escorrendo sangue, o assassino ainda corria na direção da rua do Conde; aí foi preso por uma patrulha, depois de luta renhida. A descrição da notícia era viva, bem feita; Barreto leu-a duas vezes; depois leu a parte relativa à autópsia, um pouco por alto; mas demorou-se no depoimento das testemunhas. Todas eram acordes em que o assassino nunca dera motivo de queixa a ninguém. Tinha 38 anos, era natural de Mangaratiba e empregado no Arsenal de Marinha. Parece que houve uma discussão com a mulher, e duas testemunhas disseram ter ouvido ao assassino: "Esse tratante não há de voltar aqui!" Outras não acreditavam que as mortes tivessem tal origem, porque a mulher do assassino era boa pessoa, muito trabalhadeira e séria; inclinaram-se a um acesso de loucura. Concluía a noticia dizendo que o assassino estivera agitado e fora de si; à ultima hora ficara prostrado, chorando, e chorando pela mulher e pelos filhos.

- Que cousa horrível! - exclamou Barreto -. Quem se livra de uma destas?

Com a folha nos joelhos, fitou os olhos no chão, reconstruindo a cena pelas simples indicações do noticiarista. Depois, tornou à folha, leu outras cousas, o artigo de fundo, os telegramas, um artigo humorístico, cinco ou seis prisões, os espetáculos da antevéspera, até que se levantou de repente lembrando-se que estava perdendo tempo. Acabou de vestir-se, escovou o chapéu com toda a paciência e cuidado, pô-lo na cabeça diante do espelho, e saiu. No fim do corredor, reparou que levava a Gazeta, para lê-la ao almoço, mas já estava lida. Voltou, deitou a folha por baixo da porta do quarto e saiu à rua.

Dirigiu-se para o hotel em que costumava almoçar, e não era longe. Ia apressado para desforrar o tempo perdido; mas não tardou que a natureza vencesse, e o passo tornou ao de todos os dias. Talvez a causa fosse a bela Ermelinda, porque, havendo pensado ainda uma vez no noivo, a moça veio logo, e a ideia do casamento meteu-se-lhe no cérebro. Não teve outra até chegar ao hotel.

- Almoço, almoço, depressa! - disse ele sentando-se à mesa.

- Que há de ser?

- Faça-me depressa um filet e uns ovos.

- O costume.

- Não, não quero batatas hoje. Traga petit-pois... Ou batatas mesmo, venha batatas, mas batatas miudinhas. Onde está o Jornal do Commercio?

O criado trouxe-lhe o Jornal, que ele começou a ler, enquanto lhe faziam o almoço. Correu à notícia do assassinato. Quando lhe trouxeram o filet, perguntou que horas eram.

- Faltam dez minutos para o meio-dia - respondeu o criado.

- Não me diga isso! - exclamou o Barreto espantado.

Quis comer às carreiras, ainda contra o costume; despachou efetivamente o almoço o mais depressa que pôde, reconhecendo sempre que era tarde. Não importa; prometera acabar a cópia, iria acabá-la. Podia inventar uma desculpa, um acidente, qual seria? Doença era natural demais, natural e gasto; estava farto de dores de cabeça, febres, embaraços gástricos. Insônia, também não queria. Um parente enfermo, noite velada? Lembrou-se que já uma vez explicara uma ausência por esse modo.

Era meia hora depois do meio-dia, quando bebeu o ultimo gole de chá. Ergueu-se e saiu. Na rua parou. A que horas chegaria? Tarde para acabar a cópia, para que ir à Secretaria tão tarde? O diabo fora o tal assassinato, três colunas de leitura. Maldito bruto! Matar a mulher e os filhos. Aquilo foi bebedeira, de certo. Assim reflexionando, ia o Barreto, caminhando para a rua dos Ourives, sem plano, levado pelas pernas, e entrou na charutaria do Brás. Já lá achou dous amigos.

- Então, que há de novo? - perguntou ele, sentando-se. - Tem passado muito rabo de saia?


 

Um sonho e outro sonho *

Crês em sonhos? Há pessoas que os aceitam como a palavra do destino e da verdade. Outras há que os desprezam. Uma terceira classe explica-os, atribuindo-os a causas naturais. Entre tantas opiniões, não quero saber da tua, leitora que me lês, principalmente se és viúva, porque a pessoa a quem aconteceu o que vou dizer era viúva, e o assunto pode interessar mais particularmente às que perderam os maridos. Não te peço opinião, mas atenção.

Genoveva, vinte e quatro anos, bonita e rica, tal era a minha viúva. Três anos de viuvez, um de véu longo, dous de simples vestidos pretos, chapéus pretos, e olhos pretos, que vinham do consórcio e do berço. A diferença é que agora olhavam para o chão, e, se olhavam para alguma cousa ou alguém, eram sempre tristes, como os que já não têm consolação na terra nem provavelmente no céu. Morava em uma casa escondida, para os lados do Engenho Velho, com a mãe e os criados. Nenhum filho. Um que lhe devia nascer foi absorvido pelo nada: tinha cinco meses de gestação.

O retrato do marido, bacharel Marcondes, ou Nhonhô, pelo nome familiar, vivia no quarto dela, pendente da parede, moldura de ouro, coberta de crepe. Todas as noites, Genoveva, depois de rezar a Nossa Senhora, não se deitava sem lançar o último olhar ao retrato, que parecia olhar para ela. De manhã o primeiro olhar era para ele. Quando o tempo veio amortecendo o efeito da dor, esses gestos diminuíram naturalmente e acabaram; mas a imagem vivia no coração. As mostras externas não diminuíam a saudade.

Rica? Não, não era rica, mas tinha alguma cousa; tinha o bastante para viver com a mãe, à larga. Era, conseguintemente, um bom negócio para qualquer moço ativo, ainda que não tivesse nada de seu; melhor ainda para quem possuísse alguma cousa, porque as duas bolsas fariam uma grande bolsa, e a beleza da viúva seria a mais valiosa moeda do pecúlio. Não lhe faltavam pretendentes de toda a espécie, mas todos perdiam o tempo e o trabalho. Carlos, Roberto, Lucas, Casimiro e outros muitos nomes inscreviam-se no livro dos passageiros, e iam-se embora sem esperanças. Alguns nem levavam saudades. Muitos as levavam em grande cópia e das mais tristes. Genoveva não se deixou prender de ninguém.

Um daqueles candidatos, Lucas, pôde saber da mãe de Genoveva algumas circunstâncias da vida e da morte do finado genro. Lucas tinha ido pedir licença à boa senhora para solicitar a mão da filha. Não havia necessidade, pois que a viúva dispunha de si; mas a incerteza de ser aceito sugeriu-lhe esse alvitre, a fim de ver se ganhava a boa vontade e intercessão da mãe.

- Não lhe dou tal conselho - respondeu esta.

- De pedi-la em casamento?

- Sim; ela deu-lhe alguma esperança?

Lucas hesitou.

- Vejo que não lhe deu nenhuma.

- Devo ser verdadeiro. Esperanças, não tenho; não sei se D. Genoveva me perdoa, ao menos, a afeição que me inspirou.

- Pois não lhe peça nada.

- Parece-lhe que...

- Que perderá o tempo. Genoveva não casará nunca mais. Até hoje tem a imagem do marido diante de si, vive da lembrança dele, chora por ele, e nunca se unirá a outro.

- Amaram-se muito?

- Muito. Imagine uma união que apenas durou três anos. Nhonhô, quando morreu, quase que a levou consigo. Viveram como dous noivos; o casamento foi até romanesco. Tinham lido não sei que romance, e aconteceu que a mesma linha da mesma página os impressionou igualmente; ele soube disso lendo uma carta que ela escrevera a uma amiga. A amiga atestou a verdade, porque ouvira a confissão de Nhonhô, antes de lhe mostrar a carta. Não sei que palavras foram, nem que romance era. Nunca me dei a essas leituras. Mas naturalmente eram palavras ternas. Fosse o que fosse, apaixonaram-se um pelo outro, como raras vezes vi, e casaram-se para ser felizes por longos anos. Nhonhô morreu de uma febre perniciosa. Não pode imaginar como Genoveva sofreu. Quis ir com o cadáver, agarrou-se ao caixão, perdeu os sentidos, e esteve fora de si quase uma semana. O tempo e os meus cuidados, além do médico, é que puderam vencer a crise. Não chegou a ir à missa; mandamos dizer uma, três meses depois.

A mãe exagerava no ponto de dizer que foi a frase do romance que ligou a filha ao marido; eles tinham naturalmente inclinação. A frase não fez mais que falar por eles. Nem por isso tira o romanesco de Genoveva e do finado Marcondes, que fizera versos aos dezoito anos, e, aos vinte, um romance, A bela do sepulcro, cuja heroína era uma moça que, havendo perdido o esposo, ia passar os dias no cemitério, ao pé da sepultura dele. Um moço que ia passar as tardes no mesmo cemitério, ao pé da sepultura da noiva, viu-a e admirou aquela constância póstuma, tão irmã da sua; ela o viu também, e a identidade da situação os fez amados um do outro. A viúva, porém, quando ele a pediu em casamento, negou-se e morreu oito dias depois.

Genoveva tinha presente este romance do marido. Havia-o lido mais de vinte vezes, e nada achava tão patético nem mais natural. Mandou fazer uma edição especial, e distribuiu exemplares a todos os amigos e conhecidos da família. A piedade conjugal desculpava esse obséquio pesado, ainda que gratuito. A bela do sepulcro era ilegível. Mas não se conclua daí que o autor, como homem espirituoso, era inferior às saudades da viúva. Inteligente e culto, cometera aquele pecado literário, que, nem por ser grande, o teria levado ao purgatório.

Três anos depois de viúva, apareceu-lhe um pretendente. Era bacharel, como o marido, tinha trinta anos, e advogava com tanta felicidade e real talento que contava já um bom pecúlio. Chamava-se Oliveira. Um dia, a mãe de Genoveva foi demandada por um parente, que pretendia haver duas casas dela, por transações feitas com o marido. Querendo saber de um bom advogado, inculcaram-lhe Oliveira, que em pouco tempo venceu a demanda. Durante o correr desta, Oliveira foi duas vezes à casa de Genoveva, e só a viu da segunda; mas foi quanto bastou para achá-la interessantíssima, com os seus vestidos pretos, tez muito clara e olhos muito grandes. Vencida a demanda, a constituinte meteu-se em um carro e foi ao escritório de Oliveira, para duas cousas, agradecer-lhe e remunerá-lo.

- Duas pagas? - retorquiu ele rindo -. Eu só recebo uma: agradecimentos ou honorários. Já tenho os agradecimentos.

- Mas...

- Perdoe-me isto, mas a sua causa era tão simples, correu tão depressa, deu-me tão pouco trabalho, que seria injustiça pedir-lhe mais do que a sua estima. Dá-me a sua estima?

- Seguramente - respondeu ela.

Quis ainda falar, mas não achava palavras, e saiu convencida de que era chegado o reino de Deus. Entretanto, querendo fazer uma fineza ao generoso advogado, resolveu dar-lhe um jantar, para o qual convidou algumas famílias íntimas. Oliveira recebeu o convite com alacridade. Não gostava de perfumes nem adornos; mas nesse dia borrifou o lenço com Jockey Club e pôs ao peito uma rosa amarela.

Genoveva recebeu o advogado como recebia outros homens; a diferença, porém, entre ele e os outros é que estes apresentavam logo no primeiro dia as credenciais, e Oliveira não pedia sequer audiência. Entrou como um estrangeiro de passagem, curioso, afável, interessante, tratando as cousas e pessoas como os passageiros em trânsito pelas cidades de escala. Genoveva teve excelente impressão do homem; a mãe estava encantadíssima.

"Enganei-me", pensou Genoveva, recolhendo-se ao quarto. "Cuidei que era outro pedinte, entretanto... Mas, por que motivo fez o que fez, e aceitou o jantar de mamãe?"

Chegou a suspeitar que a mãe e o advogado estavam de acordo, que ela não fizera mais que buscar ocasião de os apresentar um ao outro, e travar relações. A suspeita cresceu quando, dias depois, a mãe falou em visitar a mãe de Oliveira, com quem este vivia; mas a prontidão com que aceitou as suas razões de negativa tornou a moça perplexa. Genoveva examinou o caso e reconheceu que atribuía à mãe um papel menos próprio; varreu-se-lhe a suposição. Demais (e isto valia por muito), as maneiras do homem estavam em desacordo com quaisquer projetos.

Travadas as relações, bem depressa as duas famílias se visitaram, e a miúdo. Oliveira residia longe; mas achou casa perto e mudou-se. As duas mães achavam-se reciprocamente encantadoras, e tanto a de Genoveva gostava de Oliveira, como a de Oliveira gostava de Genoveva. Tudo isto vai parecendo simétrico; mas eu não tenho modo de contar diferentemente cousas que se passaram assim, ainda que reconheça a conveniência de as compor algo. Quando menos, falta-me tempo. A verdade é que as duas matronas se amavam e trabalhavam para fazer os filhos encontradiços.

Um, dois, três meses correram, sem que Oliveira revelasse a menor inclinação à viuvinha. Entretanto, as horas passadas com ele, em qualquer das casas, não podiam ser mais deleitosas. Ninguém sabia encher o tempo tão bem, falando a cada uma das pessoas a sua própria linguagem. Durante esse prazo teve Genoveva ainda um pretendente, que não recebeu melhor agasalho; parece até que tratou a este com uma sombra de despeito e irritação inexplicáveis, não só para ele, como para ela própria.

"Realmente, o pobre diabo não tem culpa que eu seja viúva", disse ela consigo.

"Que eu seja bonita" é o que ela devia dizer, e pode ser que tal ideia chegasse a bater as asas, para atravessar-lhe o cérebro; mas, há certa modéstia inconsciente, que faz evitar confissões, não digo presumidas, mas orgulhosas. Seja o que for, Genoveva chegou a ter pena do pretendente.

"Por que não se portou ele como o Oliveira, que me respeita?" continuou consigo.

Entrara o quarto mês das relações, e o respeito do advogado não diminuiu. Jantaram juntos algumas vezes, e chegaram a ir juntos ao teatro. Oliveira abriu até um capítulo de confidências com ela, não amorosas, é claro, mas de sensações, de impressões, de cogitações. Um dia, disse-lhe que, em pequeno, tivera desejo de ser frade; mas, levado ao teatro, e assistindo à comédia do Pena, O noviço, o espetáculo do menino, vestido de frade, e correndo pela sala, a bradar: "eu quero ser frade! Eu quero ser frade!" fez-lhe perder todo o gosto da profissão.

- Achei que não podia vestir um hábito assim profanado.

- Profanado, como? O hábito não tinha culpa.

- Não tinha culpa, é verdade; mas eu era criança, não podia vencer essa impressão infantil. E parece que foi bom.

- Quer dizer que não seria bom frade?

- Podia ser que fosse sofrível; mas eu quisera sê-lo excelente.

- Quem sabe?

- Não; dei-me tão bem com a vida do foro, com esta chicana da advocacia, que não é provável tivesse a vocação contemplativa tão perfeita como quisera. Há só um caso em que eu acabaria num convento.

- Qual?

Oliveira hesitou um instante.

- Se enviuvasse - respondeu.

Genoveva, que sorria, aguardando a resposta, fez-se rapidamente séria, e não retorquiu. Oliveira não acrescentou nada, e a conversa naquele dia acabou menos expressiva que das outras vezes. Posto que tivesse o sono pronto, Genoveva não dormiu logo que se deitou; ao contrário, ouviu dar meia-noite, e esteve ainda muito tempo acordada.

Na manhã seguinte, a primeira cousa em que pensou foi justamente na conversação da véspera, isto é, naquela última palavra de Oliveira. Que havia nela? Aparentemente, pouco; e pode ser que, na realidade, ainda menos. Era um sentimento de homem que não admitia o mundo, depois de roto o consórcio; e iria refugiar-se na solidão e na religião. Confessemos que não basta para explicar a preocupação da nossa viúva. A viúva, entretanto, não viveu de outra cousa, durante esse dia, salvo o almoço e o jantar, que ainda assim foram quase silenciosos.

- Estou com dor de cabeça - respondeu à mãe, para explicar as suas poucas palavras.

- Toma antipirina.

- Não, isto passa.

E não passava. Se enviuvasse, ele iria meter-se em um convento, pensava Genoveva; logo, era uma censura a ela, por não ter feito o mesmo. Mas que razão havia para desejá-la recolhida a um mosteiro? Pergunta torta; parece que a pergunta direita seria outra: "Que razão haveria para não desejá-la recolhida a um mosteiro?" Mas se não era direita, era natural, e o natural é muitas vezes torto. Pode ser até que, bem exprimidas as primeiras palavras, deixem o sentido das segundas; mas eu não faço aqui psicologia, narro apenas.

Atrás daquele pensamento, veio outro mui diverso. Talvez que ele tivesse tido alguma paixão, tão forte, que, se casasse e enviuvasse... E por que não a teria ainda agora? Pode ser que amasse a alguém, que pretendesse casar, e que, se acaso perdesse a mulher amada, fugisse ao mundo para sempre. Confessara-lhe isto, como usava fazer a outros respeitos, como lhe confessava opiniões, que dizia não repetir a ninguém mais. Essa explicação, posto que natural, atordoou Genoveva ainda mais que a primeira.

- Afinal, que tenho eu com isto? Faz muito bem.

Passou mal a noite. No dia seguinte foi com a mãe fazer compras à rua do Ouvidor, demorando-se muito, sem saber por quê, e olhando para todos os lados, sempre que saía de uma loja. Passando por um grupo estremeceu e olhou para as pessoas que falavam, mas não conheceu nenhuma. Tinha ouvido, entretanto, a voz de Oliveira. Há vozes parecidas com outras, que enganam muito, ainda quando a gente vai distraída. Há também ouvidos mal educados.

A declaração de Oliveira de que entraria para um convento, se chegasse a enviuvar, não saía da cabeça de Genoveva. Passaram-se alguns dias sem ver o advogado. Uma noite, depois de cuidar no caso, Genoveva olhou para o retrato do marido antes de deitar-se; repetiu a ação no dia seguinte, e o costume dos primeiros tempos da viuvez tornou a ser o de todas as noites. De uma vez, mal adormecera, teve um sonho extraordinário.

Apareceu-lhe o marido, vestido de preto, como se enterrara, e pôs-lhe a mão na cabeça. Estavam em um lugar que não era bem sala nem bem rua, uma cousa intermédia, vaga, sem contornos definidos. O principal do sonho era o finado, cara pálida, mãos pálidas, olhos vivos, é certo, mas de uma tristeza de morte.

- Genoveva! - disse-lhe ele.

- Nhonhô! - murmurou ela.

- Para que me perturbas a vida da morte, o sono da eternidade?

- Como assim?

- Genoveva, tu esqueceste-me.

- Eu?

- Tu amas a outro.

Genoveva negou com a mão.

- Nem ousas falar - observou o defunto.

- Não, não amo - acudiu ela.

Nhonhô afastou-se um pouco, olhou para a antiga esposa, abanou a cabeça incredulamente, e cruzou os braços. Genoveva não podia fitá-lo.

- Levanta os olhos, Genoveva.

Genoveva obedeceu.

- Ainda me amas?

- Oh! Ainda! - exclamou Genoveva.

- Apesar de morto, esquecido dos homens, hóspede dos vermes?

- Apesar de tudo!

- Bem, Genoveva; não te quero forçar a nada, mas se é verdade que ainda me amas, não conspurques o teu amor com as carícias de outro homem.

- Sim.

- Juras?

- Juro.

O finado estendeu-lhe as mãos, e pegou nas dela; depois, enlaçando-a pela cintura, começou uma valsa rápida e lúgubre, giro de loucos, em que Genoveva não podia fitar nada. O espaço já não era sala, nem rua, nem sequer praça; era um campo que se alargava a cada giro dos dous, por modo que, quando estes pararam, Genoveva achou-se em uma vasta planície, semelhante a um mar sem praias; circulou os olhos, a terra pegava com o céu por todos os lados. Quis gritar; mas sentiu na boca a mão fria do marido, que lhe dizia:

- Juras ainda?

- Juro - respondeu Genoveva.

Nhonhô tornou a pegar-lhe da cintura, a valsa recomeçou, com a mesma vertigem de giros, mas com o fenômeno contrário, em relação ao espaço. O horizonte estreitou-se a mais e mais, até que eles se acharam numa simples sala, com este apêndice: uma essa e um caixão aberto. O defunto parou, trepou ao caixão, meteu-se nele, e fechou-o; antes de fechado, Genoveva viu a mão do defunto, que lhe dizia adeus. Soltou um grito e acordou.

Parece que, antes do grito final, soltara outros de angústia, porque quando acordou, viu já ao pé da cama uma preta da casa.

- Que foi, Nanhã?

- Um pesadelo. Eu disse alguma cousa? Falei? Gritei?

- Nanhã gritou duas vezes, e agora outra vez.

- Mas foram palavras?

- Não, senhora; gritou só.

Genoveva não pôde dormir o resto da noite. Sobre a manhã chegou a conciliar o sono, mas este foi interrompido e curto.

Não referiu à mãe os pormenores do sonho; disse só que tivera um pesadelo. De si para si, aceitou aquela visão do marido e as suas palavras como determinativas do seu proceder. Ao demais, jurara, e este vínculo era indestrutível. Examinando a consciência, reconheceu que estava prestes a amar a Oliveira, e que a notícia desta afeição, ainda mal expressa, tinha chegado ao mundo onde vivia o marido. Ela cria em sonhos; tinha para si que eles eram avisos, consolações e castigos. Havia-os sem valor, sonhos de brincadeira; e ainda esses podiam ter alguma significação. Estava dito; acabaria com aquele princípio de qualquer cousa que Oliveira conseguira inspirar-lhe e tendia a crescer.

Na seguinte noite, Genoveva despediu-se do retrato do marido, rezou por ele, e meteu-se na cama com receio. Custou-lhe dormir, mas afinal o sono fechou-lhe os lindos olhos e a alma acordou sem ter sonhado nada, nem mal nem bem; acordou com a luz do sol que lhe entrava pelas portas das janelas.

Oliveira deixara de ir ali uma semana. Genoveva espantou-se da ausência; a mãe quis ir à casa dele saber se era alguma doença, mas a filha tirou-lhe a ideia da cabeça. No princípio da outra semana, apareceu ele com a mãe, tinha tido um resfriamento que o reteve na cama três dias.

- Eu não disse? - acudiu a mãe de Genoveva -. Eu disse que havia de ser negócio de doença, porque o doutor não deixa de vir tanto tempo...

- E a senhora não acreditou? - perguntou Oliveira à linda viúva

- Confesso que não.

- Pensa, como minha mãe, que sou invulnerável.

Sucederam-se as visitas entre as duas casas, mas nenhum incidente veio perturbar a resolução em que estava Genoveva de cortar inteiramente quaisquer esperanças que pudesse haver dado ao advogado. Oliveira era ainda o mesmo homem respeitoso. Passaram-se algumas semanas. Um dia, Genoveva ouviu dizer que Oliveira ia casar.

- Não é possível - disse ela à amiga que lhe deu a notícia.

- Não é possível, por quê? - acudiu a outra -. Vai casar com a filha de um comerciante inglês, um Stanley. Todos sabem disto.

- Enfim, como eu pouco saio...

Justifiquemos a viúva. Não lhe parecia possível, porque ele visitava-as com tal frequência, que não se podia crer em casamento tratado. Quando visitaria a noiva? Apesar da razão, Genoveva sentia que podia ser assim mesmo. Talvez o futuro sogro fosse algum esquisitão, que não admitisse a visita de todas as noites. Notou que, a par disto, Oliveira era desigual com ela; tinha dias e dias de indiferença, depois lá vinha um olhar, uma palavra, um dito, um aperto de mão... Os apertos de mão eram o sinal mais frequente: tanto que ela sentia alguma falta no dia em que ele era frouxo, e esperava o dia seguinte para ver se era mais forte. Lançava estas curiosidades à conta da vaidade. Vaidade de mulher bonita, dizia a si mesma.

Daquela vez, porém, esperou-o com certa ânsia, e fez-lhe bem o aperto de mão com que ele a saudou na sala. Arrependera-se de não ter contado à mãe a notícia do casamento, para que esta perguntasse ao advogado; e, não se podendo ter, falou ela mesma.

- Eu, minha senhora?

Genoveva continuou sorrindo.

- Sim, senhor.

- Há de ser outro Oliveira, também advogado, que está realmente para casar este mês. Eu não me casarei nunca.

Naquela noite, Genoveva, ao deitar-se, olhou ternamente para o retrato do finado marido, rezou-lhe dobrado, e tarde dormiu, com medo de outra valsa; mas acordou sem sonhos.

Que poderá haver entre uma viúva que promete ao finado esposo, em sonhos, não contrair segundas núpcias, e um advogado que declara, em conversação, que jamais se casará? Parece que nada ou muito; mas é que o leitor não sabe ainda que este Oliveira tem por plano não saltar o barranco sem que ela lhe estenda as duas mãos, posto que a adore, como dizem todos os enamorados. A última declaração teve por fim dar um grande golpe, por modo que a desafiasse a desmentir-se. E pareceu-lhe, ao sair, que algum efeito produzira, visto que a mão de Genoveva tremia um pouco, muito pouco, e que a ponta dos dedos... Não, aqui foi ilusão; os dedos dela não lhe fizeram nada.

Notem bem que eu não tenho culpa destas histórias enfadonhas de dedos e contradedos, e palavras sem sentido, outras meio inclinadas, outras claras, obscuras; menos ainda dos planos de um e das promessas de outro. Eu, se pudesse, logo no segundo dia tinha pegado em ambos, ligava-lhes as mãos, e dizia-lhes: casem-se. E passava a contar outras histórias menos monótonas. Mas as pessoas são estas; é preciso aceitá-las assim mesmo.

Passaram-se dias, uma, duas, três semanas, sem incidente maior. Oliveira parecia deixar a estratégia de Fabio Cunctator. Um dia declarou francamente à viúva que a amava; era um sábado, em casa dela, antes de jantar, enquanto as duas mães os tinham deixado sós. Genoveva abria as folhas de um romance francês, que Oliveira lhe trouxera. Ele fitava pela centésima vez uma aquarela, pendurada no trecho de parede que ficava entre duas janelas. Bem ouvia a faca de marfim rasgando as folhas espessas do livro, e o silêncio deixado pelas duas senhoras que tinham deixado a sala; mas não voltava a cabeça nem baixava os olhos. Baixou-os de repente, e voltou-os para a viúva. Ela sentia-os, e, para dizer alguma cousa:

- Sabe se é bonito o romance? - perguntou, parando de rasgar as folhas.

- Dizem-me que sim.

Oliveira foi sentar-se em um pouf, que estava ao pé do sofá, e fitou as mãos de Genoveva, pousadas sobre o livro aberto, mas as mãos continuaram o seu ofício para escapar à admiração do homem, como, se cortando as folhas, fossem menos admiráveis que paradas. Alongou-se o silêncio, um silêncio constrangido - que Genoveva quisera romper, sem achar modo nem ocasião. Pela sua parte, Oliveira tinha ímpetos de lhe dizer subitamente o resto do que ela devia saber pelos últimos dias; mas não cedia aos ímpetos, e acabou trivialmente elogiando-lhe as mãos. Não valia a pena tanto trabalho para acabar assim. Ele, porém, vexado da situação, pôs toda a alma na boca e perguntou à viúva se desejava ser sua esposa.

Desta vez, as mãos pararam sem plano. Genoveva, confusa, pregou os olhos no livro, e o silêncio entre os dous fez-se mais longo e profundo. Oliveira olhava para ela; via-lhe as pálpebras caídas e a respiração curta. Que palavra estaria dentro dela? Hesitava pelo vexame de dizer que sim? Ou pelo aborrecimento de dizer que não? Oliveira tinha razões para crer na primeira hipótese. Os últimos dias foram de acordo tácito, de consentimento prévio. Entretanto, a palavra não saía; e a memória do sonho veio complicar a situação. Genoveva recordou-se da penosa e triste valsa, da promessa e do féretro, e empalideceu. Nisto foram interrompidos pelas duas senhoras, que voltaram à sala.

O jantar foi menos animado que de costume. De noite, vieram algumas pessoas, e a situação piorou. Separaram-se sem resposta. A manhã seguinte foi cheia de tédio para Genoveva, um tédio temperado com alegria que bem fazia adivinhar o estado da alma da moça. Oliveira não apareceu nesse dia; mas, veio no outro, à noite. A resposta que ela lhe deu não podia ser mais decisiva, ainda que trêmula e murmurada.

Há aqui um repertório de pequenas cousas infinitas, que não pode entrar em um simples conto nem ainda em longo romance; não teria graça escrito. Sabe-se o que sucede desde a aceitação de um noivo até o casamento. O que se não sabe, porém, é o que aconteceu com esta nossa amiga, dias antes de casar. É o que se vai ler para acabar.

Desde duas semanas antes da pergunta de Oliveira, a viúva deitava-se sem olhar para o retrato do finado marido. Logo depois da resposta, olhava-o algumas vezes, de soslaio, até que tornou ao anterior costume. Ora, uma noite, quatro dias antes de casar, como houvesse pensado no sonho da valsa e na promessa não cumprida, deitou-se com medo e só dormiu sobre a madrugada. Nada lhe sucedeu; mas, na segunda noite, teve um sonho extraordinário.

Não era a valsa do outro sonho, posto que, ao longe, na penumbra, via uns contornos cinzentos de vultos que andavam à roda. Viu, porém, o marido, a princípio severo, depois triste, perguntando-lhe como é que se esquecera da promessa. Genoveva não respondeu nada; tinha a boca tapada por um carrasco, que era não menos que Oliveira.

- Responde, Genoveva!

- Ah! Ah!

- Tu esqueceste tudo. Estás condenada ao inferno!

Uma língua de fogo lambeu a parte do céu que se conservava azul, porque todo o resto era um amontoado de nuvens carregadas de tempestade. Do meio delas saiu um vento furioso, que pegou da moça, do defunto marido e do noivo e os levou por uma estrada fora, estreita, lamacenta, cheia de cobras.

- O inferno! Sim! O inferno!

E o carrasco tapava-lhe a boca, e ela mal podia gemer uns gritos abafados.

- Ah! Ah!

Parou o vento, as cobras ergueram-se do chão e dispersaram-se no ar, entrando cada uma pelo céu dentro; algumas ficaram com a cauda de fora. Genoveva sentiu-se livre; desaparecera o carrasco, e o defunto esposo, de pé, pôs-lhe a mão na cabeça, e disse com voz profética:

- Morrerás se casares!

Desapareceu tudo; Genoveva acordou; era dia. Ergueu-se trêmula; o susto foi passando, e mais tarde, ao cuidar do caso, dizia consigo: "São sonhos". Casou e não morreu.


 

Uma partida *

Capítulo primeiro



Posso dizer o caso, o ano e as pessoas, menos os nomes verdadeiros. Posso ainda dizer a província, que foi a do Rio de Janeiro. Não direi o município nem a denominação da fazenda. Seria exceder as conveniências sem utilidade.

Vai longe o ano; era o de 1850. A fazenda era do coronel X, digamos Xavier. Boa casa de vivenda, muitos escravos, mas pouca ordem, e produção inferior à que devia dar. O feitor, que era bom a princípio, "virou desmazelado", como dizia o coronel aos amigos, "sem que este acabasse de substituí-lo" como diziam os amigos do coronel. Corriam algumas lendas; sussurrava-se que o fazendeiro devia certas mortes ao feitor, e daí a dependência em que estava dele. Era falso. Xavier não tinha alma assassina, nem sequer vingativa. Era duro de gênio; mas não ia além de algumas ações duras. Isso mesmo parece que afrouxava nos últimos tempos. Talvez tivesse pouca aptidão para dirigir um estabelecimento agrícola; mas os primeiros anos de propriedade desmentiam esta suposição. Foram anos prósperos, de grande trabalho e vivas esperanças. O terceiro ano confirmou algumas destas; mas o quarto foi já decadente, e os restantes vieram, ora melhor, ora pior, sem que a lavoura tornasse ao que fora. Os escravos mortos ou fugidos eram substituídos por pretos importados de contrabando, meias-caras, como se dizia. Os correspondentes da antiga Corte adiantavam dinheiro. Xavier não perdeu o crédito.

Tinha perto de quarenta anos. Pertencia a uma antiga família agrícola, espalhada pelo Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo. O pai criou-o um pouco à revelia. Já na fazenda, já na capital, aonde ele vinha muitas vezes, fazia tudo que queria e gastava à larga. O pai desejava que ele fosse doutor ou bacharel em direito; mas o filho não quis e não foi nada. Quando o velho morreu deixou-lhe a fazenda em bom estado, dinheiro nas mãos dos correspondentes, muito crédito, ordem e disciplina. Xavier tinha vinte e sete anos. Correu da corte e já achou o pai enterrado. Alguns amigos do velho, que estavam na fazenda, receberam o herdeiro com muitas provas de estima, desejos de perseverança na casa; mas o moço Xavier, ou porque eles acentuassem demasiado a afeição, ou porque se intrigassem uns aos outros, em breve tempo os pôs na rua. Parece que deles é que nasceu mais tarde a lenda das mortes mandadas cometer pelo fazendeiro.

Já ficou dito que os dous primeiros anos foram prósperos. Como a prosperidade vinha do tempo do velho, é fácil crer que continuou pelo impulso anterior. É verdade, porém, que Xavier deu todos os seus cuidados à lavoura, e juntou o esforço próprio ao que ela trazia.

Os parentes estavam satisfeitos com a conversão do moço. Um deles alcançou-lhe uma patente de coronel da Guarda Nacional, e deu-lhe conselho que tomasse para si a influência política do município. Outro, um velho tio mineiro, escreveu-lhe uma carta dizendo que casasse. "É indecente" (concluiu a carta) "que você viva aí num serralho de crioulas, como se diz por aqui. Case-se; não faltam moças bem educadas e bonitas, conquanto beleza seja prenda dispensável a uma mãe de filhos."


 

II


Quando a carta chegou às mãos do Xavier, estava ele jogando com um viajante que lhe pedira pousada na véspera. Não abriu a carta, não chegou a examinar a letra do sobrescrito; meteu-a no bolso e continuou a jogar. Tinha sido grande jogador; mas havia já dezoito meses que não pegava em cartas. O viajante que ali aparecera, entre outras anedotas que lhe contou, meteu algumas de jogo, e confessou que "puxava orelha da sota". A ocasião, a vocação e o parceiro abriram o apetite ao jovem coronel, que convidou o hóspede a um divertimento. O hóspede trazia cartas consigo, mas não foram precisas; Xavier, posto que resolvido acabar com o vício, tinha muitos baralhos em casa.

Jogaram três dias seguidos. Xavier perdeu dois contos de réis, e despediu o hóspede com as melhores maneiras deste mundo. Sentia a perda; mas o sabor das cartas foi muito maior.

Foi na noite do primeiro daqueles três dias que Xavier leu os conselhos do tio mineiro para que casasse e não os achou maus. No dia seguinte de manhã tornou a pensar no assunto. Quando o hóspede se despediu, a ideia do casamento apoderou-se dele outra vez. Era uma aventura nova, e a vida de Xavier fora dada a tantas, que esta devia namorá-lo. Nenhuma ambição, curiosidade apenas. Pensou em várias moças, fez-se a seleção, até que adotou a filha de um fazendeiro de São Paulo, que ele conhecera, anos passados, com dezessete de idade; devia ir em vinte e não lhe constava que tivesse marido.

Ao vê-la, dous meses depois, Xavier estava longe de crer que a mocinha de dezessete fosse aquela magnífica moça de vinte. Só mais tarde soube que ela, desde os dezessete anos, ficara namorada dele. Acordos tais são próprios de novelas; nem eu poria isto aqui, se não fora a necessidade. Parecem cousas preparadas, e, entretanto, examinando-as bem, são banais e velhas. Esquecemo-nos de que os novelistas, à força de levarem para o papel os lances e situações da realidade, deram-lhes um aspecto romanesco.

Não houve obstáculos ao casamento. O velho tio mineiro foi padrinho de Xavier, e, dentro de pouco, tornava este à fazenda fluminense, acompanhado de D. Paula Xavier, sua consorte. Viagem longa e cansativa; foram naturalmente repousar. Descansemos nós também nesta pontinha de capítulo.


 

III


Dona Paula não teve a lua de mel deliciosa que esperava. O casamento fora obra de reflexão e de conselho. Assim, o amor que adormecera nela, pouco depois de nascido, acordou espantado de tornar à realidade das cousas, e principalmente de não as reconhecer. Como Epimênides, via um mundo diverso do que deixara. Esfregou os olhos, uma e mais vezes, tudo era estranho. O Xavier de três anos passados não era este de hoje, com as suas feições duras, ora alegre, ora frio, ora turbulento - muitas vezes calado e aborrecido -, estouvado também, e trivial - sem alma, sem delicadeza. Pela sua parte, Xavier também não achou a lua de mel que pensava, que era um astro diferente daquele saudoso, e porventura poético, vertendo um clarão de pérolas fundidas - mais ou menos isto - que a mulher sonhara achar ao pé do noivo. Queria uma lua-de-mel patusca.

Um e outro tinham-se enganado: mas estavam unidos, cumpria acomodarem-se com a sorte. Ninguém troca o bilhete de loteria que lhe saiu branco; e se o emenda, para receber um prêmio, vai para a cadeia. O bilhete branco é o sonho; deita-se fora, e fica-se com a realidade.

Quatro meses depois de casado, Xavier teve de ir ao Rio de Janeiro, onde se demorou poucos dias; mas voltou no mês seguinte, e demorou-se mais, e afinal amiudou as viagens e dilatou as demoras. A primeira suspeita de D. Paula é que ele trazia amores, e não lhe doeu pouco; chegou a dizê-lo ao próprio marido, mas sorrindo e com brandura.

- Tolinha - respondeu ele -. Pois eu agora...? Amores...? Não me faltava mais nada. Gastar dinheiro para dar com os ossos na Corte, atrás de raparigas... Ora você! Vou a negócios; o correspondente é que me demora com as contas. E depois a política, os homens políticos, há ideia de fazer-me deputado...

- Deputado?
- Provincial
.

- Por que não aceita?

- Eu, deputado? Tomara eu tempo para cuidar de mim. Com que então, amores? - continuou ele rindo -. Você é capaz de fazer pensar nisso.

Dona Paula creu no marido, estava então grávida, e punha grandes esperanças no filho ou filha que lhe nascesse. Era a companhia, a alegria, a consolação, tudo o que o casamento não lhe deu. Como se aproximasse o termo da gestação, Xavier suspendeu as viagens à capital; mas por esse tempo apareceram na fazenda uns três sujeitos, que se hospedaram por dias, e com quem ele jogou à larga. A mulher viu que ele amava as cartas. Em si, o jogo não a incomodava; alguns parentes seus davam-se a essa distração, e nunca ouvira dizer que fosse pecado nem vício. O mal vinha da preocupação exclusiva. Durante aqueles oito dias, Xavier não pensou que era casado nem fazendeiro: todo ele era cartas. Sabia muitos jogos; mudava de um para outro, com o fim de dar descanso ao espírito.

- Enquanto se descansa, carrega-se pedra - dizia ele aos parceiros.

Acabaram os oito dias, os hóspedes foram-se, com promessa de tornar mais tarde. Xavier, apesar de haver perdido muito, estava bonachão. Outras vezes, embora ganhasse, irritava-se. Por quê? Estados de alma que os fatos externos podiam explicar até certo ponto, mas que prendiam naturalmente com a índole do homem. Não era o dinheiro que o seduzia no jogo, mas as cartas, quase que só elas. Certo, preferia ganhar a perder - até para ter sempre com que jogar; mas era o jogo em si mesmo, as suas peripécias, os seus lances, as rodas de fortuna, a ansiedade na espera, a luta, a superstição, a fé em uma carta, a descrença em outras, todas as comoções que traz o meneio delas. Quando jogava assim uma boa temporada, dia e noite, ficava farto por algum tempo. O pior é que o prazo do descanso ia diminuindo, e a necessidade vinha cada vez mais cedo.


 

IV


Quando veio a hora de nascer o filho, estava Xavier em um dos estados de desejo; o acontecimento pôde distraí-lo. Já tinha em casa médico e uma comadre, um tio da mulher e duas filhas. Não faltou nada. Havia animais encilhados e pajens prontos para correr à vila próxima, a buscar o que fosse preciso. Dona Paula padeceu muito, e as esperanças dissiparam-se na mais triste das realidades; o filho nasceu morto. A dor da mãe foi profunda, a convalescença, longa.

Quando ficou de todo restabelecida, Xavier propôs-lhe virem ao Rio de Janeiro, passar a temporada lírica; ela aceitou, menos por gosto, menos ainda por distração, que por ceder ao pequeno acesso de ternura do marido. Com efeito, ele expediu ordens para que arranjassem casa e todas as comodidades. Vieram; Xavier assinou um camarote. Dona Paula tinha aqui parentes, amigos, conhecidos; a vida teve desde logo um bom aspecto. Pela sua parte, o marido mostrava-se mais atento aos seus desejos. Era uma renascença? Ela supôs que sim, e isto ajudou a fazê-la sarar da alma. Não faltava quem a cortejasse, quem a admirasse, e, naturalmente, quem a invejasse, pela beleza, pela graça, pelas maneiras simples e discretas, particularmente suas. Xavier parecia tirar vaidade desse efeito geral. Seria mais um elo que os prendesse intimamente.

Entretanto, pouco depois de chegados, começaram as suas noitadas fora de casa. Da primeira vez, quando ele se recolheu (quatro horas da manhã), ainda D. Paula estava acordada, ansiosa, vestida, e atirou-se a ele, satisfeita de o ver. Sinceramente, receava algum perigo; não pensou em amores nem cartas. Xavier não correspondeu à ansiedade da mulher, nem entendeu os seus receios. Respondeu-lhe irritado; disse-lhe que fizera mal em não ter dormido.

- Sou alguma criança?

- Mas, Xavier...

- Roceiro, sou; mas conheço a cidade na ponta dos dedos. Você está já com as manhas das moças da Corte; não tarda algum ataque de nervos. Que choro é esse? Vá dormir, não me aborreça. Descanse, que não me perco.

A segunda noitada foi dali a três dias; D. Paula só tarde pôde dormir; acordou, quando ele chegou, mas não descerrou os olhos. Desconfiou que fossem mulheres; ele confessou-lhe, no dia seguinte, que estivera em casa de um amigo, jogando o voltarete.

- Quando demos por nós eram duas horas da noite - concluiu.

Dali em diante, quando tinha de passar fora a noite, não saía de casa sem lhe dizer: - Vou ao voltarete. Dona Paula soube que era verdade, e acostumou-se a dormir à hora da roça, porque nas noites de teatro ou de visitas, ele não deixava de a acompanhar, e dormiam naturalmente tarde.


 

V


Voltaram à Corte uma e muitas vezes, até que Xavier abandonou de todo a fazenda nas mãos do administrador, e ficou a viver aqui. Por casa, entregou a mulher a si mesma e continuou a vida de sempre. Eram já passados três anos. O costume e o decoro os prendiam; nenhum deles amava o outro. Não veio nenhum filho que pudesse suprir as lacunas do amor conjugal.

Dona Paula ia ficando cada vez mais formosa. A Corte aperfeiçoou os encantos naturais. No interior não tinha necessidade de observar todo o ritual elegante nem a grande variedade da moda.

Na Corte, a necessidade impunha-se, e achava na alma dela excelente disposição. Gostava de andar bem, de aparecer muito, de ir a toda parte; e não lhe faltavam amigos nem parentes que a acompanhassem e lhe satisfizessem todos os desejos. Bailes, teatros, passeios, teve tudo o que quis, não lhe negando o marido dinheiro para cousa alguma. Às vezes, estremunhado do jogo, ele respondia-lhe errado:

- O baile do Vergueiro?

- Sim; é no dia 7.

- Mas o trunfo era espadas.

- Que espadas?

- Eu tinha o rei e o quatro.

- Ora, Xavier, não falo de cartas, falo do baile do Vergueiro, no dia 7 de outubro; estamos convidados.

Não pareça demais essa confusão do homem. Naturalmente, alguma partida especial, grave, luta grande, ou pelo dinheiro ou pela honra da vitória, tomara a casa do cérebro onde nenhuma outra ideia achava alojamento. Dona Paula chegava já a rir desses desconchavos. Depois, explicava o riso, e ele ria também, e referia o motivo da trapalhada. Quando ela notava que isso mesmo o aborrecia, evitava explicações. O marido era enfadonho, longo, repisava o que dizia, e achava pequeno interesse em cousas que, para ela, não valiam nada. Já lhe não importavam horas de chegada. Ele entrava de madrugada, às vezes de manhã, às seis horas e mais. Dona Paula dormia até nove, e almoçava só. Outras vezes, o jogo era em casa; mas a casa era grande, e a sala do jogo era ao fundo. Na frente ela recebia, tocava e ria. Era convenção entre ambos, em tais casos, dizer que ele estava fora.


 

VI


Correu assim um ano, e mais. Dona Paula ia para vinte e seis anos, como quem sobe de esplendor em esplendor, devia ser uma daquelas mulheres que os trinta aperfeiçoam, e os quarenta não conseguem enxovalhar. Que era mais natural que a admirassem? Não lhe faltavam olhos cobiçosos, nem desejos mal sofridos. Ela saboreava-os com discrição, sem corresponder a nada, durante os primeiros tempos; mas a liberdade, o número dos adoradores, a persuasão de não perder com isso, fê-la receber agradecida e lisonjeada o culto de tanta gente. Contavam-lhe muitas conversações a seu respeito; os homens idosos, mas brincalhões, repetiam-lhe na cara, ao pé das próprias mulheres, cousas que corriam fora - nomes que lhe davam, estrela do sul, rainha das salas e outros tão banais, como esses, mas igualmente sinceros.

Conhecia meia dúzia de homens que se mostravam particularmente assíduos nos lugares a que ela fosse, e mais pertinazes em dar-lhe a entender que a queriam. Dona Paula não se alterou com o número, nem com o mal; deixou-os vir. Um deles, bacharel em direito, tinha os seus trinta anos, e a mais bela de todas as cabeças masculinas do tempo. Chamava-se João Góis. Solteiro e abastado. Era parente remoto de uma senhora que vivia na Tijuca, onde eles se falaram pela primeira vez. Dona Paula conhecia-o de o ver muitas vezes, ou no teatro ou na rua do Ouvidor. Trazia na lembrança os longos olhos dominadores que ela evitava afrontar, por medo do duelo, de que podia sair mal ferida; apenas os via por baixo das pálpebras medrosas. Na Tijuca teve de os fitar ainda que o menos possível, e viu confirmados esses seus receios. Pensou neles, entretanto, e não sonhou com outros. Havia ainda um adorador de vinte e dois anos, olhos meigos e bons, cara sem barba, um triste buço puxado e repuxado sem chegar a bigodes. Para esse era Dona Paula a primeira paixão. Esse chorava por ela, em casa, às noites, e escrevia longas cartas para lhe mandar no dia seguinte, que não iam nunca, porque lhe faltava tudo, portador e audácia.

Não faltava audácia a João Góis, nem portadores, se lhe fossem necessários. Em breve, estavam as relações travadas entre ele e o marido. Góis não gostava de cartas, mas sujeitava-se a jogar com Xavier nas noites em que este, por acaso, não passava fora ou não tinha os seus parceiros do costume. Dona Paula viveu cheia de temor durante as primeiras semanas; tendo brincado com fogo, aterrava-a naturalmente a ideia de o ver chegar às seis. Góis, que era audaz, era também hábil, e resolveu criar primeiramente confiança. Quando esta se estabeleceu de todo, ele declarou-se, e a batalha, se foi renhida, não foi longa; a vitória acabou completa.


 

VII


Não direi compridamente os sentimentos de Dona Paula. Foram de duas ordens, mas força é confessar que o temor, última esperança da virtude, desapareceu com esta; e a cegueira que lhe trouxeram os olhos do homem fez com que ela não visse já perigos nem perdas. Não receava o marido; pode crer-se que nem recearia a opinião. Era toda do outro; podia crer-se que a paixão antiga, inspirada pelo marido desde os dezessete anos, enganara-se de porta, e que realmente só amava um homem na terra: este parente da senhora da Tijuca.

Pouco a pouco, a verdade foi transparecendo aos olhos estranhos; eles não sabiam resguardá-la, e pode ser que ele próprio o não quisesse. A vaidade não era, aliás, o elo mais forte daquele homem; realmente, o amor dele era violento; mas a glória do vencedor crescia com a notícia da posse. A notícia foi cochichada por inveja, por gosto, por maledicência, na sala e na rua, no teatro e no baile, e tanto na palestra de peralvilhos, como entre duas mãos de voltarete dos comerciantes, à noite, nos arrabaldes. Contavam-se os indícios; pesquisava-se a vida de ambos; vinham episódios, cenas, encontros. E, posto que não fosse já preciso inventar nada, ainda se inventava alguma coisa.

Dona Paula vivia alheia às murmurações. Não sabia ler nos rostos das outras mulheres, nem lhes achou diferença apreciável no trato. Algumas, por verdadeira repulsão, afastaram-se dela, mas com tal arte e polidez, que a moça nem sentiu a separação. Demais, que separação podia já sentir em tais condições? Amigas houve que buscavam saber por direta confidência o segredo da vida de Paula; nenhuma o obteve. Uma, não menos íntima, quis puni-la pela crítica e condenação genérica dos seus atos; ela não a entendeu. Que era a sociedade sem ele? Que era a virtude fora dele? Tal era o estado moral da consorte de Xavier, quando sucedeu o que lhes vou contar.


 

VII


Góis teve um dia a ideia de propor a D. Paula que deixassem o Rio de Janeiro e o Brasil, e fossem para qualquer país do mundo - os Estados Unidos da América do Norte, se ela quisesse, ou qualquer recanto da Itália. A própria França, Paris era um mundo em que ninguém mais daria por eles.

- Você hesita...

- Não hesito - respondeu D. Paula.

- Por que não me responde?

- A proposta é grave, mas não é a gravidade que me impede de responder já e já. Você sabe que irei com você ao fim do mundo, se for preciso...

- Pois eu não te proponho o fim do mundo.

- Sim; e acaso é preciso?

Góis ia a sorrir, mas suspendeu a tempo o sorriso, e fechou o rosto. Dona Paula acudiu que estava por tudo; iria à China, com ele, a uma ilha deserta e inóspita...

Pleno romantismo. Góis pegou-lhe nas mãos e agradeceu-lhe a resposta. Perguntou-lhe ainda se não cedia de má-vontade, ou se era de coração, se padeceria, caso ele se fosse embora só, e a deixasse... A resposta de D. Paula foi tapar-lhe a boca; não a podia haver mais eloquente. Góis beijou-lhe a mão.

- Deixar-me? Você pensaria acaso em semelhante cousa, se eu recusasse...?

- Talvez.

- Então é falso que...

- Não, não é falso que te amo sobre tudo neste mundo; mas tenho um coração orgulhoso, e se percebesse que preferias os teus cômodos ao nosso amor, eu preferia perder-te.

- Cala-te.

Calaram-se ambos, por alguns instantes. Ele brincava com uma das mãos dela; ela alisava-lhe os cabelos. Se indagarmo-nos em que iam pensando, acharemos que um no outro, e nada na terra para onde iriam. Góis, ao menos, só cuidou disso, passados uns dez minutos ou mais de enlevo, de devaneio, reminiscências, sonhos - e cuidou para dar à bela D. Paula uma nova causa de espanto.

- E se eu não te propuser o fim do mundo, mas o princípio?

- Não entendo. O princípio?

- Sim, há de haver um princípio do mundo pois que há um fim.

- Mas explica-te.

- Se eu te propusesse simplesmente a minha casa?

Dona Paula não achou que responder. A proposta era agora tão audaciosa, tão fora de um plano possível, que supôs fosse gracejo, e olhou para ele sem dizer nada. Parece que até começou a rir; mas ficou logo séria, desde que não viu no rosto dele nada que se parecesse com gracejo, nem sequer doçura. Ela já lhe conhecia a expressão da teimosia, e tinha razão para saber toda a escala dos seus atrevimentos. Ainda assim, não creu logo. Compreendia que deixassem a terra pátria para ir purgar os seus erros em algum buraco do mundo; mas sair de uma casa para outra, praticar um escândalo, gratuito, sem necessidade, sem explicação...

- Sei tudo o que estás pensando - disse-lhe ele após alguns segundos.

- Tudo?

- Tudo.

- Então és da minha opinião.

- Que...?

- Que me propões um absurdo.

- Tudo se explica pelo amor - continuou ele -. Se não achas explicação nenhuma, é que não me amaste nunca ou já não me amas...

Dona Paula não teve ânimo desta vez, para tapar-lhe a boca. Abanou a cabeça, com um olhar de censura, e um jeito amargo dos lábios; foi como se não fizesse nada. Góis ergueu-se e estendeu a mão. Ela fechou-a entre as suas; obrigou-o a sentar-se, quis mostrar-lhe que a proposta era um erro, mas perdeu-se em palavras vagas e descosidas, que ele não ouviu, porque tinha os olhos na ponta dos sapatos.


 

IX


Góis venceu. Poucas horas depois, tinham tudo ajustado. Dona Paula sairia no sábado próximo, para a própria casa onde ele morava, em Andaraí. Parece sonho tudo isto, e a pena mal obedece à mão; a verdade, porém, é que é verdade. Para explicar de algum modo esse ato de insensatez, é preciso não esquecer que ele, sobre todas as cousas, amava o escândalo; e que ela, não se sentindo presa por nenhum outro vínculo, mal sabia a que se expunha. Ia separar-se de toda gente, fechar todas as portas, confirmar as suspeitas públicas, afrontar a opinião - tudo como se houvera nascido para outra sociedade diversa daquela em que vivia. Não desconhecia o erro e seguia o erro. A desculpa que podia ter é que havia feito a mesma cousa até agora, e ia aliviar a consciência, pelo menos, da hipocrisia.

Na sexta-feira, à tarde, Góis mandou-lhe as últimas indicações escritas. De noite foi verbalmente confirmá-las. Dona Paula tinha visitas e parecia alegre, Góis ressentiu-se da alegria.

"Parece que não me sacrifica nada", pensou ele; "quisera vê-la abatida, triste e até chorando... Ri, ao contrário; despede-se desta gente, como se devesse recebê-la amanhã..."

Esta descoberta aborreceu-o; ele saiu sem fazer nenhuma referência ao ato do dia seguinte. Dona Paula, prestes a cometer o escândalo, teve vergonha de falar dele, e os dous despediram-se como se não tivessem de ligar, poucas horas depois, os seus destinos.


 

X


No dia seguinte, Xavier acordou tarde, tendo-se recolhido tarde, na forma do costume. Indo almoçar não viu a mulher que assistia sempre ao almoço dele; perguntou se estava doente.

- Não, senhor.

- Então, por quê...?

- Está no quarto, sim, senhor.

Xavier acabou de almoçar e foi ter com ela. Achou-a atirada a um canapé, com os olhos meios cerrados, o ar abatido. Tinha dormido mal a noite, duas horas, quando muito, e interrompidamente. Não disse a causa da insônia; não referiu que a ideia de ser a última noite que passava sob o teto conjugal é que a pusera nervosa, inquieta, meia delirante. Também ele não lhe perguntou nada, se teria tido febre, ou dor de cabeça, um resfriado; deu duas voltas e pegou em um livro que viu sobre uma cadeira, um romance francês; leu duas linhas e deixou-o. Em seguida, falou do almoço, que achou detestável, e do tempo, que parecia querer mudar. Consultou o relógio, quase duas horas. Precisava consertá-lo; variava muito. Que horas tinha ela?

- Vai ver - suspirou D. Paula.

Xavier foi ao relógio de mesa - um pequeno relógio de bronze - e achou que a diferença entre os dous era de quatro minutos. Não valia a pena alterar o seu, salvo se o dela regulava certo.

- Regula.

- Vamos ver amanhã.

E sentou-se para descansar o almoço. Contou-lhe algumas peripécias da noite. Ganhara um conto e oitocentos mil-réis, depois de ter perdido dous contos e tanto; mas o ganho e a perda eram nada. O principal foi a teima de uma carta... E pôs-se a narrar toda a história à mulher, que ouviu calada, enfastiada, engolindo a raiva, e dizendo a si mesma que fazia muito bem deixando a companhia de semelhante homem. Xavier falava com interesse, com ardor, parecia crescer, subir, à medida que os incidentes lhe saíam da boca. E vinham nomes desconhecidos, o Álvaro, Dr. Guimarães, o Chico de Matos, descrevia as figuras, os sestros as relações de uns com outros, anedotas da vida de todos. Quando concluiu parecia afrontado, pediu alguma cousa; a mulher preparou-lhe um pouco de água de melissa.

- Você não quer fazer a digestão calado - disse-lhe ela.

Se ele visse bem o rosto de D. Paula, perceberia que aquela frase, proferida com um tom de repreensão branda, não correspondia ao sentimento da mulher. Dona Paula, se alguma dúvida pudesse ter em fugir de casa, já não a tinha agora; via-se-lhe na cara uma expressão de asco e desprezo.

- Passou - disse ele.

Ergueu-se; ia ver uns papéis.

- Você por que não se deita um pouco - disse-lhe -; veja se passa pelo sono. Eu dou ordem para que não a acordem; e a propósito, janto fora, janto com o Chico de Matos...

- O do ás de ouros? - perguntou ela com os dentes cerrados.

- Justamente, acudiu ele rindo... Que veia de sujeito! O ás de ouros...

- Já sei - interrompeu ela-. Vai ver os papéis.

- Um felizardo!

E, se não falou outra vez do Chico de Matos, contou uma anedota do Roberto, outra do Sales, outra do Marcelino. A mulher ouviu-as todas serenamente - às vezes, risonha. Quando ele acabou, disse-lhe em tom amigo:

- Ora, você que tem jogado com tanta gente, só uma vez jogou comigo, há muito tempo, o ecarté... Não é ecarté que se chama aquele jogo que você me ensinou? Vamos a uma partida.

Xavier pôs-se a rir.


 

XI


- Tinha graça - disse ele-. Para quê?

- Há maridos que jogam com as mulheres.

- A bisca em família?

- Não, não jogo a tentos.

- A dinheiro? Também tinha sua graça, porque o que eu ganhasse em dinheiro, pagaria depois em vestidos; mas ainda assim, pronto. Há certo interesse. Vou buscar as cartas.

Saiu e voltou com as cartas.

- Não te proponho dinheiro - disse D. Paula. Nem dinheiro nem tentos.

- Então quê? As estrelas? Os nossos lugares no céu?

- Não, a minha pessoa.

- Como? - perguntou ele, espantado.

- Se eu perder, você faz de mim o que quiser; se eu ganhar, ganho a liberdade de ir para onde for da minha vontade.

- Repete.

Dona Paula repetiu a proposta.

- Aí está uma singular partida - exclamou Xavier -. Se eu ganhar faço de você o que quiser...

- E se eu ganhar...

- Já sei. Vale a pena arriscar, porque, se você perder, não sabe em que se mete. Vingarei o meu susto exemplarmente.

As mãos dela estavam quentes, os olhos, brilhantes. Ele, diante de uma partida nova, nunca jogada, absurda, ficara pasmado, trêmulo. Era então...?

- Mas quem diabo lhe metera aquela ideia na cabeça? - perguntou-lhe. E depois de um silêncio -: Góis, naturalmente.

- Não. Por que seria esse e não outro?

- Você sabe por quê.

- Não sei nada - murmurou.

- Sei-o eu. É a grande vantagem das cartas anônimas. Três cartas anônimas contaram-me tudo. Guardei a primeira; queimei as outras, e nunca lhe disse nada, porque não adiantavam nada.

Dona Paula negou ainda, por boca e por gesto; afinal, calou-se e ouviu tudo o que ele continuou a dizer. Xavier falava sem cólera. Confessou-lhe que a primeira impressão foi acerba; mas depois sarou a ferida e continuou bem. Decididamente, o jogo estava acima de tudo. Era a consolação real e única da terra e do céu. Que se jogaria no céu? Dona Paula rompeu finalmente:

- Bem, concluamos - disse ela -. Estão postas as condições e aceitas. Vamos às cartas.

- Uma partida em três - disse ele -; quem ganhar as duas primeiras, levanta a mesa.

Baralhou as cartas, distribuiu-as e ganhou logo a primeira. Jogaram segunda. Dona Paula ganhou a segunda. Foram à terceira, que desempatava.

- O rei - disse ele, marcando um ponto.

Jogou a primeira carta, mas não jogou segunda. Parou, as cartas caíram-lhe, fez um gesto, e, antes que a mulher pudesse ver nada, caiu redondamente no chão. Dona Paula acudiu, chamou, vieram criados e um médico vizinho; Xavier estava morto. Uma congestão.


 

XII


Ninguém acredita que D. Paula tivesse lágrimas para o marido. Pois teve-as - poucas, é certo - mas não deixou de as chorar; quando o cadáver saiu. No dia seguinte, a impressão passara.

Que partida jogaria, agora que a fortuna a libertara de toda a obrigação? Góis visitou-a, dias depois do enterro. Não lhe falou em sair de casa; também não lhe falou de amores. Dona Paula agradeceu esse respeito, não obstante a certeza que ele tinha da separação moral em que ela viveu com o marido. O respeito estendeu-se a dous meses, depois, a quatro; Góis fez-lhe algumas visitas, sempre frias e curtas.

Dona Paula começou a crer que ele não a amava. No dia em que esta convicção lhe entrou no coração, esperou resoluta; mas esperou em vão. Góis não voltou mais.

A dor e a humilhação de D. Paula foram grandes. Não compreendeu os motivos desse ato. Não percebeu que a liberdade e a viuvez a tornavam fácil e banal para um espírito como o do cúmplice. Teve amarguras secretas; mas a opinião pública foi em seu favor, porque imaginaram que ela o expulsara de casa, com sacrifício e para punição de si mesma.


 

Vênus! Divina Vênus! *



- Vênus! Vênus! Divina Vênus!

E despegando os olhos da parede, onde estava uma cópia pequenina da Vênus de Milo, Ricardo arremeteu contra o papel e arrancou de si dois versos para completar uma quadra começada às sete horas da manhã. Eram sete e meia; a xícara de café, que a mãe lhe trouxera antes de sair para a missa, estava intacta e fria sobre a mesa; a cama, ainda desfeita, era uma pequena cama de ferro, a mesa em que escrevia era de pinho; a um canto um par de sapatos, o chapéu pendente de um prego. Desarranjo e falta de meios. O poeta, com os pés metidos em chinelas velhas, com a cabeça apoiada na mão esquerda, ia escrevendo a poesia. Tinha acabado a quadra e releu-a:


Mimosa flor que dominas

Todas as flores do prado,

Tu tens as formas divinas

De Vênus, modelo amado.


Os dois últimos versos não lhe pareceram tão bons como os dois primeiros, nem lhe saíram tão fluentemente. Ricardo deu uma pancadinha seca na borda da mesa, e endireitou o busto. Concertou os bigodes, fitou novamente a Vênus de Milo - uma triste cópia em gesso - e tratou de ver se os versos lhe saíam melhores.

Tem vinte anos este moço, olhos claros e miúdos, cara sem expressão, nem bonita nem feia, banal. Cabelo reluzente de óleo, que ele põe todos os dias. Dentes tratados com esmero. As mãos são delgadinhas, como os pés, e tem as unhas compridas e encurvadas. Empregado em um dos arsenais, vive com a mãe (já não tem pai), e paga a casa e parte da comida. A outra parte é paga pela mãe, que, apesar de velha, trabalha muito. Moram no bairro dos Cajueiros. O ano em que isto se dava era o de 1859. É domingo. Dizendo que a mãe foi à missa, quase não é preciso acrescentar que com um surrado vestido preto.

Ricardo prosseguia. O amor às unhas faz com que não as roa, quando se acha em dificuldades métricas. Em compensação, afaga a ponta do nariz com a ponta dos dedos. Esforça-se por sacar dali dois versos substitutivos, mas inutilmente. Afinal, tanto repetiu os dois versos condenados, que acabou por achar a quadra excelente e continuou a poesia. Saiu a segunda estrofe, depois a terceira, a quarta e a quinta. A última dizia que o Deus verdadeiro, querendo provar que os falsos não eram tão poderosos como supunham, inventara, contra a bela Vênus, a formosa Marcela. Gostou desta ideia; era uma chave de ouro. Ergueu-se e passeou pelo quarto, recitando os versos; em seguida, parou diante da Vênus de Milo, encantado da comparação. Chegou a dizer-lhe em voz alta:

- Os braços que te faltam são os braços dela!

Também gostou desta ideia, e tentou convertê-la em uma estrofe, mas a veia esgotara-se. Copiou a poesia - primeiramente, em um caderno de outras; depois, em uma folha de papel bordado. Acabava a cópia quando a mãe voltava da missa. Mal teve tempo de guardar tudo na gaveta. A mãe viu que ele não bebera o café, feito por ela, e posto ali com a recomendação de que o não deixasse esfriar.

"Hão de ser os malditos versos!", pensou ela consigo.

- Sim, mamãe, foram os malditos versos! - disse ele.

Maria dos Anjos, espantada:

- Você adivinhou o que eu pensei?

Ricardo podia responder que já lhe ouvira muitas vezes aquelas palavras, acompanhadas de certo gesto característico; mas preferiu mentir.

- O poeta adivinha. A inspiração não serve só para compor versos, mas também para ler na alma dos outros.

- Então, você leu também que eu rezei hoje na missa por você...?

- Li, sim, senhora.

- E que pedi a Nossa Senhora, minha madrinha, que acabe com essa paixão por aquela moça... Como se chama mesmo?

Ricardo, depois de alguns instantes, respondeu:

- Marcela.

- Marcela, é verdade. Não disse o nome, mas Nossa Senhora sabe. Eu não digo que vocês não se mereçam; não a conheço. Mas, Ricardo, você não pode tomar estado. Ela é filha de doutor, não há de querer lavar nem engomar.

Ricardo teve moralmente náuseas. Aquela ideia reles de lavar e engomar era própria de uma alma baixa, ainda que excelente. Venceu o asco, e olhou para a mãe com um gesto igualmente amigo e superior. No almoço, disse-lhe que Marcela era a mais famosa moça do bairro.

- Mamãe acredita que os anjos venham à terra? Marcela é um anjo.

- Acredito, meu filho, mas os anjos comem, quando estão neste mundo e se casam... Ricardo, se você anda com tanta vontade de casar, por que não aceita Felismina, sua prima, que gosta tanto de você?

- Ora, mamãe! Felismina!

- Não é rica, é pobre...

- Quem lhe fala em dinheiro? Mas, Felismina! Basta-lhe o nome; é difícil achar outro tão ridículo. Felismina!

- Não foi ela que escolheu o nome, foi o pai, quando ela se batizou.

- Pois sim, mas não se segue que seja bonito. E depois, eu não gosto dela, é prosaica, tem o nariz comprido e os ombros estreitos, sem graça; os olhos parecem mortos, olhos de peixe podre, e fala arrastado. Parece da roça.

- Também eu sou da roça, meu filho - replicou a mãe com brandura.

Ricardo almoçou, passou o dia agitado, felizmente lendo versos, que foram o seu calmante. Tinha um volume de Casimiro de Abreu, outro de Soares de Passos, um de Lamartine, não contando os seus próprios manuscritos. De noite, foi à casa de Marcela. Ia resoluto. Não eram os primeiros versos que escrevia à moça, mas não lhe entregara nenhum - por acanhamento. De fato, esse namoro que Maria dos Anjos receava acabasse em casamento não passava ainda de alguns olhares e durava já umas seis semanas. Foi o irmão de Marcela que apresentou ali o nosso poeta, com quem se encontrava, às tardes, em um armarinho do bairro. Disse que era um moço de muita habilidade. Marcela, que era bonita, não deixava passar olhos sem fazer-lhes alguma pergunta a tal respeito, e como as respostas eram todas afirmativas, fingia não entendê-las e continuava o interrogatório. Ricardo respondeu pronto e entusiasmado; tanto bastou para continuarem uma variação infinita sobre o mesmo tema. Entretanto, não havia nenhuma palavra de boca, trocada entre eles, coisa que parecesse com declaração. Os próprios dedos de Ricardo eram frouxos, quando recebiam os dela, que eram frouxíssimos.

"Hoje dou o golpe", ia ele pensando.

Havia gente em casa do Dr. Viana, pai da moça. Tocava-se piano; Marcela perguntou-lhe logo com os olhos do costume:

- Que tal me acha?

- Linda, angélica - respondeu Ricardo pelo mesmo idioma.

Apalpou a algibeira do fraque; lá estava a poesia metida em sobrecarta cor-de-rosa, com uma pombinha cor de ouro, em um dos cantos.

- Hoje temos solo - disse-lhe o filho do Dr. Viana -. Aqui está este senhor, que é excelente parceiro.

Ricardo quis recusar; não pôde, não podia. E lá foi jogar o solo, a tentos, em um gabinete, ao pé da sala de visitas. Cerca de hora e meia não arredou pé; afinal confessou que estava cansado, precisava andar um pouco, voltaria depois.

Correu à sala. Marcela tocava piano, um moço de bigodes compridos, ao pé dela, ia cantar não sei que ária de ópera italiana. Era tenor, cantou, romperam grandes palmas. Ricardo, ao canto de uma janela, fez-lhe o favor de umas palminhas, e esperou os olhos da pianista. Os dele meditavam já esta frase: "Sois o mais belo, o mais puro, o mais adorável dos arcanjos, ó soberana do meu coração e da minha vida". Marcela, entretanto, foi sentar-se entre duas amigas, e de lá perguntou-lhe:

- Pareço-lhe bonita?

- Sois o mais belo, o mais...

Não pôde acabar. Marcela falou às amigas, e encaminhou os olhos para o tenor, com a mesma pergunta:

- Pareço-lhe bonita?

Ele, pela mesma língua, respondeu que sim, mas com tal clareza e autoridade, como se fora o próprio inventor do idioma. E não esperou nova pergunta; não se restringiu à resposta; disse-lhe com energia:

- E eu, que lhe pareço?

Ao que Marcela respondeu, sem grande hesitação:

- Um belo noivo.

Ricardo empalideceu. Não somente viu a significação da resposta, mas ainda assistiu ao diálogo, que continuou com vivacidade, abundância e expressão. De onde vinha esse pelintra? Era um jovem médico, chegado dias antes da Bahia, recomendado ao pai de Marcela; jantara ali, a reunião era em honra dele. Médico distinto, bela voz de tenor... Tais foram as informações que deram ao pobre-diabo. Durante o resto da noite, apenas pôde colher um ou dois olhares rápidos. Resolveu sair mais cedo para mostrar que estava ferido.

Não foi logo para casa; vagou uma hora ou mais, entre o desânimo e o furor, falando alto, jurando esquecê-la, desprezá-la. No dia seguinte, almoçou mal, trabalhou mal, jantou mal, e trancou-se no quarto, à noite. A consolação única eram os versos, que achava lindos. Releu-os com amor. E a musa deu-lhe a força d`alma que a aventura de domingo lhe tirara. Passados três dias, Ricardo não pôde mais consigo, e foi à casa do Dr. Viana; achou-o de chapéu na cabeça, esperando que as senhoras acabassem de vestir-se; iam ao teatro. Marcela desceu daí a pouco, radiante, e perguntou-lhe ocularmente:

- Que tal me acha com este vestido?

- Linda - respondeu ele.

Depois, animando-se um pouco, perguntou Ricardo à moça, sempre com os olhos, se queria que também ele fosse ao teatro. Marcela não lhe respondeu; dirigiu-se para a janela, a ver o carro que chegara. Ele não sabia (como sabê-lo?) que o jovem médico baiano, o tenor, o diabo, Maciel, em suma, combinara com a família ir ao teatro, e já lá os estava esperando. No dia seguinte, com o pretexto de saber que tal andara o espetáculo, correu à casa de Marcela. Achou-a em conversação com o tenor, ao lado um do outro, confiança que nunca lhe dera. Quinze dias depois falou-se da possibilidade de uma aliança; quatro meses depois estavam casados.

Quisera contar aqui as lágrimas de Ricardo; mas não as houve. Imprecações, sim, protestos, juramento, ameaças, vindo tudo a acabar em uma poesia com o título Perjura. Publicou esses versos, e, para lhes dar toda a significação, pôs-lhe a data do casamento. Marcela, porém, estava na lua de mel, não lia outros jornais além dos olhos do marido.

Amor cura amor. Não faltavam mulheres que tomassem a si essa obra de misericórdia. Uma Fausta, uma Doroteia, uma Rosina, ainda outras, vieram sucessivamente adejar as asas nos sonhos do poeta. Todas tiveram a mesma madrinha:

- Vênus! Vênus! Divina Vênus!

Choviam versos; as rimas buscavam rimas, cansadas de serem as mesmas; a poesia fortalecia o coração do moço. Nem todas as mulheres tiveram notícia do amor do poeta; mas bastava que existissem, que fossem belas, ou quase, para fasciná-lo e inspirá-lo. Uma dessas tinha apenas dezesseis anos, chamava-se Virgínia e era filha de um tabelião, com quem Ricardo se fez encontradiço para mais facilmente penetrar-lhe em casa. Foi-lhe apresentado como poeta.

- Sim? Eu sempre gostei de versos - disse o tabelião -; se não fosse o meu cargo, escreveria alguns sonetinhos. No meu tempo compus fábulas. O senhor gosta de fábulas?

- Como não? - redarguiu Ricardo -. A poesia lírica é melhor, mas a fábula...

- Melhor? Não compreendo. A fábula tem conceito, além da graça de fazer falar os animais...

- Justamente!

- Então, como é que disse que a poesia lírica era melhor?

- Num sentido.

- Que sentido?

- Quero dizer, cada forma tem a sua beleza; assim, por exemplo...

- Exemplos não faltam. A questão é que o senhor acha a poesia lírica melhor que a fábula. Só se não acha?

- Realmente, parece que não é melhor - confessou Ricardo.

- Diga logo inferior. Luar, névoas, virgens, lago, estrelas, olhos de anjo são palavras vãs, boas para poetas apatetados. Eu, tirando-me a fábula e a sátira, não sei para que serve a poesia. Para encher a cabeça de caraminholas, e o papel de tolices...

Ricardo aturou toda essa rabugice do notário, para o fim de ser admitido em casa dele - coisa fácil, porque o pai de Virgínia tinha algumas fábulas antigas e outras inéditas e poucos ouvintes do ofício, ou verdadeiramente nenhum. Virgínia acolheu o moço com boa vontade; era o primeiro que lhe falava de amores - porque desta vez o nosso Ricardo não se deixou ficar atado. Não lhe fez declaração franca e em prosa, dava-lhe versos às escondidas. Ela guardava-os "para os ler depois" e no dia seguinte agradecia-os.

- Muito mimosos - dizia sempre.

- Eu fui apenas secretário da musa - respondeu ele uma vez -; os versos foram ditados por ela. Conhece a musa?

- Não.

- Veja no espelho.

Virgínia entendeu e corou. Já os dedos de ambos começaram a dizer alguma coisa. O pai ia muitas vezes com eles ao Passeio Público, entretendo-os com fábulas. Ricardo estava certo de dominar a mocinha e esperava que ela fizesse os dezessete anos para pedir-lhe a mão, a ela e ao pai. Um dia, porém (quatro meses depois de conhecê-la), Virgínia adoeceu de moléstia grave, que a pôs entre a vida e a morte. Ricardo padeceu deveras. Não se lembrou de compor versos, nem tinha inspiração para eles; mas a leitura casual daquela elegia de Lamartine, em que há estas palavras: "Elle avait seize ans; c'est bien tôt pour mourir," deu-lhe ideia de escrever alguma coisa em que aquilo entrasse por epígrafe. E trabalhava, à noite, de manhã, na rua, tudo por causa da epígrafe.

- "Elle avait seize ans; c'est bien tôt pour mourir!"- repetia ele andando.

Felizmente, a moça arribou, ao fim de quinze dias, e, logo que pôde, foi convalescer na Tijuca, em casa da madrinha. Não foi sem levar um soneto de Ricardo, com a famosa epígrafe, o qual principiava por estes dois versos:

Agora, que a mimosa flor caída

Ao terrífico vento da procela...

Virgínia convalesceu depressa; mas não voltou logo, ficou lá um mês, dois meses, e, como eles não se correspondiam, Ricardo vivia naturalmente ansioso. O tabelião dizia-lhe que os ares eram bons, que a filha andava fraca, e não desceria sem estar inteiramente restabelecida. Um dia leu-lhe uma fábula, composta na véspera, e dedicada ao bacharel Vieira, sobrinho da comadre.

- Compreendeu o sentido, não? - perguntou-lhe no fim.

- Sim, senhor, entendi que o sol, disposto a restituir a vida à lua...

- E não atina?

- A moralidade é clara.

- Creio; mas a ocasião...

- A ocasião?

- A ocasião é o casamento da minha pecurrucha com o bacharel Vieira, que chegou de São Paulo; gostaram-se; foi pedida anteontem...

Esta nova desilusão atordoou completamente o rapaz. Desenganado, jurou acabar com mulheres e musas. Que eram musas senão mulheres? Contou à mãe esta resolução, sem entrar em pormenores, e a mãe o aprovou de todo. De fato, meteu-se em casa, as tardes e as noites, deu de mão aos passeios e aos namoros. Não compôs mais versos, esteve a ponto de quebrar a Vênus de Milo. Um dia soube que Felismina, a prima, ia casar. Maria dos Anjos pediu-lhe uns cinco ou dez mil-réis para um presentinho; ele deu-lhe dez mil-réis, logo que recebeu o ordenado.

- Com quem casa? - perguntou.

- Com um moço da Estrada de Ferro.

Ricardo consentiu em ir com a mãe, à noite, visitar a prima. Lá achou o noivo, ao pé dela, no canapé, conversando baixinho. Depois das apresentações, Ricardo encostou-se ao canto de uma janela, e o noivo foi ter com ele, passados alguns minutos, para dizer-lhe que estimava muito conhecê-lo, tinha uma casa às suas ordens e um criado para o servir. Já o tratava por primo.

- Sei que meu primo é poeta.

Ricardo, com fastio, deu de ombros.

- Ouvi dizer que é um grande poeta.

- Quem lhe disse isso?

- Pessoas que sabem. Sua prima também me disse que fazia bonitos versos.

Ricardo, após alguns segundos:

- Fiz versos; provavelmente não os farei mais.

Daí a pouco estavam os noivos outra vez juntos, falando baixinho. Ricardo teve-lhes inveja. Eram felizes, uma vez que gostavam um do outro. Pareceu-lhe até que ela gostava ainda mais, porque sorria sempre; e daí talvez fosse para mostrar os lindos dentes que Deus lhe dera. O andar da moça também era mais gracioso. "O amor transforma as mulheres", pensava ele; "a prima está melhor do que era." O noivo é que lhe pareceu um tanto impertinente, só a tratá-lo por primo... Disse isto à mãe, na volta para casa.

- Mas que tem isso?

Sonhou nessa noite que assistia ao casamento de Felismina, muitos carros, muitas flores, ela toda de branco, o noivo de gravata branca e casaca preta, ceia lauta, brindes, recitando ele Ricardo uns versos...

- Se outro não recitar, se não eu... - disse ele de manhã, ao sair da cama.

E a figura de Felismina entrou a persegui-lo. Dias depois, indo à casa dela, viu-a conversar com o noivo, e teve um pequeno desejo de atirá-lo à rua. Soube que ele ia na manhã seguinte para a Barra do Piraí, a serviço.

- Demora-se muito?

- Oito dias.

Ricardo visitou a prima todas essas noites. Ela, aterrada com o sentimento que via nascer no primo, não sabia que fizesse. A princípio resolveu não aparecer-lhe; mas aparecia-lhe, e ouvia tudo o que ele contava com os olhos postos nos dele. A mãe dela tinha a vista curta. Na véspera da volta do noivo, Ricardo apertou-lhe a mão com força, com violência, e disse-lhe adeus "até nunca mais". Felismina não ousou pedir-lhe que viesse; mas passou a noite mal. O noivo regressou por dois dias.

- Dois dias? - perguntou-lhe Ricardo na rua onde ele lhe deu a notícia.

- Sim, primo, tenho muito que fazer - explicou o outro.

Partiu, as visitas continuaram; os olhos falavam, os braços, as mãos, um diálogo perpétuo, não espiritual, não filosófico, um diálogo fisiológico e familiar. Uma noite, Ricardo sonhou que pegava da prima e subia com ela ao alto de um penedo, no meio do oceano. Viu-a sem braços. Acordando de manhã, olhou para a Vênus de Milo.

- Vênus! Vênus! Divina Vênus!

Atirou-se à mesa, ao papel, meteu mãos à obra, para compor alguma coisa, um soneto, um soneto que fosse. E olhava para Vênus - a imagem da prima -, e escrevia, riscava, tornava a escrever e a riscar, e novamente escrevia até que lhe saíram os dois primeiros versos do soneto. Os outros vieram vindo, cai aqui, cai acolá.

- Felismina! - exclamava ele -. O nome dela há de ser a chave de ouro. Rima com divina e cristalina. E concluía assim o soneto.

E tu, criança amada, tão divina,
Não és cópia da Vênus celebrada,
És antes seu modelo, Felismina.

Deu-lho nessa noite. Ela chorou depois que os leu. Tinha de pertencer a outro homem. Ricardo ouviu essa palavra e disse-lhe ao ouvido:

- Nunca!

Indo a acabar os quinze dias, o noivo escreveu dizendo que precisava ficar ainda na Barra umas duas ou três semanas. Os dois, que iam dando pressa a tudo, trataram da conclusão. Quando Maria dos Anjos ouviu ao filho que ia desposar a prima, ficou espantada, e pediu que se explicasse.

- Isto não se explica, mamãe...

- E o outro?

- Está na Barra. Ela já lhe escreveu pedindo desculpa e contando a verdade.

Maria dos Anjos abanou a cabeça, com ar de reprovação.

- Não é bonito, Ricardo...

- Mas se nós gostamos um do outro? Felismina confessou que ia casar com ele, à toa, sem vontade; que sempre gostara de mim; casava por não ter com quem.

- Sim, mas palavra dada...

- Que palavra, mamãe? Mas se eu a adoro; digo-lhe que a adoro. Queria que eu ficasse a olhar ao sinal, e ela também, só porque houve um equívoco, uma palavra dada sem reflexão? Felismina é um anjo. Não foi à toa que lhe deram um nome, que é a rima de divina. Um anjo, mamãe!

- Oxalá sejam felizes.

- Com certeza; mamãe verá.

Casaram-se. Ricardo era todo para a realidade do amor. Conservou a Vênus de Milo, a divina Vênus, posta na parede, apesar dos protestos de modéstia da mulher. Convém saber que o noivo casou mais tarde na Barra, Marcela e Virgínia estavam casadas. As outras moças que Ricardo amou e cantou tinham já maridos. O poeta deixou de poetar, com grande mágoa dos seus admiradores. Um deles perguntou-lhe um dia, ansioso:

- Então você não faz mais versos?

- Não se pode fazer tudo - respondeu Ricardo, acariciando os seus cinco filhos.


 

Um quarto de século *



Capítulo primeiro

Eram quatro horas da tarde. Oliveira e Tomás conversavam à porta da casa do Desmarais, rua do Ouvidor, ano de 1868, quando passou do lado oposto uma senhora, vestida de preto. Oliveira disse a Tomás:

- É a viúva Sales; espera.

E, atravessando a rua, foi falar à viúva Sales, cinco a seis minutos apenas. As últimas palavras foram estas:

- Mas posso contar com a senhora?

- Mana Rita está constipada; se ela ficar boa, vamos.

- Vou rezar para que fique boa.

- Os hereges não rezam - replicou a viúva sorrindo e despedindo-se.

Oliveira tornou à porta do Desmarais. Tomás seguiu com os olhos a viúva, até que ela dobrou a primeira esquina.

- Não é possível - disse ele.

- Que é que não é possível?

- Essa viúva... É viúva de um médico, um doutor João Sales?

- Isso.

- Dona Raquel?

- Exatamente.

- Filha de um conselheiro de guerra?

- Xavier de Matos. Conheces?

- Sim, conheço, isto é, conheci. Foi há muitos anos. Está mudada.

- Um pouco mais gorda.

- Conheci-a magrinha.

- Mas não está mais velha. Queres vê-la, queres jantar com ela, lá em casa, sábado?

- Ela vai?

- Prometeu que iria, se a mana ficasse boa.

- Sim, Mariana, mais velha que ela.

- Não, Rita, mais moça. A mais velha morreu há anos; era casada com um deputado do Norte. A moça não casou. Vivem juntas.

- Vou.

- Seis em ponto.

- Em ponto.

- Bem, agora que a viste, que tens algumas notícias, que vais jantar com ela e conosco, sábado, às seis horas em ponto, quero que me digas tudo ou só metade, o que puder ser contado.

- Tudo é nada - respondeu Tomás -. Que diabo de ideia é essa?

- Meu caro, quando eu me despedi dela, tu não me viste chegar ao pé de ti; ias atrás dela com os olhos, com os ouvidos, com tudo. O coração batia-te que se ouvia cá fora como o meu relógio de parede bate as horas, nos primeiros dias da semana, por estar de corda nova. Relojoeiro, desfaz o teu relógio.

Tomás sorriu, mas não sorriu bem; parecia acanhado. Oliveira não soube ser discreto. Íntimos desde a Faculdade de Direito de São Paulo, onde se formaram, foram confidentes um do outro, até o dia em que a vida os separou; novamente ligados, Oliveira cuidava estar no mesmo ponto em que a vida os deixara antes. Tomás, pela sua parte, vacilava. Evidentemente, havia alguma cousa que dizer.

- Tudo é pouco.

- Esse pouco.

- Gostei dela em solteira, mas foi cousa que passou, como outras. Sabes que nós, por esse tempo, namorávamos a todas.

- Mas nunca me falaste desta.

- Provavelmente, falei; mas eram tantas! Bom tempo, Oliveira! Era melhor que isto de hoje com os nossos bigodes grisalhos, tu pai de filhos, eu solteirão desamparado, quarenta e quatro anos no lombo; tu tens mais três.

- Mais dous.

- Creio que já foram quatro, mas o tempo diminui tudo, começando por si mesmo.

- Vai para o diabo. Quarenta e seis, feitos em março.

Trocaram ainda algumas palavras, e despediram-se. Oliveira meteu-se no carro que estava no largo de São Francisco de Paula e foi para Andaraí. Tomás meteu-se na gôndola e guiou para o Catete.


 

II

Tomás de Castro Rodrigues tinha realmente alguns fios de prata nos bigodes e nos cabelos; vieram-lhe cedo e tendiam a multiplicar-se. Bonita figura, bem posta sobre uns pés pequenos, elegante, com certa graça do outono, dava ainda um noivo decente. Não casara por não achar noiva que o quisesse, dizia ele; mas, realmente, por causa de uma paixão da mocidade, esta mesma viúva Sales que passou agora na rua do Ouvidor, então Raquel, simples Raquel.

Não tomes isto ao pé da letra, para me não acusares de romantismo. É certo que ele prometeu não casar nunca, depois da paixão Raquel; mas não foi precisamente a paixão que o deixou solteiro. Esta doeu-lhe por muito tempo, fê-lo empreender uma viagem à Europa, onde se demorou quatro anos. Os quatro anos, porém, não foram gastos em suspirar. O tempo e a distância depressa o fizeram sarar; a própria vida é que o confinou na solidão. Solidão fácil, aliás, composta de prazeres, viagens, distrações amorosas e outras. Quando se afastou da Europa, tornou para o Rio de Janeiro, onde assistiu à morte do pai, que lhe deixou todos os seus bens. Tomás era filho único. Já então Raquel, tendo casado com um negociante de Pelotas, havia partido para o Sul. Tomás começou a advogar; parece que defendeu algumas causas, perdeu-as todas, ou quase todas. Não fechou a banca; mas achava meio de não se meter em muito trabalho; este foi naturalmente fugindo, de maneira que, em pouco tempo, acabaram os clientes. A banca era pretexto para ter um lugar de descanso e conversação, e dar emprego a um servente.

Assim se passaram três a quatro anos. A Europa entrou a fazer cócegas ao advogado sem causas; mas o amigo Oliveira, já então casado, deu-lhe de conselho que entrasse na política. A ideia de ser ministro foi talvez o único motivo de aceitação deste conselho por um homem que não tinha partido nem inclinações políticas. Na faculdade escrevera e falara nas liberdades públicas, no futuro dos povos, nas instituições democráticas, tudo isso, porém, sem convicção profunda nem superficial, um simples uso, uma espécie de oração necessária. Concluindo o curso, não pensou em libertar nem oprimir os povos. Agora a perspectiva ministerial fez alguma cousa; podia ser até que ele desse um bom orador, tendo sido dos melhores de seu tempo em São Paulo.

Oliveira arranjou-lhe a cadeira, por intermédio de um parente ministro; aproveitou-se uma vaga, e Tomás entrou na Câmara. No distrito que o elegeu ficou o seu nome execrado; disseram-lhe todas as cousas feias, ambicioso vulgar, intruso, lacaio de ministro, gatuno, e besta. "Não é diploma que ele leva daqui; é uma gazua", escreveu um jornal. Tomás quis rejeitar o diploma; não tinha a ambição necessária, ou qualquer sentimento equivalente, para suportar todo esse despejo de injúrias; mas Oliveira riu-lhe na cara, disse-lhe que não fosse tolo e ficasse; que os autores da palavrada não sentiam nada do que diziam, era a irritação própria da pretensão de outro candidato. Tomás obedeceu e entrou na Câmara.

Não foi ministro, proferiu dous discursos, aborreceu-se ao fim de algum tempo; cinco anos depois fazia outra viagem à Europa. Lá esteve, tornou a ir e regressou agora, há quatro meses, sem carreira, sem ambições, sem família. Conservava a riqueza, isso sim, não era gastador, vivia das rendas.

Resta dizer da paixão que primeiro o levou a andar por esse mundo. Já notei que, indiretamente, foi ela que o impediu de casar. É possível que, se houvesse de fazer vida regular, casasse e fundasse família. Raquel tinha vinte anos, quando ele a viu pela primeira vez, em um baile do Cassino Fluminense. Era linda entre as lindas. Não lhe parecendo que ela o rejeitasse, buscou relacionar-se com a família. Houve da parte dele confiança demasiada; desde que começou a ir à casa dela, Raquel retraiu-se. Mas isto mesmo tornou mais forte a paixão do rapaz - ou antes, foi isso que verdadeiramente a gerou. Até então o sentimento não passava do tom médio e comum de tantos amores que acabam em nada ou em casamento. Que motivo tinha Raquel para aceitá-lo a princípio e retrair-se depois? Talvez a lua o explique, talvez o vento. Não foi o mesmo que teve, mais tarde, para aceitá-lo novamente; aqui foi a piedade. Em verdade, a paixão do moço era tal que ela entendeu de bom aviso dar-lhe novas esperanças, e acabar casando. Pode ser que fosse assim, se ela não adoecesse daí a algumas semanas, indo para Minas, convalescer. Antes de concluído o prazo, Tomás correu a visitá-la. Esse encontro, após a ausência e a moléstia, devia desenganá-lo. Raquel desacostumara-se de o ver, não tivera saudades, não lhe escrevera apesar das cartas dele, e o acolhimento foi apenas polido, senão pior. A piedade gastara as forças na tentativa de um amor que não queria nascer. Tomás voltou desesperado.

A verdade parece ser que Raquel era, mais que tudo, desconfiada e tímida. Pelo mesmo tempo em que Tomás a cortejava, era pretendida por mais dous homens, e essa competência produziu efeito contrário ao que se devia supor. Em casa, Raquel era chamada esquisitona. Acresce que um dos dous pretendentes, depois de desenganado, casou com outra moça, amiga dela, sem intervalo de dous meses. Essa facilidade de passar de uma a outra mulher fê-la ainda mais tímida e desconfiada. Tinha medo de entregar-se. De resto, foi a própria violência do amor de Tomás que o perdeu. Raquel achou a nota excessiva e teve medo. A separação fez-se com dor para ele, naturalmente sem saudade para ela. Nenhum pretendente os separou. Foi só depois que apareceu o negociante de Pelotas, sem paixão, apresentado pelo pai, como moço de muito futuro, e sério. Sales tinha trinta anos. Raquel aceitou-o sem combate nem entusiasmo; casou e partiu. Já Tomás estava na Europa.

Sales, negociante de Pelotas e doutor em medicina, liquidou a casa no fim de poucos anos e veio para o Rio de Janeiro. A ideia dele era viver uma vida elegante, participar de todos os prazeres da alta roda da capital. Contava com o papel eminente que caberia à mulher, agora mais bela que nunca. Assim foi. Em poucas semanas, em três meses, o nome de Raquel andava em todas as bocas, a pessoa, em todos os bailes e teatros. Toda a gente a conhecia na rua. Sales comprou uma carruagem e uma parelha de cavalos ingleses. A primeira modista era dela. Não eram dela as primeiras modas porque vinham feitas da Europa; mas entre as primeiras divulgadoras de um corte, de uma fazenda ou de um chapéu, estava a bela Raquel - ou a bela Sales, como iam dizendo alguns, até que este nome se generalizou.

Pouco mais de um ano bastou a cansar o marido. Os hábitos do comércio ou da província - os dele, ao menos - não se podiam casar com a vida agitada, que ele mesmo quisera e escolhera. Os bailes pareciam-lhes tristes, ao cabo de um ou duas horas. Quando havia jogo, Sales atirava-se às cartas, enquanto a mulher valsava ou polcava. Gostava mais do teatro, e particularmente do teatro lírico; mas, se a primeira e segunda estação o encantaram, a terceira entrou a aborrecê-lo. Em casa, recebia bem e estava mais a gosto; mas, tudo somado, a realidade da vida elegante não correspondia à expectação. Além do mais, para um homem afeito às lidas do comércio, a vida ociosa era pesada e vazia. Não sabendo que fazer do tempo, Sales lembrou-se de exercer a medicina. Curava de graça; não lhe faltavam doentes, e atrás deles a reputação. Assim passou alguns anos, até que ele próprio adoeceu, e, mais infeliz que os seus enfermos, sucumbiu.


 

III

No sábado marcado, Tomás acudiu a Andaraí, onde já achou a viúva. Oliveira tinha anunciado a vinda do amigo, mas nem então, nem quando este chegou, houve da parte de Raquel a menor emoção. Ela falou ao namorado de outros dias, como se nada houvesse passado entre ambos, em bem ou em mal. Oliveira fê-los sentar, à mesa, ao pé um do outro; mas a vizinhança não alterou a disposição da viúva.

Tomás achou-a ainda bela, e, a muitos respeitos, melhor. Trinta e sete ou trinta e oito anos, é o que devia ter. Era conversada, interessante, atenta, falando de tudo e bem, sem excesso, sem impertinência, calando a tempo, tudo isso com uma boca fresca e uns olhos capazes de paixão e de mando. Assim pareceram eles a Tomás, que estava comovido e ia-se sentindo acanhado. Para um homem vivido, o estado era inexplicável, se não fora a situação especialíssima. Ele supôs, e qualquer pessoa o suporia, que o longo celibato e a diferença dos tempos o teriam armado contra essa senhora, e foi o contrário. Já não falo dos termos da separação de outrora, que eram um atrativo mais, não diminuído pela viuvez. A viuvez era antes um pico.

Raquel demorou-se pouco. A irmã, que estava presente, embora restabelecida, não podia apanhar sereno e a noite esfriava. Foi a razão dada pela viúva Sales para sair e não cantar, como lhe pedia Oliveira.

- Uma só daquelas músicas espanholas, que a senhora canta com tanta graça.

- Deixei a graça em casa; fica para outra vez.

A mulher de Oliveira ofereceu-lhes pousada por uma noite. Era impossível que D. Rita saísse; podiam ficar; iria levá-las no dia seguinte. Raquel não aceitou nada e despediram-se às nove horas. Tomás não ousou apertar fortemente a mão que ela lhe estendeu, à despedida, posto que esse fosse o seu desejo; tocou-lhe apenas nos dedos. Entretanto, esperava que ela lhe oferecesse a casa, e Raquel não lhe ofereceu cousa nenhuma.

Oliveira deu o braço a D. Rita, até o carro, deixando ao amigo a fineza de ir com a viúva. Tomás aproveitou o favor. Entre a casa, que ficava no centro de uma chácara, e a rua havia cerca de trinta passos; Tomás fê-los compridos como léguas, sem achar uma palavra que dizer. Sentia o braço dela no seu, francamente pousado, sem cerimônia nem medo, e a sensação que isto lhe dava ainda mais lhe atava a língua. Enfim, chegaram ao carro.

- Obrigada - disse-lhe Raquel estendendo a mão.

Quando o carro partiu:

- Que tal a achaste? - perguntou Oliveira.

- Achei-a bem.

- Estavas pálido.

- Eu?

- Deixa ver a tua mão; está fria. Seriamente, tu sentiste alguma cousa.

- Cousa nenhuma; tive recordações, mas, aos quarenta e quatro anos, as recordações são como brinquedos velhos e quebrados. Achei-a elegante. Queres que te diga? Mais distinta que em solteira.

- Mais senhora, mais tranquila. O que tu queres dizer é que, em solteira, dava-te as mãos para que as beijasses.

- Nunca lhe beijei as mãos.

- Nunca! Nem os olhos?

- Menos ainda os olhos. Era muito arisca.

Tinham subido a escada de pedra, e parado à porta da sala de visitas. Oliveira pegou na mão do amigo, e, depois de alguns segundos:

- Se resolveres casar com ela, fala-me - disse.

- Casar?

- Fala-me - repetiu Oliveira.

- Tu estás tonto...

- Não é conselho que te estou dando; digo-te só que, se resolveres, estou pronto a servir de terceiro. Faz-se isto aos amigos velhos. Tu estás velho.

- Um pedido; não digas nada à tua mulher.

- De quê?

- Do que houve entre mim e Raquel.

- Já sabe. Contei-lhe tudo hoje de manhã; mas descansa, é discreta. Anda tomar uma xícara de chá; tens as mãos frias...

Tomás foi acabar a noite em um teatro. Não perdeu o sono, e acordou à hora do costume. Entretanto, a segunda ou terceira ideia que lhe acudiu, depois de acordado, foi a formosa viúva. Gostou de pensar nela; reconhecia que ela fora apenas polida, nem sequer faceira, nada que revelasse o desejo de lhe parecer bem. Durante uma semana pensou muitas vezes em Raquel. Chegou a esperá-la na rua do Ouvidor. Sabendo onde morava, passou por lá duas vezes, sem a ver. Quinze dias depois do jantar, indo a Niterói, achou-a na barca. Ia só, com um véu pelo rosto, e parece que o vira, porque voltou a cara para o lado do mar. Tomás hesitou um instante; afinal foi cumprimentá-la. Raquel falou-lhe com afabilidade; ele sentou-se no mesmo banco.

- Há de crer que não vou à Praia Grande há dez anos? - disse ele.

- Eu, há dous meses. Vou visitar uma tia que está doente.

- Uma tia? Não me lembra - aventurou Tomás.

- Uma tia do finado.

O finado era o marido. Raquel referiu-lhe a moléstia, a idade, os costumes da pessoa, como se fossem cousas que o interessassem. Depois falou do mar. Depois falou do céu. Tudo como quem mata a alfinetadas um tempo que não quer morrer. Tomás pouco dizia; todo ele era ouvidos para escutá-la, olhos para vê-la, com os seus ombros fortes, as mãos finamente enluvadas, e os olhos, que pareciam de esfinge, agora que o véu os cobria. Pareciam ao nosso herói; ele é que o dizia consigo, romanticamente, não eu, que apenas traduzo aqui o próprio sentir do solteirão. Esfinge era imagem velha; mas tinha para ele a mocidade da sua mocidade.


 

IV

Repetiram-se os encontros. Poucas semanas depois, Tomás fazia à viúva a sua primeira visita. Já então se podia dizer completamente enamorado, posto não ousasse confessá-lo, antes buscasse encobri-lo. Nada lhe dava certeza de poder ser aceito; mas também é verdade que não achava aparência de recusa. A viúva era atraente, cortês, interessante, ouvia-o com muito prazer, chegava a falar de outros tempos sem hesitação.

O quarto de século de distância eliminou-se, como um castelo em ruínas de um teatro dá lugar a um campo alastrado de verdura, ao aceno do contrarregra. Tudo se renovava inteiramente. Casamento de uma, ausência, dispersão de sentimentos, cansaço, fastio, desapareceram; e não foi só a moça que substituiu a viúva, mas o próprio sonho antigo que integralmente emergiu dos tempos. Tomás achou em si a força necessária para restaurar as suas imaginações perdidas. O que ele outrora pedia ao casamento com a solteira, achou-o nas mãos da viúva, como se o ofício delas não fosse mais que esperar por ele, guardando-se intactas do mundo e seus favores.

Seis meses não é pouco tempo entre um solteirão e uma viúva; mas tal foi o prazo decorrido sem que ele dissesse nada. Oliveira, a princípio, quis precipitar as cousas; a mulher disse-lhe que não; seria tomar a responsabilidade do que podia acontecer.

- Não são duas crianças - observou ela.

- Por isso mesmo - confirmou Oliveira rindo.

Um dia, enfim, Tomás resolveu pedir a viúva.

Escreveu-lhe uma carta, que rasgou por achá-la extensa; escreveu outra mais extensa e mandou-lha.

Raquel, logo que deu com as primeiras palavras, interrompeu a leitura e deixou-se estar com os olhos no ar, perdidos. Sabia o conteúdo do papel; talvez houvesse ajudado a escrevê-lo. É o que perguntava agora a si mesma, um pouco arrependida, um pouco satisfeita. Não vos admireis deste sentimento duplo, que parecerá contraditório, e na verdade o é; mas contradição também é deste mundo. Raquel, já viúva, rejeitara duas propostas de casamento. Era a terceira, e podia rejeitá-la, como as outras. Que é que a impedia de o fazer? Não chegava a explicar-se.

A idéia de que ele ficara solteiro, para não casar nunca, e rompia a promessa para acabar casando com ela foi a causa principal da animação que lhe dera agora. A animação tinha de produzir os seus efeitos. Diante destes é que a viúva parecia espantada. Os olhos perderam-se cada vez mais, até que buscaram a carta e leram o que dizia.

O estilo era inflamado. Uma só vez a carta aludia ao passado: "Se achar que este meu modo de sentir é juvenil, saiba que dia houve em que o meu coração parou, e que a minha idade é a dele". Raquel releu a carta, naturalmente não lhe respondeu logo; fá-lo-ia no dia seguinte. Tinha de refletir primeiro.

- Sim ou não? - perguntou a si mesma.

E depois de alguns minutos:

- Amanhã; tenho tempo.

Parecerá esquisito que ainda agora hesitasse; mas a esquisitice também é deste mundo. Gostava do antigo noivo; não encarava até então a idéia de casar. Podia propor um adiamento. Verdade é que o adiamento acabaria, e sempre chegaria a necessidade de dar resposta. No dia seguinte, sentou-se pegou na pena e começou dez vezes um bilhete em que lhe dizia que ia pensar; não atinava com o modo de concluir, e, por fim, achou que o alvitre era mau. O melhor era recusar logo. Com que palavras escreveria a negativa? Era melhor aceitar; mas como?

Tudo isso parecer-vos-á insuportável, leitora atenta, e a mim também, que o estou contando, não menos que à própria dama em cujo cérebro todos esses pensamentos se esbarravam uns nos outros, sem vitória de nenhum. Passaram-se três dias. Ao quarto, Raquel consultou a irmã, que a animou a aceitar o marido.

- Estás certa que nenhum interesse o atrai?

- Seguramente.

- Pois aceita.

Raquel respondeu enfim, com duas linhas apenas, que pareceram a Tomás muito mais compridas que a longa carta que lhe escrevera: "Dou-lhe a minha mão, e espero que sejamos felizes". Tomás foi agradecer-lhe a resposta. Estava trêmulo, como se contasse vinte anos, e fosse aquele o primeiro amor. A própria Raquel, uma vez decidida, tinha a comoção da adolescência. Pouco mediou entre a aceitação e a realização. Dois meses depois estavam casados.


 

V

Após um quarto de século, voltara Tomás ao ponto donde partira. Tendo navegado mares longos e enfadonhos, ei-lo que aporta à mesma terra vizinha, cujo acesso fora o sonho dos primeiros anos.

- Raquel, vinte e cinco anos de separação e desesperança - disse ele na carruagem que os trazia da igreja.

A lua de mel foi passada em Petrópolis, longe do universo, porque eles acharam uma casa separada do centro, e não saíram dela uns três dias. O plano do marido era não sair nunca; uma tarde, porém, transpondo o jardim, chegaram à rua, depois à outra rua. No dia seguinte, foram à rua do Imperador; antes do fim da semana seguiram em carro ao alto da serra, a ver chegar o trem.

Não se pense que lhes foi indiferente a vista de cousas estranhas. Ao contrário, acharam certo prazer em mostrar aos outros a própria felicidade, Raquel ainda mais que o marido. Duas semanas depois de subidos a Petrópolis, recebeu Tomás uma carta de Oliveira. Era longa, banal, mas amiga; acabava perguntando quando esperavam descer do céu.

- Podemos ir amanhã - propôs a mulher.

- Já!

- Se você quiser; eu estou bem.

Tomás refletiu um instante.

- Sim, podemos ir amanhã ou depois.

A eternidade ficou reduzida de alguns séculos de séculos; mas, como todas as eternidades deste mundo são assim, a questão é saber em que proporção se reduzem. Ora, eles tiveram duas semanas de lua de mel; havia-as muito menores.

Três, quatro, cinco meses passaram, sem acontecimento apreciável. Mas há uma falta de acontecimentos que o estado moral supre, e um homem e uma mulher podem viver mais que Alexandre ou César. Tal não era o estado do casal recente. Ao cabo de três meses, Tomás sentia em Raquel uma placidez de espírito, que não era o alvoroço que esperava, nem ainda o dos primeiros dias. Esse mesmo dos dias iniciais não correspondeu à esperança, mas confundia-se com o dele, e ambos lhe pareceram no mesmo grau infinito. Pouco a pouco, o estado normal vingou; ao fim de seis semanas, a diferença apareceu, até que, dobrado o prazo, Raquel ficou sendo uma senhora tranquila, sem assomos de nenhuma espécie, sem inquietações nem saudades. Tudo o que pode definir bem a ausência de paixão parecia reunir-se nela. Quando a convicção desse estado entrou no ânimo do marido, houve uma tal ou qual sombra no céu conjugal. O pior é que ela não deu pelo fenômeno. Tomás encerrava-se longas horas no gabinete, a pretexto de trabalho, mas realmente para ler romances parisienses, comprados às dúzias. Raquel não ia arrancá-lo ao suposto trabalho, nem ralhava pelo excesso de esforço que devia atribuir-lhe. Um dia, quando muito, perguntou-lhe o que estava fazendo.

- Estou compondo um livro - disse ele -, um estudo, uma obra política.

- Você quer ser deputado?

- Não.

E depois de um instante, sorrindo:

- Você gostaria de ouvir os meus discursos na Câmara?

- Naturalmente.

Há mil modos de dizer naturalmente; Raquel escolheu um que não significava a coparticipação da glória, e não o fez por afligi-lo, mas por não saber de outro. Tomás, que de começo lia os romances com pouca atenção, acabou lendo-os por gosto e voltando assim a uma das suas diversões antigas. As longas reclusões eram menos aborrecidas que dantes. Outras vezes demorava-se fora, ia a reuniões, ao teatro, a jantares, sem que Raquel achasse que dizer uma palavra amarga. Também não o recebia triste nem alegre. Uma ou outra vez bocejava este gracejo:

- Sim, senhor, bela vida para um homem casado.

- Eu te explico...

Tomás explicava-se, mas era difícil saber se ela escutava a explicação. Não tinha nos olhos sequer uma sombra de desconfiança. Nem ciúmes, nem despeito, nem nada.

Ao fim de seis meses Raquel foi a um baile. Havia anos que não pisava em nenhum, e já depois de casada, recusara ir a dous. Aceitara aquele. Não teve a folgança de outro tempo, mas achou alguma cousa que podia trazê-la. Daí a aceitação do segundo em que dançou, e de mais dous. O marido fez-se sócio do Cassino Fluminense, a pedido dela.

- Com uma condição - disse Raquel -; é que uma quadrilha será nossa.

- Justo.

Assim fizeram nos dous primeiros bailes; no terceiro, já não dançaram juntos.

"Raquel casou comigo sem entusiasmo", pensava ele; "foi como quem aceita um vestido novo. Não digo novo, mas bonito, talhado à moda..."

Um dia, chegou a insinuar-lhe isto mesmo, no terraço da casa, antes do jantar. Ambos liam; ele, erguendo os olhos da página, viu que ela estava com o livro no regaço e as pálpebras caídas.

- É do livro ou do companheiro? - perguntou ele.

Raquel sorriu constrangida, mas não disse nada.

Como ele insistisse:

- É do companheiro - respondeu.

- Talvez.

- Que ideia!

- Sim, a resposta é de gracejo, mas bem pode ser exata, sem que você dê por isso. Não me há de fazer crer que lhe dou a felicidade esperada, se é que esperou alguma. Não; você casou para fugir à importunação. A liberdade era melhor; podia ser até - quem sabe? - podia ser que a sorte... Não falemos nisto!

Raquel olhava espantada. Tomás atirara o livro para um sofá e erguera-se, metendo as mãos nas algibeiras das calças. Mordia o beiço, e olhava para fora. Raquel fechou tranquilamente o livro.

- Tomás, que ideias são essas?

- Que ideias?

- Essas.

- Essas quais?

- Essas! Não compreendo nada do que você me acaba de dizer. Principalmente, não compreendo que na nossa idade... Não somos crianças, Tomás, esses arrufos são bons para os vinte anos. Pois você crê que eu viva aborrecida...?

- Não vive de outra maneira - interrompeu o marido -. Eu sinto, eu vejo, eu percebo tudo. Peço-lhe que não me obrigue a ir adiante. Olhe se os bailes a aborrecem, apesar de não ser criança? Tudo que é ir divertir-se é excelente; a minha companhia é que é um aborrecimento mortal.

Era a primeira vez que ele falava assim, em tal maneira, e com tal despeito, que Raquel sentiu-se lisonjeada. Vendo que era sincero, posto lhe parecesse esquisito, ela disse quatro ou cinco palavras amigas e alegres; ergueu-se, arrancou-lhe as mãos dos bolsos e fechou-as nas suas.

- Criança! - disse-lhe -. Pois você então pensa deveras que me aborrece? Tudo porque fechei os olhos, lendo um livro aborrecido. Ora, Tomás. Vamos, ria, ria um pouco.

- Deixa...

- Há de rir. Vamos, ria!

Tomás acabou rindo. O melhor era terminar ali mesmo o debate, e, se não estivessem expostos, terminá-lo com um beijo. Mas o riso do marido foi tão forçado que a mulher entendeu desculpar-se do que lhe parecia fastio ou indiferença. Era o modo dela. Nunca fora expansiva; a própria mãe a achava sempre assim; ia a falar do primeiro marido, mas recuou a tempo.

Um tanto vexado da cena, Tomás depressa se reconciliou; ela, por sua parte, buscou trocar de maneiras; troca difícil. Tomás não achara no casamento a realização esperada de um sonho de longos anos. Toda essa mulher, deixada em botão, achada em flor, parecia uma flor sem cheiro. Raquel sacrificou os seus bailes; passou a fazer reuniões em casa, dava jantares, cercava-se de amigas. Conseguia prendê-lo; lia até o fim, com olhos abertos, todos os livros que ele lhe dava. Entrou a censurá-lo, quando ele se demorava fora; e, em vez de ir dormir, como a princípio, deixava-se estar até uma e duas horas, quando ele voltava do teatro, nas noites em que ia só ou com algum amigo. A solicitude teve o mesmo efeito da indiferença; tudo acabou no mesmo tédio.

"Talvez o mal esteja em mim", pensou ele um dia.

E, inclinando o espírito aos tempos de solteiro, sentiu grande saudade. Para reaver um pouco da sensação antiga, convidou a mulher a uma viagem à Europa; foram, gastaram dous anos, tornaram mais conservados; mas a viagem não apertou os laços da afeição. Realmente, o consórcio era para ele mesmo um ofício novo, aprendido fora de tempo, quando a pessoa só ama e conhece outro ofício.

Já se não queixava; deixava-se ir com os anos. Vieram os cinquenta. A cunhada morreu. A casa fez-se mais deserta. Tomás, fora do voltarete, só achava prazer na rua do Ouvidor. Era ainda e sempre o mesmo homem elegante. Deleitava-se em ver passar as senhoras, mirá-las com os olhos e as ideias. Chamava a isto liberdade - uma liberdade que perdeu, que entregou por seu gosto nas mãos do casamento.

Mudando de casa por esse tempo, mandou preparar ao rés do chão um gabinete para si, exclusivo, reprodução do último aposento de solteiro. Nada havia ali que cheirasse ao casamento, nem a fotografia da mulher, nada. Era a casa do celibato, em que ele se metia duas e três horas diariamente, para viver outra vida não totalmente outra, mas algo que a lembrasse.

Raquel não se opôs à alteração nem a sentiu. Viviam em boa paz, uma santa paz bocejada e ininterrupta. Os anos vieram vindo. Um dia, Raquel caiu doente, uma febre perniciosa que a levou em poucos dias. Tomás foi dedicado, não poupou esforços de toda a espécie para salvá-la; ela morreu-lhe nos braços, ele quis acompanhá-la ao enterro. Oliveira foi ter com o amigo.

- Tomás - disse-lhe -, tu não podes viver só aqui; anda cá para casa. Arranjo-te um cômodo grande e livre; ficas a teu gosto.

- Obrigado, Oliveira; deixa-me; algum dia, pode ser.

Meteu-se no aposento de solteiro, agora de viúvo, sempre de solitário. Nada alterou na casa, em cima, onde almoçava e jantava. Fez no ano seguinte outra viagem à Europa, muito mais alegre, como um pássaro livre. Gostava da lufa-lufa de estradas de ferro, de hotéis, de teatros, de revistas militares, boulevards; foi à França, foi à Inglaterra, à Alemanha, e voltou o mesmo velho petimetre. Vinte e quatro horas depois de chegado, estava no cemitério, visitando a sepultura da mulher. Deu-lhe um mausoléu rico e belo, obra de um escultor italiano, e continuou a visitá-la naquele palácio último. Os empregados do cemitério já o conheciam.

- É o viúvo da D. Raquel - diziam eles pelo epitáfio -. Se todos fossem como este!

Não podiam crer, nem eu digo isto, que ele amasse mais a mulher morta que viva; é falso. O que se pode admitir é que ele sentia antes a perda da mulher que do casamento.




 

João Fernandes *


Há muitos anos. O sino de São Francisco de Paula bateu duas horas. Desde pouco mais de meia noite deixou este rapaz, João Fernandes, o botequim da rua do Hospício, onde lhe deram chá com torradas, e um charuto, por cinco tostões. João Fernandes desceu pela rua do Ouvidor; na esquina da dos Ourives viu uma patrulha. Na da Quitanda deu com dois caixeiros que conversavam antes de ir cada um para o seu armazém. Não os conhecia, mas presumiu que fossem tais, e acertou; eram ambos moços, quase imberbes. Falavam de amores.

- A Rosinha não tem razão - dizia um -; eu conheço muito bem o Miranda...

- Estás enganado; o Miranda é uma besta.

João Fernandes foi até a rua Primeiro de Março; desandou, os dois caixeiros despediam-se; um seguiu para a rua de São Bento, outro para a de São José.

- Vão dormir! - suspirou ele.

Iam rareando os encontros. A patrulha caminhava até o largo de São Francisco de Paula. No largo passaram dois vultos, ao longe. Três tílburis, parados junto à Escola Politécnica, aguardavam fregueses. João Fernandes, que vinha poupando o charuto, não pôde mais; não tendo fósforos, endireitou para um dos tílburis.

- Vamos, patrão - disse o cocheiro -; para onde é?

- Não é serviço, não; você tem fósforos?

O cocheiro esfriou e respondeu calado, metendo a mão no bolso para tirar a caixa de fósforos; mas tão vagarosamente o fez que João Fernandes a tempo se lembrou de lhe cercear o favor, bastava permitir que acendesse o charuto na lanterna. Assim fez, e despediu-se agradecendo. "Um fósforo sempre vale alguma cousa", disse ele sentenciosamente. O cocheiro resmungou um dito feio, tornou a embrulhar-se em si mesmo, e estirou-se na almofada. Era uma fria noite de junho. Tinha chovido de dia, mas agora não havia a menor nuvem no céu. Todas as estrelas rutilavam. Ventava um pouco - frio, mas brando.

Que não haja inverno para namorados, é natural; mas ainda assim era preciso que João Fernandes fosse namorado, e não o era. Não são amores que o levam rua abaixo, rua acima, a ouvir o sino de São Francisco de Paula, a encontrar patrulhas, a acender o charuto na lanterna dos carros. Também não é poesia. Na cabeça deste pobre diabo de vinte e seis anos não arde imaginação alguma que forceje por falar em verso ou prosa. Filosofia, menos. Certo, a roupa que o veste é descuidada, como os cabelos e a barba; mas não é por filosofia que os traz assim. Convém firmar bem um ponto; a nota de cinco tostões que ele deu pelo chá e pelo charuto foi a última que trazia. Não possuía agora nada mais, salvo uns dois vinténs, perdidos no bolso do colete. Vede a triste carteira velha que ele tirou agora, à luz do lampião, para ver se acha algum papel, naturalmente, ou outra cousa; está cheia de nada. Um lápis sem ponta, uma carta, um anúncio do Jornal do Commercio, em que se diz precisar alguém de um homem para cobrança. O anúncio era da véspera. Quando João Fernandes foi ter com o anunciante (era mais de meio-dia) achou o lugar ocupado.

Sim, não tem emprego. Para entender o resto, não vades crer que perdeu a chave da casa. Não a perdeu, não a possui. A chave está com o proprietário do cômodo que ele ocupou durante alguns meses, não tendo pago mais de dois, pelo quê foi obrigado a despejá-lo antes de ontem. A noite passada achou meio de dormir em casa de um conhecido, a pretexto de ser tarde e estar com sono. Qualquer coisa servia, disse ele, uma esteira, uma rede, um canto, sem lençol, mas teve boa cama e almoço. Esta noite não achou nada. A boa fada das camas fortuitas e dos amigos encontradiços andaria tresnoitada e dormia também. Quando lhe acontecia alguma destas (não era a primeira), João Fernandes só tinha dous ou três mil-réis, ia a alguma hospedaria e alugava um quarto pela noite; desta vez havia de contentar-se com a rua. Não era a primeira noite que passava ao relento; trazia o corpo e a alma curtidos de vigílias forçadas. As estrelas, ainda mais lindas que indiferentes, já o conheciam de longa data. A cidade estava deserta; o silêncio agravava a solidão.

- Três horas! - murmurou João Fernandes no Rossio, voltando dos lados da rua dos Inválidos -. Agora amanhece tarde como o diabo.

Abotoou o paletó, e toca a imaginar. Era preciso empregar-se, e bem, para se não expor a não ter onde encostar a cabeça. Em que lugar dormiria no dia seguinte? Teve ideias petroleiras. Do petróleo ao incêndio é um passo. Oh! Se houvesse um incêndio naquele momento! Ele correria ao lugar, e a gente, o alvoroço, a polícia e os bombeiros, todo o espetáculo faria correr o tempo depressa. Sim, podia muito bem arder uma casa velha, sem morrer ninguém, poucos trastes, e no seguro. Não era só distração, era também repouso. Haveria um pretexto para sentar-se em alguma soleira de porta. Agora, se o fizesse, as patrulhas poderiam desconfiar, ou recolhê-lo como vagabundo. A razão que o levava a andar sempre, sempre era fazer crer, se alguém o visse, que ia para casa. Às vezes, não podia continuar, e parava a uma esquina, a uma parede; ouvindo passos, patrulha ou não, recomeçava a marcha. Passou um carro por ele, aberto, dois rapazes e duas mulheres dentro, cantando uma reminiscência de Offenbach. João Fernandes suspirou; uns tinham carro, outros nem cama... "A sociedade é madrasta", rugiu ele.

A vista dos teatros azedou-lhe mais o espírito. Passara por eles, horas antes, vira-os cheios e iluminados, gente que se divertia, mulheres no saguão, sedas, flores, luvas, homens com relógio no colete e charuto na boca. E toda essa gente dormia agora, sonhando com a peça ou com os seus amores. João Fernandes pensou em fazer-se ator; não teria talento, nem era preciso muito para dizer o que estivesse no papel. Uma vez que o papel fosse bom, engraçado, ele faria rir. Ninguém faz rir com papéis tristes. A vida de artista era independente; bastava agradar ao público. E recordava as peças vistas, os atores conhecidos, as grandes barrigadas de riso que tivera. Também podia escrever uma comédia. Chegou a imaginar um enredo, sem advertir que eram reminiscências de várias outras composições.

Os varredores das ruas começaram a dificultar o trânsito com a poeira. João Fernandes entrou a desvairar ainda mais os passos. Foi assim que chegou à praia da Glória, onde gastou alguns minutos vendo e ouvindo o mar que batia na praia com força. Tornou abaixo; ouviu o ganir de um cão, ao longe. Na rua alguns dormiam, outros fugiam, outros latiam, quando ele passava. Invejou os cães que dormiam; foi ao ponto de invejar os burros dos tílburis parados, que provavelmente dormiam também. No centro da cidade a solidão era ainda a mesma. Um ou outro vulto começava a aparecer, mas raro. Os ratos ainda atropelavam o noctâmbulo, correndo de um lado para outro da rua, dando ideia de uma vasta população subterrânea de roedores, que substituíam os homens para não parar o trabalho universal. João Fernandes perguntava a si mesmo por que não imitaria os ratos; tinha febre, era um princípio de delírio.

- Uma, duas, três, quatro - contou ele, parado no largo da Carioca. Eram as badaladas do sino de São Francisco. Pareceu-lhe ter contado mal; pelo tempo deviam ser cinco horas. Mas era assim mesmo, disse afinal; as horas noturnas e solitárias são muito mais compridas que as outras. Um charuto naquela ocasião seria um grande benefício; um simples cigarro podia enganar a boca, os dous vinténs restantes bastavam-lhe para comprar um muito ordinário; mas onde?

A noite foi inclinando o rosário das horas para a manhã, sua companheira. João Fernandes ouviu-as de um relógio, quando passava pela rua dos Ourives; eram cinco; depois outro relógio deu as mesmas cinco; adiante, outro; mais longe, outro.

- Uma, duas, três, quatro, cinco - dizia ainda outro relógio.

João Fernandes correu ao botequim onde tomara chá. Alcançou um café e a promessa de um almoço, que pagaria à tarde ou no dia seguinte. Conseguiu um cigarro. O entregador do Jornal do Commercio trouxe a folha; ele foi o primeiro a abri-la e lê-la. Chegavam empregados dos arsenais, viajantes da estrada de ferro, simples vizinhos que acordavam cedo, e porventura algum vadio sem casa. O rumor trazia a João Fernandes a sensação da vida; gentes, falas, carroças, aí recomeçava a cidade e a faina. O dia vinha andando, rápido, cada vez mais rápido, até que tudo ficou claro; o botequim apagou o gás. João Fernandes acabou de ler o Jornal à luz do dia. Espreguiçou-se, sacudiu a morrinha, despediu-se:

- Até logo!

Enfiou pela rua abaixo, com os olhos no futuro cor-de-rosa: a certeza do almoço. Não se lembrara de procurar algum anúncio no Jornal; viu, porém, a notícia de que o ministério ia ser interpelado nesse dia. Uma interpelação ao ministério! Almoçaria às dez horas; às onze estaria na galeria da Câmara. Aí tinha com que suprir o jantar.


 

A inglesinha Barcelos *


Eram trintonas. Cândida era casada, Joaninha, solteira. Antes deste dia de março de 1886, viram-se pela primeira vez em 1874, em casa de uma professora de piano. Quase iguais de feições, que eram miúdas, meãs de estatura, ambas claras, ambas alegres, havia entre elas a diferença dos olhos; os de Cândida eram pretos, os de Joaninha, azuis. Esta cor era o encanto da mãe de Joaninha, viúva do capitão Barcelos, que lhe chamava por isso "a minha inglesa".

- Como vai a sua inglesa? - perguntavam-lhe as pessoas que a queriam lisonjear.

E a boa senhora ria-se d'alma, agradecia com palavras, com gestos, quase com beijos.

Dentro de algum tempo já a moça era conhecida no bairro pela inglesinha Barcelos. O bairro era Catumbi. A viúva possuía ali uma casa, vivia dos aluguéis de outra, do meio soldo do marido e de umas dez apólices.

Era mais próspera a situação de Candinha. Filha de um comerciante, conhecido por Chico Fernandes, abastado e trabalhador, casou bem, com um advogado do Norte, que veio para o Rio de Janeiro deputado, deixou a política, ou a política o deixou a ele, e abriu banca de advocacia. Era moço, forte, estudioso; deu um único desgosto ao sogro, foi o de não ser ministro do Estado. Este era o sonho de Chico Fernandes. Parece que consentiu logo no casamento, justamente com a mira em vir a ser "sogro do governo", como ele mesmo dizia, brincando, no tempo em que o genro era deputado. Mas o governo mudou de família, e o Chico Fernandes não se consolou. A filha é o que o consolou dando-lhe um neto.

Mas, como ia dizendo, eram trintonas, agora que se encontraram, em março de 1886, em um armarinho da rua do Ouvidor. Perdoai a banalidade do encontro e do lugar; não vos hei de inventar um palácio de Armida, nem a própria Armida. Há de ser um armarinho, porque não foi em outra parte, nem na praia de Icaraí, nem no salão do Cassino, nem no lugar mais pitoresco da Tijuca. Nem esta história é de invenção romântica; é real e prosaica. Não se viam as duas desde quatro anos. Antes disso já poucas vezes se encontravam, e de relance. A hora, porém, a boa disposição de ambas, a conversação longa entre duas caixas de lã, o desejo que a amiga casada sentia de mostrar o filhinho de três anos à amiga solteira, tudo contribuiu para apertar um pouco os laços frouxos da amizade antiga, e a viúva prometeu que iria com a filha fazer uma visita a Candinha, no Flamengo.

Não esqueçamos um motivo mais, secreto e quase imperceptível, um véu tênue de tristeza que cobria o rosto de Joaninha. Tristeza é muito; fadiga, talvez, certa fadiga de espírito. A fala da moça, que era outrora tão viva e precipitada, saía-lhe agora arrastada e frouxa. O riso não era descomposto como dantes, nem o lugar o permitia. Candinha lançou o olhar interrogativo ao vestido da amiga; era novo, bem feito. Os cabelos estavam penteados com cuidado. Os olhos não tinham perdido a cor nem a graça.

- Adeus, inglesinha Barcelos - disse Candinha ao despedir-se dela -. Fica assentado: vão lá um destes dias. Por que não vão jantar? Vão jantar domingo. Vão; domingo jantamos cedo, vão cedo.

E na rua, consigo:

"Parece que tem alguma cousa, está meio triste. Realmente solteira ainda; mas pode ser... quem sabe? Aquele costume de namorar a torto e a direito... Não é já o que era; mas ainda é simpática. Quando me casei, estava com o décimo namorado."

Disse ainda outras cousas esta senhora; mas perderam-se nos abismos do espírito, em lugar de onde não posso ir arrancá-las. Contentemo-nos do que aí fica; provavelmente é o mais interessante. Já não é pouco saber que a inglesinha Barcelos, quando a outra casou, e casou aos vinte e cinco anos, ia no décimo namorado. Enganava-se a amiga: não sabia de dous, anteriores ao primeiro encontro na casa da professora. Mas os dez, conhecera-os bem; lembrava-se ainda do nome de alguns, um Alfredo Ramos, um Vasconcelos, parece que um Tosta, Lulu Tosta ou cousa assim.

Vasconcelos foi o primeiro da dezena. Era estudante, morava na vizinhança. Começou o namoro em dia de chuva, passando ele pela calçada fronteira, com as calças arregaçadas. Joaninha olhava para ele; Vasconcelos, petulante e vaidoso, cuidou que eram olhos de riso, e riso de escárnio, e ia fazer alguma travessura de rapaz, quando reparou que eram olhos de convite. Nada mais expressivo que o gesto de Joaninha11 brincando com a ventarola. Travou-se o namoro; durou poucos meses, porque vieram as férias, e o estudante voltou para a casa do pai, na roça.

Joaninha11 não sentiu a ausência, nem deu por ela senão alguns dias depois. Já então iniciara outro namoro com um tal Alfredo Ramos. Este, que era namorador de profissão, não tinha outro ofício; mas se uma bonita figura supre os meios ordinários da existência, ele podia tê-los ordinários e extraordinários. Bem feito, bem vestido, teso de corpo, galhardo no passo, era de enfeitiçar uma moça de dezoito anos. Joaninha11 deixou-se ir. A princípio, os encontros eram adventícios; mais tarde, ele começou a passar pela casa a horas regulares, chovesse ou não. Joaninha,11 não menos pontual, vivia para aqueles minutos, se esse verbo não é excessivo; parece que é excessivo. Tanto não vivia, que desde que Alfredo Ramos entrou a afrouxar ela afrouxou também, e um dia, por simples esquecimento, deixou de esperá-lo à janela. Ele não tornou a passar, nem nesse, nem nos dias seguintes. Ela pensou em outra cousa. Um ano depois, viu-o fardado de capitão da Guarda Nacional. Se pudesse atraí-lo com os olhos, tê-lo-ia feito; mas o capitão, não menos galhardo agora que dantes, cuidava só em puxar a companhia, passo firme, espada nua.

O caso do Tosta foi mais longo, mas teve igual desenlace. Começou no teatro e acabou... Não acabou; não se pode dizer que acabasse. Viam-se menos, cada vez menos, de longe em longe; esqueciam-se um do outro, mas tornavam a lembrar-se quando se encontravam, e reatavam o namoro. Nos intervalos, a inglesinha Barcelos não esteve parada, e a fim de não perder o tempo nem o costume, pegou alguns namoros adventícios. Um dia, falando-se no Tosta, advertiu que não o via desde muito. Indagou, soube que tinha ido casar em São Paulo.

Não sentiu a moça. Era então a vez de um Américo, recentemente formado em medicina, que queria casar à pressa para inspirar mais confiança às enfermas. Essa pressa os perdeu a ele e a ela. Joaninha não gostava de hábitos cesarianos, chegar, ver e vencer. O namoro havia de ir demorado, muito epistolar, feito de esperas, de olhos quebrados, de ventarolas, de apertos de mão. Quase que, para esta moça, o melhor da festa era esperar por ela. O jovem médico, urgido pela idéia de constituir família, virou de bordo, e foi a outros mares. A nossa Dido carioca viu partir o fugitivo Enéas, mas não seguiu o exemplo da outra; a espada a que recorreu não foi para se matar, mas para se consolar, e não foi espada, mas espadim. Viu um aspirante de marinha que lhe levou a alegria aos olhos.

Chamava-se este novo namorado Pimentel, era mocinho naturalmente, e tinha o aspecto gracioso e fino. Joaninha ficou fora de si. Um aspirante! Derreteu-se toda, para falar como uma das suas melhores amigas; mas o namoro durou pouco mais de dous meses. O rapaz saiu em viagem de instrução, e esqueceu a mala em que estava um retratinho dela. Hoje é capitão de fragata, casado, e, se lhe falarem na inglesinha Barcelos, é provável que não a conheça. Tinha namorado tantas!

Por muitos dias e semanas guardou Joaninha a memória do aspirante. Tinha esperanças de que ele viria, ainda que tarde, e a procuraria logo. Esperou cartas; escreveu algumas para lhe mandar, quando soubesse que sobrescrito lhes devia pôr. Conquanto fosse namorando alguns rapazes de passagem, não esquecia o aspirante; este era o orago da igreja, embora houvesse altares para outros santos. Os santos é que eram menos fixos; recebiam duas rezas, quatro suspiros, uma vela acesa, e iam a outra freguesia. Não importa; Joaninha consolava-se de um com outro, e de todos com o aspirante. Mas o aspirante voltara e não tornou a buscar a moça.

Um dia (dois anos passados), viu ela um guarda-marinha na rua do Ouvidor; era ele. Teve um estremeção de alegria; logo depois empalideceu quando reparou que o belo guarda-marinha disfarçadamente desviava os olhos. Nesse dia parece que a inglesinha Barcelos verteu uma lágrima, mas foi de raiva, e não na rua, mas em casa, pensando no biltre. Biltre foi o nome que lhe deu. A princípio chamava-lhe "delícia da minha alma".

A fama de namoradeira estava fundada. Já todo o mundo sabia que a inglesinha Barcelos namorava a torto e a direito. Quem se queria divertir deitava-lhe os olhos, e achava parceiros certos. Dous rapazes, por espírito de troça, ajustaram-se para namorá-la ao mesmo tempo, e confiarem um ao outro os progressos da aventura. Chamava-se um Barros, outro, Campos. Foram aceitos com alacridade. Diziam tudo um ao outro, os encontros, os gestos, os olhares, por fim vieram as cartas. Eles as liam em casa, comparando-as; e da primeira vez houve grande riso, porque a redação era a mesma, e parecia tirada de algum formulário. As outras já foram diversas; mas não diminuiu o riso, pelos juramentos exclusivos que traziam todas, pelas promessas de fidelidade, de amor eterno, de paixão invencível. Barros cansou depressa; Campos ainda aturou algum tempo, até que foi cuidar de outra cousa.

Assim foram passando os anos. Não se contam aqui os namoros de uma hora, de meia, de cinco minutos, de um segundo, na loja ou igreja, na rua, ao dobrar uma esquina, à janela. Era a multidão anônima e passageira, que não deixava lembrança, nem levava saudades, em que não se distinguia uma cara de outra... eram todos. Joaninha chegara aos vinte e sete anos nessa labutação estéril. Viu casar a amiga Candinha, e ficou à espera; outras casaram também.

Cuidando que fora inábil e frouxa, tratou de apurar os meios e atirou-se a vários trabalhos. Não podia perder tempo; andou a duas e três amarras. Este processo não rendeu nada; iam chegando os vinte e oito anos. Recolheu-se em si, como um animal que quer dar um bote, e acertou de encontrar um Dr. Lapa, homem quadragenário e magro, que usava luneta muito grande, sem aro, e um botão de pérola no peito da camisa.

- Que moça bonita! - disse ele uma vez, a outros com quem estava, à porta de uma loja.

Joaninha, em vez de corar, voltou-se para ver o autor do cumprimento. A mãe, que também ouvira a palavra, não se zangou com o gesto da filha. Ansiava por vê-la casada. Talvez não saísse tantas vezes com ela, senão por achar o bairro de Catumbi pouco buscado de noivos. Quanto ao Dr. Lapa, vendo um arzinho particular na boca da moça, parecido com riso, ficou lisonjeado e disparou, através do vidro do monóculo, um olhar cheio de admiração e fatuidade. E Joaninha teve arte de voltar a cara, adiante, para falar à mãe, e ver se "o moço" estava olhando. Estava olhando.

Fez mais que olhar; acompanhou-a, viu onde morava, passou pela porta nos dias seguintes, e, estando aceito, cuidou de se fazer apresentar à mãe. Não se deu por pretendente; conhecera o pai de Joaninha, e com este motivo pretextou a entrada e a frequência. Para ela, que sabia o motivo secreto da apresentação, houve uma grande aleluia. Enfim! A mãe, não se lembrando mais do dito, do olhar e da luneta, conheceu todavia que os dois se viam com prazer, e adivinhou que havia alguma cousa. Pedia a Deus que dessa vez fosse verdade. Rezava todas noites a Nossa Senhora para que fizesse feliz a inglesinha. Além da união do casamento, havia a das posses do candidato, que não eram excessivas, mas bastantes para fazer daquele bilhete duas sortes grandes - casamento e dinheiro.

Joaninha pôs em jogo o aparelho dos grandes dias. Nunca foi mais belicosa do que então. Olhos, lábios, dedos, todos tinham gestos particulares e expressivos. Os suspiros saíam também. Conhecera a vantagem dos silêncios e das atitudes metade elegantes, metade dolorosas, e os vôos rápidos dos olhos para o céu. Lapa trabalhava de luneta. Quando ele a metia na arcada do olho esquerdo, encarquilhando a cara desse lado, ficava mais desengraçado que sem ela; mas Joaninha, que não procurava um engraçado, mas um marido, não notava a diferença ou agravo, e acudiu à luneta com os seus olhos de vista clara e longa.

O pior é que ele não dizia nada; eram só gestos. Nem palavras nem escritos. A verdade é que este Lapa não casara há mais tempo, unicamente pela hesitação, irresolução, dubiedade; encetara alguns namoros, mas parara à porta da igreja, ou por medo, ou por avesso ao acordo matrimonial. Daquela vez achou pessoa tão audaz, que estava disposto ao casamento, ou supôs que estava. Quando ia, porém, a falar ou escrever, vinha o receio de ficar obrigado, e diferia o ato. Prosseguia de luneta. Um dia chegou a começar alguma cousa. Ela tocava ao piano um trecho terno de Donizetti. A mãe ouvia com os olhos fechados; era o modo de sentir melhor a música, dizia ela; a filha acreditava que era o melhor modo de os deixar à vontade. Lapa fez um esforço e disse baixinho:

- A senhora é divina ao piano.

Joaninha sorriu primeiro, depois ficou séria, e quebrou os olhos para ele, que não continuou. Então, para animá-lo:

- Divinas são as santas - disse.

- Que é a senhora senão uma santa?

- Eu, uma santa?

- Uma santa, a mais bela das santas.

Joaninha sorriu ainda e pagou o cumprimento com um suspiro. Os dedos foram afrouxando, até não tocarem mais que notas soltas e leves, como traduzindo o devaneio da dona, que trabalhava de olhos.

"Uma bela santa!", repetia mudamente a luneta.

"Uma bela santa!", repetiram aos ouvidos de Joaninha uns anjos invisíveis, que a impediam de dormir e lhe contavam cousas extraordinárias do céu, onde tudo eram Lapas e tudo, lunetas, servindo a uma só e única entidade, o mais formoso dos Lapas, a mais cristalina das lunetas.

Como os demais sonhos da moça, este passou após alguns dias de vão trabalho. Joaninha achou-se outra vez sem esperanças. Vistes a longa série deles, sem contar os de poucas horas, os de minutos apenas, a multidão sem nome nem figura. Onde iam os Ramos? Foram com os Vasconcelos e os Tostas, os Pimentéis e os Barros, os Campos e os Lapas.

Deu-se então na alma da inglesinha uma crise. Os romances trouxeram-lhe duas ideias extraordinárias, atirar-se a um lago ou meter-se a freira. Freira não podia ser, estando suprimido o noviciado. Agarrou-se ao lago; mas os lagos, que eram grandes, homicidas e secretos nos livros que lhe levavam as horas, não tinham água na cidade. Os de uma chácara que ela costumava visitar não subiam de dous palmos d'água. Joaninha não viu morte física nem moral; não achou meio de fugir a este mundo, e contentou-se com ele. Da crise, porém, nasceu uma situação moral nova. Joaninha conformou-se com o celibato, abriu mão de esperanças inúteis, compreendeu que estragara a vida por suas próprias mãos.

"Acabou-se a inglesinha Barcelos", disse consigo, resoluta.

E de fato, a transformação foi completa. Joaninha recolheu-se a si mesma e não quis saber de namoros. Tal foi a mudança que a própria mãe deu por ela, ao cabo de alguns meses. Supôs que ninguém já aparecia; mas em breve reparou que ela própria não saía à porta do castelo para ver se vinha alguém. Ficou triste, o desejo de vê-la casada não chegaria a cumprir-se. Não viu remédio próximo nem remoto; era viver e morrer, e deixá-la neste mundo, entregue aos lances da fortuna.

Ninguém mais falou na inglesinha Barcelos. A namoradeira passou de moda. Alguns rapazes ainda lhe deitavam os olhos; a figura da moça não perdera a graça dos dezessete anos, mas nem passava disso, nem ela os animava a mais. Joaninha fez-se devota. Começou a ir à igreja mais vezes que dantes; à missa ou só orar. A mãe não lhe negava nada.

"Talvez pense em pegar-se com Deus", dizia ela consigo; "há de ser alguma promessa."

Foi por esse tempo que lhe apareceu um namorado, o único que verdadeiramente a amou, e queria desposá-la; mas tal foi a sorte da moça, ou o seu desazo, que não chegou a falar-lhe nunca. Era um guarda-livros, Arsênio Caldas, que a encontrou uma vez na igreja de São Francisco de Paula, onde fora ouvir uma missa de sétimo dia. Joaninha estava apenas orando. Caldas viu-a ir de altar em altar, ajoelhando-se diante de cada um, e achou-lhe um ar de tristeza que lhe entrou na alma. Os guarda-livros, geralmente, não são romanescos, mas este Caldas era-o, tinha até composto, entre dezesseis e vinte anos, quando era simples ajudante de escrita, alguns versos tristes e lacrimosos, e um breve poema sobre a origem da lua. A lua era uma concha, que perdera a pérola, e todos os meses abria-se toda para receber a pérola; mas a pérola não vinha, porque Deus, que a achara linda, tinha feito dela uma lágrima. Que lágrima? A que ela verteu um dia, por não vê-lo a ele. Que ele e que ela? Ninguém; uma dessas paixões vagas, que atravessam a adolescência, como ensaios de outras mais fixas e concretas. A concepção, entretanto, dava ideia da alma do rapaz, e a imaginação, se não extraordinária, mal se podia crer que viçasse entre o diário e a razão.

Com efeito, este Caldas era sentimental. Não era bonito, nem feio, não tinha expressão. Sem relações, tímido, vivia com os livros durante o dia, e à noite ia ao teatro ou a algum bilhar ou botequim. Via passar mulheres; no teatro, não deixava de as esperar no saguão; depois ia tomar chá, dormia e sonhava com elas. Às vezes, tentava algum soneto, celebrando os braços de uma, os olhos de outra, chamando-lhes nomes bonitos, deusas, rainhas, anjos, santas, mas ficava nisso.

Contava trinta e um anos, quando sucedeu ver a inglesinha Barcelos na igreja de São Francisco. Talvez não fizesse nada, se não fosse a circunstância já dita de vê-la rezar a todos os altares. Imaginou logo, não devoção nem promessa, mas uma alma desesperada e solitária. A situação moral, se tal era, parecia-se com a dele; não foi preciso mais para que se inclinasse à moça, e a acompanhasse até Catumbi. A visão tornou com ele, sentou-se à escrivaninha, aninhou-se entre o deve e o há de haver, como uma rosa caída em moita de ervas bravias. Não é minha esta comparação; é do próprio Caldas, que nessa mesma noite tentou um soneto. A inspiração não acudiu ao chamado, mas a imagem da moça de Catumbi dormiu com ele e acordou com ele.

Daí em diante, o pobre Caldas frequentou o bairro. Ia e vinha, passava muitas vezes, espreitava a hora em que pudesse ver Joaninha, às tardes. Joaninha aparecia à janela; mas, além de não ser já tão assídua como antes, era voluntariamente alheia à menor sombra de homem. Não fitava nenhum; não dava sequer um desses olhares que não custam nada e não deixam nada. Fizera-se uma espécie de freira leiga.

"Creio que ela hoje me viu", pensava consigo o guarda-livros, uma tarde, em que ele, como de uso, passara por baixo das janelas, levantando muito a cabeça.

A verdade é que ela tinha os olhos na erva que crescia à beira da calçada, e o Caldas, que ia passando, naturalmente entrou no campo da visão da moça; mas tão depressa ela o viu, levantou os olhos e estendeu-os à chaminé da casa fronteira. Caldas, porém, edificou sobre essa probabilidade um mundo de esperanças. Casariam talvez naquele mesmo ano. Não, ainda não; faltavam-lhe meios. Um ano depois. Até lá dar-lhe-iam interesse na casa. A casa era boa e próspera. Vieram cálculos de lucro. A contabilidade deu o braço à imaginação, e disseram muitas coisas bonitas uma à outra; algarismos e suspiros trabalharam em comum, tais como se fossem do mesmo ofício.

Mas o olhar não se repetiu naqueles dias próximos, e o desespero entrou na alma do guarda-livros.

A situação moral deste agravou-se. Os versos entraram a cair entre as contas, e os dinheiros entrados nos livros da casa mais pareciam sonetos que dinheiro. Não é que o guarda-livros os escriturasse em verso; mas alternava as inspirações com os lançamentos, e o patrão, um dia, foi achar entre duas páginas de um livro um soneto imitado de Bocage. O patrão não conhecia esse poeta nem outro, mas conhecia versos e sabia muito bem que não havia entre os seus devedores nenhum

Lírio do céu, lírio caído em terra.

Perdoou o caso, mas entrou a observar o empregado. Este, por sua desgraça, ia de mal a pior. Um dia, quando menos esperava, disse-lhe o patrão que procurasse outra casa. Não lhe deu razões; o pobre-diabo, aliás tímido, tinha certo orgulho que lhe não permitiu ficar mais tempo e saiu logo.

Não há mau poeta, nem guarda-livros relaxado que não possa amar deveras; nem ruins versos tiraram jamais a sinceridade de um sentimento ou o fizeram menos forte. A paixão deste pobre moço desculpará os seus desazos comerciais e poéticos. Ela o levou por descaminhos inesperados; fê-lo passar crises tristíssimas. Tarde achou um mau emprego. A necessidade fê-lo menos assíduo em Catumbi. Os empréstimos eram poucos e escassos; por muito que ele cortasse a comida (morava com um amigo, por favor), não lhe davam sempre para os colarinhos imaculados, nem as calças são eternas. Mas essas ausências longas não tiveram o condão de abafar ou atenuar um sentimento que, por outro lado, não era alimentado pela moça; novo emprego melhorou um tanto a situação do namorado. Voltou a ir lá mais vezes. Era fim do verão, as tardes tendiam a diminuir, e pouco tempo lhe restaria delas para dar um pulo a Catumbi. Com o inverno cessaram os passeios; Caldas desforrava-se aos domingos.

Não me pergunteis se tentou escrever a Joaninha; tentou, mas as cartas ficavam-lhe na algibeira; eram depois reduzidas a verso, para suprir as lacunas da inspiração. Recorreu aos bilhetes misteriosos, nos jornais, com alusões à moça de Catumbi, marcando dia e hora em que ela o veria passar. Joaninha parece que não lia jornais, ou não dava com os bilhetes. Um dia, por acaso, sucedeu achá-la à janela. Sucedeu também que ela sustentasse o olhar dele. Eram velhos costumes, jeitos de outro tempo, que os olhos não haviam perdido; a verdade é que ela não o viu. A ilusão, porém, foi imensa, e o pobre Caldas achou naquele movimento inconsciente da moça uma adesão, um convite, um perdão, quando menos, e do perdão à cumplicidade bem podia não ir mais que um passo.

Assim correram dias e dias, semanas e semanas. No fim do ano, Caldas achou a porta fechada. Cuidou que ela se houvesse mudado e indagou pela vizinhança. Soube que não; uma pessoa de amizade ou ainda parenta, levara a família para um sítio no interior.

- Por muito tempo?

- Foram passar o verão.

Caldas esperou que o verão acabasse. O verão não andou mais depressa que de costume; quando começou o outono, Caldas foi um dia ao bairro e achou a porta aberta. Não viu a moça, e achou esquisito que não regressava de lá, como antes, comido de desespero. Pôde ir ao teatro, pôde ir cear. Entrando em casa, recapitulou os longos meses de paixão não correspondida, pensou nas fomes passadas para poder atar uma gravata nova, chegou a recordar alguma coisa parecida com lágrimas. Foram porventura os seus melhores versos. Vexou-se desses, como já se vexara dos outros. Quis voltar a Catumbi, no domingo próximo, mas a história não guardou a causa que impediu esse projeto. Só guardou que ele tornou a ir ao teatro e a cear.

Um mês depois, como passasse pela rua da Quitanda, viu paradas duas senhoras, diante de uma loja de fazendas. Era a inglesinha Barcelos e a mãe. Caldas chegou a parar um pouco adiante; não sentiu o alvoroço antigo, mas gostou de vê-la. Joaninha e a mãe entraram na loja; ele passou pela porta, olhou sem parar e foi adiante. Tinha de estar na praça às duas horas e faltavam cinco minutos. Joaninha não suspeitou sequer que ali passara o único homem a quem não correspondeu, e o único que verdadeiramente a amou.


 

Orai por ele! * (fragmento de narrativa)


- Não, isso não; os discursos eram dele mesmo. Nem era possível que não fossem. Como se há de levar de cor um discurso, para uma assembleia de acionistas, em que tantos falam e sem ordem?

- Você está enganado. O comendador proferia discursos muito bem dispostos, não respondia aos apartes que, às vezes, destruíam um argumento, e não replicava nunca a outro orador. Quando era o primeiro que falava, podia disfarçar um pouco; mas quando era o segundo ou terceiro, é que se via bem. Por isso empenhava-se sempre em falar antes de todos.

- Pois olhe, não me parecia... Ele era entendido em negócios.

- Era, isso era, mas decorava os discursos.

O carro chegou à praia de Botafogo, voltando do cemitério. Pedro e Paulo tinham ido enterrar o comendador, que falecera na véspera de um tifo. Vieram calados, a princípio, depois falaram das novas casas do bairro, afinal caiu a conversa no defunto, a propósito de uma casa que ele vendera três meses antes. Paulo dizia que a casa fora mal vendida. Pedro ponderou que os dinheiros mal ganhos não aproveitavam aos donos. Ao que Paulo redarguiu que não, que o comendador era homem honesto, posto que burro.

- Burro não digo - replicou Pedro -; era finório e grande finório.

- Um homem pode ser finório e besta - explicou Paulo. - Tinha faro e prática, mas era incapaz de distinguir uma ideia de outra. Olhe, nas assembleias de acionistas...

Foi assim que falaram dos discursos do comendador, dizendo Paulo que eram decorados, e concluindo por afirmar que conhecia o autor deles; era o advogado do Banco Econômico.

- Realmente, tinham muita citação de leis - concordou Pedro -; um deles chegou a trazer uma citação em latim, mas então foi caçoada do advogado.

- Não; foi naturalmente pedido do próprio comendador, que era dado a latinórios. Mas eu mesmo aturei alguns discursos dele em casa, eu e a mulher, na véspera das assembleias. Começava dizendo que me queria consultar sobre a ordem das ideias. Mas ligava duas palavras, e fingindo que improvisava, proferia o discurso todo: era para ver o efeito. Da primeira vez, como os jornais deram o discurso, disse-me ele: "Foi bom que falássemos anteontem do negócio, assentei as ideias, e você viu que o discurso saiu quase igual". Quase igual!

Riam ambos, a praia estava bonita, conversaram dela alguns minutos, mas tornaram logo ao finado, cuja vida foi longamente analisada. Pedro insistia em não admitir que ele fosse honesto; Paulo dizia que sim, que nesse particular não havia que dizer. Não seria homem de sacrificar-se, é verdade...

- Nem beneficiar aos outros - acudiu Pedro. - Sabe o que me fez, não?

Paulo respondeu que sim; nem por isso evitou que Pedro lhe contasse a grande mágoa que tinha do defunto. Quando ia a estabelecer-se pela primeira vez, há dez anos, pediu de empréstimo ao comendador quinze contos, para pagar em dois anos, com juro de oito por cento. Pois o comendador, que aliás acabava de assinar dez contos para as festas do Paraguai, negou-lhe o pedido.

- Talvez não pudesse na ocasião...

- Qual não pudesse! Era sovina. Ficamos brigados por algum tempo; depois, quando eu já estava estabelecido, foi ele mesmo que me procurou para uma companhia... Fizemos as pazes, mas eu sempre lhe disse umas duas palavras, que ele ficou amarelo.

Paulo tirou a conversação desse terreno, falando nas manias do comendador que eram muitas; depois contaram anedotas, ditos ridículos, erros de prosódia, pacholices. Paulo referiu que o finado, depois de ler um romance de Dumas, passado na corte de França, começou a beijar a mão à mulher, quando entrava ou saía de casa. A mulher é que não esteve pelos autos, e o costume durou cinco dias. Pedro piscou o olho e sorriu.

- Era um tolo - concordou.

- Quando andava, você não reparou que ele, quando andava, tinha uns ares adamados? - continuou Paulo, e recordou que era vaidoso até das barbas; nunca estava ao pé da gente que não as puxasse muito, olhando para elas, como se procurasse um argueiro, mas era para que vissem que eram finas e luzidias.

- E música? - acudiu Pedro. - Tinha a mania de entender de música, de julgar artistas. Na praça, em chegando companhia lírica, era o assunto predileto dele. Tomava assinatura no Teatro Lírico, para fazer crer que era doido por música, mas eu aposto que nem gostava.

- Não, lá gostar, gostava.

- Gostava, mas fingia gostar mais.

- Isso sim.

Vieram os sestros do comendador. Paulo não podia suportar o costume que o finado tinha de fazer uma cruz na boca, com o polegar, quando bocejava; nem o de palitar os dentes com a língua. Pedro não conhecia muitos, era menos assíduo na casa que Paulo.

- Você, sim, ia lá todas as noites. Jogavam o voltarete sempre?

- Algumas vezes; mas logo que chegava terceiro parceiro, eu deixava as cartas. Não gosto de cartas.

- A mulher também jogava?

- D. Josefina? Qual!

- Jogava a bisca de dois com você, naturalmente.

- A bisca? - repetiu Paulo enfiado.

- Deixe-se de partes; toda a gente sabe disso.


 

Flor anônima *

Manhã clara. A alma de Martinha é que acordou escura. Tinha ido na véspera a um casamento; e, ao tornar para casa, com a tia que mora com ela, não podia encobrir a tristeza que lhe dera a alegria dos outros e particularmente dos noivos.

Martinha ia nos seus... Nascera há muitos anos. Toda a gente que estava em casa, quando ela nasceu, anunciou que seria a felicidade da família. O pai não cabia em si de contente.

- Há de ser linda!

- Há de ser boa!

- Há de ser condessa!

- Há de ser rainha!

Essas e outras profecias iam ocorrendo aos parentes e amigos da casa.

Lá vão... Aqui pega a alma escura de Martinha. Lá vão quarenta e três anos - ou quarenta e cinco, segundo a tia; Martinha, porém, afirma que são quarenta e três. Adotemos este número. Para ti, moça de vinte anos, a diferença é nada; mas deixa-te ir aos quarenta, nas mesmas circunstâncias que ela, e verás se não te cerceias uns dois anos. E depois nada obsta que marches um pouco para trás. Quarenta e três, quarenta e dous, fazem tão pouca diferença...

Naturalmente a leitora espera que o marido de Martinha apareça, depois de ter lido os jornais ou enxugado do banho. Mas é que não há marido, nem nada. Martinha é solteira, e daí vem a alma escura desta bela manhã clara e fresca, posterior à noite de bodas.

Só, tão só, provavelmente só até a morte; e Martinha morrerá tarde, porque é robusta como um trabalhador e sã como um pero. Não teve mais que a tia velha. Pai e mãe morreram, e cedo.

A culpa dessa solidão a quem pertence? Ao destino ou a ela? Martinha crê, às vezes, que ao destino; às vezes, acusa-se a si própria. Nós podemos descobrir a verdade, indo com ela abrir a gaveta, a caixa, e na caixa a bolsa de veludo verde e velha, em que estão guardadas todas as suas lembranças amorosas. Agora que assistira ao casamento da outra, teve ideia de inventariar o passado. Contudo hesitou:

- Não, para que ver isto? É pior: deixemos recordações aborrecidas.

Mas o gosto de remoçar levou-a a abrir a gaveta, a caixa, e a bolsa; pegou da bolsa, e foi sentar-se ao pé da cama.

Há que anos não via aqueles despojos da mocidade! Pegou-lhes comovida, e entrou a revê-los.

De quem é esta carta? pensou ela ao ver a primeira. "Teu Juca." Que Juca? Ah! O filho do Brito Brandão. "Crê que o meu amor será eterno!". E casou pouco depois com aquela moça da Lapa. Eu era capaz de pôr a mão no fogo por ele. Foi no baile do Club Fluminense que o encontrei pela primeira vez. Que bonito moço! Alto, bigode fino, e uns olhos como nunca mais achei outros. Dançamos essa noite não sei quantas vezes. Depois começou a passar todas as tardes pela rua dos Inválidos, até que nos foi apresentado. Poucas visitas, a princípio, depois mais e mais. Que tempo durou? Não me lembra; seis meses, nem tanto. Um dia começou a fugir, a fugir, até que de todo desapareceu. Não se demorou o casamento com a outra... "Crê que o meu amor será eterno!"

Martinha leu a carta toda e pô-la de lado.

Qual! É impossível que a outra tenha sido feliz. Homens daqueles só fazem desgraçadas...

Outra carta. Gonçalves era o nome deste. Um Gonçalves louro, que chegou de São Paulo, bacharelado de fresco, e fez tontear muita moça. O papel estava encardido e feio, como provavelmente estaria o autor. Outra carta, outras cartas. Martinha relia a maior parte delas. Não eram muitos os namorados; mas cada um deles deixara meia dúzia pelo menos de lindas epístolas.

"Tudo perdido", pensava ela.

E, uma palavra daqui, outra dali fazia recordar tantos episódios deslembrados... "desde domingo" (dizia um) "que não me esquece o caso da bengala". Que bengala? Martinha não atinou logo. Que bengala podia ser que fizesse ao autor da carta (um moço que principiava a negociar, e era agora abastado e comendador) não poder esquecê-la desde domingo?

Afinal deu com o que era; foi uma noite, ao sair da casa dela, que, indo procurar a bengala, não a achou, porque uma criança de casa a levara para dentro; ela é que lha entregara à porta, e então trocaram um beijo...

Martinha ao lembrá-lo estremeceu. Mas refletindo que tudo agora estava esquecido, o domingo, a bengala e o beijo (o comendador tem agora três filhos), passou depressa a outras cartas.

Concluiu o inventário. Depois, acudindo-lhe que cada uma das cartas tivera resposta, perguntou a si mesma onde andariam as suas letras.

Perdidas, todas perdidas; rasgadas nas vésperas do casamento de cada um dos namorados, ou então varridas com o cisco, entre contas de alfaiates...

Abanou a cabeça para sacudir tão tristes ideias. Pobre Martinha! Teve ímpetos de rasgar todas aquelas velhas epístolas; mas sentia que era como se rasgasse uma parte da vida de si mesma, e recolheu-as.

Não haveria mais alguma na bolsa?

Meteu os olhos pela bolsa, não havia carta; havia apenas uma flor seca.

Que flor é esta?

Descolorida, ressequida, a flor parecia trazer em si um bom par de dúzias de anos. Martinha não distinguia que espécie de flor era; mas fosse qual fosse, o principal era a história. Quem lha deu?

Provavelmente algum dos autores das cartas, mas qual deles? E como? E quando?

A flor estava tão velha que se desfazia se não houvesse cuidado em lhe tocar.

Pobre flor anônima! Vejam a vantagem de escrever. O escrito traz a assinatura dos amores, dos ciúmes, das esperanças e das lágrimas. A flor não trazia data nem nome. Era uma testemunha que emudeceu. Os próprios sepulcros conservam o nome do pó guardado. Pobre flor anônima!

- Mas que flor é esta? - repetiu Martinha.

Aos quarenta e cinco anos não admira que a gente esqueça uma flor. Martinha mirou-a, remirou-a, fechou os olhos a ver se atinava com a origem daquele despojo mudo.

Na história dos seus amores escritos não achou semelhante prenda; mas quem podia afirmar que não fosse dada de passagem, sem nenhum episódio importante a que se ligasse?

Martinha guardou as cartas para colocar a flor por cima, e impedir que o peso a desfibrasse mais depressa, quando uma recordação a assaltou:

- Há de ser... é... parece que é... É isso mesmo.

Lembrara-se do primeiro namorado que tivera, um bom rapaz de vinte e três anos; contava ela então dezenove. Era primo de umas amigas. Julião nunca lhe escrevera cartas. Um dia, depois de muita familiaridade com ela, por causa das primas, entrou a amá-la, a não pensar em outra coisa, e não o pôde encobrir, ao menos da própria Martinha. Esta dava-lhe alguns olhares, mais ou menos longos e risonhos; mas em verdade, não parecia aceitá-lo. Julião teimava, esperava, suspirava. Fazia verdadeiros sacrifícios, ia a toda parte onde presumia encontrá-la, gastava horas, perdia sonos. Tinha um emprego público e era hábil; com certeza subiria na escala administrativa, se pudesse cuidar somente dos seus deveres; mas o demônio da moça interpunha-se entre ele e os regulamentos. Esquecia-se, faltava à repartição, não tinha zelo nem estímulo. Ela era tudo para ele, e ele, nada para ela. Nada; uma distração quando muito.

Um dia falara-se em não sei que flor bonita e rara no Rio de Janeiro. Alguém sabia de uma chácara onde a flor podia ser encontrada, quando a árvore a produzisse; mas, por enquanto, não produzia nada. Não havia outra, Martinha contava então vinte e um anos, e ia no dia seguinte ao baile do Club Fluminense; pediu a flor, queria a flor.

- Mas, se não há...

- Talvez haja - interveio Julião.

- Onde?

- Procurando-se.

- Crê que haja? - perguntou Martinha.

- Pode haver.

- Sabe de alguma?

- Não, mas procurando-se... Deseja a flor para o baile de amanhã?

- Desejava.

Julião acordou no dia seguinte muito cedo; não foi à repartição e deitou-se a andar pelas chácaras dos arrabaldes. Da flor tinha apenas o nome e uma leve descrição. Percorreu mais de um arrabalde; ao meio-dia, urgido pela fome, almoçou rapidamente em uma casa de pasto. Tornou a andar, a andar, a andar. Em algumas chácaras era mal recebido, em outras gastava tempo antes que viesse alguém, em outras os cães latiam-lhe às pernas. Mas o pobre namorado não perdia a esperança de achar a flor. Duas, três, quatro horas da tarde. Eram cinco horas quando em uma chácara do Andaraí Grande pôde achar a flor tão rara. Quis pagar dez, vinte ou trinta mil-réis por ela; mas a dona da casa, uma boa velha, que adivinhava amores a muitas léguas de distância, disse-lhe, rindo, que não custava nada.

- Vá, vá, leve o presente à moça, e seja feliz.

Martinha estava ainda a pentear-se quando Julião lhe levou a flor. Não lhe contou nada do que fizera, embora ela lho perguntasse. Martinha porém compreendeu que ele teria feito algum esforço, apertou-lhe muito a mão, e, à noite, dançou com ele uma valsa. No dia seguinte, guardou a flor, menos pelas circunstâncias do achado que pela raridade e beleza dela; e como era uma prenda de amor, meteu-a entre as cartas.

O rapaz, dentro de duas semanas, tornou a perder algumas esperanças que lhe haviam renascido. Martinha principiava o namoro do futuro comendador. Desesperado, Julião meteu-se para a roça, da roça para o sertão, e nunca mais houve notícia dele.

- Foi o único que deveras gostou de mim - suspirou agora Martinha, olhando para a pobre flor mirrada e anônima.

E, lembrando-se que podia estar casada com ele, feliz, considerada, com filhos - talvez avó - (foi a primeira ocasião em que admitiu esta graduação sem pejo), Martinha concluiu que a culpa era sua, toda sua; queimou todas as cartas e guardou a flor.

Quis pedir à tia que lhe pusesse a flor no caixão, sobre o seu cadáver; mas era romântico demais. A negrinha chegara à porta:

- Nhanhã, o almoço está na mesa!


 

Uma noite *

Capítulo primeiro

- Você sabe que não tenho pai nem mãe - começou a dizer o tenente Isidoro ao alferes Martinho -. Já lhe disse também que estudei na Escola Central. O que não sabe é que não foi o simples patriotismo que me trouxe ao Paraguai; também não foi ambição militar. Que sou patriota, e me baterei agora, ainda que a guerra dure dez anos, é verdade, é o que me aguenta e me aguentará até o fim. Lá postos de coronel nem general não são comigo. Mas, se não foi imediatamente nenhum desses motivos, foi outro; foi, foi outro, uma alucinação. Minha irmã quis dissuadir-me, meu cunhado também; o mais que alcançaram foi que não viesse soldado raso, pedi um posto de tenente, quiseram dar-me o de capitão, mas fiquei em tenente. Para consolar a família, disse que, se mostrasse jeito para a guerra, subiria a major ou coronel; se não, voltaria tenente, como dantes. Nunca tive ambições de qualquer espécie. Quiseram fazer-me deputado provincial no Rio de Janeiro, recusei a candidatura, dizendo que não tinha ideias políticas. Um sujeito, meio gracioso, quis persuadir-me que as ideias viriam com o diploma, ou então com os discursos que eu mesmo proferisse na Assembleia Legislativa. Respondi que, estando a Assembleia em Niterói, e morando eu na Corte, achava muito aborrecida a meia hora de viagem que teria de fazer na barca, todos os dias, durante dous meses, salvo as prorrogações. Pilhéria contra pilhéria; deixaram-me sossegado...


 

II

Os dois oficiais estavam nas avançadas do acampamento de Tuiuti. Eram ambos voluntários, tinham recebido o batismo de fogo na batalha de 24 de maio. Corriam agora aqueles longos meses de inação, que só terminou em meados de 1867. Isidoro e Martinho não se conheciam antes da guerra, um viera do Norte, outro, do Rio de Janeiro. A convivência os fez amigos, o coração também, e afinal a idade, que era no tenente de vinte e oito anos, e no alferes, de vinte e cinco. Fisicamente, não se pareciam nada. O alferes Martinho era antes baixo que alto, enxuto de carnes, o rosto moreno, maçãs salientes, boca fina, risonha, maneiras alegres. Isidoro não se podia dizer triste, mas estava longe de ser jovial. Sorria algumas vezes, conversava com interesse. Usava grandes bigodes. Era alto e elegante, peito grosso, quadris largos, cintura fina.

Semanas antes, tinham estado no teatro do acampamento. Este era agora uma espécie de vila improvisada, com espetáculos, bailes, bilhares, um periódico e muita casa de comércio. A comédia representada trouxe à memória do alferes uma aventura amorosa que lhe sucedera nas Alagoas, onde nascera. Se não a contou logo, foi por vergonha; agora, porém, como estivesse passeando com o tenente e lhe falasse das caboclinhas do Norte, Martinho não pôde ter mão em si e referiu os seus primeiros amores. Podiam não valer muito; mas foram eles que o levaram para o Recife, onde alcançou um lugar na secretaria do governo; sobrevindo a guerra, alistou-se com o posto de alferes. Quando acabou a narração, viu que Isidoro tinha os olhos no chão, parecendo ler por letras invisíveis alguma história análoga. Perguntou-lhe o que era.

- A minha história é mais longa e mais trágica - respondeu Isidoro.

- Tenho as orelhas grandes, posso ouvir histórias compridas - replicou o alferes rindo -. Quanto a ser trágica, olhe que passar, como eu passei, metido no canavial, à espera de cinco ou dez tiros que me levassem, não é história de farsa. Vamos, conte; se é coisa triste, eu sou amigo para tristezas.

Isidoro começou a sentir desejo de contar a alguém uma situação penosa e aborrecida, causa da alucinação que o levou à guerra. Batia-lhe o coração, a palavra forcejava por subir à boca, a memória ia acendendo todos os recantos do cérebro. Quis resistir, tirou dois charutos, ofereceu um ao alferes, e falou dos tiros das avançadas. Brasileiros e paraguaios tiroteavam naquela ocasião - o que era comum -, pontuando com balas de espingarda a conversação. Algumas delas coincidiam porventura com os pontos finais das frases, levando a morte a alguém; mas que essa pontuação fosse sempre exata ou não, era indiferente aos dois rapazes. O tempo acostumara-os à troca de balas; era como se ouvissem rodar carros pelas ruas de uma cidade em paz. Martinho insistia pela confidência.

- Levará mais tempo que fumar este charuto?

- Pode levar menos, pode também levar uma caixa inteira - redarguiu Isidoro -; tudo depende de ser resumido ou completo. Em acampamento, há de ser resumido. Olhe que nunca referi isto a ninguém; você é o primeiro e o último.


 

III

Isidoro principiou como vimos e continuou desta maneira:

- Morávamos em um arrabalde do Rio de Janeiro; minha irmã não estava ainda casada, mas já estava pedida; eu continuava os estudos. Vagando uma casa fronteira à nossa, meu futuro cunhado quis alugá-la, e foi ter com o dono, um negociante da rua do Hospício.

- Está meio ajustada - disse este -; a pessoa ficou de mandar-me a carta de fiança amanhã de manhã. Se não vier, é sua.

Mal dizia isto, entrou na loja uma senhora, moça, vestida de luto, com um menino pela mão; dirigiu-se ao comerciante e entregou-lhe um papel; era a carta de fiança. Meu cunhado viu que não podia fazer nada, cumprimentou e saiu. No dia seguinte, começaram a vir os trastes; dois dias depois estavam os novos moradores em casa. Eram três pessoas; a tal moça de luto, o pequeno que a acompanhou à rua do Hospício, e a mãe dela, D. Leonor, senhora velha e doente. Com pouco, soubemos que a moça, D. Camila, tinha vinte e cinco anos de idade, era viúva de um ano, tendo perdido o marido ao fim de cinco meses de casamento. Não apareciam muito. Tinham duas escravas velhas. Iam à missa ao domingo. Uma vez, minha irmã e a viúva encontraram-se ao pé da pia, cumprimentaram-se com afabilidade. A moça levava a mãe pelo braço. Vestiam com decência, sem luxo.

Minha mãe adoeceu. As duas vizinhas fronteiras mandavam saber dela todas as manhãs e oferecer os seus serviços. Restabelecendo-se, minha mãe quis ir pessoalmente agradecer-lhes as atenções. Voltou cativa.

- Parece muito boa gente -, disse-nos -. Trataram-me como se fôssemos amigas de muito tempo, cuidadosas, fechando uma janela, pedindo-me que mudasse de lugar por causa do vento. A filha, como é moça, desfazia-se mais em obséquios. Perguntou-me por que não levei Claudina, e elogiou-a muito; já sabe do casamento e acha que o Dr. Lacerda dá um excelente marido.

- De mim não disse nada? - perguntei eu rindo.

- Nada.

Três dias depois vieram elas agradecer o favor da visita pessoal de minha mãe. Não estando em casa, não pude vê-las. Quando me deram notícia, ao jantar, achei comigo que as vizinhas pareciam querer meter-se à cara da gente, e pensei também que tudo podia ser urdido pela moça, para aproximar-se de mim. Eu era fátuo. Supunha-me o mais belo homem do bairro e da cidade, o mais elegante, o mais fino, tinha algumas namoradas de passagem, e já contava uma aventura secreta. "Pode ser que ela me veja todos os dias, à saída e à volta", disse comigo, e acrescentei por chacota: "a vizinha quer despir o luto e vestir a solidão". Em substância, sentia-me lisonjeado.

Antes de um mês, estavam as relações travadas, minha irmã e a vizinha eram amigas. Comecei a vê-la em nossa casa. Era bonita e graciosa, tinha os olhos garços e ria por eles. Posto conservasse o luto, temperado por alguns laços de fita roxa, o total da figura não era melancólico. A beleza vencia a tristeza. O gesto rápido, o andar ligeiro não permitiam atitudes saudosas nem pensativas. Mas, quando permitissem, a índole de Camila era alegre, ruidosa, expansiva. Chegava a ser estouvada. Falava muito e ria muito, ria a cada passo, em desproporção com a causa, e, não raro, sem causa alguma. Pode dizer-se que saía fora da conta e da linha necessárias; mas, nem por isso enfadava, antes cativava. Também é certo que a presença de um estranho devolvia a moça ao gesto encolhido; a simples conversação grave bastava a fazê-la grave. Em suma, o freio da educação apenas moderava a natureza irrequieta e volúvel. Soubemos por ela mesma que a mãe era viúva de um capitão-de-fragata, de cujo meio soldo vivia, além das rendas de umas casinhas que lhe deixara o primeiro marido, seu pai. Ela, Camila, fazia coletes e roupas brancas. Minha irmã, ao contar-me isto, disse-me que tivera uma sensação de vexame e de pena, e mudou de conversa; tudo inútil, porque a vizinha ria sempre, e contava rindo que trabalhava de manhã, porque, à noite, o branco lhe fazia mal aos olhos. Não cantava desde que perdera o marido, mas a mãe dizia que "a voz era de um anjo". Ao piano era divina; passava a alma aos dedos, não aquela alma tumultuosa, mas outra mais quieta, mais doce, tão metida consigo que chegava a esquecer-se deste mundo. O aplauso fazia-a fugir, como pomba assustada, e a outra alma passava aos dedos para tocar uma peça jovial qualquer, uma polca por exemplo - meu Deus! Às vezes, um lundu.

Você crê naturalmente que essa moça me enfeitiçou. Nem podia ser outra coisa. O diabo da viuvinha entrou-me pelo coração saltando ao som de um pandeiro. Era tentadora sem falar nem rir; falando e rindo era pior. O péssimo é que eu sentia nela não sei que correspondência dos meus sentimentos mal sopitados. Às vezes, esquecendo-me a olhar para ela, acordava repentinamente, e achava os dela fitos em mim. Já lhe disse que eram garços. Disse também que ria por eles. Naquelas ocasiões, porém, não tinham o riso do costume, nem sei se conservavam a mesma cor. A cor pode ser, não a via, não sentia mais que o peso grande de uma alma escondida dentro deles. Era talvez a mesma que lhe passava aos dedos quando tocava. Toda essa mulher devia ser feita de fogo e nervos. Antes de dois meses estava apaixonado, e quis fugir-lhe. Deixe-me dizer-lhe toda a minha corrupção - nem pensava em casar, nem podia ficar ao pé dela, sem arrebatá-la um dia e levá-la ao inferno. Comecei a não estar em casa, quando ela ia lá, e não acompanhava a família à casa dela. Camila não deu por isso na primeira semana - ou simulou que não. Passados mais dias, perguntou a minha irmã:

- O doutor Isidoro está zangado conosco?

- Não! Por quê?

- Já nos não visita. São estudos, não? Ou namoro, quem sabe? Há namoro no beco - concluiu rindo.

- Rindo? - perguntei a minha irmã, quando me repetiu as palavras de Camila.

A pergunta em si era uma confissão; o tom em que a fiz, outra; a seriedade que me ficou, outra e maior. Minha irmã quis explicar a amiga. Eu de mim para mim jurei que não a veria nunca mais. Dois dias depois, sabendo que ela vinha à nossa casa, deixei-me estar com o pretexto de me doer a cabeça; mas, em vez de me fechar no gabinete, fui vê-la rir ou fazê-la rir. A comoção que lhe vi nos primeiros instantes reconciliou-nos. Reatamos o fio que íamos tecendo, sem saber bem onde pararia a obra. Já então ia só à casa delas; meu pai estava enfraquecendo muito, minha mãe fazia-lhe companhia; minha irmã ficava com o noivo, eu ia só. Não percamos tempo que os tiros se aproximam, e pode ser que nos chamem. Dentro de dez dias estávamos declarados. O amor de Camila devia ser forte; o meu era fortíssimo. Foi na sala de visitas, sozinhos, a mãe cochilava na sala de jantar. Camila, que falava tanto e sem parar, não achou palavra que dissesse. Eu agarrei-lhe a mão, quis puxá-la a mim; ela, ofegante, deixou-se cair numa cadeira. Inclinei-me, desatinado, para lhe dar um beijo; Camila desviou a cabeça, recuou a cadeira com força e quase caiu para trás.

- Adeus, adeus, até amanhã - murmurou ela.

No dia seguinte, como eu formulasse o pedido de casamento, respondeu-me que pensasse em outra cousa.

- Nós nos amamos - disse ela -; o senhor ama-me desde muito, e quer casar comigo, apesar de ser uma triste viúva pobre...

- Quem lhe fala nisso? Deixa de ser viúva, nem pobre, nem triste.

- Sim, mas há um obstáculo. Mamãe está muito doente, não quero desampará-la.

- Desampará-la? Seremos dois ao pé dela, em vez de uma só pessoa. A razão não serve, Camila; há de haver outra.

- Não tenho outra. Fiz esta promessa a mim mesma, que só me casaria depois que mamãe se fosse deste mundo. Ela, por mais que saiba do amor que lhe tenho, e da proteção que o senhor lhe dará, ficará pensando que eu vou para meu marido, e que ela passará a ser uma agregada incômoda. Há de achar natural que eu pense mais no senhor que nela.

- Pode ser que a razão seja verdadeira; mas o sentimento, Camila, é esquisito, sem deixar de ser digno. Pois não é natural até que o seu casamento lhe dê a ela mais força e alegria, vendo que a não deixa sozinha no mundo?

Talvez que esta objeção a abalasse um pouco; refletiu, mas insistiu.

- Mamãe vive principalmente das minhas carícias, da minha alegria, dos meus cuidados, que são só para ela...

- Pois vamos consultá-la.

- Se a consultarmos quererá que nos casemos logo.

- Então não suporá que fica sendo agregada incômoda.

- Já, já, não; mas pensá-lo-á mais tarde; e quer que lhe diga tudo? Há de pensá-lo e com razão. Eu, provavelmente, serei toda de meu marido: durante a lua de mel, pelo menos - continuou rindo, e concluiu triste -: e a lua de mel pode levá-la. Não, não; se me ama deveras, esperemos; a minha velha morrerá ou sarará. Se não pode esperar, paciência.

Creio que lhe vi os olhos úmidos; o riso que ria por eles deixou-se velar um pouco daquela chuvazinha passageira. Concordei em esperar, com o plano secreto de comunicar à mãe de Camila os nossos desejos, a fim de que ela própria nos ligasse as mãos. Não disse nada a meus pais, certo de que ambos aceitariam a escolha; mas ainda contra a vontade deles, casaria. Minha irmã soube de tudo, aprovou tudo, e tomou a si guiar as negociações com a velha enferma. Entretanto, a paixão de Camila não lhe trocou a índole. Tagarela, mas graciosa, risonha sem banalidade, toda vida e movimento... Não me canso em repetir essas cousas. Tinha dias tristes ou calados; eram aqueles em que a moléstia da mãe parecia agravar-se. Eu padecia com a mudança, uma vez que a vida da mãe era empecilho à nossa ventura; sentimento mau, que me enchia de vergonha e de remorsos. Não quero cansá-lo com as palavras que trocávamos e foram infinitas, menos ainda com os versos que lhe fiz; é verdade, Martinho, cheguei ao extremo de fazer versos; lia os de outros para compor os meus, e daí fiquei com tal ou qual soma de imagens e de expressões poéticas...

Um dia, ao almoço, ouvimos rumor na escada, vozes confusas, choro; mandei ver o que era. Uma das escravas da casa fronteira vinha dar notícia... Cuidei que era a morte da velha, e tive uma sensação de prazer. Ai, meu amigo! A verdade era outra e terrível.

- Nhã Camila está douda!

Não sei o que fiz, nem por onde saí, mas instantes depois entrava pela casa delas. Nunca pude ter memória clara dos primeiros instantes. Vi a pobre velha, caída num sofá da sala; vinham de dentro os gritos de Camila. Se acudi ou não à velha, não sei; mas é provável que corresse logo para o interior, onde dei com a moça furiosa, torcendo-se para escapar às mãos de dois calceteiros que trabalhavam na rua e acudiram ao pedido de socorro de uma das escravas. Quis ajudá-los; pensei em influir nela com a minha pessoa, com a minha palavra; mas, ao que cuido, não via nem ouvia nada. Não afirmo também se lhe disse alguma coisa e o que foi. Os gritos da moça eram agudos, os movimentos, raivosos, a força, grande; tinha o vestido rasgado, os cabelos despenteados. Minha família chegou logo; o inspetor de quarteirão e um médico apareceram e deram as primeiras ordens. Eu, tonto, não sabia que fizesse, achava-me num estado que podia ser contágio do terrível acesso. Camila pareceu melhorar, não forcejava por desvencilhar-se dos homens que a retinham; estes, confiando na quietação dela, soltaram-lhe os braços. Veio outra crise, ela atirou-se para a escada, e teria lá chegado e rolado, se eu não a sustivesse pelos vestidos. Quis voltar-se para mim; mas os homens acudiram e novamente a retiveram.

Algumas horas correram, antes que as ordens todas da autoridade fossem expedidas e cumpridas. Minha irmã veio ter comigo para levar-me para a outra sala ou para casa; recusei. Uma vez ainda a exaltação e o furor de Camila cessaram, mas os homens não lhe deixaram os braços soltos. Quando se repetiu o fenômeno, o prazo foi mais longo, fizeram sentá-la, os homens afrouxaram os braços. Eu, cosido à parede, fiquei a olhar para ela, notando que as palavras eram já poucas, e, se ainda sem sentido, não eram aflitas, nem ela repetia os guinchos agudos. Os olhos vagavam sem ver; mas, fitando-me de passagem, tornaram a mim, e ficaram parados alguns segundos, rindo como era costume deles quando tinham saúde. Camila chamou-me, não pelo nome, disse-me que fosse ter com ela. Acudi prontamente, sem dizer nada.

- Chegue-se mais.

Obedeci; ela quis estender-me a mão, o homem que a segurava reteve-a com força; eu disse-lhe que deixasse, não fazia mal, era um instante. Camila deu-me a mão livre, eu dei-lhe a minha. A princípio, não tirou os olhos dos meus; mas já então não ria por eles, tinha-os quietos e apagados. De repente, levou a minha mão à boca, como se fosse beijá-la. Tendo libertado a outra (foi tudo rápido) segurou a minha com força e cravou-lhe furiosamente os dentes; soltei um grito. A boca ficou-lhe cheia de sangue. Veja; tenho ainda os sinais nestes dois dedos...

Não me quero demorar neste ponto da minha história. Digo-lhe sumariamente que os médicos entenderam necessário recolher Camila ao Hospício de Pedro II. A mãe morreu quinze dias depois. Eu fui concluir os meus estudos na Europa. Minha irmã casou, meu pai não durou muito, minha mãe acompanhou-o de perto. Pouco tempo depois, minha irmã e meu cunhado foram ter comigo. Já me acharam não esquecido, mas consolado. Quando tornamos ao Rio de Janeiro passavam quatro anos daqueles acontecimentos. Fomos morar juntos, mas em outro bairro. Nada soubemos de Camila, nem indagamos nada; ao menos eu.

Uma noite, porém, andando a passear, aborrecido, começou a chover, e entrei num teatro. Não sabia da peça, nem do autor, nem do número de atos; o bilheteiro disse-me que ia começar o segundo. Na terceira ou quarta cena, vejo entrar uma mulher que me abalou todo; pareceu-me Camila. Fazia um papel de ingênua, creio; entrou lentamente e travou frouxamente um diálogo com o galã. Não tinha que ver; era a própria voz de Camila. Mas, se ela estava no Hospício, como podia achar-se no teatro? Se havia sarado, como se fizera atriz? Era natural que estivesse a costurar, e se alguma coisa lhe restava das casinhas da mãe... Perguntei a um vizinho da plateia como se chamava aquela dama.

- Plácida -, respondeu-me.

"Não é ela", pensei; mas refletindo que podia ter mudado de nome, quis saber se estava há muito tempo no teatro.

- Não sei; apareceu aqui há meses. Acho que é novata na cena, fala muito arrastado, tem talento.

Não podia ser Camila; mas tão depressa achava que não, um gesto da mulher, uma inflexão de voz, qualquer coisa me dizia que era ela mesma. No intervalo lembrou-me de ir à caixa do teatro. Não conhecia ninguém, não sabia se era fácil entrar desconhecido, cheguei à porta de comunicação e bati. Ninguém abriu nem perguntou quem era. Daí a nada vi sair de dentro um homem, que empurrou simplesmente a porta e deixou-a cair. Puxei a porta e entrei. Fiquei aturdido no meio do movimento; criei ânimo e perguntei a um empregado se podia falar a D. Plácida. Respondeu-me que provavelmente estava mudando de trajo, mas que fosse com ele. Chegando à porta de um camarim, bateu.

- Dona Plácida?

- Quem é?

- Está aqui um senhor que lhe deseja falar.

- Que espere!

A voz era dela. O sangue entrou a correr-me acelerado; afastei-me um pouco e esperei. Minutos depois, a porta do camarim abriu-se, saiu uma criada; enfim, a porta escancarou-se, e apareceu a figura de atriz. Aproximei-me, e fizemos teatro no teatro: reconhecemo-nos um ao outro. Entrei no camarim, apertamos as mãos, e durante algum tempo não pudemos dizer nada. Ela, por baixo do carmim, empalidecera; eu senti-me lívido. Ouvi apitar; era o contrarregra que mandava subir o pano.

- Vai subir o pano -, disse-me ela com a voz lenta e abafada. - Entro na segunda cena. Espera-me?

- Espero.

- Venha cá para os bastidores.

Falei-lhe ainda duas vezes nos bastidores. Soube na conversação onde morava, e que morava só. Como a chuva aumentasse e caísse agora a jorros, ofereci-lhe o meu carro. Aceitou. Saí para alugar um carro de praça; no fim do espetáculo, mandei que a recebesse à porta do teatro, e acompanhei-a dando-lhe o braço, no meio do espanto de atores e empregados. Depois que ela entrou, despedi-me.

- Não, não - disse ela -. Pois há de ir por baixo d`água. Entre também, venha deixar-me à porta.

Entrei e partimos. Durante os primeiros instantes, parecia-me delirar. Após quatro anos de separação e ausência, quando supunha aquela senhora em outra parte, eis-me dentro de uma carruagem com ela, duas horas depois de a tornar a ver. A chuva que caía forte, o tropel dos cavalos, o rodar da carruagem, e por fim a noite, complicavam a situação do meu espírito. Cria-me doudo. Vencia a comoção falando, mas as palavras não teriam grande ligação entre si, nem seriam muitas. Não queria falar da mãe; menos ainda perguntar-lhe pelos acontecimentos que a trouxeram à carreira de atriz. Camila é que me disse que estivera doente, que perdera a mãe fora da Corte, e que entrara para o teatro por ver um dia uma peça em cena; mas sentia que não tinha vocação. "Ganho a minha vida", concluiu. Ao ouvir esta palavra, apertei-lhe a mão cheio de pena; ela apertou a minha e não a soltou mais. Ambas ficaram sobre o joelho dela. Estremeci; não lhe perguntei quem a levara ao teatro, onde vira a peça que a fez fazer-se atriz. Deixei estar a mão no joelho. Camila falava lentamente, como em cena; mas a comoção aqui era natural. Perguntou-me pelos meus; disse-lhe o que havia. Quando falei do casamento de minha irmã, senti que me apertou os dedos; imaginei que era a recordação do malogro do nosso. Enfim, chegamos. Fi-la descer, ela entrou depressa no corredor, onde uma preta a esperava.

- Adeus - disse-lhe.

- Está chovendo muito; por que não toma chá comigo?

Não tinha a menor vontade de ir-me; ao contrário, queria ficar, a todo custo, tal era a ressurreição das sensações de outrora. Entretanto, não sei que força de respeito me detinha à soleira da porta. Disse que sim e que não.

- Suba, suba - replicou ela dando-me o braço.

A sala era trastejada com simplicidade, antes vizinha da pobreza que da mediania. Camila tirou a capa, e sentou-se no sofá, ao pé de mim. Vista agora, sem o caio nem o carmim do teatro, era uma criatura pálida, representando os seus vinte e nove anos, um tanto fatigada, mas ainda bela, e acaso mais cheia de corpo. Abria e fechava um leque desnecessário. Às vezes apoiava nele o queixo e fitava os olhos no chão, ouvindo-me. Estava comovida, decerto; falava pouco e a medo. A fala e os gestos não eram os de outro tempo, não tinham a volubilidade e a agitação que a caracterizavam; dir-se-ia que a língua acompanhava de longe o pensamento, ao invés de outrora, em que o pensamento mal emparelhava com a língua. Não era a minha Camila; era talvez a de outro; mas, que tinha que não fosse a mesma? Assim pensava eu, à medida da nossa conversação sem assunto. Falávamos de tudo o que não éramos, ou nada tinha com a nossa vida de quatro anos passados; mas isso mesmo era disperso, desalinhado, roto, uma palavra aqui, outra ali, sem interesse aparente ou real. De uma vez perguntei-lhe:

- Espera ficar no teatro muito tempo?

- Creio que sim - disse ela -; ao menos, enquanto não acabar a educação de meu sobrinho.

- É verdade; deve estar um mocinho.

- Tem onze anos, vai fazer doze.

- Mora com a senhora? - perguntei depois de um minuto de pausa.

- Não; está no colégio. Já lhe disse que moro só. Minha companhia é este piano velho - concluiu levantando-se e indo a um canto, onde vi pela primeira vez um pequeno piano, ao pé da porta da alcova.

- Vamos ver se ele é seu amigo - disse-lhe.

Camila não hesitou em tocar. Tocou uma peça que acertou de ser a primeira que executara em nossa casa, quatro anos antes. Acaso ou propósito? Custava-me a crer que fosse propósito, e o acaso vinha cheio de mistérios. O destino ligava-nos outra vez, por qualquer vínculo, legítimo ou espúrio? Tudo me parecia assim; o noivo antigo dava de si apenas um amante de arribação. Tive ímpeto de aproximar-me dela, derrear-lhe a cabeça e beijá-la muito. Não teria tempo; a preta veio dizer que o chá estava na mesa.

- Desculpe a pobreza da casa - disse ela entrando na sala de jantar -. Sabe que nunca fui rica.

Sentamo-nos defronte um do outro. A preta serviu o chá e saiu. Ao comer não havia diferença de outrora, comia devagar; mas isso, e o gesto encolhido, e a fala a modo que amarrada davam um composto tão diverso do que era antigamente, que eu podia amá-la agora sem pecado. Não lhe estou dizendo o que sinto hoje; estou mostrando francamente a você a falta de delicadeza da minha alma. O respeito que me detivera um instante à soleira da porta já me não detinha agora à porta da alcova.

- Em que é que pensa? - perguntou ela após certa pausa.

- Penso em dizer-lhe adeus -respondi estendendo-lhe a mão -; é tarde.

- Que sinais são estes? - perguntou ela olhando-me para os dedos.

Certamente empalideci. Respondi que eram sinais de um golpe antigo. Mirou muito a mão; eu cuidei a princípio que era um pretexto para não soltá-la logo; depois ocorreu-me se acaso alguma reminiscência vaga emergia dos velhos destroços do delírio.

- A sua mão treme - disse ela, querendo sorrir.

Uma ideia traz outra. Saberia ela que estivera louca? Outra depois e mais terrível. Essa mulher que conheci tão esperta e ágil, e que agora me aparecia tão morta, era o fruto da tristeza da vida e de sucessos que eu ignorava, ou puro efeito do delírio, que lhe torcera e esgalhara o espírito? Ambas as hipóteses - a segunda principalmente - deram-me uma sensação complexa, que não sei definir - pena, repugnância, pavor. Levantei-me e fitei-a por alguns instantes.

- A chuva ainda não parou - disse ela -; voltemos para a sala.

Voltamos para a sala. Tornou ao sofá comigo. Quanto mais olhava para ela, mais sentia que era uma aleijada do espírito, uma convalescente da loucura... A minha repugnância crescia, a pena também; ela, fitando-me os olhos que já não sabiam rir, segurou-me a mão com ambas as suas; eu levantei-me para sair...

Isidoro deu uma volta e caiu; uma bala paraguaia varou-lhe o coração, estava morto. Não se conheceu outro amigo ao alferes. Por muitas semanas o pobre Martinho não disse uma só chalaça. Em compensação, continuou sempre bravo e disciplinado. No dia em que o marechal Caxias, dando novo impulso à guerra, marchou para Tuiu-Cuê, ninguém foi mais resoluto que ele, ninguém mais certo de acabar capitão; acabou major.


 

Jogo do bicho *

Camilo - ou Camilinho, como lhe chamavam alguns por amizade - ocupava em um dos arsenais do Rio de Janeiro (marinha ou guerra) um emprego de escrita. Ganhava duzentos mil-réis por mês, sujeitos ao desconto de taxa e montepio. Era solteiro, mas um dia, pelas férias, foi passar a noite de Natal com um amigo no subúrbio do Rocha; lá viu uma criaturinha modesta, vestido azul, olhos pedintes. Três meses depois estavam casados.

Nenhum tinha nada; ele, apenas o emprego, ela, as mãos e as pernas para cuidar da casa toda, que era pequena, e ajudar a preta velha que a criou e a acompanhou sem ordenado. Foi esta preta que os fez casar mais depressa. Não que lhes desse tal conselho; a rigor, parecia-lhe melhor que ela ficasse com a tia viúva, sem obrigações, nem filhos. Mas ninguém lhe pediu opinião. Como, porém, dissesse um dia que, se sua filha de criação casasse, iria servi-la de graça, esta frase foi contada a Camilo, e Camilo resolveu casar dois meses depois. Se pensasse um pouco, talvez não casasse logo; a preta era velha, eles eram moços, etc. A ideia de que a preta os servia de graça entrou por uma verba eterna no orçamento.

Germana, a preta, cumpriu a palavra dada.

- Um caco de gente sempre pode fazer uma panela de comida - disse ela.

Um ano depois o casal tinha um filho, e a alegria que trouxe compensou os ônus que traria. Joaninha, a esposa, dispensou ama, tanto era o leite, e tamanha a robustez, sem contar a falta de dinheiro; também é certo que nem pensaram nisto.

Tudo eram alegrias para o jovem empregado, tudo esperanças. Ia haver uma reforma no arsenal, e ele seria promovido. Enquanto não vinha a reforma, houve uma vaga por morte, e ele acompanhou o enterro do colega, quase a rir. Em casa não se conteve e riu. Expôs à mulher tudo o que se ia dar, os nomes dos promovidos, dois, um tal Botelho, protegido pelo general ***, e ele. A promoção veio e apanhou Botelho e outro. Camilo chorou desesperadamente, deu murros na cama, na mesa e em si.

- Tem paciência - dizia-lhe Joaninha.

- Que paciência? Há cinco anos que marco passo...

Interrompeu-se. Aquela palavra, da técnica militar, aplicada por um empregado do arsenal, foi como água na fervura; consolou-o. Camilo gostou de si mesmo. Chegou a repeti-la aos companheiros íntimos. Daí a tempos, falando-se outra vez em reforma, Camilo foi ter com o ministro e disse:

- Veja V. Exa. que há mais de cinco anos vivo marcando passo.

O grifo é para exprimir a acentuação que ele deu ao final da frase. Pareceu-lhe que fazia boa impressão ao ministro, conquanto todas as classes usassem da mesma figura, funcionários, comerciantes, magistrados, industriais etc.

Não houve reforma; Camilo acomodou-se e foi vivendo. Já então tinha algumas dívidas, descontava os ordenados, buscava trabalhos particulares, às escondidas. Como eram moços e se amavam, o mau tempo trazia ideia de um céu perpetuamente azul.

Apesar desta explicação, houve uma semana em que a alegria de Camilo foi extraordinária. Ides ver. Que a posteridade me ouça. Camilo, pela primeira vez, jogou no bicho. Jogar no bicho não é um eufemismo como matar o bicho. O jogador escolhe um número, que convencionalmente representa um bicho, e se tal número acerta de ser o final da sorte grande, todos os que arriscaram nele os seus vinténs ganham, e todos os que fiaram dos outros perdem. Começou a vinténs e dizem que está em contos de réis; mas, vamos ao nosso caso.

Pela primeira vez Camilo jogou no bicho, escolheu o macaco, e, entrando com cinco tostões, ganhou não sei quantas vezes mais. Achou nisto tal despropósito que não quis crer, mas afinal foi obrigado a crer, ver e receber o dinheiro. Naturalmente tornou ao macaco, duas, três, quatro vezes, mas o animal, meio-homem, falhou às esperanças do primeiro dia. Camilo recorreu a outros bichos, sem melhor fortuna, e o lucro inteiro tornou à gaveta do bicheiro. Entendeu que era melhor descansar algum tempo; mas não há descanso eterno, nem ainda o das sepulturas. Um dia lá vem a mão do arqueólogo a pesquisar os ossos e as idades.

Camilo tinha fé. A fé abala as montanhas. Tentou o gato, depois o cão, depois o avestruz; não havendo jogado neles, podia ser que... Não pôde ser; a fortuna igualou os três animais em não lhes fazer dar nada. Não queria ir pelos palpites dos jornais, como faziam alguns amigos. Camilo perguntava como é que meia dúzia de pessoas, escrevendo notícias, podiam adivinhar os números da sorte grande. De uma feita, para provar o erro, concordou em aceitar um palpite, comprou no gato, e ganhou.

- Então? - perguntaram-lhe os amigos.

- Nem sempre se há de perder - disse este.

- Acaba-se ganhando sempre - acudiu um -; a questão é tenacidade, não afrouxar nunca.

Apesar disso, Camilo deixou-se ir com os seus cálculos. Quando muito, cedia a certas indicações que pareciam vir do céu, como um dito de criança de rua: "Mamãe, por que é que a senhora não joga hoje na cobra?" Ia-se à cobra e perdia; perdendo, explicava a si mesmo o fato com os melhores raciocínios deste mundo, e a razão fortalecia a fé.

Em vez de reforma da repartição veio um aumento de vencimentos, cerca de sessenta mil-réis mensais. Camilo resolveu batizar o filho, e escolheu para padrinho nada menos que o próprio sujeito que lhe vendia os bichos, o banqueiro certo. Não havia entre eles relações de família; parece até que o homem era um solteirão sem parentes. O convite era tão inopinado, que quase o fez rir, mas viu a sinceridade do moço, e achou tão honrosa a escolha que aceitou com prazer.

- Não é negócio de casaca?

- Qual, casaca! Coisa modesta.

- Nem carro?

- Carro...

- Para que carro?

- Sim, basta ir a pé. A igreja é perto, na outra rua.

- Pois a pé.

Qualquer pessoa atilada descobriu já que a ideia de Camilo é que o batizado fosse de carro. Também descobriu, à vista da hesitação e do modo, que entrava naquela ideia a de deixar que o carro fosse pago pelo padrinho; não pagando o padrinho, não pagaria ninguém. Fez-se o batizado, o padrinho deixou uma lembrança ao afilhado, e prometeu, rindo, que lhe daria um prêmio na águia.

Esta graçola explica a escolha do pai. Era desconfiança dele que o bicheiro entrava na boa fortuna dos bichos, e quis ligar-se-lhe por um laço espiritual. Não jogou logo na águia "para não espantar", disse consigo, mas não esqueceu a promessa, e um dia, com ar de riso, lembrou ao bicheiro:

- Compadre, quando for a águia, diga.

- A águia?

Camilo recordou-lhe o dito; o bicheiro soltou uma gargalhada.

- Não, compadre; eu não posso adivinhar. Aquilo foi pura brincadeira. Oxalá que eu lhe pudesse dar um prêmio. A águia dá; não é comum, mas dá.

- Mas porque é que eu ainda não acertei com ela?

- Isso não sei; eu não posso dar conselhos, mas quero crer que você, compadre, não tem paciência no mesmo bicho, não joga com certa constância. Troca muito. É por isso que poucas vezes tem acertado. Diga-me cá: quantas vezes tem acertado?

- De cor, não posso dizer, mas trago tudo muito bem escrito no meu caderno.

- Pois veja, e há de descobrir que todo o seu mal está em não teimar algum tempo no mesmo bicho. Olhe, um preto, que há três meses joga na borboleta, ganhou hoje e levou uma bolada...

Camilo escrevia efetivamente a despesa e a receita, mas não as comparava para não conhecer a diferença. Não queria saber do deficit. Posto que metódico, tinha o instinto de fechar os olhos à verdade, para não a ver e aborrecer. Entretanto, a sugestão do compadre era aceitável; talvez a inquietação, a impaciência, a falta de fixidez nos mesmos bichos fosse a causa de não tirar nunca nada.

Ao chegar à casa achou a mulher dividida entre a cozinha e a costura. Germana adoecera e ela fazia o jantar, ao mesmo tempo que acabava o vestido de uma freguesa. Cosia para fora, a fim de ajudar as despesas da casa e comprar algum vestido para si. O marido não ocultou o desgosto da situação. Correu a ver a preta; já a achou melhor da febre com o quinino que a mulher tinha em casa e lhe dera "por sua imaginação"; e a preta acrescentou sorrindo:

- Imaginação de nhã Joaninha é boa.

Jantou triste, por ver a mulher tão carregada de trabalho, mas a alegria dela era tal, apesar de tudo, que o fez alegre também. Depois do café, foi ao caderno que trazia fechado na gaveta e fez os seus cálculos. Somou as vezes e os bichos, tantas na cobra, tantas no galo, tantas no cão e no resto, uma fauna inteira, mas tão sem persistência, que era fácil desacertar. Não queria somar a despesa e a receita para não receber de cara um grande golpe, e fechou o caderno. Afinal não pôde, e somou lentamente, com cuidado para não errar; tinha gasto setecentos e sete mil-réis, e tinha ganho oitenta e quatro mil-réis, um deficit de seiscentos e vinte e três mil-réis. Ficou assombrado.

- Não é possível!

Contou outra vez, ainda mais lento, e chegou a uma diferença de cinco mil-réis para menos. Teve esperanças e novamente somou as quantias gastas, e achou o primitivo deficit de seiscentos e vinte e três mil-réis. Trancou o caderno na gaveta; Joaninha, que o vira jantar alegre, estranhou a mudança e perguntou o que é que tinha.

- Nada.

- Você tem alguma coisa; foi alguma lembrança...

- Não foi nada.

Como a mulher teimasse em saber, engendrou uma mentira - uma turra com o chefe da seção -, coisa de nada.

- Mas você estava alegre...

- Prova de que não vale nada. Agora lembrou-me... e estava pensando no caso, mas não é nada. Vamos à bisca.

A bisca era o espetáculo deles, a ópera, a rua do Ouvidor, Petrópolis, Tijuca, tudo o que podia exprimir um recreio, um passeio, um repouso. A alegria da esposa voltou ao que era. Quanto ao marido, se não ficou tão expansivo como de costume, achou algum prazer e muita esperança nos números das cartas. Jogou a bisca fazendo cálculos, conforme a primeira carta que saísse, depois a segunda, depois a terceira; esperou a última; adotou outras combinações, a ver os bichos que correspondiam a elas, e viu muitos deles, mas principalmente o macaco e a cobra; firmou-se nestes.

"O meu plano está feito", saiu pensando no dia seguinte, "vou até aos setecentos mil-réis. Se não tirar quantia grossa que anime, não compro mais."

Firmou-se na cobra, por causa da astúcia, e caminhou para a casa do compadre. Confessou-lhe que aceitara o seu conselho, e começava a teimar na cobra.

- A cobra é boa - disse o compadre.

Camilo jogou uma semana inteira na cobra, sem tirar nada. Ao sétimo dia, lembrou-se de fixar mentalmente uma preferência, e escolheu a cobra-coral, perdeu; no dia seguinte, chamou-lhe cascavel, perdeu também; veio à surucucu, à jiboia, à jararaca, e nenhuma variedade saiu da mesma tristíssima fortuna. Mudou de rumo. Mudaria sem razão, apesar da promessa feita; mas o que propriamente o determinou a isto foi o encontro de um carro que ia matando um pobre menino. Correu gente, correu polícia, o menino foi levado à farmácia, o cocheiro, ao posto da guarda. Camilo só reparou bem no número do carro, cuja terminação correspondia ao carneiro; adotou o carneiro. O carneiro não foi mais feliz que a cobra.

Não obstante, Camilo apoderou-se daquele processo de adotar um bicho, e jogar nele até estafá-lo: era ir pelos números adventícios. Por exemplo, entrava por uma rua com os olhos no chão, dava quarenta, sessenta, oitenta passos, erguia repentinamente os olhos e fitava a primeira casa à direita ou à esquerda, tomava o número e ia dali ao bicho correspondente. Tinha já gasto o processo de números escritos e postos dentro do chapéu, o de um bilhete do Tesouro - coisa rara - e cem outras formas, que se repetiam ou se completavam. Em todo caso, ia descambando na impaciência e variava muito. Um dia resolveu fixar-se no leão; o compadre, quando reconheceu que efetivamente não saía do rei dos animais, deu graças a Deus.

- Ora, graças a Deus que o vejo capaz de dar o grande bote. O leão tem andado esquivo, é provável que derrube tudo, mais hoje, mais amanhã.

- Esquivo? Mas então não quererá dizer...?

- Ao contrário.

Dizer quê? Ao contrário, quê? Palavras escuras, mas para quem tem fé e lida com números, nada mais claro. Camilo elevou ainda mais a soma da aposta. Faltava pouco para os setecentos mil-réis; ou vencia ou morria.

A jovem consorte mantinha a alegria da casa, por mais dura que fosse a vida, grossos, os trabalhos, crescentes, as dívidas e os empréstimos, e até não raras, as fomes. Não lhe cabia culpa, mas tinha paciência. Ele, em chegando aos setecentos mil-réis, trancaria a porta. O leão não queria dar. Camilo pensou em trocá-lo por outro bicho, mas o compadre afligia-se tanto com essa frouxidão, que ele acabaria entre os braços da realeza. Faltava já pouco; enfim, pouquíssimo.

- Hoje respiro - disse Camilo à esposa -. Aqui está a nota última.

Cerca das duas horas, estando à mesa da repartição, a copiar um grave documento, Camilo ia calculando os números e descrendo da sorte. O documento tinha algarismos; ele errou-os muita vez, por causa do atropelo em que uns e outros lhe andavam no cérebro. A troca era fácil; os seus vinham mais vezes ao papel que os do documento original. E o pior é que ele não dava por isso, escrevia o leão em vez de transcrever a soma exata das toneladas de pólvora...

De repente, entra na sala um contínuo, chega-se-lhe ao ouvido, e diz que o leão dera. Camilo deixou cair a pena, e a tinta inutilizou a cópia quase acabada. Se a ocasião fosse outra, era caso de dar um murro no papel e quebrar a pena, mas a ocasião era esta, e o papel e a pena escaparam às violências mais justas deste mundo; o leão dera. Mas, como a dúvida não morre:

- Quem é que disse que o leão deu? - perguntou Camilo baixinho.

- O moço que me vendeu na cobra.

- Então foi a cobra que deu.

- Não, senhor; ele é que se enganou e veio trazer a notícia pensando que eu tinha comprado no leão, mas foi na cobra.

- Você está certo?

- Certíssimo.

Camilo quis deitar a correr, mas o papel borrado de tinta acenou-lhe que não. Foi ao chefe, contou-lhe o desastre e pediu para fazer a cópia no dia seguinte; viria mais cedo, ou levaria o original para casa...

- Que está dizendo? A cópia há de ficar pronta hoje.

- Mas são quase três horas.

- Prorrogo o expediente.

Camilo teve vontade de prorrogar o chefe até ao mar, se lhe era lícito dar tal uso ao verbo e ao regulamento. Voltou à mesa, pegou de uma folha de papel e começou a escrever o requerimento de demissão. O leão dera; podia mandar embora aquele inferno. Tudo isto em segundos rápidos, apenas um minuto e meio. Não tendo remédio, entrou a recopiar o documento, e antes das quatro horas estava acabado. A letra saiu tremida, desigual, raivosa, agora melancólica, pouco a pouco alegre, à medida que o leão dizia ao ouvido do amanuense, adoçando a voz: "Eu dei! Eu dei!"

- Ora, chegue-se, dê cá um abraço - disse-lhe o compadre, quando ele ali apareceu -. Afinal a sorte começa a protegê-lo.

- Quanto?

- Cento e cinco mil-réis.

Camilo pegou em si e nos cento e cinco mil-réis, e só na rua advertiu que não agradecera ao compadre; parou, hesitou, continuou. Cento e cinco mil-réis! Tinha ânsia de levar à mulher aquela notícia; mas, assim... só...?

- Sim, é preciso festejar esse acontecimento. Um dia não são dias. Devo agradecer ao céu a fortuna que me deu. Um pratinho melhor à mesa...

Viu perto uma confeitaria; entrou por ela e espraiou os olhos, sem escolher nada. O confeiteiro veio ajudá-lo, e, notando a incerteza de Camilo entre mesa e sobremesa, resolveu vender-lhe ambas as coisas. Começou por um pastelão, "um rico pastelão, que enchia os olhos, antes de encher a boca e o estômago". A sobremesa foi "um rico pudim", em que havia escrito, com letras de massa branca este viva eterno: "Viva a esperança!". A alegria de Camilo foi tanta e tão estrepitosa que o homem não teve remédio senão oferecer-lhe vinho também, uma ou duas garrafas. Duas.

- Isto não vai sem Porto; eu lhe mando tudo por um menino. Não é longe?

Camilo aceitou e pagou. Entendeu-se com o menino acerca da casa e do que faria. Que lhe não batesse à porta; chegasse e esperasse por ele; podia ser que ainda não estivesse em casa; se estivesse, viria à janela, de quando em quando. Pagou dezesseis mil-réis e saiu.

Estava tão contente com o jantar que levava e o espanto da mulher, nem se lembrou de presentear Joaninha com alguma joia. Esta ideia só o assaltou no bonde, andando; desceu e voltou a pé, a buscar um mimo de ouro, um broche que fosse, com uma pedra preciosa. Achou um broche nestas condições, tão modesto no preço, cinquenta mil-réis, que ficou admirado; mas comprou-o assim mesmo, e voou para casa.

Ao chegar, estava à porta o menino, com cara de o haver já descomposto e mandado ao diabo. Tirou-lhe os embrulhos e ofereceu-lhe uma gorjeta.

- Não, senhor, o patrão não quer.

- Pois não diga ao patrão; pegue lá dez tostões; servem para comprar na cobra, compre na cobra.

Isto de lhe indicar o bicho que não dera, em vez do leão, que dera, não foi cálculo nem perversidade; foi talvez confusão. O menino recebeu os dez tostões, ele entrou para casa com os embrulhos e a alma nas mãos e trinta e oito mil-réis na algibeira.


 

Uma por outra *

Era por sessenta e tantos... Musa, lembra-me as causas desta paixão romântica, conta as suas fases e o seu desfecho. Não fales em verso, posto que nesse tempo escrevi muitos. Não; a prosa basta, desataviada, sem céus azuis nem garças brancas, a prosa do tabelião que sou neste município do Ceará.

Era no Rio de Janeiro. Tinha eu vinte anos feitos e malfeitos, sem alegrias, longe dos meus, no pobre sótão de estudante, à rua da Misericórdia. Certamente a vida de estudante de matemáticas era alegre, e as minhas ambições, depois do café e do cigarro, não iam além de um e outro teatro, mas foi isto mesmo que me deitou "uma gota amarga na existência". É a frase textual que escrevi em uma espécie de diário daquele tempo, rasgado anos depois. Foi no teatro que vi uma criaturinha bela e rica, toda sedas e joias, com o braço pousado na borda do camarote, e o binóculo na mão. Eu, das galerias onde estava, dei com a pequena e gostei do gesto. No fim do primeiro ato, quando se levantou, gostei da figura. E daí em diante, até o fim do espetáculo, não tive olhos para mais ninguém, nem para mais nada: todo eu era ela.

Se estivesse com outros colegas, como costumava, é provável que não gastasse mais de dois minutos com a pequena; mas naquela noite estava só, entre pessoas estranhas, e inspirado. Ao jantar, fizera de cabeça um soneto. Demais, antes de subir à galeria quedara-me à porta do teatro a ver entrar famílias. A procissão de mulheres, a atmosfera de cheiros, a constelação de pedrarias entonteceram-me. Finalmente, acabava de ler um dos romances aristocráticos de Feuillet, exemplar comprado por um cruzado não sei em que belchior de livros. Foi nesse estado de alma que descobri aquela moça do quinto camarote, primeira ordem, à esquerda, Teatro Lírico.

Antes de acabar o espetáculo desci a escada, quatro a quatro, e vim colocar-me no corredor, defronte do camarote de Sílvia. Dei-lhe este nome, por ser doce, e por havê-lo lido não sei onde. Sílvia apareceu à porta do camarote, logo depois de cantada a ópera, metida em capa rica de cachemira, e com uns olhos que eu não pudera ver bem de cima, e valiam só por si todas as joias e todas as luzes do teatro. Outra senhora estava com ela, e dois homens também; deram-lhes os braços, e eu acompanhei-as logo. A marcha foi lenta, eu desejava que não acabasse mais, mas acabou. Sílvia entrou no carro que esperava a família, e os cavalos pegaram do meu tesouro e o levaram atrás de si.

Nessa mesma noite escrevi os meus versos A Visão. Dormi mal e acordei cedo. Abri a janela do sótão, e a luz que entrou no meu pobre aposento ainda mais aumentou o meu delírio da véspera. Comparei as minhas alfaias de estudante com as sedas, cachemiras, joias e cavalos de Sílvia, e compus umas sextilhas que não transcrevo aqui para não dar ciúmes à minha tabelioa, a quem já as recitei, dizendo que não prestavam para nada. E creio que não. Se as citasse não seria mais que por veracidade e modéstia, mas prefiro a paz doméstica ao complemento do escrito. Em verdade, não há negar que por esses dias andei tonto. Não seria exatamente por aquela moça do teatro, mas por todas as outras da mesma condição e de iguais atavios. Tornei ao teatro dali a dias, e vi-a, em outro camarote, com igual luxo e a mesma graça fina. Os meus companheiros de escola não me permitiram fitá-la exclusivamente; mas como deveras amavam a música, e a ouviam sem mais nada, eu aproveitava os melhores trechos da ópera para mirar a minha incógnita.

- Quem é aquela moça? - perguntei a um deles, à saída no saguão.

- Não sei.

Ninguém me disse nada, não a encontrei mais, nem na rua do Ouvidor, nem nos bairros elegantes por onde me meti, à espera do acaso. Afinal abri mão deste sonho, e deixei-me estar no meu sótão, com os meus livros e os meus versos. Foi então que outra moça me apareceu.

O meu sótão dava para o morro do Castelo. Numa daquelas casas trepadas no morro, desordenadamente, vi um vulto de mulher, mas só adivinhei que o era pelo vestido. Cá de longe, e um pouco de baixo, não podia distinguir as feições. Estava afeito a ver mulheres nas outras casas do morro, como nos telhados da rua da Misericórdia, onde algumas vinham estender as roupas que lavavam. Nenhuma me atraía mais que por um instante de curiosidade. Em que é que aquela me prendeu mais tempo? Cuido que, em primeiro lugar, o meu estado de vocação amorosa, a necessidade de uma droga que me curasse daquela febre recente e mal extinta. Depois - e pode ser que esta fosse a principal causa -, porque a moça de que trato parecia justamente olhar de longe para mim, ereta no fundo escuro da janela. Duvidei disto a princípio, mas erigi também o corpo, ergui a cabeça, adiantei-a sobre o telhado, recuei, fiz uma série de gestos que revelassem o interesse e a admiração. A mulher deixou-se estar, nem sempre na mesma atitude, inclinava-se, olhava para um e outro lado, mas tornava logo, e continuava ereta no fundo escuro.

Isto aconteceu de manhã. De tarde, não pude vir a casa, jantei com os rapazes. Na manhã seguinte, quando abri a janela, já achei na outra do morro a figura da véspera. Esperava-me, decerto; a atitude era a mesma, e, sem poder jurar que lhe vi algum movimento de longe, creio que fez algum. Era natural fazê-lo, caso me esperasse. No terceiro dia cumprimentei-a cá de baixo; não respondeu ao gesto e pouco depois entrou. Não tardou que voltasse, com os mesmos olhos, se os tinha - que eu não podia ver nada -, estirados para mim. Estes preliminares duraram cerca de duas semanas.

Então eu fiz uma reflexão filosófica acerca da diferença de classes; disse comigo que a própria fortuna era por essa graduação dos homens, fazendo com que a outra moça, rica e elegante, de alta classe, não desse por mim, quando estava a tão poucos passos dela, sem tirar dela os olhos, ao passo que esta outra, medíocre ou pobre, foi a primeira que me viu e me chamou a atenção. "É assim mesmo", pensei eu; "a sorte destina-me esta outra criatura que não terá de subir nem descer, para que as nossas vidas se entrelacem e nos dêem a felicidade que merecemos." Isto me deu uma ideia de versos. Lancei-me à velha mesa de pinho, e compus o meu recitativo das Ondas: "A vida é onda dividida em duas... "

"A vida é onda dividida em duas... " Oh! Quantas vezes disse eu este recitativo aos rapazes da Escola e a uma família da rua dos Arcos! Não frequentava outras casas; a família compunha-se de um casal e de uma tia, que também fazia versos. Só muitos anos depois vim a entender que os versos dela eram maus; naquele tempo achava-os excelentes. Também ela gostava dos meus, e os do recitativo, dizia-os sublimes. Sentava-se ao piano um pouco desafinado, logo que eu lá entrava, e, voltada para mim:

- Sr. Josino, vamos ao recitativo.

- Ora, D. Adelaide, uns versos que...

- Que o quê? Ande: "A vida é onda dividida em duas... "

E eu:

- A vida é onda dividida em duas...

- Delicioso! - exclamava ela no fim, entornando os olhos murchos e cobiçosos.

Os meus colegas da Escola eram menos entusiastas; alguns gostavam dos versos, outros não lhes davam grande valor, mas eu lançava isto à conta da inveja ou da incapacidade estética. Imprimi o recitativo nos semanários do tempo. Sei que foi recitado em várias casas, e ainda agora me lembro que, um dia, passando pela rua do Ouvidor, ouvi a uma senhora dizer a outra: "Lá vai o autor das Ondas".

Nada disso me fez esquecer a moça do morro do Castelo, nem ela esquecia. De longe, sem nos distinguirmos um ao outro, continuávamos aquela contemplação que não podia deixar de ser muda, posto que eu às vezes desse por mim a falar alto: "Mas quem será aquela criatura?" e outras palavras equivalentes. Talvez ela perguntasse a mesma cousa. Uma vez, lembrando-me de Sílvia, consolei-me com esta reflexão:

"Será uma por outra; esta pode ser até que valha mais. Elegante é; isso vê-se cá mesmo de longe e de baixo. "

Os namoros dos telhados são pouco sabidos das pessoas que só têm namorado nas ruas; é por isso que não têm igual fama. Mais graciosos são, e romanescos também. Eu já estava acostumado a eles. Tivera muitos, de sótão a sótão, e mais próximos um do outro. Víamo-nos os dous, ela estendendo as roupas molhadas da lavagem, eu a folhear os meus compêndios. Risos de cá e de lá, depois rumo diverso, um pai ou mãe que descobria a troca de sinais e mandava fechar as janelas, uma doença, um arrufo e tudo acabava.

Desta vez, justamente quando eu não podia distinguir as feições da moça, nem ela, as minhas, é que o namoro estava mais firme e continuava. Talvez por isso mesmo. O vago é muito em tais negócios; o desconhecido atrai mais. Assim foram decorrendo dias e semanas. Já tínhamos horas certas, dias especiais em que a contemplação era mais longa. Eu, depois dos primeiros tempos, temi que houvesse engano da minha parte, isto é, que a moça olhasse para outro sótão, ou simplesmente para o mar. O mar, não digo: não prenderia tanto, mas a primeira hipótese era possível. A coincidência, porém, dos gestos e das atitudes, a espécie de respostas dadas à espécie de perguntas que eu lhe fazia trouxeram-me a convicção de que realmente éramos nós dous os namorados. Um colega da Escola, por esse tempo meu camarada íntimo, foi o confidente daquele mistério.

- Josino - disse-me ele -, e por que é que não vais ao morro do Castelo?

- Não sei onde fica a casa.

- Ora essa! Marca bem a posição cá de baixo, vê as que lhe ficam ao pé e sobe; se não estiver na ladeira, há de estar no alto em algum lugar...

- Mas não é só isto - disse eu -; penso que se lá for e achar a casa é o mesmo que nada. Poderei conhecê-la, mas como é que ela saberá quem eu sou?

- É boa! Tu ficas conhecendo a pessoa, e escreve-lhe depois que o moço assim e assim lhe passou pela porta, em tal dia, a tantas horas, é o mesmo do sótão da rua da Misericórdia.

- Já pensei nisso - respondi dali a um instante -, mas confesso-te que não quis tentar nada.

- Por quê?

- Filho, o melhor deste meu namoro é o mistério...

- Ah! Poesia!

- Não é poesia. Eu, se me aproximo dela, posso vir a casar, e como me hei de casar sem dinheiro? Para ela esperar que eu me forme, e arranje um emprego...

- Bem; é então um namoro de passagem, sempre dá para versos e para matar tempo.

Deitei fora o cigarro, apenas começado (estávamos no Café Carceller), e dei um murro no mármore da mesa; acudiu o criado a perguntar o que queríamos, respondi-lhe que fosse bugiar, e após alguns instantes declarei ao meu colega que não pensava em matar tempo.

- Vá que faça versos; é um desabafo, e ela merece-os; mas matar o tempo, deixá-la ir aos braços de outro...

- Então... queres... raptá-la?

- Oh! Não! Tu bem sabes o que eu quero, Fernandes. Eu quero e não quero; casar é o que eu quero, mas não tenho meios, e estou apaixonado. Esta é a minha situação.

- Francamente, Josino; fala sério, não me respondas com chalaças. Tu estás deveras apaixonado por essa moça?

- Estou.

- Essa moça, quero dizer, esse vulto, porque tu não sabes ainda se é moça ou velha.

- Isso vi; a figura é de moça.

- Em suma, um vulto. Nunca lhe viste a cara, não sabes se é feia ou bonita.

- É bonita.

- Adivinhaste?

- Adivinhei. Há um certo sentido na alma dos que amam que faz ver e saber as cousas ocultas ou obscuras, como se fossem claras e patentes. Crê, Fernandes; esta moça é bela, é pobre, e está douda por mim; eis o que te posso afirmar, tão certo como aquele tílburi estar ali parado.

- Que tílburi, Josino? - perguntou-me ele depois de puxar uma fumaça ao cigarro -. Aquilo é uma laranjeira. Parece tílburi por causa do cavalo, mas todas as laranjeiras têm um cavalo, algumas, dous; é a matéria do nosso segundo ano. Tu mesmo és um cavalo pegado a uma laranjeira, como eu; estamos ambos ao pé de um muro, que é o muro de Troia, Troia é dos troianos, e a tua dama naturalmente cose para fora. Adeus, Josino - continuou ele erguendo-se e pagando o café -; não dou três meses que não estejas doudo, a menos que o doudo não seja eu.

- Vai caçoar para o diabo que te leve! - exclamei furioso.

- Amém!

Este Fernandes era o chalaceiro da Escola, mas todos lhe queriam bem, e eu, mais que todos. No dia seguinte foi visitar-me ao sótão. Queria ver a casa do morro do Castelo. Verifiquei primeiro se ela estava à janela; vendo que não, mostrei-lhe a casa. Reparou bem onde era, e acabou dizendo-me que ia passar por lá.

- Mas eu não te peço isto.

- Não importa. Vou descobrir a caça, e direi depois se é má ou boa. Ora espera; lá está um vulto.

- Entra, entra -disse-lhe puxando por ele -. Pode ver-te e desconfiar que estou publicando o nosso namoro. Entra e espera. Lá está, é ela...

A vista de meu colega não dava para descobrir de baixo e de longe as feições da minha namorada. Fernandes não pôde saber se ela era feia ou bonita, mas concordou que o ar do corpo era elegante. Quanto à casa, estava marcada; iria rondar por ela, até descobrir a pessoa. E por que não comprava eu um binóculo? - perguntou-me. Achei-lhe razão. Se na ocasião achasse igualmente dinheiro teria o binóculo na manhã seguinte; mas, na ocasião faltava-me dinheiro e os binóculos já então não eram baratos. Respondi com a verdade, em primeiro lugar; depois aleguei ainda a razão do vago e do incerto. Era melhor não conhecer a moça completamente. Fernandes riu-se e despediu-se.

A situação não mudou. Os dias e as semanas não fizeram mais que apertar-nos um ao outro, sem estreitar a distância. Mostras e contemplações de longe. Cheguei aos sinais de lenços, ela também. De noite, tinha vela acesa até tarde; ela, se não ia até à mesma hora, chegava às dez, uma noite apagou a vela às onze. De ordinário, apesar de já não ver a luz dela, conservava a minha acesa, para que ela dormisse tarde, pensando em mim. As noites não foram assim seguidas, desde princípio; tinha hábitos noturnos, passeios, teatros, palestras ou cafés, que eram grande parte da minha vida de estudante; não mudei logo. Mas ao cabo de um mês, entrei a ficar todas as noites em casa. Os outros estudantes notavam a ausência; o meu confidente espalhava que eu trazia uns amores secretos e criminosos.

O resto do tempo era dado às musas. Convocava-as - elas vinham dóceis e amigas. Horas e horas enchíamos o papel com versos de vária casta e metro, muitos dos quais eram logo divulgados pelas gazetas. Uma das composições foi dedicada à misteriosa moça do Castelo. Não tinham outra indicação; aquela pareceu-me bastante ao fim proposto, que era ser lido e entendido. Valha-me Deus! Julguei pelas suas atitudes daquele dia que realmente os versos foram lidos por ela, entendidos finalmente e beijados.

Chamei-lhe Pia. Se me perguntares a razão deste nome, ficarás sem resposta; foi o primeiro que me lembrou, e talvez porque a Ristori representava então a Pia de Tolomei. Assim como chamei Sílvia à outra, assim chamei Pia a esta: mania de lhe dar um nome. A diferença é que este se prestava melhor que o outro a alusões poéticas e morais; atribuí naturalmente à desconhecida a piedade de uma grande alma para com uma pobre vida, e disse isto mesmo em verso - rimado e solto.

Um dia, ao abrir a janela, não vi a namorada. Já então nos víamos todos os dias, a hora certa, logo de manhã. Posto que eu não tivesse relógio, sabia que acordava cedo, à mesma hora; quando erguia a vidraça, já a via à minha espera, no alto. Daquela vez a própria janela estava fechada. Estaria dormindo, esperei; o tempo correu, saí para o almoço e para a Escola. O mesmo no dia seguinte. Supus que seria ausência ou moléstia; esperei. Passaram-se dois dias, três, uma semana. Fiquei desesperado; não exagero, fiquei fora de mim. E não pude dissimular esse estado; o meu confidente da Escola desconfiou que havia alguma cousa, eu contei-lhe tudo. Fernandes não acabava de crer.

- Mas como, Josino? Pois uma criatura que nem sequer conheces... é impossível! A verdade é que nunca a viste; mirar de longe um vulto não é ver uma pessoa.

- Vi-a, gosto dela, ela gosta de mim, aí tens.

- Confessa que amanhã, se a encontrares na rua, não és capaz de a conheceres.

- O meu coração há de conhecê-la.

- Poeta!

- Matemático!

Tínhamos razão os dous. Não é preciso explicar a afirmação dele; explico a minha. O meu amor, como vistes, era puramente intelectual; não teve outra origem. Achou-me, é verdade, inclinado a amar, mas não brotou nem cresceu de outra maneira. Tal era o estado da minha alma - e por que não do meu tempo? -, que assim mesmo me governou. Acabei amando um fantasma. Vivi por uma sombra. Um puro conceito - ou quase - fazia-me agitar o sangue. Essa mulher - casada ou solteira, feia ou bonita, velha ou moça -, quem quer que era que eu não conheceria na rua, se a visse, enchia-me de saudades. Fiquei arrependido de não a ter buscado no morro; haver-lhe-ia escrito, saberia quem era, e para onde fora, ou se estava doente. Esta última hipótese sugeriu-me a ideia de ir ao morro procurar a casa. Fui; ao cabo de algum tempo e trabalho dei com a casa fechada. Os vizinhos disseram-me que a família saíra para um dos arrabaldes, não sabiam qual deles.

- Está certo que é a família Vieira? - perguntei eu cheio de maquiavelismo.

- Vieira? Não, senhor; é a família Maia, um Pedro Maia, homem do comércio.

- Isso mesmo; tem loja na rua de São Pedro, São Pedro ou Sabão...

- A rua não sabemos; não se dá com vizinhos. Há de crer que só ultimamente nos cumprimentava? Muito cheio de si. Se é seu amigo, desculpe...

Fiz um gesto de desculpa, mas fiquei sem saber a loja do homem, nem o arrabalde para onde fora; sabia só que tornaria à casa, e era muito. Desci animado. "Bem: não a perdi, ela volta", disse comigo.

- E terá pensado em mim?

Resolvi pela afirmativa. A imaginação mostrou-me a desconhecida vendo passar as horas e os dias, onde quer que estava com a família, a cuidar no desconhecido da rua da Misericórdia. Talvez me tivesse feito na véspera da partida algum sinal que não pude ver. Se cuidou que sim, estaria um pouco mais consolada, mas a dúvida poderia assaltá-la, e a inquietação complicaria a tristeza.

Entramos nas férias. A minha ideia era não ir à província, ficar por qualquer pretexto, e esperar a volta da minha diva. Não contava com a fatalidade. Perdi minha mãe; recebi carta do meu pai, dizendo estar à minha espera. Haveis de crer que hesitei? Hesitei; mas a ordem era imperiosa, a ocasião, triste, e meu pai não brincava.

- Vou, não tenho remédio, mas...

Como dizer à misteriosa Pia que ia à província, que voltaria dous ou três meses depois, e que me esperasse? A princípio, lembrou-me incumbir o meu colega Fernandes de a avisar, de manter o sacro fogo, até que me achasse de volta. Fernandes era assaz engenhoso e tenaz para desempenhar-se disto; mas abri mão dele, por vergonha. Então lembrou-me outra cousa; não deixaria o sótão, conservá-lo-ia alugado, mediante a garantia do correspondente de meu pai, a pretexto de não haver melhor lugar para residência de estudante. Quando voltasse, já ela estaria ali também. Não se enganaria com outro, porque nunca a janela se abriria na minha ausência; eu, apenas tornasse, recomeçaria a conversação de outro tempo. Isto feito, meti-me no vapor. Custa-me dizer que chorei, mas chorei. ( * )

Tudo o que vos acabo de dizer é vergonhoso, como plano, e dá ideia de uma sensibilidade mui pouco matemática; mas, sendo verdade, como é, e consistindo nesta o único interesse da narração, se algum lhe achais, força é que vos diga o que se passou naquele tempo.

Embarquei, e fui para a província. Meu pai achou-me forte e belo, disse que tinha boas notícias minhas, tanto de rapaz como de estudante, dadas pelo correspondente e outras pessoas.

Gostei de ouvi-lo e cuidei de confirmar a opinião, metendo-me a estudar nas férias. Dous dias depois, declarou-me ele que estava disposto a fazer-me trocar de carreira. Não entendi. Ele explicou-me que, bem pensado, era melhor bacharelar-me em direito; todos os seus conhecidos mandavam os filhos para o Recife. A advocacia e a magistratura eram bonitas carreiras, não contando que a Câmara dos Deputados e o Senado estavam cheios de juristas. Todos os presidentes de província não eram outra cousa. Era muito mais certo, brilhante e lucrativo. Repetiu-me isto por dias. Eu rejeitei os presentes de Artaxerxes; combati as suas ideias, desdenhei da jurisprudência, e nisto era sincero; as matemáticas e a engenharia faziam-me seriamente crer que o estudo e a prática das leis eram ocupações ocas. Para mim a linha mais curta entre os dous pontos valia mais que qualquer axioma jurídico. Assim quê, não era preciso ter nenhuma paixão amorosa para me animar a recusar o Recife; é certo, porém, que a moça do Castelo deu algum calor à minha palavra. Já agora queria acabar um romance tão bem começado.

Sobretudo havia em mim, relativamente à moça do Castelo, uma aventura particular. Não queria morrer sem conhecê-la. O fato de haver deixado o Rio de Janeiro sem tê-la visto de perto, cara a cara, pareceu-me fantástico. Achei razão ao Fernandes. A distância tornava mais dura esta circunstância, e a minha alma começou a ser castigada pelo delírio. Delírio é termo excessivo e ambicioso, bem sei; maluquice diz a mesma cousa, é mais familiar e dá a esta confissão uma nota de chufa que não destoa muito do meu estado. Mas é preciso alguma nobreza de estilo em um namorado daqueles tempos, e namorado poeta, e poeta cativo de uma sombra. Meu pai, depois de teimar algum tempo no Recife, abriu mão da ideia e consentiu em que eu continuasse as matemáticas. Como me mostrasse ansioso por tornar à Corte, desconfiou que andassem comigo alguns amores espúrios, e falou de corrupção carioca.

- A Corte sempre foi um poço de perdição; perdi lá um tio...

O que lhe confirmou esta suspeita foi o fato de haver ficado por minha conta o sótão da rua da Misericórdia. Custou-lhe muito aceitar este arranjo, e quis escrever ao correspondente; não escreveu, mas agora pareceu-lhe que o sótão ficara em poder de alguma moça minha, e como não era de biocos disse-me o que pensava e ordenou-me que lhe confessasse tudo.

- Antes quero que me fales verdade, qualquer que seja. Sei que és homem e posso fechar os olhos, contanto que te não percas... Vamos, o que é.

- Não é nada, meu pai.

- Mau! Fala verdade.

- Está falada. Meu pai escreva ao Sr. Duarte, e ele dirá se o sótão não está fechado à minha espera. Não há muitos sótãos vagos no Rio de Janeiro; quero dizer em lugar que sirva, porque não hei de ir para fora da cidade, e um estudante deve estar perto da Escola. E aquele é tão bom! - continuei com o pensamento na minha Pia -. Não pode imaginar que sótão, a posição, o tamanho, a construção; no telhado há um vaso com miosótis, que dei à gente de baixo, quando embarquei; hei de comprar outro.

- Comprar outro? Mas tu estudas para engenheiro ou para jardineiro?

- Meu pai, as flores alegram, e não há estudante sério que não tenha um ou dous vasos de flores. Os próprios lentes...

Hoje dói-me escrever isto; era já uma troça de estudante, tanto mais condenável quanto meu pai era bom e crédulo. Certamente, eu possuía o vaso e a doce flor azul, e era verdade que o tinha dado à gente da casa; mas vós sabeis que o resto era invenção.

- E depois és poeta - concluiu meu pai rindo.

Parti para a Corte alguns dias antes do prazo. Não esqueço dizer que, durante as férias, compus e mandei publicar na imprensa fluminense várias poesias datadas da província. Eram dedicadas à "moça do Castelo", e algumas falavam de janelas cerradas. Comparava-me aos pássaros que emigram, mas prometem voltar cedo, e voltam. Jurava neles que tornaria a vê-la em breves dias. Não assinei esses versos; meu pai podia lê-los, e acharia assim explicado o sótão. Para ela a assinatura era desnecessária, visto que me não conhecia.

Encontrei a bordo um homem, que vinha do Pará, e a quem meu pai me apresentou e recomendou. Era negociante do Rio de Janeiro; trazia mulher e filha, ambas enjoadas. Gostou de mim, como se gosta a bordo, sem mais cerimônia, e viemos conversando por ali fora. Tinha parentes em Belém, e era associado em um negócio de borracha. Contou-me cousas infinitas da borracha e do seu futuro. Não lhe falei de versos; dando comigo a ler alguns, exclamou rindo:

- Gosta de versos? A minha Estela gosta, e desconfio até que é poetisa.

- Também faço o meu versinho de pé quebrado, disse eu com modéstia.

- Sim? Pois ela... Não confunda, não falo de minha mulher, mas de minha filha. Já uma vez dei com Estela a escrever, com uma amiga, na mesma mesa, uma de um lado, outra de outro, e as linhas não iam ao fim. Feliciana falou-lhe nisso, e ela respondeu rindo que era engano meu; desconfio que não.

No porto de Recife, vi Estela e a mãe, e daí até o Rio de Janeiro pude conversar com elas. A filha, como eu lhe falasse do que o pai me contara, autorizado por ele, que disse que os poetas naturalmente têm mais confiança entre si que com estranhos, respondeu envergonhada que era falso; tinha composto meia dúzia de quadrinhas sem valor. Naturalmente protestei contra o juízo, e esperei que me desse alguma estrofe, mas teimou em calar. Era criatura de vinte anos, magra e pálida; faltava-lhe a elegância e a expressão que só em terra lhe vi, uma semana depois de chegados. Os olhos eram cor do mar. Esta circunstância fez-me escrever um soneto que lhe ofereci, e que ela ouviu com muito prazer, entre a mãe e o pai. O soneto dizia que os olhos, como as vagas do mar, encobriam o movimento de uma alma grande e misteriosa. Assim, em prosa, não tem graça; os versos não eram absolutamente feios, e ela fez-me o favor de os achar parecidos com os de Gonçalves Dias, o que era pura exageração. No dia seguinte disse-lhe o meu recitativo das Ondas: "A vida é onda dividida em duas...". Achou-o muito bonito.

- Tem a beleza da oportunidade; estamos no mar - retorqui eu.

- Não, senhor, são bonitos versos. Peço-lhe que os escreva no meu álbum quando chegarmos.

Chegamos. O pai ofereceu-me a casa; eu dei-lhe o número da minha, explicando que era um sótão de estudante.

- Os pássaros também moram alto - disse Estela.

Sorri, agradeci, apertei-lhe a mão, e corri para a rua da Misericórdia. A moça do Castelo chamava-me. De memória, tinha ante mim aquele corpo elegante, ereto no escuro da janela, erguendo os braços curvos, como asas de uma ânfora... Pia, Pia, santa e doce, dizia o meu coração batendo; aqui venho, aqui trago o sangue puro e quente da mocidade, ó minha doce Pia santa!

Nem Pia, nem nada. Durante três, quatro, cinco dias, não me apareceu o vulto do Castelo. Não sabendo que eu tornara ao sótão, é natural que não viesse ali às nossas horas de outro tempo. Também podia estar doente, ou fora, na roça ou na cidade. A ideia de que se houvesse mudado só me acudiu no fim de duas semanas, e admirou-me que não houvesse pensado nisso mais cedo.

- Mudou-se, é o que é.

A esperança disse-me que era impossível haver-se mudado. Mudado para onde? Onde iria uma moça, cujo busto ficava tão bem no escuro da janela e no alto do morro, com espaço para se deixar admirar de longe, levantar os braços e tão em direitura do meu sótão? Era impossível; assim ninguém se muda.

Já então visitara o negociante. A filha deu-me o álbum para escrever o recitativo das Ondas, e mostrou-me duas poesias que fizera depois de chegar: Guanabara e Minhas flores.

- Qual acha mais bonita?

- Ambas são bonitas.

- Mas uma há de ser mais que a outra - insistiu Estela -; é impossível que o senhor não ache diferença.

- Tem a diferença do assunto; a primeira canta a cidade e as águas; a segunda é mais íntima, fala das flores que não quiseram esperar pela dona, e compara-as às felicidades que também não esperam; eis a diferença.

Estela ouviu-me com os olhos muito abertos, e toda a vida neles. Uma sombra de sorriso mostrava que a minha apreciação lhe dava gosto. Após alguns instantes abanou a cabeça.

- Parece-me que o senhor gosta mais da Guanabara...

- Não há tal!

- Então não presta?

- Que ideia, D. Estela! Pois um talento como o seu há de fazer versos que não prestem?

- Acha-me talento?

- Muito.

- É bondade sua. Então a outra é que lhe parece melhor?

Como teimasse muito, achei de bom aviso concordar que uma delas era melhor, e escolhi Minhas flores. E pode ser que fosse assim mesmo; Guanabara era uma reminiscência de Gonçalves Dias. Pois a escolha foi o meu mal. Estela ficou meio alegre, meio triste, e daí em diante quando me mostrava alguns versos, e eu os achava bons, tinha de lutar muito para prová-lo; respondia-me sempre que já da primeira vez a enganara.

A ação do tempo fez-se naturalmente sentir, em relação à moça do Castelo. Um dia vi ali um vulto, e acreditei que fosse a minha incógnita; tinha uma blusa branca; atentei bem, era um homem em mangas de camisa. Fiquei tão vexado de mim e daquela interminável esperança, que pensei em mudar de casa. A alma do rapaz é que principalmente reagiu - e as matemáticas venceram a fantasia - cousa que poderiam ter feito muito antes. Conto assim a minha história, sem confiança de ser crido, não por ser mentira, mas por não saber contá-la. A cousa vai como me lembra e a pena sabe, que não é muito nem pouco. As matemáticas não só venceram a fantasia, mas até quiseram acabar com os versos; disseram-me que nem fosse mais à casa de Estela.

- É o que vou fazer; nem versos de homens nem de mulheres. E depois, já penso demais naquela espevitada...

Espevitada! Daí a algumas semanas a lembrança deste nome enchia-me de remorsos; estava apaixonado por ela. Achava-lhe os versos deliciosos, a figura, angélica, a voz, argentina (rimando com divina, musa divina), toda ela uma perfeição, uma fascinação, uma salvação. Os versos que fiz por esse tempo não têm conta na aritmética humana. A musa entrou-me em casa e pôs fora as matemáticas. Ficou ela só, e os seus metros e consoantes, que ainda não eram ricos nem raros como agora. As flores que rimei com amores, os céus que rimei com véus podiam receber outros mundos e cobri-los a todos. Ela era menos fecunda que eu, mas os versos continuavam a ser deliciosos. Já então eu os declarava tais com entusiasmo.

- Não está caçoando?

- Não, meu anjo! Pois eu hei de... ? São lindíssimos; recita outra vez.

E ela recitava, e eu ouvia com os olhos em alvo. Projetamos imprimir e publicar os nossos versos em um só volume comum, com esse título: Versos dela e dele. A ideia foi minha, e ela gostou tanto que começou logo a copiá-los em um livro que tinha em branco. As composições seriam alternadas, ou as de cada um de nós formariam uma parte do livro? Nesta questão gastamos muitos dias. Afinal resolvemos alterná-las.

- Uns serão conhecidos pela própria matéria, outros, pela linguagem -, disse eu.

- Quer dizer que a minha linguagem não presta para nada?

- Que ideia, minha Estela!

- E acho que não tem razão: não presta.

Como estávamos sós, ajoelhei-me e jurei pelo céu e pela terra, pelos olhos dela, por tudo o que pudesse haver mais sagrado que não pensava assim. Estela perdoou-me e começou a cópia dos versos.

Nisso estávamos, eu ia pouco à Escola, e via raras vezes o Fernandes; este um dia levou-me a um café, e disse-me que ia casar.

- Tu?

- Sim; caso-me no princípio do ano, depois de tomar o grau, e mal sabes com quem.

- Pois também eu caso-me - disse-lhe daí a alguns segundos.

- Também?

- Ainda não está pedida a noiva, mas é certo que me caso, e não espero o fim dos estudos. Há de ser daqui a meses.

- Não é a do Castelo?

- Oh! Não! Nem pensei mais nisso: é outra, e falta só pedir-lhe autorização e falar ao pai. É filha de um negociante. Conheci-a a bordo.

- Que singular caso! - exclamou o Fernandes -. Sabes tu com quem me caso? Com a moça do Castelo.

Explicou-me tudo. Sabendo que a noiva morava no Castelo, falou-lhe de mim e do namoro; ela negou, mas ele insistiu tanto que Margarida acabou confessando e rindo muito do caso.

- Sabes que não sou de ciúmes retrospectivos. Queres tu vê-la? Agora que vocês dous estão para casar, e nunca se conheceram, há de ser curioso verem-se e conhecerem-se; eu direi a Margarida que és tu, mas que tu não sabes; tu ficas sabendo que é ela e que ela não sabe.

Poucos dias depois, Fernandes levou-me à casa da noiva. Era na rua do Senado, uma família de poucos meios, pai, mãe, duas filhas, uma de onze anos. Margarida recebeu-me com afabilidade; estimava muito conhecer um amigo e colega do noivo, e tão distinto como lhe ouvira dizer muitas vezes. Não respondi nada; quis honrar a escolha da esposa que o meu Fernandes fizera, mas não achei palavra que exprimisse este pensamento. Todo eu era, ou devia ser uma boca aberta e pasmada. Realmente, era uma bela criatura. Ao vê-la, recordei os nossos gestos de janela a janela, estive a ponto de lhe atirar, como outrora, o beijo simbólico, e pedir-lhe que levantasse os braços. Ela não respondera nunca aos beijos, mas erguia os braços de si mesma por um instinto estético. E as longas horas, as tardes, as noites... Todas essas reminiscências vieram ali de tropel, e por alguns minutos encheram-me a alma, a vista, a sala, tudo o que nos cercava.

- O doutor fala-me muita vez no senhor - insistiu Margarida.

- Fala de um amigo - murmurei finalmente.

Tendo-me ele dito que ela sabia ser eu o namorado do sótão, pareceu-me ver em cada gesto da moça alguma repetição daquele tempo. Era ilusão; mas que esperar de uma alma de poeta, perdida em matemáticas? Saí de lá com recordações do passado. A vista da rua e do presente, e sobretudo a imagem de Estela desfizeram aqueles fumos.

Há encontros curiosos. Enquanto eu conversava com Margarida, e evocava os dias de outrora, Estela compunha versos, que me mostrou no dia seguinte, com este título: Que é o passado? Imediatamente peguei do lápis, respondi com outros que denominei: Nada. Não os transcrevo por não me parecerem dignos do prelo; falo dos meus. Os dela eram bons, mas não devo divulgá-los. São segredos do coração. Digo só que a modéstia de Estela fê-los achar inferiores aos meus, e foi preciso muito trabalho para convencê-la do contrário. Uma vez convencida, releu-os à minha vista três e quatro vezes; pelo meio da noite, dei com os olhos dela perdidos no ar, e, como tinha ciúmes, perguntei-lhe se pensava em alguém.

- Que tolice!

- Mas...

- Estava recitando os versos. Você acha mesmo que são bonitos?

- São muito bonitos.

- Recite você.

Peguei dos versos de Estela e recitei-os outra vez. O prazer com que ela os ouvia foi, não digo enorme, mas grande, muito grande; tão grande que ainda os recitei uma vez mais.

- São lindos! - exclamei no fim.

- Não diga isso!

- Digo, sim; são deliciosos.

Não acreditou, posto sorrisse; o que fez foi recitar os versos ainda uma vez ou duas, creio que duas. Eram só três estrofes; vim de lá com elas de cor.

A poesia dava à minha namorada um toque particular. Quando eu estava com o Fernandes dizia-lhe isso, ele dizia-me outras cousas de Margarida, e assim trocávamos as nossas sensações de felicidade. Um dia comunicou-me que ia casar dali a três meses.

- Assentou-se tudo ontem. E tu?

- Eu vou ver, creio que breve.

Casaram no dito prazo. Lá estive na igreja do Sacramento. Ainda agora penso como é que pude assistir ao casamento da moça do Castelo. Verdade é que estava preso à outra, mas as recordações, qualquer que fosse o meu atual estado, deviam fazer-me repugnante aquele espetáculo da felicidade de um amigo, com uma pessoa que... Margarida sorria encantada para ele, e aceitou os meus cumprimentos sem a menor reminiscência do passado... Sorriu também para mim, como qualquer outra noiva. Um tiro que levasse a vida ao meu amigo seria duro para mim, far-me-ia padecer muito e longo; mas houve um minuto, não me recordo bem qual, ao entrar ou sair da igreja, ou no altar, ou em casa, minuto houve em que, se ele cai ali com umas cãibras, eu não amaldiçoaria o céu. Expliquem-me isto. Tais foram as sensações e ideias que me assaltaram, e com algumas delas saí da casa deles, às dez horas da noite; iam dançar.

- Então a noiva estava bonita? - perguntou-me Estela no dia seguinte.

- Estava.

- Muito?

Refleti um instante e respondi.

- Menos que você, quando cingir o mesmo véu.

Estela não acreditou, por mais que lhe jurasse que tal era minha convicção: eram cumprimentos. Tinha justamente composto na véspera uma poesia, sobre o assunto, mas tão ruim, que não a mostraria; disse apenas o primeiro verso:

Se hei de cingir um véu de noiva ou freira...

- Diga os outros!

- Não digo, que não prestam.

Como eu não teimasse, e ela quisesse provar que não prestavam, recitou-os assim mesmo, e confesso que não os achei tão ruins. Foi o nosso primeiro e sério arrufo. Estela suspeitou que eu estava caçoando, e não me falou durante uns vinte minutos. Afinal reconciliamo-nos. Como eu lhe não pedisse os versos, viu nisso a prova de que eles não prestavam para nada, e disse-mo. Provei-lhe o contrário, arrancando-lhe o papel da mão.

- Amanhã lhe dou cópia deles.

Copiei-os à noite, sonhei com ela, e no dia seguinte levei-lhe a cópia. Encontrei-a em caminho, com algumas amigas: iam ver um grande casamento. Acompanhei-as; à porta da igreja estavam ricas carruagens, cavalos magníficos, librés de bom gosto, povo à porta, povo dentro. Os noivos, os pais, os convidados esperavam o padre, que apareceu alguns minutos depois. Compreendi o gosto das moças em ver casamentos alheios; também eu estava alvoroçado. O que ninguém ali teve, creio e juro, foi a impressão que recebi quando dei com os olhos na noiva; era nada menos que a moça do teatro, a quem eu dera o nome de Sílvia, por lhe não saber outro. Só uma vez a vira, mas as feições não se apagaram da memória apesar de Margarida, apesar de Estela. O estremeção que tive não foi visto por ninguém: todos os olhos eram poucos para ela e para ele. Quem era ele? Um jovem médico.

Não houvera entre mim e esta moça mais que o encontro daquela noite do teatro; mas a circunstância de assistir ao seu casamento, como já assistira ao de Margarida, dava-lhe agora um cunho especial. Estaria eu destinado a ver ir para os braços alheios os meus sonhos mais íntimos? Assisti ao casamento de Sílvia o menos que pude, olhando para outras pessoas; afinal tudo acabou, os noivos, os pais e os convidados saíram; Estela e as amigas foram vê-los entrar nas carruagens.

- Que é que tem? - perguntou-me ela na rua.

- Dir-lhe-ei depois.

- Quando?

- Logo.

Em casa disse-lhe que pensava no dia em que fôssemos objeto da curiosidade pública, e a nossa felicidade se consumasse assim.

- Não tardará muito -, acrescentei -; uma vez formado, virei pedi-la.

Os olhos dela confirmavam este acordo, e a musa o fez por versos que foram dos mais belos que li da minha poetisa.

Sim, o casamento aparecia-me como uma necessidade cada vez maior. Tratei de ir preparando as cousas de modo que, uma vez formado, não me demorasse muito. Antes disso, era impossível que meu pai consentisse. Estela estava por tudo; assim mo disse em prosa e verso. A prosa era a das nossas noites de conversação, ao canto da janela. O verso foi o de um soneto em que se comparava à folha, que vai para onde o vento a leva; o fecho era este:

Eu sou a folha, tu serás o vento.

Ao recordar todas essas cousas, sinto que muitas delas era melhor que se perdessem; revivê-las não paga o esforço, menos ainda a tristeza, a saudade, ou como quer que chamemos a um sentimento que, sem levar a gente a detestar o dia de hoje, traz não sei que remoto sabor do dia de ontem... Não, não deixo o meu cartório de tabelião do Ceará; na minha idade, e depois da minha vida, é o melhor Parnaso que conheço. As escrituras, se não rimam umas com outras, rimam com as custas, e sempre me dão algum prazer para recordar versos perdidos, de par com outros que são eternos... Fiquemos tabelião.

Íamos passando o tempo, sem grave incidente, quando uma tarde o pai de Estela entrou em casa, anunciando à mulher e à filha que tinha de ir a São Paulo. Não compreendi por que razão D. Feliciana empalideceu. Era uma senhora de vida severa e monótona, sem paixões, sem emoções. Depois é que me contaram algo que me explicou tudo. O marido de D. Feliciana tinha agora os negócios complicados, e parece que uma vez falara à mulher em fugir do Rio de Janeiro. Foi o que me disseram uns; outros falavam de amores. Tudo era mentira, mas D. Feliciana, creio que teve medo de uma e de outra cousa, senão de ambas, e, com uma doçura incomparável, murmurou:

- Guimarães, leva-me a São Paulo!

Guimarães recusou; mas a esposa insistiu, alegando que tinha imensa vontade de ver São Paulo. Como o marido continuasse a negar, dizendo-lhe que ia a negócios e não podia carregar família, além de ser um desarranjo, a mulher trocou de maneiras, e pôs nos olhos tal expressão de desconfiança que o fez recuar.

- Vamos todos, Guimarães; havemos de ir todos a São Paulo.

- Sim, podíamos ir... mas é que... por tão pouco tempo... cinco ou seis semanas, dous meses... Valerá a pena, Feliciana? Mas, vamos, se queres; os vapores são pouco cômodos.

Olhei para Estela, pedindo-lhe com o gesto que interviesse contra o desejo da mãe. Estela empalidecera e perdera a voz; foi o que me pareceu, mas a prova do contrário é que, passados alguns instantes, como ouvisse ao pai dizer que sim, que iriam a São Paulo, suspirou esta palavra cheia de resignação e melancolia:

- Outra vez o mar! Um dia ir-me-ei ao fundo, procurar a pérola da morte!

- Deixe de poesia, menina! - ralhou a mãe -. O mar até faz bem às pessoas.

As nossas despedidas foram o que são despedidas de namorados, ainda por ausências curtas de um ou dous meses. Na véspera da minha partida tivemos inspiração igual, compor uns versos em que chorássemos a dor da separação e ríssemos a alegria da volta. Ainda desta vez os versos dela eram melhores; mas, ou a tristeza ou outra cousa fez-lhe crer o contrário, e gastamos alguns minutos em provar, eu, a superioridade dos dela, ela, a dos meus. Não menos namorado que poeta, murmurei finalmente:

- Quaisquer que sejam eles, os melhores versos são as tuas lágrimas.

Estela não chorava; esta minha palavra fê-la chorar. Mordeu o beiço, levou o lenço aos olhos, e disse com um tom único, um tom que nunca mais esqueci:

- Já sei! É que os meus versos não prestam para nada, são próprios para o fogo; nem arte nem inspiração, nada, nada!

- Que dizes, Estela?

- Basta: compreendo. O senhor nunca me teve amor.

- Meu anjo!

- Nunca!

Não pude pegar-lhe na mão; correra à janela. Como eu ali fosse também, entrou novamente. Só depois de grande resistência consentiu em ouvir gabar-lhe os versos e explicar a preferência dada às lágrimas; era por serem dela. As lágrimas, disse-lhe eu, eram os próprios versos dela mudados em pérolas finas... Estela engoliu um sorriso vago, enxugou os olhos e releu para si os versos, depois alto, depois quis que eu os relesse também, e novamente os releu, até que o pai veio ter conosco.

- Doutor - disse-me ele -, e se fosse também conosco?

- A São Paulo?

- Sim.

- Iria, se pudesse. Já pensei nisso, mas os exames do fim do ano...

- Também são apenas dous meses, ou menos.

Embarcaram para Santos. Fui despedir-me a bordo, e, ao voltar para o meu sótão, comecei logo a escrever a primeira carta; no dia seguinte, remeti-a. Três dias depois tive a primeira carta de Estela, uma breve e triste carta em que falava mais do mar que de mim, mais de si que do mar, e mais da poesia que de nenhum dos três. "A musa é a consolação final de tudo." Compreendi que assim fosse, teria mostrado a carta à mãe, e não conviria escrever intimidades. Cuidei de ser mais discreto que na primeira. Assim se passaram as primeiras semanas. No fim das seis ainda me falava em vir, mas não veio. Passados dous meses, contei-lhe as minhas saudades. Não me respondeu; escrevi-lhe outra; recebi um bilhete em que me contava um baile do presidente da província, descrição longa e amorosa, as valsas, as quadrilhas, e no fim uns versos que compôs na seguinte manhã, com o pedido de os fazer imprimir em alguma folha, "e um pequeno juízo".

- Não me ama! - bradei desesperado -. Nunca esta criatura gostou de mim! Nem uma palavra de consolação ou de explicação! Bailes? Que são bailes?

E fui por aí adiante, com tal desvario, que falava às paredes, aos ares, e falaria ao diabo, se ali me aparecesse; ao menos, ele seria pessoa viva. As paredes ficaram surdas; os ares apenas repercutiram as minhas vozes. Entretanto, copiei os versos, pus-lhe algumas palavras de louvor, e levei-os ao Correio Mercantil, onde um amigo me fez o favor de os publicar na parte editorial. Foi um dos elementos da minha desgraça.

Os versos entraram por São Paulo, com os elogios do Correio Mercantil. Todos os leram, as pessoas das relações de Estela ficaram admirando esta moça que merecia tanto da imprensa da Corte. Era um grande talento, um gênio; um dos poetas da Faculdade de Direito chamou-lhe Safo. E ela subiu às nuvens, talvez acima.

Escasseando as cartas, resolvi ir a São Paulo; mas então o pai escreveu-me dizendo que iriam a Sorocaba e outros lugares, e só daí a dous ou três meses poderiam estar de volta. Estela escreveu-me um bilhetinho de três linhas, com um soneto, para o Correio Mercantil. Posto me não falasse em juízo algum da folha, e o meu desejo fosse estrangulá-la, não deixei de escrever quatro palavras de "louvor ao grande talento da nossa ilustre patrícia". Agradeceu-me com um bilhetinho, fiquei sem mais cartas. Onde estariam? Na casa comercial do pai é que me iam informando do itinerário da família, pelas cartas que recebiam dele.

Um dia, anunciaram-me ali que o Guimarães vinha à corte, mas só.

- Só!

- É o que ele diz.

- Mas a família...?

- A família parece que fica.

Veio só. Corri a vê-lo, recebeu-me com polidez, mas frio e triste, vexado, penalizado. Não me disse nada nos primeiros dias, mas uma notícia grave e um acontecimento certo e próximo não são cousas que se guardem por muito tempo: Estela ia casar. Casava em Sorocaba...

Não ouvi o resto. A noite, o mar, as ruas é que ouviram as minhas imprecações e lamentações, não sei quanto tempo. Assim pois, uma por outra, vim trocando as mulheres possíveis e perdendo-as sucessivamente. Aquela com que afinal me casei é que não substituiu nenhuma Sílvia, Margarida ou Estela; é uma senhora do Crato, meiga e amiga, robusta apesar de magra, é mãe de dous filhos que vou mandar para o Recife, um dia destes.


 

Um incêndio *

Que esta perna trouxe eu dali ferida.
Camões, Lusíadas, c. V, est. XXXIII.



Não inventei o que vou contar, nem o inventou o meu amigo Abel. Ele ouviu o fato com todas as circunstâncias, e um dia, em conversa, fez resumidamente a narração que me ficou de memória, e aqui vai tal qual. Não lhe acharás o pico, a alma própria que este Abel põe a tudo o que exprime, seja uma ideia dele, seja, como no caso, uma história de outro. Paciência; por mais que percas a respeito da forma, não perderás nada acerca da substância. A razão é que me não esqueceu o que importa saber, dizer e imprimir.

B... era um oficial da marinha inglesa, trinta a trinta e dois anos, alto, ruivo, um pouco cheio, nariz reto e pontudo, e os olhos dous pedaços de céu claro batidos de sol. Convalescia de uma perna quebrada. Já então andava (não ainda na rua) apoiado a uma muleta pequena. Andava na sala do hospital inglês, aqui no Rio, onde Abel o viu e lhe foi apresentado, quando ali ia visitar um amigo enfermo, também inglês e padre.

Padre, oficial de marinha e engenheiro (Abel é engenheiro) conversavam frequentemente de várias coisas deste e do outro mundo. Especialmente o oficial contava cenas de mar e de terra, lances de guerra e aventuras de paz, costumes diversos, uma infinidade de reminiscências que podiam ser dadas ao prelo e agradar. Foi o que lhe disse o padre um dia.

- Agradar não creio - respondeu ele modestamente.

- Afirmo-lhe que sim.

- Afirma demais. E daí pode ser que, não ficando inteiramente bom da perna, deixe a carreira das armas. Nesse caso, escreverei memórias e viagens para alguma das nossas revistas. Irão sem estilo, ou em estilo marítimo...

- Que importa uma perna? - interrompeu Abel. A Nelson faltava um braço.

- Não é a mesma coisa - redarguiu B... sorrindo -. Nelson, ainda sem braço, faria o que eu fiz no mês de abril, na cidade de Montevidéu. Estou eu certo de o fazer agora? Digo-lhe que não.

- Apostou alguma corrida? Mas a batalha de Trafalgar pode-se ganhar sem braço ou sem perna. Tudo é mandar, não acha?

A melancolia do gesto do oficial foi grande, e por muito tempo ele não conseguiu falar. Os olhos chegaram a perder um tanto a luz intensa que traziam, e ficaram pregados ao longe, em algum ponto que se não podia ver nem adivinhar. Depois voltou B... a si, sorriu, como quando dera a segunda resposta. Enfim, arrancou do peito a história que queria guardar, e foi ouvida pelos dois, repetida a mim por um deles e agora impressa, como anunciei a princípio.

Era um sábado de abril. B... chegara àquele porto e descera a terra, deu alguns passeios, bebeu cerveja, fumou e, à tarde, caminhou para o cais, onde o esperava o escaler de bordo. Ia a recordar lances de Inglaterra e quadros da China. Ao dobrar uma esquina, viu certo movimento no fim da outra rua, e, sempre curioso de aventuras, picou o passo a descobrir o que era. Quando ali chegou já a multidão era maior, as vozes, muitas e um rumor de carroças que chegavam de toda parte. Indagou em mau castelhano, e soube que era um incêndio.

Era um incêndio no segundo andar de uma casa; não se sabia se o primeiro também ardia. Polícia, autoridades, bombas iam começar seu ofício, sem grande ordem, é verdade, nem seria possível. O principal é que havia boa vontade. A gente curiosa e vizinha falava das moças - que seria das moças? Onde estariam as moças? Com efeito, o segundo andar da casa era uma oficina de costura, regida por uma francesa, que ensinava e fazia trabalhar a muitas raparigas da terra. Foi o que o oficial pôde entender no meio do tumulto.

Deteve-se para assistir ao serviço, e também recolher alguma cena ou costume com que divertisse os companheiros de bordo e, mais tarde, a família na Escócia. As palavras castelhanas iam-lhe bem ao ouvido, menos bem que as inglesas, é verdade, mas há só uma língua inglesa. O fogo crescia, comendo e apavorando, não que se visse tudo cá de fora, mas ao fundo da casa, no alto, surgiam flamas cercadas de fumo, que se espalhavam como se quisessem passar ao quarteirão inteiro.

B... viu episódios interessantes, que esqueceu logo, tal foi o grito de angústia e terror saído da boca de um homem que estava ao pé dele. Nunca mais lhe esqueceu tal grito; ainda agora parecia escutá-lo. Não teve tempo nem língua em que perguntasse ao desconhecido o que era. Nem foi preciso; este recuara, com a cabeça voltada para cima, os olhos na janela da casa e a mão trêmula, apontando... Outros seguiram a direção; o oficial de marinha fez o mesmo. Ali, no meio do fumo que rompia por uma das janelas, destacava-se do clarão, ao fundo, a figura de uma mulher. Não se podia distinguir bem, pela hora e pela distância, se o clarão vinha de outro compartimento que ardia, ou se era já o fogo que invadia a sala da frente.

A mulher parecia hesitar entre a morte pelo fogo e a morte pela queda. Qualquer delas seria horrível. Ora o fumo encobria toda a figura, ora esta reaparecia, como que inerte, dominando todas as demais partes da catástrofe. Os corações cá de baixo batiam com ânsia, mas os pés, atados ao chão pelo terror, não ousavam ir levá-los acima. Tal situação durou muito ou pouco, o oficial não pôde saber se dois segundos, se dois minutos. Verdadeiramente não soube nada. Quando deu acordo de si ouviu um clamor novo, que os jornais do dia seguinte disseram ser de protesto e de aplauso, a um tempo, ao vê-lo correr na direção da casa. A alma generosa do oficial não se conteve, rompeu a multidão e enfiou pelo corredor. Um soldado atravessou-se-lhe na frente, ele deitou o soldado ao chão e galgou os degraus da escada.

Já então sentia calor de fogo, e o fumo que descia era um grande obstáculo. Tinha que rompê-lo, respirá-lo, fechar os olhos. Não se lembrava como pôde fazer isso; lembrava-se que, a despeito das dificuldades, chegou ao segundo andar, voltou à esquerda, na direção de uma porta, empurrou-a, estava aberta; entrou na sala. Tudo aí era fumo, que ia saindo pelas janelas, e o fogo, vindo do gabinete contíguo, começava a devorar as cortinas da sala. Lá embaixo, fora, continuava o clamor. B... empurrou cadeiras, uma pequena mesa, até chegar à janela. O fumo rasgou-se de modo que ele pôde ver o busto da mulher... Vencera o perigo; cumpria vencer a morte.

- A mulher - disse ele ao terminar a aventura, e provavelmente sem as reticências que Abel metia neste ponto da narração -, a mulher era um manequim, o manequim de costureira, posto ali de costume ou no começo do incêndio, como quer que fosse, era um manequim.

A morte agora, não tendo mulher que levasse, parecia espreitá-lo a ele, salvador generoso. O oficial duvidou ainda um instante da verdade; o terror podia ter tirado à pessoa humana todos os movimentos, e o manequim seria acaso mulher. Foi-se chegando; não, não era mulher, era manequim; aqui estão as costas encarnadas e nuas, aqui estão os ombros sem braços, aqui está o pau em que toda a máquina assenta. Cumpria agora fugir à morte. B... voltou-se rápido; tudo era já fumo, a própria sala ardia. Então ele, com tal esforço que nunca soube o que fez, achou-se fora da sala, no patamar. Desceu os degraus a quatro e quatro.

No primeiro andar deu já com homens de trabalho empunhando tubos de extinção. Um deles quis prendê-lo, supondo ser ladrão que se aproveitasse do desastre para vir buscar valores, e chegou a pegá-lo pela gola; depressa reconheceu a farda e foi andando. Não tendo que fazer ali, embora o perigo fosse menor, o oficial cuidou de descer. Verdade é que há muita vez algum que se não espera. Transpondo a porta da sala para o corredor, quando a multidão ansiosa estava a esperá-lo, na rua, uma tábua, um ferro, o que quer que era caiu do alto e quebrou-lhe a perna...

- Quê...? - interrompeu Abel.

- Justamente - confirmou o oficial -. Não sei donde veio nem quis sabê-lo. Os jornais contaram a coisa, mas não li essa parte das notícias. Sei que logo depois vieram buscar-me dois soldados, por ordem do comandante de polícia.

Tratou-se a bordo e em viagem. Não continuou por falta de comodidades que só em terra podia ter. Desembarcando aqui, no Rio de Janeiro, foi para o hospital onde Abel o conheceu. O vaso de guerra esperava por ele. Contava partir em breves dias. Não perdia tempo; emprestavam-lhe o Times, e livros de história e de religião. Enfim, saiu para a Europa. Abel não se despediu dele. Mais tarde soube que, depois de alguma demora em Inglaterra, foi mandado a Calcutá, onde descansou da perna quebrada, e do desejo de salvar ninguém.


 

O escrivão Coimbra *

Aparentemente há poucos espetáculos tão melancólicos como um ancião comprando um bilhete de loteria. Bem considerado, é alegre; essa persistência em crer, quando tudo se ajusta ao descrer, mostra que a pessoa é ainda forte e moça. Que os dias passem e com eles os bilhetes brancos, pouco importa; o ancião estende os dedos para escolher o número que há de dar a sorte grande amanhã - ou depois -, um dia, enfim, porque todas as coisas podem falhar neste mundo, menos a sorte grande a quem compra um bilhete com fé.

Não era a fé que faltava ao escrivão Coimbra. Também não era a esperança. Uma coisa não vai sem outra. Não confundas a fé na Fortuna com a fé religiosa. Também tivera esta em anos verdes e maduros, chegando a fundar uma irmandade, a irmandade de São Bernardo, que era o santo de seu nome; mas aos cinquenta, por efeito do tempo ou de leituras, achou-se incrédulo. Não deixou logo a irmandade; a esposa pôde contê-lo no exercício do cargo de mesário e levava-o às festas do santo; ela, porém, morreu, e o viúvo rompeu de vez com o santo e o culto. Resignou o cargo da mesa e fez-se irmão remido para não tornar lá. Não buscou arrastar outros nem obstruir o caminho da oração; ele é que já não rezava por si nem por ninguém. Com amigos, se eram do mesmo estado de alma, confessava o mal que sentia da religião. Com familiares, gostava de dizer pilhérias sobre devotas e padres.

Aos sessenta anos já não cria em nada, fosse do céu ou da terra, exceto a loteria. A loteria sim, tinha toda a sua fé e esperança. Poucos bilhetes comprava a princípio, mas a idade e depois a solidão vieram apurando aquele costume e o levaram a não deixar passar loteria sem bilhete.

Nos primeiros tempos, não vindo a sorte grande, prometia não comprar mais bilhetes, e durante algumas loterias cumpria a promessa. Mas lá aparecia alguém que o convidava a ficar com um bonito número, comprava o número e esperava. Assim veio andando pelo tempo fora até chegar aquele em que loterias rimaram com dias, e passou a comprar seis bilhetes por semana; repousava aos domingos. O escrevente juramentado, um Amaral que ainda vive, foi o demônio tentador nos seus desfalecimentos. Tão depressa descobriu a devoção do escrivão, começou a animá-lo nela, contando-lhe lances de pessoas que tinham enriquecido de um momento para outro.

- Fulano foi assim, Sicrano assim - dizia-lhe Amaral expondo a aventura de cada um.

Coimbra ouvia e cria. Já agora cedia às mil maneiras de convidar a sorte, a que a superstição pode emprestar certeza, número de uns autos, soma de umas custas, um arranjo casual de algarismos, tudo era combinação para encomendar bilhetes, comprá-los e esperar. Na primeira loteria de cada ano comprava o número do ano; empregou este método desde 1884. Na última loteria de 1892 inventou outro, trocou os algarismos da direita para a esquerda e comprou o número 2981. Já então não cansava por duas razões fundamentais e uma acidental. Sabeis das primeiras, a necessidade e o costume, a última é que a Fortuna negaceava com gentileza. Nem todos os bilhetes saíam brancos. Às vezes (parecia de propósito) Coimbra dizia de um bilhete que era o último e não compraria outro se lhe saísse branco; corria a roda, tirava cinquenta mil-réis, ou cem, ou vinte, ou ainda o mesmo dinheiro. Quer dizer que também podia tirar a sorte grande; em todo caso, aquele dinheiro dava para comprar de graça alguns bilhetes. "Comprar de graça" era a sua própria expressão. Uma vez a sorte grande saiu dois números adiante do dele, 7377; o dele era 7375. O escrivão criou alma nova.

Assim viveu os últimos anos do Império e os primeiros da República, sem já crer em nenhum dos dois regimes. Não cria em nada. A própria justiça, em que era oficial, não tinha a sua fé; parecia-lhe uma instituição feita para conciliar ou perpetuar os desacordos humanos, mas por diversos e contrários caminhos, ora à direita, ora à esquerda. Não conhecendo as Ordenações do Reino, salvo de nome, nem as leis imperiais e republicanas, acreditava piamente que tanto valiam na boca de autores como de réus, isto é, que formavam um repositório de disposições avessas e cabidas a todas as situações e pretensões. Não lhe atribuas nenhum ceticismo elegante; não era dessa casta de espíritos que temperam a descrença nos homens e nas coisas com um sorriso fino e amigo. Não, a descrença era nele como uma capa esfarrapada.

Uma só vez saiu do Rio de Janeiro; foi para ir ao Espírito Santo à cata de uns diamantes que não achou. Houve quem dissesse que essa aventura é que lhe pegou o gosto e a fé na loteria; também não faltou quem sugerisse o contrário, que a fé na loteria é que lhe dera a vista antecipada dos diamantes. Uma e outra explicação é possível. Também é possível terceira explicação, alguma causa comum a diamantes e prêmios. A alma humana é tão sutil e complicada que traz confusão à vista nas suas operações exteriores. Fosse como fosse, só daquela vez saiu do Rio de Janeiro. O mais do tempo viveu nesta cidade, onde envelheceu e morreu. A irmandade de São Bernardo tomou a si dar-lhe cova e túmulo, não que lhe faltassem a ele meios disso, como se vai ver, mas por uma espécie de obrigação moral com o seu fundador.

Morreu no começo da presidência Campos Sales, em 1899, fins de abril. Vinha de assistir ao casamento do escrevente Amaral, na qualidade de testemunha, quando foi acometido de uma congestão, e antes da meia-noite era defunto. Os conselhos que se lhe acharam no testamento podem todos resumir-se nesta palavra: persistir. Amaral requereu traslado daquele documento para uso e guia do filho, que vai em cinco anos, e entrou para o colégio. Fê-lo com sinceridade, e não sem tristeza, porque a morte de Coimbra sempre lhe pareceu efeito de seu caiporismo; não dera tempo a nenhuma lembrança afetuosa do velho amigo, testemunha do casamento e provável compadre.

Antes do golpe que o levou, Coimbra não padecia nada, não tinha a menor lesão, apenas algum cansaço. Todos os seus órgãos funcionavam bem, e o mesmo cérebro, se nunca foi grande coisa, não era agora menos que dantes. Talvez a memória acusasse alguma debilidade, mas ele consolava-se do mal dizendo que "com a memória lhe saíram muitas coisas ruins da cabeça". No foro era benquisto e no cartório, respeitado. Em 1897, pelo São João, o escrevente Amaral insinuou-lhe a conveniência de descansar e propôs-se a ficar à testa do cartório para seguir "o exemplo fortificante do amigo". Coimbra recusou, agradecendo. Entretanto, não deixava de temer que viesse a fraquear e cair de todo, sem mais corpo nem alma que dar ao ofício. Já não saía do cartório, às tardes, sem um olhar de saudades prévias.

Chegou o Natal de 1898. Desde a primeira semana de dezembro foram postos à venda os bilhetes da grande loteria de quinhentos contos, chamada por alguns cambistas, nos anúncios, loteria-monstro. Coimbra comprou um. Parece que dessa vez não cedeu a nenhuma combinação de algarismos; escolheu o bilhete dentre os que lhe apresentaram no balcão. Em casa, guardou-o na gaveta da mesa e esperou.

- Desta vez, sim - disse ele no dia seguinte ao escrevente Amaral -, desta vez cesso de tentar fortuna; se não tirar nada, deixo de jogar na loteria.

Amaral ia aprovar a resolução, mas uma ideia contrária suspendeu a palavra antes que ela lhe caísse da boca, e ele trocou a afirmação por uma consulta. Por que deixar para sempre? Loteria é mulher, pode acabar cedendo um dia.

- Já não estou em idade de esperar - retrucou o escrivão.

- Esperança não tem idade - sentenciou Amaral, recordando uns versos que fizera outrora, e concluiu com este velho adágio: quem espera sempre alcança.

- Pois eu não esperarei e não alcançarei - teimou o escrivão -; este bilhete é o último.

Tendo afirmado a mesma coisa tantas vezes, era provável que ainda agora desmentisse a afirmação, e, malogrado no dia de Natal, voltaria à sorte no dia de Reis. Foi o que Amaral pensou e não insistiu em convencê-lo de um vício que estava no sangue. A verdade, porém, é que Coimbra era sincero. Tinha aquela tentação por última. Não pensou no caso de ser favorecido, como de outras vezes, com alguns cinquenta ou cem mil-réis, quantia mínima para os efeitos da ambição, mas bastante para convidá-lo a reincidir. Pôs a alma nos dois extremos: nada ou quinhentos contos. Se fosse nada, era o fim. Faria como fez com a irmandade e a religião; deitaria o hábito às urtigas, remia-se de freguês e iria ouvir a missa do Diabo.

Os dias começaram a passar, como eles costumam, com as suas vinte e quatro horas iguais umas às outras, na mesma ordem, com a mesma sucessão de luz e trevas, trabalho e repouso. A alma do escrivão aguardava o dia 24, véspera do Natal, quando devia correr a roda, e continuou os traslados, juntadas e conclusões dos seus autos. Convém dizer, em louvor deste homem, que nenhuma preocupação estranha lhe tirara o gosto à escrivania, por mais que preferisse a riqueza ao trabalho.

Só quando o dia 20 alvoreceu e pôs a menor distância à data fatídica é que a imagem dos quinhentos contos veio interpor-se de vez aos papéis do foro. Mas não foi só a maior proximidade que trouxe este efeito, foram as conversas na rua e no mesmo cartório acerca de sortes grandes, e, mais que conversas, a própria figura de um homem beneficiado com uma delas, cinco anos antes. Coimbra recebera um tal Guimarães, testamenteiro de um importador de sapatos, que ali foi assinar um termo. Enquanto se lavrava o termo, alguém que ia com ele perguntou-lhe se estava "habilitado para a loteria do Natal".

- Não - disse Guimarães.

- Também nem sempre há de ser feliz.

Coimbra não teve tempo de perguntar nada; o amigo do testamenteiro deu-lhe notícia de que este, em 1893, tirara duzentos contos. Coimbra fitou o testamenteiro cheio de espanto. Era ele, era o próprio, era alguém que, mediante uma pequena quantia e um bilhete numerado, entrara na posse de duzentos contos de réis. Coimbra olhou bem para o homem. Era um homem, um feliz.

- Duzentos contos? - disse ele para ouvir a confirmação do próprio.

- Duzentos contos - repetiu Guimarães -. Não foi por meu esforço nem desejo - explicou -, não costumava comprar, e daquela vez quase quebro a cabeça ao pequeno que me queria vender o bilhete; era um italiano. Guardate, signore, implorava ele metendo-me o bilhete à cara. Cansado de ralhar, entrei num corredor e comprei o bilhete. Três dias depois tinha o dinheiro na mão. Duzentos contos.

O escrivão não errou o termo porque nele já os dedos é que eram escrivães; realmente, não pensou em nada mais que decorar esse homem, reproduzi-lo na memória, escrutá-lo, bradar-lhe que também tinha bilhete para os quinhentos contos do dia 24 e exigir-lhe o segredo de os tirar. Guimarães assinou o termo e saiu; Coimbra teve ímpeto de ir atrás dele, apalpá-lo, ver se era mesmo gente, se era carne, se era sangue... Então era verdade? Havia prêmios? Tiravam-se prêmios grandes? E a paz com que aquele sujeito contava o lance da compra! Também ele seria assim, se lhe saíssem os duzentos contos, quanto mais os quinhentos!

Essas frases cortadas que aí ficam dizem vagamente a confusão das ideias do escrivão. Até agora trazia em si a fé, mas já reduzida a costume só, um costume longo e forte, sem assombros nem sobressaltos. Agora via um homem que passara de nada a duzentos contos com um simples gesto de fastio. Que ele nem sequer tinha o gosto e a comichão da loteria; ao contrário, quis quebrar a cabeça da Fortuna; ela, porém, com olhos de namorada, fê-lo trocar a impaciência em condescendência, pagar-lhe cinco ou dez mil-réis, e três dias depois... Coimbra fez todo o mais trabalho do dia automaticamente.

De tarde, caminhando para casa, foi-se-lhe metendo na alma a persuasão dos quinhentos contos. Era mais que os duzentos do outro, mas também ele merecia mais, teimando como vinha de anos estirados, desertos e brancos, mal borrifados de algumas centenas, raras, de mil-réis. Tinha maior direito que o outro, talvez maior que ninguém. Jantou, foi à casa pegada, onde nada contou pelo receio de não tirar coisa nenhuma e rirem-se dele. Dormiu e sonhou com o bilhete e o prêmio; foi o próprio cambista que lhe deu a nova da felicidade. Não se lembrava bem, de manhã, se o cambista o procurou ou se ele procurou o cambista; lembrava-se bem das notas, eram parece que verdes, grandes e frescas. Ainda apalpou as mãos ao acordar; pura ilusão!

Ilusão embora, deixara-lhe nas palmas a maciez do sonho, o fresco, o verde, o avultado dos contos. Ao passar pelo Banco da República pensou que poderia levar ali o dinheiro, antes de o empregar em casas, títulos e outros bens. Esse dia 21 foi pior, em ânsia, que o dia 20. Coimbra estava tão nervoso que achou o trabalho demasiado, quando de ordinário ficava alegre com a concorrência de papéis. Melhorou um pouco, à tarde; mas, ao sair, entrou a ouvir meninos que vendiam bilhetes de loteria, e esta linguagem, gritada da grande banca pública, novamente lhe fez agitar a alma.

Ao passar pela igreja onde era venerada a imagem de São Bernardo, cuja irmandade ele fundou, Coimbra deitou olhos saudosos ao passado. Tempos em que ele cria! Outrora faria uma promessa ao santo; agora...

- Infelizmente não! - suspirou consigo.

Sacudiu a cabeça e guiou para casa. Não jantou sem que a imagem do santo viesse espreitá-lo duas ou três vezes, com o olhar seráfico e o gesto de imortal bem-aventurança. Ao pobre escrivão vinha agora mais esta mágoa, este outro deserto árido e maior. Não cria; faltava-lhe a doce fé religiosa, dizia consigo. Saiu a passeio, à noite e, para encurtar caminho, enfiou por um beco. Deixando o beco, pareceu-lhe que alguém chamava por ele, voltou a cabeça e viu a pessoa do santo, agora mais celeste; já não era a imagem de madeira, era a pessoa, como digo, a pessoa viva do grande doutor cristão. A ilusão foi tão completa que lhe pareceu ver o santo estender-lhe as mãos, e nelas, as notas do sonho, aquelas notas largas e frescas.

Imagina essa noite de 21 e a manhã de 22. Não chegou ao cartório sem passar pela igreja da irmandade e entrar outra vez nela. A razão que deu a si mesmo foi saber se a gente local trataria a sua instituição com o zelo do princípio. Achou lá o sacristão, um velho zeloso que veio para ele com a alma nos olhos, exclamando:

- Vossa Senhoria por aqui!

- Eu mesmo, é verdade. Passei, lembrou-me saber como é aqui tratado o meu hóspede.

- Que hóspede? - perguntou o sacristão sem entender a linguagem figurada.

- O meu velho São Bernardo.

- Ah! São Bernardo! Como há de ser tratado um santo milagroso como ele é? Vossa Senhoria veio à festa deste ano?

- Não pude.

- Pois esteve muito bonita. Houve muitas esmolas e grande concorrência. A mesa foi reeleita, sabe?

Coimbra não sabia, mas disse que sim, e sinceramente achou que devia sabê-lo; chamou-se descuidado, relaxado, e voltou para a imagem olhos que supôs contritos e pode ser que o fossem. Ao sacristão pareceram devotos. Também este elevou os seus à imagem e fez a reverência habitual, inclinando meio corpo e dobrando a perna. Coimbra não foi tão extenso, mas imitou o gesto.

- A escola vai bem, sabe? - disse o sacristão.

- A escola? Ah! Sim. Ainda existe?

- Se existe? Tem setenta e nove alunos.

Tratava-se de uma escola que, ainda em tempo da esposa do escrivão, a irmandade fundara com o nome do santo, a escola de São Bernardo. O desapego religioso do escrivão chegara ao ponto de não acompanhar a prosperidade do estabelecimento, quase esquecê-lo de todo. Ouvindo a notícia, ficou pasmado. No tempo dele não houve mais de uma dúzia de alunos, agora eram setenta e nove. Por algumas perguntas sobre a administração, soube que a irmandade pagava a um diretor e três professores. No fim do ano ia haver a distribuição dos prêmios, grande festa a que esperavam trazer o arcebispo.

Quando saiu da igreja, trazia Coimbra não sei que ressurreições vagas e cinzentas. Propriamente não tinham cor, mas esta expressão serve a indicar uma feição nem viva, como dantes, nem totalmente morta. O coração não é só berço e túmulo, é também hospital. Guarda algum doente, que um dia, sem saber como, convalesce do mal, sacode a paralisia e dá um salto em pé. No coração de Coimbra o enfermo não deu salto, entrou a mover os dedos e os lábios, com tais sinais de vida que pareciam chamar o escrivão e dizer-lhe coisas de outro tempo.

- O último! Quinhentos contos! - bradavam os meninos, quando ele ia a entrar no cartório. - Quinhentos contos! O último!

Estas vozes entraram com ele e repetiram-se várias vezes durante o dia, ou da boca de outros vendedores ou dos ouvidos dele mesmo. Quando voltou para casa, passou novamente pela igreja, mas não entrou; um diabo ou o que quer que era desviou o gesto que ele começou a fazer.

Não foi menos inquieto o dia 23. Coimbra lembrou-se de passar pela escola de São Bernardo; já não era na casa antiga; estava em outra, uma boa casa assobradada, de sete janelas, portão de ferro ao lado e jardim. Como é que ele fora um dos primeiros autores de obra tão conspícua? Passou duas vezes por ela, chegou a querer entrar, mas não saberia que dissesse ao diretor e temeu o riso dos meninos. Foi para o cartório e, de caminho, mil recordações lhe restituíam o tempo em que aprendia a ler. Que ele também andou na escola, e evitou muita palmatoada com promessas de orações a santos. Um dia, em casa, ameaçado de apanhar por haver tirado ao pai um doce, aliás indigesto, prometeu uma vela de cera a Nossa Senhora. A mãe pediu por ele, e alcançou perdoá-lo; ele pediu à mãe o preço da vela e cumpriu a promessa. Reminiscências velhas e amigas que vinham temperar o árido preparo dos papéis. Ao mesmo São Bernardo fizera mais de uma promessa, quando era irmão efetivo e mesário, e cumpriu-as todas. Onde iam tais tempos?

Enfim, surdiu a manhã de 24 de dezembro. A roda tinha de correr ao meio-dia. Coimbra acordou mais cedo que de costume, mal começava a clarear. Conquanto trouxesse de cor o número do bilhete, lembrou-se de o escrever na folha da carteira para havê-lo bem fixo, e no caso de tirar a sorte grande... Esta idéia fê-lo estremecer. Uma derradeira esperança (que o homem de fé nunca perde) lhe perguntou sem palavras: que é que lhe impedia tirar os quinhentos contos? Quinhentos contos! Tais coisas viu neste algarismo que fechou os olhos deslumbrados. O ar, como um eco, repetiu: quinhentos contos! E as mãos apalparam a mesma quantia.

De caminho, foi à igreja, que achou aberta e deserta. Não, não estava deserta. Uma preta velha, ajoelhada diante do altar de São Bernardo, com um rosário na mão, parecia pedir-lhe alguma coisa, se não é que lhe pagava em orações o beneficio já recebido. Coimbra viu a postura e o gesto. Advertiu que ele era o autor daquela consolação da devota e olhou também para a imagem. Era a mesma do seu tempo. A preta acabou beijando a cruz do rosário, persignou-se, levantou-se e saiu.

Ia a sair também, quando duas figuras lhe passaram pelo cérebro: a sorte grande, naturalmente, e a escola. Atrás delas veio uma sugestão, depois, um cálculo. Este cálculo, por mais que digam do escrivão que ele amava o dinheiro (e amava), foi desinteressado; era dar de si muita coisa, contribuir para elevar mais e mais a escola, que era também obra sua. Prometeu dar cem contos de réis para o ensino, para a escola, escola de São Bernardo, se tirasse a sorte grande. Não fez a promessa nominalmente, mas por estas palavras sem sobrescrito, e todavia sinceras: "Prometo dar cem contos de réis à escola de São Bernardo, se tirar a sorte grande". Já na rua, considerou bem que não perdia nada se não tirasse a sorte, e ganharia quatrocentos contos, se a tirasse. Picou o passo e ainda uma vez penetrou no cartório, onde buscou enterrar-se no trabalho.

Não se contam as agonias daquele dia 24 de dezembro de 1898. Imagine-as quem já esperou quinhentos contos de réis. Nem por isso deixou de receber e contar as quantias que lhe eram devidas por atos judiciais. Parece que entre onze horas e meio-dia, depois de uma autuação e antes de uma conclusão, repetiu a promessa de cem contos à escola: "Prometo dar, etc." Bateu meio-dia e o coração do Coimbra não bateu menos, com a diferença que as doze pancadas do relógio de São Francisco de Paula foram o que elas são desde que se inventaram relógios, uma ação certa, pausada e acabada, e as do coração daquele homem foram precipitadas, convulsas, desiguais, sem acabar nunca. Quando ele ouviu a última de São Francisco, não se pôde ter que não pensasse mais vivo na roda ou o que quer que era que faria sair os números e os prêmios da loteria. Era agora... Teve ideia de ir dali saber notícias, mas recuou. Mal se concebe tanta impaciência em jogador tão velho. Parece que estava adivinhando o que lhe ia acontecer.

Desconfias o que lhe aconteceu? Às quatro horas e meia, acabado o trabalho, saiu com a alma nas pernas e correu à primeira casa de loterias. Lá estavam, escritos a giz em tábua preta, o número do bilhete dele e os quinhentos contos. A alma, se ele a tinha nas pernas, era de chumbo, porque elas não andaram mais, nem a luz lhe tornou aos olhos senão alguns minutos depois. Restituído a si, consultou a carteira, era o número exato. Ainda assim, podia ter-se enganado, ao copiá-lo. Voou num tílburi a casa; não se enganara, era o número dele.

Tudo se cumpriu com lealdade. Cinco dias depois, a mesa da irmandade recebia os cem contos de réis para a escola de São Bernardo e expedia um oficio de agradecimento ao fundador das duas instituições, entregue a este por todos os membros da mesa em comissão.

No fim de abril, casara o escrevente Amaral, servindo-lhe Coimbra de testemunha, e morrendo na volta, como ficou dito atrás. O enterro que a irmandade lhe fez e o túmulo que lhe mandou levantar no cemitério de São Francisco Xavier corresponderam aos benefícios que lhe devia. A escola tem hoje mais de cem alunos e os cem contos dados pelo escrivão receberam a denominação de patrimônio Coimbra.